De onde viemos? Qual é a nossa estória?

Qual é a sua estória? De onde você vem e para onde você vai?

Essa semana tive a oportunidade de ter um encontro com o passado que nem sempre conhecemos. Fui com amigos e minha esposa fazer o caminho da ‘Pequena África’ no centro do Rio de Janeiro, caminho este que abriga a famosa Pedra do Sal, Jardim Suspenso do Valongo, Cemitério dos Pretos Novos, Cais do Valongo (considerado agora patrimônio da humanidade, onde chegavam os Tumbeiros trazendo os africanos em viagens desumanas, mortais) entre outros. Chama muito a atenção a situação de abandono do Cemitério dos Pretos Novos, que era o local onde eram enterrados os viajantes forçados que não resistiam à tenebrosa viagem. O IPN (Instituto de pesquisas e memória dos Pretos Novos) luta sem apoio governamental para manter o trabalho importante para a questão da nossa identidade e apenas a ajuda dos visitantes mantém o equipamento.

Eu nunca conheci meus avôs, apenas minhas avós. A mãe do meu pai era bem de idade quando eu era criança e não tivemos muito tempo para conversas mais profundamente sobre de onde viria minha família. Meus pais também não possuíam tal entendimento. Isso foi me sufocando desde jovem e apenas um tempo mais tarde minha avó materna conversou comigo que teria vindo para o Rio de Janeiro correndo da situação complicada nas Minas Gerais, terra de seu nascimento. Nunca entendi o “Gonçalves Pacheco” do meu nome, minha avó era ‘de Jesus’, a outra era ‘Rodrigues’, enfim, um enorme quebra cabeça.

Como a maioria dos negros brasileiros o que me vem à cabeça é que “Eu sou da África!”

Mas de onde? Não faz sentido falar de país, e sim de etnia, povo, tribo. Qual delas seria o berço dos meus antepassados que foram escravizados e perderam seus nomes originais, religiões e cultura ao passarem pelos famosos e tristes “Portais do esquecimento“? Só no Brasil foram 4,9 milhões de africanos (a maior migração forçada vista no mundo) que tiveram o “rebatismo” com nomes católicos ocidentais, nomes como o “Jesus” de minha avó ou, talvez, Gonçalves de alguma família “dona” de escravos no Brasil.

Tive acesso ao documentário “Brasil: Dna África” que foi produzido com a intenção de buscar as raízes dos afrodescendentes brasileiros e reconstruir, ou devolver a identidade de cada um de nós. É muito interessante ver um trabalho com o African Ancestry, laboratório em Washington que tem em suas bases de dados mais de 200 etnias africanas e faz a comparação com cada DNA analisado. A organização norte americana que faz o levantamento caso a caso de 150 brasileiros selecionados no projeto e descobre através da ciência a provável etnia à qual cada um deles pertencia pela linhagem materna e paterna. Recomendo muito a todos os leitores que assim como eu tem tal curiosidade.

Conhecer nossas estórias, saber de onde viemos e para onde estamos querendo ir pavimenta o caminho para o nosso futuro. Eu que toda a semana gosto de divulgar aqui estórias individuais vim nesse texto provocar a reflexão coletiva, principalmente do povo da Diáspora africana pelas Américas. Que tal buscarmos esse caminho?

Sobre Cleber Gonçalves

Cleber Gonçalves é geógrafo, professor no CIEP 172.

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