Autor: Cleber Gonçalves

  • A estória de um jovem periférico num longínquo verão

    A estória de um jovem periférico num longínquo verão

    Goiaba estava na praia. Era 1988 e o litoral do Rio de Janeiro arretado de felicidade com o que havia acontecido no ano anterior se agitava cada vez que a possibilidade de um novo “carregamento” pudesse chegar á nossa costa litorânea, espraiando o sorriso na massa ensandecida pelo ocorrido.

    A história do nosso herói se passa nesse pedaço sagrado do carioca. “Goiaba” era um nome ligado à geografia fluminense. Eu explico. Pelo menos a metade explico. Quem nasce do lado de lá da Poça D’água recebe dos cariocas o singelo apelido de “Papa goiaba”. A etimologia da palavra eu não sei explicar, até porque a única página do wikipédia que tem o termo foi sacaneada por algum intelectual de plantão que certamente odeia aquele lado de lá. Ou foi traído pela mulher mesmo!

    O sonho de Goiaba era morar em Niterói. Continuaria a ser Papa Goiaba, mas em Nikiti City teria um “status” perante aos goiabas gonçalenses, considerados os primos pobres da história. Naquele verão de 1988 pegou 3 ônibus, todos lotados, sendo o terceiro o antigo 996, porque sabia que este o deixaria “perto” da praia.

    Ao passar em Botafogo perguntou se ali era Copa. O trocador disse que não, Copa ficava distante. O fez ir até a Gávea e explicou: O senhor desce aqui, cruza a Lagoa e vai estar próximo à Ipanema ou Leblon, não sei ao certo, mas lá você pergunta como rumar pra Copa. Copa, segundo havia escutado no noticiário, ficava numa posição privilegiada pelo swell para que a desejada “carga” aportasse.

    E lá foi Goiaba, de mochila, esperando encontrar o seu ouro tão sonhado! Andou pra cacete. Chegou à praia por volta das 15 horas. Havia deixado à casa 6 da matina! Houve um pouco de felicidade com a expectativa.

    Houve felicidade também quando ao chegar a areia viu a enorme quantidade de gente bonita e feliz que estava ao seu redor. Certamente não tinha ninguém de mau humor, ninguém que precisasse pegar engarrafamento na ponte às cinco da tarde, um sucesso.

    Começou então a vigiar o mar. Sim, dali poderia surgir sua carta de alforria. Goiaba levou binóculos para a praia, a observação era fundamental. Como olheiro na favela tinha uma certa prática, e o sonho de ter seu negócio próprio começou quando no ano anterior àquele “carregamento” divino quebrou as vendas na favela, desempregando o pobre sortudo Goiaba, que não teve tempo de virar estatística, que sonhava sim, ser um homem de negócios bem sucedido. Duro, sem expectativa, mas com informação, ele pegou a merreca da passagem com a avó e migrou, prometendo à velha retornar com vitória, com novas perspectivas. Partiu para a missão.

    A hora passava, ficou desmotivado. O sol já se escondia quando a sorte grande bateu a sua porta. Com os córneos pegando fogo de tanto estar no sol observando, numa hora em que a praia já estava vazia, Goiaba percebeu no mar um brilho. E esse era chamativo, dava esperança. O cara entrou na água, que naquele momento estava revolta pelo swell que chegava aos poucos, perdeu o calção na arrebentação mas continuou firme no propósito! Nadou e nadou, sem concorrentes, apenas com o perigo do afogamento, mas absoluto. Sua surpresa maior ao se aproximar do objeto foi notar que não havia apenas uma lata do carregamento, mas cinco! Isso mesmo meus amigos, o cara tinha acertado na loteria! Faltou braço pra levar aquilo até a praia. Foi tocando o seu lote até sair do mar e acomodar tudo na mochila que havia deixado na areia. Quase faltou mochila também, mas o nosso herói deu um jeito de acomodar tudo, sem causar suspeitas em ninguém, pois a praia já estava vazia as dez da noite.

    Migrou novamente em direção ás terras de Sir Ararigbóia! Sem engarrafamento! Pensava no “status” adquirido! O mundo estava aos seus pés!!! Mulheres, farra, noitadas, morar em Niterói! Era o ápice! Sonhou, dormiu bem pra caramba, beijou o travesseiro pensando serem modelos internacionais! As mais lindas. O cara tinha certeza que elas iriam até Niterói, seu novo lar! Mas na manhã seguinte o sonho de Goiabada desmoronou. Ao abrir as latas, constatou que era pó!

    Um japonês pescador tinha ficado puto porque a tripulação de sua traineira não dormia a dias e ele que era o único com mulher a bordo, pois era o capitão, não conseguia chegar junto da patroa que não aceitava fazer amor com ele se houvesse alguém acordado no convés. Mesmo com pinto pequeno o japonês fodeu o Goiaba e seus sonhos! E eu acho que a mulher dele também! Ao invés do “Solana star” o Goiaba encontrou o “Harakiri”. Sacanagem! Sonho de pobre é fogo!

    Goiaba com café decepcionou-se!!!! Não bebe a iguaria até hoje!

  • A estória de Adriana Rieger

    A estória de Adriana Rieger

    Hoje, no Rio de Janeiro, 2,5 milhões de jovens estão fora da escola. Onde estão esses jovens? Fui conversar com Adriana Cavalcanti Rieger, formada em Serviço Social pela UFF e graduada em Letras (Português-Alemão) pela UFRJ, especializada em Gênero e Sexualidade pela UERJ e atuante na rede estadual de Educação do Rio de Janeiro desde abril de 2008, trabalhando atualmente no sistema prisional do Estado.

    Adriana respondeu perguntas cruciais e difíceis no Sistema Prisional nesse tempo de encarceramento em massa e extermínio da população jovem, principalmente preta, no país. O resultado você confere agora.

    Cleber: Conte sua estória no sistema.

    Adriana: Entrar numa cadeia não é para qualquer um, ainda mais sendo mulher, mas uma coisa que nunca temi foi trabalhar numa instituição como esta. Primeiro pela minha formação em Assistente Social, segundo porque queria muito experimentar uma nova situação de trabalho tão desafiadora. No sistema prisional não trabalho como assistente social, mas sim como professora de português. Já trabalhei no Degase (instituição sócio educativa prisional para jovens de 15 até 17 anos), também já passei por duas cadeias masculinas, Bangu 4, Bangu 9 e atualmente trabalho no Complexo de Bangu.⁠⁠⁠⁠ Durante esse tempo vivi e vivo muitas situações, escuto e convivo diretamente com os presos em regime fechado. Muitas vezes a aula mesmo de língua portuguesa não acontece, mas sim a conversa e a escuta desses jovens e adultos. São muitas histórias e situações. Ver os jovens num sistema prisional é muito doloroso, principalmente os mais novos que estão cumprindo pena no Degase. As histórias de vida desses meninos são de muito abandono afetivo, sem referências de acreditar num futuro qualquer. O que eles vivem desde que nascem é a pobreza, o descaso do governo, a falta de referências e o pior: a desesperança.

    Hoje no Rio de Janeiro 2,5 milhões de jovens fora da escola. Onde eles estão?

    Boa parte passando pelas cadeias, cumprindo suas penas da pior forma possível e saindo dessas instituições piores do que entraram, isso muitas das vezes, também acontece a reincidência de alguns e outros que acabam voltando para o crime e morrendo nas comunidades ou no asfalto. No Degase esses jovens são jogados nas celas e misturados muitas vezes com facções rivais, o que ocasiona mais conflitos. Esses jovens não tem a chamada visita íntima, são muito jovens sim, mas a maioria já é pai e tem suas namoradas ou esposas. E sabe o que mais impressiona? É a inteligência desses meninos que não foi aproveitada para seguir outros caminhos. Muitos se arrependem de não ter frequentado ou dado a devida importância à escola, porque a necessidade os chamavam para o crime. Além disso há o deslumbramento pelo poder, o poder de segurar uma arma, o poder e o respeito que produzem nas comunidades, principalmente com as meninas, a adrenalina de estar em conflitos com a polícia, de roubar, usar drogas, etc. Isso tudo pelo simples fato desses meninos não serem reconhecidos pela própria sociedade e pelo Estado. Eles estão jogados na margem, não há de fato políticas públicas para manter esses jovens nas escolas, uma vez que muitas vezes a escola não é atrativa, além do preconceito que sofrem dentro das escolas por direções e professores. A violência simbólica que eles vivem nesses espaços faz com que eles desistam e pensem que a vida no crime é melhor, o reconhecimento é melhor. Esses meninos é que deveriam receber maior atenção nas escolas, claro que a mudança parte deles, mas tentar trabalhar de outras formas seria um pouco mais digno e humano para um novo resgate, uma nova esperança de vida e a volta de crer na esperança de um futuro, porque nem isso eles sabem pensar ao certo. Portanto, os meninos que passam pelo Degase, às vezes ficam um mês e são libertos, às vezes voltam, não voltam, ficam um, dois ou três anos que é o limite; enfim, nessa passagem pela escola eles aprendem e começam a entender suas realidades, alguns parecem já perdidos para o crime, poucos acreditam que podem mudar e viver outra vida mais digna. Outros acreditam apenas que a vida deles é curta e que mais cedo ou mais tarde vão morrer mesmo.⁠⁠⁠⁠

    Como mudar essa realidade?

    Minha luta e de outros profissionais que querem mudar a vida desses meninos ou fazê-los acreditar numa condição de vida melhor apesar de todas as suas dificuldades para viver nessa nossa sociedade. É um caminho difícil, mas não impossível. Dentro desse quadro já tivemos sucesso e isso é muito gratificante. É muito bom sabermos de que alguns voltaram para escola, estão trabalhando, mesmo vendendo balas nos sinais de trânsito, se dedicando mais a família, ouvindo mais seus pais, enfim, nem tudo está perdido quando se trabalha com fé, fé na mudança desses meninos, mesmo apenas dentro das escolas prisionais, único lugar de fato de ressocialização para eles.⁠⁠⁠⁠

    É possível haver ressocialização?

    O único lugar onde tanto os jovens e adultos podem buscar e entender sobre a ressocialização é dentro das escolas que funcionam dentro dos presídios. Em algumas cadeias não há oficinas de trabalho, não há lazer, não há mais nada além da escola. As parcerias com instituições profissionalizantes não existem em todos os complexos, ou seja, em todas as cadeias. Um dado alarmante e preocupante: muitos que passam pelo Degase, após completar 18 anos já vão direto para as cadeias adultas. No Complexo de Bangu convivo com muitos meninos jovens também, a maioria enquadrados no crime de tráfico de drogas. Em Complexo de Bangu as celas estão superlotadas, não há atividades extras, a assistência á saúde é muito deficiente, faltam remédios, faltam auxílios para os que mais precisam, além do ambiente insalubre que vivem. Nessas cadeias o índice de tuberculose é alarmante, além da contaminação pelo HIV. Dados do Infopen de 2014 indicam que a incidência de contaminação por HIV e tuberculose chega a ser 60 vezes superior á média nacional, e a incidência de mortes intencionais ( suicídios e homicídios), 6 vezes maior . Em consequência da precariedade que se vê é se vive nesses locais houve o fortalecimento de atuações de facções criminosas dentro do próprio presídio. Além disso a qualidade da água é insalubre, há ratos, celas lotadas, truculência dos agentes ( muitos acreditam que não há esperança para os internos e por eles quem está ali não deveria ter direito algum, muito menos a ida a escola). Nós professores também sofremos com piadinhas, preconceito, intimidações e não somos tão “queridos” assim (por alguns agentes) quando cruzamos o corredor da cadeia para irmos à escola. Somos vistos, muitas vezes, com olhares punitivos e desconfiados, mas mesmo assim seguimos na nossa luta e a equipe de professores do Complexo de Bangu é fantástica! Trabalhamos muito, fazemos da escola o melhor lugar para eles. Questionamos, escutamos, falamos na escola de esperança, de amor, de respeito e de mudança e que não desistam de sair dali diferentes. Nosso trabalho em Complexo de Bangu é de resgate. Sabemos que muitos não conseguem pensar em melhorias, mas isso soma-se a falta de outros meios de ressocialização. Fora a escola que resiste a tudo isso, o fato é que há inúmeras provas do fracasso do modelo punitivista adotado a partir do final do século passado, várias propostas vêm sendo feitas e adotadas nos últimos anos para restabelecer o lugar da prisão como último recurso ao combate à criminalidade. Além disso tal política punitiva de encarceramento não foi capaz de trazer mais segurança aos brasileiros, certo? Dados estatísticos demonstraram isso todos os dias. Outro dado importante: 71% dos internos sequer tem o ensino fundamental completo – INFOPEN 2014. E aí recaímos novamente na questão: onde estão os 2,5 milhões de jovens que estão fora das escolas no RJ?

    Futuro?

    Os problemas do sistema prisional são inúmeros, mas já obtivemos avanços, mesmo que modestos, as preocupações sobre a questão carcerária vêm se centrando justamente no resgate dos direitos e garantias constitucionais dessa população marginalizada, como acesso a oportunidades de educação e trabalho, o desenvolvimento de alternativas e mecanismos de proteção aos acusados contra restrições abusivas á sua liberdade. Será que um dia diante dessas iniciativas teremos um sistema prisional no Brasil digno e de ressocialização de fato? É o que esperamos, é o que espero e que dessa forma a criminalidade venha a se reduzir, mas sobretudo que pensemos no resgate, enquanto há tempo, dentro das escolas regulares, onde existem problemas a serem superados sim, onde a forças contrárias aos restabelecimento de melhores condições de aprendizado dos nossos jovens, mas é nadando contra toda essa maré que podemos reverter um pouco toda essa triste situação que se vive dentro das cadeias, não do do Rio de janeiro, mas do Brasil. Vamos pensar nas futuras gerações para que não tenhamos um país com tantas prisões e poucas escolas.

  • Um dia na vida de Mica

    Um dia na vida de Mica

    Todo dia na vida de Mica é assim. Ele acorda cedo e ainda escuro pega a marmita e segue para o trem rumo a cidade. Ele não pode ir no ônibus de ar condicionado porque o preço da passagem não é acessível ao seu bolso, e o trem lotado acaba sendo a sua solução.

    Não sei como é possível para esse homem conviver com essa realidade. São trinta anos de uma migração pendular dura, cansativa e desgastante. Tratado como gado nos vagões abarrotados de pessoas como ele que buscam o sustento diário, Mica sonha com o dia em que a realidade atual seja mudada, mas de onde virá a salvação?

    No trem se discute política como algo distante, presente apenas nas campanhas eleitorais onde os candidatos mais famosos ou donos de alguma patente próxima (posto de saúde, de gasolina, professores, médicos, sargentos etc.) cheguem ao seu humilde bairro para prometer e não cumprir suas famigeradas ações sociais. Já prometeram até emprego! Mica sonha com esse dia, um dia em que a vida de gado seja transferida para a vida de sonho, a fábula que ele vê na TV na hora da novela das 8, ou das 9, sei lá.

    O que Mica nunca entendia era porque aquele povo não mudava, não causava uma revolução. Contando a quantidade de vagões, normalmente sete por composição, cada uma com umas 150 pessoas dentro, e com intervalos de 15 minutos cada trem, a capacidade revolucionária daquele povo era gigantesca, ele notava que era a maioria dos trabalhadores quem reclamava daquelas viagens diárias regadas a suor, lamurias, contos, baralho, pastores, pregadores e vendedores de um shopping sobre trilhos que se deslocava desde a Central até Japeri. Contou que haviam outros ramais, igualmente cheios, e tentou compreender cada vida dentro daquele espaço, como cada um tinha um pensamento, mas que nunca se concatenavam.

    Mica notou a evolução da técnica, há algum tempo o trem não tinha ar condicionado, as pessoas hoje tem uma certa regalia ali. Notou que os jornais foram substituídos pelos celulares, mas ele ainda não possui um, o que o faz diferente de boa parte dos passageiros. Isso foi bom porque ele nunca perdeu o foco na observação. Viu aquela linda menina de trinta anos atrás que viajava com ele. Hoje ela aparenta ter uns 50, ele tem 55, mas ela é bem mais acabada. Talvez a jornada tripla, já que ela sai cedo, prepara a comida do marido e da filha, que aos trinta já é avó, pega o trem, trabalha, e durante a noite ainda arruma tempo para pegar os livros e ir para a humilde escola do bairro, que não tem merenda, tem carteiras depredadas e banheiros pichados, pois a arte do grafite ainda não faz sentido para aqueles alunos.

    Eles estão exilados mesmo numa periferia como outra qualquer do país. Aliás eles não tem aula de artes, pois a escola é de difícil acesso, e os professores nela não conseguem chegar. Mica nunca gostou da aula de artes, achava coisa de “viado” num preconceito absurdo que se instalou por lá. Aliás, Mica teve de parar de estudar na quarta série para trabalhar bem cedo, pois a comida era a principal necessidade de sua família e os sete irmãos não podiam esperar, ainda não era época de programas sociais de distribuição de alimentos e renda, como bem sabemos, mas isso era o que fazia mais falta àquele guerreiro, ele sentia falta da escola, sentia que aquilo poderia ter mudado sua vida. Em trinta anos de viagem no trem aquele pensamento jamais se afastara. Poderia ter ganho dinheiro, vida mais folgada, conhecido a Europa, África ou Japão, como via nas aulas de estudos sociais, poderia ter sido médico, pois adorava a aula de ciências, mas o destino o aproximou do trem.

    A estória de Mica se confunde com muitas outras, começou quando ele não pôde estudar e num efeito dominó chegou aos dias atuais. Dia desses peguei o trem com ele para ir ao Sarau Catando Contos, confesso que peguei o trem para ver a atualidade pois sou um cientista social, e ele narrou que há trinta anos que passa por esse perrengue. Me pergunto porque aquele trem não muda isso, porque aquele povo sofrido não reage? Será culpa do pastor? Será culpa do padre? Da polícia? Mas isso é algo que ainda tenho muito a aprender. Acho que é falta da escola, mas não vou legislar em causa própria.

    Mica me falava muito de Tia Lucília, aquela professora fizera diferença na sua vida o ensinando a ler e a escrever, pena que ela não teve muito tempo para estar com ele, mas mesmo assim, esse homem consegue fazer reflexões no trem, algo fantástico numa sociedade oprimida que só obedece à televisão, num lugar onde pensar é luxo.

  • Mais uma estória, a estória de um menino

    Mais uma estória, a estória de um menino

    Na exilada ilha não havia uma só pessoa que pudesse sonhar. Era proibido sair daquela lógica de dominação imposta pela alta cúpula de comando que tornava pessoas verdadeiros autômatos, seres cumpridores de ordens e carrascos de suas próprias vidas. Era impossível até mesmo enxergar que a vida poderia ser diferente para aqueles moradores, eles tinham vendas invisíveis em seus olhos. Até mesmo os mais letrados estavam vendados, não conseguiam se organizar e produzir alguma alegria ou vida para a região. No máximo se reuniam nos finais de semana e tomavam uma cerveja saboreando um churrasco.
    Mas um menino diferente apareceu por lá. Nasceu com uma anomalia que deixou estudiosos preocupados e inquietos, parecia ser um ser de outro mundo, tão jovem, tão diferente e tão assustador. Tinha o ideal de ver aquele lugar diferente, colorido, cheio de boas energias e sorrisos. Isso não era possível ao seu nascimento, mas com sua visão apurada, ele notava que existiam pessoas que mesmo desprovidas de recursos e sem a mesma dotada visão, destoavam um pouco do padrão local. Era questão de tempo juntar um exército para combater aquele marasmo na qual a ilha se encontrava, uma mente pensante não resiste ao desafio.
    Saiu de sua área insular, pegou um bote e foi ver o que acontecia além daquela praia. Viu cores e formas diferentes, sabores exóticos, se encheu de ideias e sonhos, viu afinal que uma nova forma de vida era possível, teve certeza disso. Precisava então traçar um plano para que tudo o que havia aprendido pudesse ser posto em prática. Sabia que a maior dificuldade seria convencer outros amigos, mas nunca duvidou que pudesse ser bem sucedido.
    A ilha, sabendo de seus planos, tratou de se armar para resistir. Não é possível mudar do dia para a noite um padrão dominador que atravanca o progresso da maioria em detrimento do poder de meia dúzia. E essa meia dúzia é muito bem articulada, prepara todas as artimanhas possíveis para deter jovens anômalos, como o nosso amigo, quando eles aparecem. Esse pessoal tem registros históricos em suas estantes que não permitem que eles adoeçam duas vezes da mesma doença.
    Construíram um muro ideológico para impedir a volta do menino. Ele foi bombardeado de todos os lados por dragões mitológicos que já dominavam aquela população. Blindaram todas as portas, todas as janelas receberam reforço. O menino insistente descobriu a internet, propôs diálogos, tentou uma forma diferente de juntar gente e falar sobre os problemas da ilha. Sabia que os dominadores tinham um aparelho formidável que entrava na casa de 99% dos habitantes e que contava para todos as histórias mais incríveis para lhes fazer dormir. Inclusive colocava medo nas pessoas para que elas comprassem coisas desnecessárias, pagassem escola, educação e saúde privadas. Isso enriquecia cada vez mais os dominadores. Mas o menino não desistiu, e é essa sua utopia que o mantém vivo até hoje. Os moradores da ilha ainda estão vendados, mas ele coloca muita pulga atrás da orelha de muita gente. Como esse menino é um incômodo, dizem até que ele é rico pra ver se tiram a sua moral. Rico ele é. Mas vocês sabem como.
  • Uma estória que se repete

    Uma estória que se repete

    A estória começou há muito tempo atrás. Era século XIX, num lugar próximo daqui que não se pode precisar o nome, mas era no Brasil. Estava próximo o fim da escravidão e aquele jovem homem maltratado pelo tempo e pelo trabalho pesado não conseguia imaginar o futuro longe de sua amada, linda, mesmo sofrida, com um sorriso fora do comum.

    Eis que a alforria chegou, foi festa de arromba mesmo sem mantimentos, alegria por estar livre, mas, para onde ir? Jogados à própria sorte, foram parar na parte mais alta da cidade, uma subida íngreme onde com barro e pedaços de madeira construíram seu barraco. Comiam vegetais que sabiam cultivar, usavam lenha como combustível, não conseguiam proteínas animais.

    Cansado de tanta pobreza ele foi a luta; desceu o morro mas foi perseguido pela polícia, pois sem sapatos era enquadrado por vadiagem. Deixou a nega grávida, nem ele mesmo sabia. Ela soube pouco antes de parir que seu amado havia sucumbido. Desesperada e com o filho no colo não teve alternativa, com sua beleza conseguia alguns trocados, voltava a casa para alimentar o filho, que ficava com a vizinha igualmente desafortunada, mas que tinha um companheiro estivador. Era onde comiam carne, fruto de alguns desvios do cais. Seu filho cresceu, formou família; não foi a escola, era impossível. Um ciclo que se repetia com pobreza e tragédias, furtos e submissão.

    Em sua atual geração essa herança está na Presidente Vargas, o Di menor atual se alimenta com pequenos furtos, em geral de celular, que vende para comer pastel, sua favorita refeição. Um dos irmãos foi morar em Nova Iguacu com a avó paterna. O menino consegue ir a escola, que é para ele a maior alegria, em várias gerações, ele é o primeiro a completar o ensino fundamental. Dia desses ele até apareceu na TV. Me contou que ficou muito feliz nesse dia pois ganhou um copo de suco, comida gostosa, salgadinhos e ainda vai ficar famoso!

    E tem gente que quer mudar o destino desses meninos. Mas quando assumem o poder eles mudam de ideia. A revolução só existe até a véspera.

  • A estória das pessoas: Evellyn Alves

    A estória das pessoas: Evellyn Alves

    Evellyn nasceu na Zona norte do Rio de Janeiro numa família de 9 filhos e poucos recursos. Mulher, negra, estudou em escola pública, não teve professor de física, química, filosofia, geografia, foi mãe aos 17 anos, saiu de casa, teve filhos, criou-os, fez vestibular, passou, cursou a faculdade em 4 anos.

    Ela faz parte de uma estatística positiva do Brasil embora tenha enfrentado tantas barreiras para chegar ao final do nível superior de ensino. Multi talentosa a atriz, poetisa, ex rainha de bateria, cantora, atleta e modelo fitness e jornalista fala num bate papo rápido com respostas curtas sobre como foi sua passagem pelo sistema universitário.

    Cleber: Como foi seu primeiro dia na universidade?

    Evellyn: Estudei na Faculdade de jornalismo Hélio Alonso com bolsa de estudos. No primeiro dia foi muito tenso pois não sabia o que iria encontrar. Uma mistura de tensão e alegria, feliz em parte por estar chegando num novo caminho.

    Como era a composição de alunos dentro da Faculdade? Você calcula quantos negros existiam em sua turma?

    Evellyn: Éramos duas em uma turma de aproximadamente 30 alunos. Logo no período seguinte minha colega trancou o curso e não voltou mais.

    Cursar o nível superior mudou a sua vida?

    Evellyn: Pra caramba! Muitas vendas foram tiradas dos meus olhos, aprendi a ler nas entrelinhas como alguns professores falavam, sair do “Senso comum”, deixar de ser “papagaio de pirata”.

    Como está sua vida hoje? Que trabalhos vem fazendo?

    Evellyn: Produzindo documentários com recursos próprios (“Quando o mal fez o bem” e “Partido alto na tribo do samba: onde um parideiro fez morada e deixou sua arte eternizada”), e mais um ainda em andamento, e competindo no fisiculturismo feminino, com competição marcada para outubro no Rio de Janeiro.

    Mais Informações:

     

  • Um final de semana de estórias

    Um final de semana de estórias

    Diva Guimarães falou com o coração. A estória que ela conta é fácil de se encontrar em qualquer estória de criança preta, que sofre ao nascer por conta do racismo estrutural que mantém o privilégio de uma parcela da população economicamente dominante do país e que não deseja abrir mão deste.

    Numa sala de aula comum você verá várias assim, mas por ter dito na Flip, com um público majoritário desta classe privilegiada, letrada e reflexiva, certamente se tornou o mais memorável de todo o evento. Ela falou o que sente na hora “H”, no dia “D”. Mostrou sua potência de fala, representou, pegou um amplificador de voz. O próprio Lázaro Ramos se embaralhou na emoção. Não, Lázaro, ela não reclamou de ser professora, ela explanou a situação de ser preto, como eu, como você. Ser professor ficou num plano secundário, embora também importante.

    Diva fala o que precisamos falar e nem sempre temos espaço, imagino. Quando temos somos censurados com às manifestações “mimimi” “foi passado” “até tenho um amigo preto” “preto de alma branca”. Nosso racismo nefasto calou aquela mulher durante décadas, mas se soltou pulmão a fora naquela “festa” que horas depois com o auxílio da rede chegou ao conhecimento de mais de 5 milhões de espectadores e que vai ser visto por muitos outros milhares. Diva tem uma estória como a nossa, preta, sofrida, sem herança positiva, acusada de preguiça, de revolta, incomoda para alguns, mas necessária.

    A estória de Diva é de Cleber, a de Alan C. é a de Dandara, de Milena, de Sandro… mas sua repercussão vai ganhar cada vez mais força.

    Diva na Flip 

  • De onde viemos? Qual é a nossa estória?

    De onde viemos? Qual é a nossa estória?

    Qual é a sua estória? De onde você vem e para onde você vai?

    Essa semana tive a oportunidade de ter um encontro com o passado que nem sempre conhecemos. Fui com amigos e minha esposa fazer o caminho da ‘Pequena África’ no centro do Rio de Janeiro, caminho este que abriga a famosa Pedra do Sal, Jardim Suspenso do Valongo, Cemitério dos Pretos Novos, Cais do Valongo (considerado agora patrimônio da humanidade, onde chegavam os Tumbeiros trazendo os africanos em viagens desumanas, mortais) entre outros. Chama muito a atenção a situação de abandono do Cemitério dos Pretos Novos, que era o local onde eram enterrados os viajantes forçados que não resistiam à tenebrosa viagem. O IPN (Instituto de pesquisas e memória dos Pretos Novos) luta sem apoio governamental para manter o trabalho importante para a questão da nossa identidade e apenas a ajuda dos visitantes mantém o equipamento.

    Eu nunca conheci meus avôs, apenas minhas avós. A mãe do meu pai era bem de idade quando eu era criança e não tivemos muito tempo para conversas mais profundamente sobre de onde viria minha família. Meus pais também não possuíam tal entendimento. Isso foi me sufocando desde jovem e apenas um tempo mais tarde minha avó materna conversou comigo que teria vindo para o Rio de Janeiro correndo da situação complicada nas Minas Gerais, terra de seu nascimento. Nunca entendi o “Gonçalves Pacheco” do meu nome, minha avó era ‘de Jesus’, a outra era ‘Rodrigues’, enfim, um enorme quebra cabeça.

    Como a maioria dos negros brasileiros o que me vem à cabeça é que “Eu sou da África!”

    Mas de onde? Não faz sentido falar de país, e sim de etnia, povo, tribo. Qual delas seria o berço dos meus antepassados que foram escravizados e perderam seus nomes originais, religiões e cultura ao passarem pelos famosos e tristes “Portais do esquecimento“? Só no Brasil foram 4,9 milhões de africanos (a maior migração forçada vista no mundo) que tiveram o “rebatismo” com nomes católicos ocidentais, nomes como o “Jesus” de minha avó ou, talvez, Gonçalves de alguma família “dona” de escravos no Brasil.

    Tive acesso ao documentário “Brasil: Dna África” que foi produzido com a intenção de buscar as raízes dos afrodescendentes brasileiros e reconstruir, ou devolver a identidade de cada um de nós. É muito interessante ver um trabalho com o African Ancestry, laboratório em Washington que tem em suas bases de dados mais de 200 etnias africanas e faz a comparação com cada DNA analisado. A organização norte americana que faz o levantamento caso a caso de 150 brasileiros selecionados no projeto e descobre através da ciência a provável etnia à qual cada um deles pertencia pela linhagem materna e paterna. Recomendo muito a todos os leitores que assim como eu tem tal curiosidade.

    Conhecer nossas estórias, saber de onde viemos e para onde estamos querendo ir pavimenta o caminho para o nosso futuro. Eu que toda a semana gosto de divulgar aqui estórias individuais vim nesse texto provocar a reflexão coletiva, principalmente do povo da Diáspora africana pelas Américas. Que tal buscarmos esse caminho?

  • A arte do grafiteiro FML

    A arte do grafiteiro FML

    O Graffiti é uma arte visual fantástica e um dos elementos da cultura Hip Hop.

    Centro de muita polêmica por sua classificação perante a sociedade que hora a tem como arte e hora a considera um ato de vandalismo; Ela provoca amor e ódio em sua história recente, e episódios como o de São Paulo são sempre latentes, tanto em gestões municipais passadas como na atual (o atual prefeito mandou apagar vários painéis com a arte no centro da cidade num claro episodio de falta de conhecimento e desrespeito aos artistas). O graffiti enfrenta o dia a dia com muita cor, emoção e lágrimas.

    Um cara que me orgulha e muito ter conhecido no Enraizados foi o FML. Sempre com aquela fala tranquila, observador e inteligente em suas colocações e traços. Trabalha com crianças que apresentam necessidades especiais na Zona Oeste do Rio de Janeiro e produz artes inacreditáveis com suas latas.

    Bati um papo rápido sobre início de carreira, inspirações, e claro, de seu trabalho que é muito inspirador pra todos nós, principalmente os que trabalham com crianças e adolescentes. Para se ter ideia do problema enfrentado na educação fluminense, hoje no Rio de Janeiro 2,5 milhões de jovens estão fora da escola por diversos motivos, como por exemplo, falta de identificação com o que é ensinado. As oficinas de grafite podem e devem ser um grande estímulo para a atração destes meninos e meninas de todas as idades.

    Mas vamos ao papo!

    Cleber: Como você se interessou pelo graffiti e quais foram suas referências?

    FML: Então, de 1997 para 1998, comecei a ouvir rap. Já tinha visto algumas pinturas em paredes em filmes americanos, porém ainda não tinha despertado interesse em saber como fazia, mas já me chamava a atenção. E a pichação era algo que me chamava – e ainda chama – atenção, porque eu ando pelas ruas tentando ler as escritas nos muros.

    Até que na escola, eu conheci alguns pichadores. Tive uma passagem muito rápida pela pichação. Descobri que eu não queria fazer aquilo, porém eu respeito, fiquei só no desenho (no papel). Eu desenhava muito mal, mas os amigos do ‘Xarpi’ e os que não eram do ‘Xarpi’ diziam que eu desenhava bem. Meu irmão desenhava melhor do que eu e ficava rindo dos meus desenhos. Acho que esse fato, dele rir e dizer que eu desenhava mal, me fez desenhar na prática e estudar mais e mais desenho, até que hoje meu irmão não desenha e curte meus desenhos no Facebook! (risos).

    Mas minha entrada no graffiti foi ao ver uma matéria do grafiteiro Fábio Ema no jornal ‘O dia’. Tinha uns desenhos dele e infelizmente perdi este jornal em uma enchente. Ali comecei correr atrás do que era graffiti, na época descobri que o Ema dava oficina lá em São Gonçalo, até fiz contato, mas o triste era que eu não tinha grana pra sair de Austin (Nova Iguaçu- Região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro) e chegar a São Gonçalo (distante 60km).

    Fui em busca de informação, mas era difícil porque a internet era pra poucos. Um primo que também desenha, mas não estava ligado no graffiti se aproximou e mostrei pra ele, dizendo: Vamos fazer isso?

    O primeiro desenho foi horrível! Colorgin e Latex água amarelo; algumas pessoas passavam e gritavam “vai pichador”; os caras do Xarpi passavam e diziam “Caraca! Tá muito maneiro!”.

    Depois conheci a aerografia, eu tinha preconceito sobre essa técnica, digo, não preconceito, mas falta de informação. Mas meu primo se interessou e eu embarquei com ele. Hoje pretendo voltar a estudar essa técnica de aerografia.

    Depois de alguns anos consegui assistir uma palestra com Ema no Sesc e nessa época eu já sabia que aqui tínhamos o Dante e alguns outros grafiteiros bacanas. Fiz oficina na Fundição Progresso com o Chico e o Preas Nação Crew. Preas foi o cara que abriu minha mente, e aí comecei a pesquisar sobre tudo o que é arte e até artesanato. Também já fiz oficina com Bobi, Bunys e Combo em um projeto social.
    Minha outra referência no início foi o grande profeta Gentileza (Gentileza fazia enormes graffitis na Zona Portuária do Rio de Janeiro com frases pregando o amor entre as pessoas).

    O primeiro desenho foi horrível! Colorgin e Latex água amarelo; algumas pessoas passavam e gritavam “vai pichador”; os caras do Xarpi passavam e diziam “Caraca! Tá muito maneiro!”.

    Fale sobre o seu trabalho com as crianças.

    FML: Trabalho em uma instituição chamada CAPSIi (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil) que cuida de crianças com transtornos mentais graves. Lá fazemos um trabalho de inserção destas crianças e adolescentes na sociedade. Eu desenvolvo algumas oficinas e uma delas é a de graffiti. Na saúde mental temos uma data onde comemoramos o dia da luta antimanicomial, que é no dia 18 de Maio.

    Deixe algumas dicas pra quem quiser saber mais sobre esses assuntos.

    FML: Como dica de livro, eu deixo o “O Holocauto Brasileiro”. Tem o documentário também no youtube com o mesmo título.

    Sobre meu trabalho com grafitei e arte em geral é só curtir e seguir:
    Instagram: @fmlgraffiti
    Pagina no facebook: @amotinta

    Respeito e paz a todos!

  • A estória das pessoas vai fazer uma reflexão

    A estória das pessoas vai fazer uma reflexão

    Enquanto penso no que escrevo ouço sons de armamento pesado passando por minha janela. Parece ao leitor que escrevo uma obra de ficção, mas não, essa é a realidade dos meus dias nos últimos anos de minha vida. Não sei se escrevo baseado no que estudei até aqui ou apenas descrevo o que observo em meu cotidiano. Talvez faça os dois.

    A História tem juntamente com a Geografia me sustentado financeiramente nos recentes anos de minha carreira como professor. No último voo mais alto escrevi um capítulo inteiro sobre “A escravidão moderna”, tema que muito me chama a atenção e que venho pesquisando cotidianamente. Observo que por ser muito incômodo para boa parcela das pessoas a provocação sobre o modelo de vida que hoje levamos é uma interminável fonte de discussões acaloradas, mesmo entre familiares e amigos mais próximos.
    Afinal, a escravidão acabou?

    Muitos autores e amigos escrevem ou falam em suas aulas sobre o que seria a escravidão. Me dou ao direito de escolher algumas obras para embasar essa prosa de maneira mais simples e objetiva visando o fomento e não o engodo de uma boa conversa que possa ser proferida na mesa de um pé sujo ou no auditório da universidade. A fala acadêmica não me seduz nessa perspectiva, mas sim o saber expressado pelo pescador, como sugeria meu antigo professor Jorge Luiz Barbosa, quando eu era aluno da UFF.

    Lendo o professor Joel Rufino dos Santos aprendi a situar algumas coisas básicas que não organizava em minha cabeça. Compreendi que o Movimento negro sempre existiu desde que o sistema de Raças foi ideologicamente instituído para que ocorresse a vantagem obviamente financeira do sistema dominante vigente. Foram e são do movimento todos os que lutam pelo fim do racismo, como clubes sociais, sociedades secretas, quilombos, terreiros, os que lutaram pela abolição, os que lutaram contra senhores de escravos e feitores, contra os pombeiros e tumbeiros, todos esses, mantém o mais longo movimento social do país, o mais ativo, nem sempre tão organizado, mas nos últimos anos o mais combatido ao meu ver.

    77% dos jovens de 15 até 29 anos mortos no território nacional são pretos

    Afinal, o racismo é uma problemática muito naturalizada no Brasil. Alguns afirmam que ele não existe, outros acham que ele existe mas é um problema menor frente a pobreza e fraqueza de infraestrutura a qual a população mais pobre carece. Hoje no país de acordo com a Anistia internacional, 77% dos jovens de 15 até 29 anos mortos no território nacional são pretos, um genocídio incessante e lucrativo aos senhores de engenho contemporâneos com sua continuada “Guerra às drogas” iniciada na América do norte e espalhada por todo o longínquo continente norte-sul. Quando levantado numa conversa, o racismo logo é tido como um “Exagero” por algum participante, mesmo que de maneira introspectiva, velada, mutilada, mas sempre constante.

    Ser escravo no Brasil sempre foi ser uma mercadoria, um animal ou objeto de uso privado. Tudo constando em lei, legitimado pelo poder público e em épocas pretéritas pela igreja predominante. Aliás, ambas as instituições se prevaleceram da venda desta “mercadoria” através de impostos e ajudas em suas festas e afins. A divisão por classes sempre favoreceu aos que são complacentes com o dominador. O termo escravo foi mais brando em todo o mundo, exceto aqui. Aqui a relação foi mais brutal, o trabalho nas lavouras das grandes commodities exigia um sistema de torturas mais efetivo do que onde apenas havia a escravidão doméstica, em menor escala. Aqui o grande empreendimento necessitou de muita mão de obra, muitos instrumentos de tortura para uma massa gigantesca de escravizados, uma economia baseada em escravos. “Fosse comprado aos 15, morreria, provavelmente antes dos 30” , cita o professor Joel em “Nação Quilombo”, escrito em parceria com Nei Lopes e Haroldo Costa.

    O padre Antonio Vieira no século XVII já naturalizava e regulamentava a tortura submetida ao trabalhador escravo como sendo “uma fortuna…conformidade e imitação de divindade e semelhança” ao que sofrera Jesus Cristo, a fim de dignificar o trabalho. O que hoje nos parece hediondo também pareceu para alguns progressistas de outrora, mas se manteve como muitos outros problemas socioeconômicos de sempre.

    Logo o racismo é um dos artifícios para mantermos no Brasil o que temos de pior em termos econômicos. Ele mantém a desigualdade de classes em níveis cada dia mais absurdos com a ajuda de um Estado que sempre prezou em tirar dos mais pobres e dar aos mais ricos. A concentração de renda se faz presente com a ajuda de truques como a já citada “Guerra às drogas” onde a maior parcela de encarcerados e mortos é preto, nos “subempregos”, na educação pública deficiente, nos serviços de saúde precários, e em outros muitos espaços onde o preto não é convidado a entrar.

    E pra você, a escravidão acabou?