TAVARES, Ildásio @ Nossos Colonizadores Africanos


INSTRODUÇÃO

Em Reflexões sobre o racismo, Sartre ressaltava o fato de que os negros tinham-se mostrado capazes de expressar sua problemática existencial em poesia, enquanto os operários ainda não tinham correspondido ao mesmo desafio. Lamentava, frisando que somente os que sofrem na carne um problema podem expressar com os devidos matizes os seus sentimentos.

O mais seria paternalista e falso, portanto, ou, na melhor das hipóteses, diluído, por não revelar uma vivência pessoal do autor. Essa posição serve para caracterizar as coisas nos estudos literários por um prisma redutivo.

Literatura negra seria apenas feita por negros. A literatura feita por brancos sobre negros seria descartada, mesmo que fosse pungente e forte. Sectarismo à parte, uma restrição como essa seria operacional em alguns sentidos. Primeiro, evitaria que certos escritores de pouca monta e caráter pongassem no movimento negro para haurir prestígio por alugarem a pena a uma causa simpática, esses haveriam de, no passado, terem-se empenhado em
outras searas que lhe tivessem rendido polpudos dividendos de glória – há os que até fizeram poemas em louvor à Transamazônica.

Agora, no Brasil, está na moda o negro, dá Ibope e celebrização.

A temática negra não é mais apenas assunto para a folclorização; campo reles de pesquisa barata que só
nossos colonizadores.

Agora a coisa está boa. Surgem os negristas, impavidamente mais negros que os próprios negros; astuciosamente ensinando os negros a serem melhores negros; definindo-lhes uma ideologia retintamente negra – como estão aí os peagadéticos, simpaticíssimos, mascando sorrisos como chicletes (sem bananas) e sendo recepcionados pelos colunáveis, já adivinharam, os brazilianistas, esses que vieram para nos ensinar nossa história; e porque tudo deu no que está aí. Sem eles, que seríamos? Apenas “spics”, inexoravelmente “spics”. Se hoje continuamos “spics”, sabemos também que o somos, e que tudo que somos devemos aos infatigáveis e altruístas brazilianistas que vieram para cá nos ensinar a jogar pingue-pongue, para nos fazer o grande favor de nos vender raquetes, além de nos definir, nos
brindar com a mais perfeita sabatina de autoconhecimento, pois sem os brazilianistas jamais seríamos brasileiros, ou será que inverti as coisas?

Os negristas não são muito diferentes. Impõem-se, frequentemente, por um extremado radicalismo, conquistando a confiança dos negros inapelavalmente, vez que conseguem defender os negros de seus figadais inimigos brancos (menos eles próprios) muito melhor que os negros mesmos. Desta forma, conseguem também convencer os negros de que estes são uma minoria e como tal devem lutar, quando todos sabem que, aqui no Brasil e mormente na Bahia, os negros são a mais estúrdia maioria, e é nessa condição que devem agir, lutar e reivindicar,
nossos colonizadores vítimas maiores da injustiça social que nessa terra grassa desde que foram alçadas como presa aos olhos europeus.

Dividir para conquistar. Isso é tão velho. Agrupando os negros seletivamente pela cor, os negristas estão seccionando o tecido social, exaurindo a força e capacidade de mobilização das massas oprimidas do Brasil; distanciando os pretos de seus verdadeiros irmãos – a que estão muito mais atados pelo destino à fatalidade sócio-econômica do que pela coloração da pele. Cria-se também um falso elitismo que eleva à superioridade os retintos, os “tintas fortes”, e os segrega da maioria mestiça. Conheçam-se de pele escura e assim se mobilizem até. Mas lutem e reivindiquem dentro de suas classes, de acordo com a problemática de cada uma delas, pois essa é a única solução.

O arbítrio só faz exacerbar os preconceitos, a intolerância, a discriminação. A luta pela Democracia Total é de todos. Nela, seguramente, irão desaparecer essas fronteiras ridículas. Vejo com tanta alegria tremular as novas bandeiras de todos as cores no céu azul da Bahia. Vejo o raiar de um novo tempo.

E vos incito a pensar, negros da Bahia. Vos incito a toda a gama do Memorar – ou não é Memória a rainha das deusas? Vale, pois, co-memorar, já o disse e repito cem vezes, pois quer dizer lembrar juntos. A reflexão será mais densa; o vetor irá e voltará com mais empenho; a recolha será mais prestimosa se nos unirmos no processo de reflexão – aqui, no útero do negrismo brasileiro, tanto como na Serra da Barriga – berço do mais belo sonho. Co-memorar, re-memorar, nem que seja para deixar cair mais uma lágrima nesse chão brasileiro já delas tão aljofrado. Oblívio não. O manto do esquecimento vem sempre na mão de um deus cruel e cínico. Vem secar a ferida para que se possa outras abrir.

Portanto, sejais, negros que ora me escutam, cada vez mais donos de si mesmos. Ocupai vossos espaços. Poetai vossa poesia. Prosai vossa prosa. Pesquisai vossas pesquisas. Vós, negro brasileiro, já não sois mais apenas um bicho do mato, um chofer de fogão, uma besta de carga. Sois membros atuantes de uma sociedade que se quer pluralista e democrática. Ninguém melhor do que o negro poderia aquilatar a sua sorte. Ninguém melhor do que o negro sabe o que o negro sente. O que o negro quer. Ninguém melhor do que o negro saberá escrever sobre o negro; dissecar o sofrimento do negro. Não permitais que aventureiros lancem mão de vossos espaços; manipulem vossas lideranças. Reflitais sobre esses séculos de opressão. Vereis então porque vossa sorte ainda não melhorou. Porque não pudeste ascender pelo único veículo de que dispuseste – o trabalho.

Sabereis então, melhor que qualquer negrista, a verdade meridiana da exploração do homem onde o negro foi colocado um dia na base da pirâmide e não deixaram que ele cumprisse a escalada. O negro precisa ser devolvido ao negro. O Brasil precisa ser devolvido ao Brasil. Precisamos comemorar nossas datas certas. Precisamos celebrar nossos verdadeiros heróis e um dos maiores deles é, sem duvida, Zumbi dos Palmares, mártir da liberdade como foi Tiradentes, como foi Joana Angélica, como foram Padre Miguelinho e Frei Caneca, como foram Lamarca, Vladimir Herzog, Stuart Angel e esse ilustre baiano Carlos Marighela, todos mártires que sacrificaram sua vida pela liberdade do povo brasileiro, para que pudéssemos ter orgulho de nascer no Brasil.

Esses é que são nossos genuínos santos. A eles minha saudação nessa data magna do negrismo brasileiro: 300 anos de Zumbi.

(TAVARES, Ildásio. Nossos Colonizadores Africanos, p. 15-19)

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  • 25/02/2019 Create Date
  • 28/02/2019 Last Updated

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