Categoria: Coluna

  • Afinal, o rap da Baixada “é ou não é” unido?

    Afinal, o rap da Baixada “é ou não é” unido?

    Após um post – no facebook – um tanto quanto polêmico do rapper Ualax MC, questionando amigos e fãs sobre a união do rap na Baixada Fluminense, decidi escrever esta coluna tentando aprofundar e problematizar ainda mais o tema.

    O post já rendeu cerca de 134 comentários e 69 curtidas até o momento, por isso resolvi fazer minha coluna sobre esse tema me baseando nos comentários mais interessantes que li.

    Minha opinião é uma só, e já deixei claro em meus comentários. Considero o rap da Baixada unido, talvez não considere o rap do Estado do Rio de Janeiro unido, muito menos o nacional, porque sempre vejo uma nota ou outra falando mal do Filipe Ret, da Cone Crew, Emicida, Projota e até do Racionais, mas nunca vi uma treta entre rappers da Baixada Fluminense. Sempre que acontece algo do tipo é apontando pra alguém que já tem uma projeção maior.

    Considero o rap da Baixada Fluminense unido porque sempre vejo os eventos cheios de MCs, bebendo, trocando ideia, participando um da música do outro, entre outras coisas, contudo algumas pessoas, assim como o Ualax, consideram o rap da região desunido. Vamos tentar entender o porque.

    Bhaman Melo, levanta uma questão instigante em seu cometário: – O que é união no rap (na visão do autor do post)?
    (Como eu disse acima, na minha visão união é não ter treta, e não tem treta, pelo menos eu não vejo, o que me é passado superficialmente é que tá todo mundo no mesmo barco e pro que der e vier).

    O MC Mateus Amoeba, levanta outra questão importante, quando objetiva ainda mais a pergunta: – Se unir em que ponto Ualax ??? musicalmente, financeiramente???
    ( É muito interessante quando o Amoeba faz esse questionamento, pois ele afunila o problema e nos coloca em uma bifurcação que nos leva a lugares totalmente distintos, pois se a união citada pelo autor do post é musical, a conversa não segue seu curso normal, pois as parcerias são diversas, desde sempre, o evento Dia da Rima, organizado pelo Movimento Enraizados, pro exemplo, proporcionou diversas destas parcerias musicais entre artistas da região. Porém se a pergunta nos leva para uma “união financeira”, a palavra união pode ser mudada para investimento ou patrocínio, e isso não acontece – pelo menos eu nunca vi – entre MCs de lugar nenhum do mundo, a não ser que os MCs sejam também empresários).

    O Marral Vasconcelos também vai por essa linha do investimento, mas de uma forma bem mais realista: – Não vinga porque a maioria não tem foco, não quer investir e acha que rap é brincadeira. Simples. O problema não é união, é falta de foco e profissionalidade. Se o cara mora na savana da Africa do Norte, tem talento e corre atrás do sonho, ele “explode”.
    (Concordo com ele, qualquer pessoa que invista em seu trabalho com mais seriedade certamente alcançará um resultado melhor do que os que não trabalham com profissionalismo).

    O Ualax Mc já acreditou que o rap da região poderia ser uma grande coorperativa, como ele deixa claro em seu post: – Já acreditei que fosse possível, mas hoje eu acho que a união geral é utopia.
    (Ele mesmo se corrige e diz que isso é utopia, essa também é minha opinião).

    E o Frávio SantoRua Antiéticos vai além e explica essa questão utópica comentada acima: – Se une quem possui os mesmos interesses. “União geral” é utopia. Mas, enquanto isso, para alcançarmos nossos objetivos, e para que não aja fragmentação em quem deseja estar junto, vamos todos na velocidade do mais lento!!
    (Aí sim, um vai ajudando o outro “na medida do possível”, sem onerar nenhum dos lados, contudo sempre estarão mais juntos os que têm algo em comum, os que tem uma proximidade natural maior, ou seja, interesses em comum).

    Pra finalizar, o  João Otávio faz um comentário que eu entendo como “quem está trabalhando tá unido” e quem não tá, tá falando: – Os de verdade, os verdadeiros, tão unido sim mano. Quem vem com essas fitas de intriga e desunião nem merecem fazer parte do movimento. O rap de verdade da Baixada, está unido sim e crescendo cada vez mais com novas uniões.
    (Eu não sou a favor desse negócio de rap de verdade, mc que representa, etc, porém eu consigo entender que há quase uma unidade de MCs trabalhando com vontade, produzindo. Os objetivos não são os mesmos, o investimento não é o mesmo e o talento não é o mesmo, mas estão quase sempre juntos no que eles tem de fundamental, o rap).

    O que fica para reflexão é o que cada um de nós está fazendo verdadeiramente para a evolução do rap na região? Quase sempre cobramos o que queremos que os outros façam por nós. A Baixada Fluminense é formada por 13 municípios, mas quando falamos de #RapBXD, quase sempre estamos nos referindo a Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Mesquita, Belford Roxo, Queimados e São João de Meriti. Mas e Nilópolis, Magé, Paracambi, Seropédica, Itaguaí, Japeri e Guapimirim? Quem tá fortalecendo esses MCs que tão na sombra da Baixada Fluminense?

    Chegou a hora de um MC parar de cobrar do outro e ambos cobrarem do poder público políticas públicas para a juventude. Alguém pode me explicar porque em Nova Iguaçu a “Semana do Hip Hop” não é lei? Alguém sabe me dizer em quais municípios da Baixada já existe essa lei? Alguem sabe como conseguiram?

    Talvez seja hora de parar de falar um pouco de maconha e buceta nas letras de rap e começarmos a entender o rap como ferramenta de exibilidade de direitos. Vamos na Câmara de Vereadores trocar essa ideia com os vereadores da cidade?

    Quem quiser entrar na debate pode comentar abaixo e quem quiser conferir o post original com outros comentários, basta clicar aqui http://on.fb.me/17HtNFP

  • Um paulistano no Enraizados

    Um paulistano no Enraizados

    Olá amigos do Portal Enraizados, primeira coluna do ano.

    Aqui Alessandro Buzo, paulistano e colunista do PORTAL, e a partir dessa coluna, retomando “toda terça-feira” aqui com vocês, pois terça é o mesmo dia que fazemos em São Paulo o Sarau Suburbano (das 20h às 22h), atividade que acontece na Livraria Suburbano Convicto da qual sou proprietário, do sarau sou apresentador.

    Aproveito aqui pra convidar todos leitores do Rio de Janeiro, Baixada Fluminense, quando vierem a São Paulo, conheçam a LIVRARIA (única do país especializada em Literatura Marginal) e na terça o SARAU.

    A Livraria Suburbano convicto fica na rua Treze de Maio, 70 – 2o andar – região central de São Paulo. A entrada no Sarau Suburbano é gratuita.

    A Suburbano Convicto Produções é parceira do Movimento Enraizados desde 2003, sendo que eu – Alessandro Buzo – estive diversas vezes em Morro Agudo nesses 12 anos, assim como o Dudu de Morro Agudo e outros integrantes do Enraizados já estiveram aqui em São Paulo.

    Em 2015 essa parceria vai seguir em frente, firme e forte. A Suburbano Convicto deve gravar uma das quatro histórias do filme PERIFERIA, em Morro Agudo, (Nova Iguaçu-RJ), e é claro, vamos usar e abusar dessa parceria.

    Você leitor(a), acompanhará em minha coluna, toda terça-feira, o melhor da Literatura Marginal, da poesia e do cinema da periferia.
    Nóiz q tá, Ano Novo chegou, bora trabalhar.

  • Som de preto?

    Som de preto?

    Metade da minha família é branca, tenho influências e parceiros musicais brancos, não acho que o Rap deva ser feito apenas por pretos, mas estou cansado de ver esse rap representado apenas por “não pretos”.

    Desde que o mundo é mundo a indústria se apropria dos gêneros musicais criados pelos pretos e os embranquecem. Assim foi, e é, com o rock, com o samba com o funk, etc. Os maiores ícones do rock mundial são Elvis Presley, Beatles. O que falar do rock nacional? Dá pra contar nos dedos de uma mão, Derrick Green, do Sepultura, Clemente, do Inocentes, e Renato Rocha, da Legião Urbana, que por sinal nem foi mencionado no filme “Somos Tão Jovens”, que fala da banda.

    Entre os sambistas temos a “madrinha” Beth Carvalho, Clara Nunes, Noel Rosa e Adoniran Barbosa. A nova cara é a do Diogo Nogueira e a do Sambô. A cara do funk foi a do Ademir Lemos e a do Cidinho Cambalhota, num passado recente foi a cara da Kelly Key e da Perla, hoje é a cara da Anita, da Valesca Popozuda e a do latino.

    O rap? O rap do Gabriel o Pensador, do Cabal, do Criolo, da Flora Mattos, etc. Sem falar dos “menos pigmentados” de projeção nacional como Emicida, Rashid e Projota. Essa indústria age do mesmo modo que o governo da Bélgica, quando pôs os tutsis “menos pigmentados” no comando de Ruanda, em detrimento dos hutus, os “mais pigmentados”.

    Eu não estou questionando a qualidade do trabalho desses artistas, e sim o fato de não termos outros artistas de qualidade igual ou superior em destaque por conta de seus traços ou cor de suas peles. Por mais destaque que um preto venha ter, ele nunca supera o destaque de um branco, ou melhor, “não preto”.

  • A arte da sobrevivência periférica

    A arte da sobrevivência periférica

    Não é de hoje que se faz um paralelo entre os dois universos que existem entre os dois lados do túnel, mas quando se parte para o front de batalha, que a coisa fica interessante.

    Vamos primeiro no total anonimato, descaso e invisibilidade que nos torna cada vez mais à margem dos olhos de quem deveria dar uma chegadinha do lado de cá de vez em quando, mas sabemos que isso é meio impossível porque para começar eles nem sabem como chegar, e se aqui existe cultura, que segundo eles, é algo que nós daqui ainda precisamos aprender.

    Mas vamos aos fatos, quando se fala em difusão cultural, eu fico me perguntando, será que pensam que nós queremos ainda que mandem recreadores para passarem o dia com a gente fazendo atividades apenas para nos entreter e passar o dia? Creio que sim, mas tem um porém, as instituições não estão mais apenas querendo ajuda e assistencialismo, e sim instrumentos de inserção nesse mercado que é muito competitivo e está entre os mais rentáveis do mundo, e que faz o recurso investido retornar como forma de arte.

    Eu fico lembrando dos discursos de candidatos que aparecem nos bairros mais caóticos possíveis, falando que vão “trazer atividades para as crianças e que, nossos meninos e meninas não vão mais ficar com o dia livre e terão uma atividadezinha para passar o tempo”, (nessas hora me dá saudades do Bin Laden).

    Há vários dias tenho percebido o quão as regiões de uma mesma área, possuem uma espécie de código de conduta diferentes, circulando e convivendo, tudo parece ferver numa panela prestes a explodir ao menor sinal de fogo, mas onde se espera que surja a terceira guera mundial, a convivência é tranquila, ( * tudo tem seu limite), e todos convivem dentro da respeitabilidade, e eis que surge um ou outro a mando do troço ruim para entornar o caldo, mas o saldo é muito positivo e se mostrou um grande termômetro, que para muito sociólogo seria um prato cheio para fazer um estudo, mas a disposição para encarar poucos a tem, e muitos pesquisadores preferem ir a uma comunidade na zona sul, e a nossa famigerada baixada fica de lado, deixando a choradeira de lado, cheguei a uma conclusão: ONDE ESTÃO OS EQUIPAMENTOS CULTURAIS DAS CIDADES DA BAIXADA FLUMINENSE? dentro do meu ovo esquerdo que não está, sei que muitos recursos para o RJ para investimento na cultura do ESTADO, foram captados e que certamente atenderão interesses pessoais de uns e outros, então cabe a nós, fazermos barulho e trazer esses recursos para a baixada fluminense.

    E para circular nas quebradas, precisa ter uma expertise que nem mestre dos magos teria para circular por aqui, então fica dica, a galera gosta e precisa muito de eventos em todas as áreas culturais, o povo curte e participa, o que falta é programação local, e gente boa nossa, fazendo um bom trabalho, não falta.

  • Juca Ferreira é a nova esperança para o Ministério da Cultura

    Juca Ferreira é a nova esperança para o Ministério da Cultura

    João Luiz Silva Ferreira, conhecido como Juca Ferreira é um sociólogo baiano. No passado foi líder estudantil, bateu de frente com o regime militar, ficou anos exilado no Chile, blá, blá, blá… Foi filiado ao Partido Verde, desenvolveu importantes trabalhos em importantes ONGs da Bahia, onde também foi vereador algumas vezes, até que em 2003 foi convidado para ser Secretário Executivo do Ministério da Cultura, quando Gilberto Gil era o Ministro e o Lula era o presidente.

    Foi mais ou menos nessa época que eu o conheci. Anos depois, as rápidas trocas de ideia davam a entender que algo de muito importante e revolucionário poderia acontecer na política cultural do país, e isso me enchia de esperança. As esperanças se materializaram no Programa Cultura Viva e principalmente em sua ação prioritária, o Ponto de Cultura, que impactou diretamente o embrião que logo depois veio a se tornar a instituição que eu coordeno até hoje, o Movimento Enraizados.

    Quando eu imaginei que o Programa Cultura Viva era uma política cultural sólida, o vi dissolver-se na minha frente. Vi Ministros da Cultura passarem e cada um deles jogar uma pá de cal no programa. A Cultura que acredito e pratico diariamente havia perdido “novamente” o título de “cultura” para o Governo Federal e sido colocada na gaveta e sem perspectiva de retorno ao posto.

    Quando a Senadora Marta Suplicy assumiu o Ministério da Cultura cheguei a achar que algo de bom aconteceria para as organizações de base e para as periferias do país, mas estava redondamente equivocado.

    Mas quando, em meio ao furacão das eleições, a ex-ministra Ana de Hollanda publicou um texto, em seu perfil na Rede Social Facebook, criticando a escolha do senhor Juca Ferreira para coordenar a campanha da presidenta Dilma Roussef no campo cultural, me parecendo total recalque e desespero, vi novamente uma ponta de esperança, pois se a Ana de Hollanda é contra, certamente eu sou a favor.

    Hoje (30DEZ14) recebi a notícia de que o Planalto anunciou Juca Ferreira como o novo Ministro da Cultura. Todo o meu breve passado veio a tona e a minha esperança se renovou mais uma vez, contudo tenho tido tanta decepção nos últimos quatro anos, que tenho até medo de cantar vitória antes do tempo, mas estou mais confiante que nunca. Dando um rolé na time line do facebook percebi que muitos dos meus importantes amigos produtores culturais também estão confiantes.

    E apesar de a senadora Marta Suplicy também se mostrar contra a anunciação do novo Ministro, esperar é existir.

  • “A Coisa Tá Preta”

    “A Coisa Tá Preta”

    No rio que banha a cidadezinha de Paupérrimosa do Norte, Emiguiliácia, dia sim, dia não, lavava roupas. Vinha ela com uma trouxa de aproximadamente cento e trinta quilos, sabe lá Deus como alguém de canelas tão finas quanto varas de goiabeira, conseguia carregar tanto peso!

    Pontual como a fome que assolava os esquálidos moradores de Paupérrimosa do Norte, lá ia ela garantir uns míseros trocados. Vale salientar que trabalhar por míseros trocados, era praxe naquele miserável povoado. Com o IDH de 0,00… Era raro ter alguém que não vivesse, ou melhor, sobrevivesse à custa de um subemprego. Na verdade se contava nos dedos, ou melhor, no dedo, a família que vivia acima dessa linha. Essa era a família do nada simpático Leidionaldo Dai Silva.

    O nome estranho foi fruto de uma ideia infeliz de sua finada mãe Zenaide, que ansiava ter uma filha para dar-lhe o nome de Lady Dai, de quem era uma fã ensandecida. Zenaide, mau caráter que só ela, era natural de Paupérrimosa do Norte, e sonhava com uma vida de princesa, o que era um sonho considerado impossível para realidade local. No entanto, através de meios desonestos, conseguiu engravidar daquele que era o único bom partido da cidade, Fredinaldo.

    Fredinaldo era o proprietário da carvoaria “A Coisa Tá Preta”, com a qual explorou por mais de meio século a população daquela região. Lá trabalhavam por até quinze horas por dia, de domingo a domingo. Troncos de goiabeiras moribundas [que outrora fora a fonte de riqueza da cidadezinha] eram a matéria prima do seu negócio lucrativo. Quando Leidinaldo nasceu, Fredinaldo intentou dar seu nome ao filho, no entanto, Zenaide embebedou Fredinaldo, que era tão ruim quanto ela, porem um pouco menos astuto, e viajou para Mendicantinópolis, a cidade mais próxima, que ficava a oitocentos quilômetros de Paupérrimosa, onde havia um cartório, e lá registrou o filho com o tal xingamento. Mas a fim de fazer uma média, ela bolou um misto do nome do marido Fredinaldo com o da sua adorada Lady Day. Por conta da falta de instrução o “Lady” foi aportuguesado mesmo, já que a triste não conhecia nem a palavra “Love” em inglês. Se bem que aquela família maldita não conhecia a palavra “amor” em nenhuma língua, dialeto ou gíria existente no mundo. Enfim, Fredinaldo morreu junto de Zenaide num acidente muito suspeito, assim Leidionaldo herdou a carvoaria “A Coisa Tá Preta” e perpetuou a exploração e destruição ambiental ali.

    Voltando a falar da lavadeira Emiguliácia, nos dias que não trabalhava, ela tornava ao rio que foi o único meio de diversão num passado distante, e ficava lembrando-se dos bons tempos quando ali se banhava, e fartava-se de comer as graúdas goiabas. Mas as goiabeiras já não conseguiam se desenvolver, por conta da poluição causada pela limpeza dos fornos de carvão da “A Coisa Tá Preta”, que ocorria dia sim, dia não. A água suja desembocava no rio, por esse motivo, que sabiamente, Emiguiliácia ia lavar suas roupas no dia que não havia faxina nos fornos, para assim não encardir as roupas.
    Mas o que está ruim pode piorar, e até o seu meio de subexistência lhe seria tirado, Emiguiliácia recebera a notícia de que a carvoaria “A coisa Tá Preta” estava expandido os negócios, e abriria uma filial. A produção de carvão não ia mais parar por conta da limpeza dos fornos, no dia que uma fábrica limpasse os fornos, a outra estaria produzindo e vice versa. Ou seja, não haveria mais dias de “água limpa” para Emiguiliácia trabalhar. Com a barriga roncando, a boca seca e os olhos úmidos, ela observou as goiabeiras sem folhas e sem frutos, o rio correndo escuro tal café, no entanto sem o aroma e sabor característico do mesmo, e morreu de desgosto!

  • Medo do Escuro

    Medo do Escuro

    Eis o preto no branco,
    A melanina, o cancro… No útero do reich.
    Eis o feijão no arroz,
    O “preju” dos sinhôs… A peça sem encaixe.

    Eis o sol das onze,
    A brasa, o bronze… Em teu sorriso a cárie.
    Avesso do vitiligo,
    Encardo e denigro… A descendência dos Áries.

    Eis o “Yin” no “yang”,
    Outro membro da gangue… Do líder Zumbi.
    Eclipso seus sóis,
    Sou as teclas bemóis… A outra perna do Saci.

    Eis a “língua negra”, a mancha,
    A extinção da prancha… E da chapinha.
    Não pedi que me aceite,
    Sou cafre, sou café no leite… “Eu sou neguinha!”

    Eis o blecaute,
    Na sua lei e leiaute… Me manifesto tal sardas.
    Apesar do seu veto,
    Cedo ou tarde um neto… Com a pele parda.

    Eis o revide do açoite,
    Como a inevitável noite… Logo, logo figuro.
    Agora é tarde não cedo,
    Sei que morres de medo… Medo do escuro.

  • Serial Killer é o símbolo do descaso do Estado contra a Baixada Fluminense

    Serial Killer é o símbolo do descaso do Estado contra a Baixada Fluminense

    O que você fez nos últimos 09 anos? Sailson José das Graças matou 43 pessoas.

    Será que se aos 17 anos ele cometesse o primeiro assassinato no Leblon (área nobre do Rio de Janeiro), chegaria a essa marca de 43 assassinatos sem ser preso? A resposta é… NÃO!!! CLARO QUE NÃO!!!

    Porque certamente a imprensa cairia em cima, o Governador colocaria toda a polícia do Rio de Janeiro para investigar, invadir, torturar e matar até achar o assassino, mas na Baixada não é bem assim, a realidade aqui é outra. As mortes de conta-gotas não chamam atenção, uma morte aqui e outra lá são apenas mortes do cotidiano, a vida aqui vale menos, pra não dizer que não vale nada.

    Atualmente a região da Baixada Fluminense se encontra mais violenta do que a cidade colombiana de Medelin, que foi classificada pela revista Time, em 1988, como “a cidade mais violenta do mundo”, com uma taxa de 440 homicídios por 100 mil habitantes. Hoje em dia Medelin exibe a marca de 40 homicídios por 100 mil habitantes, uma taxa bastante alta se comparada com a média mundial de 10 homicídios para cada 100 mil habitantes, contudo bem menor do que a taxa de 52 homicídios por 100 mil habitantes da Baixada Fluminense.

    Para quem está assistindo de fora, isso pode até ser um choque, contudo para quem mora nos municípios da Baixada Fluminense é algo quase normal. Crimes aqui são cometidos e não são investigados, dificilmente alguém vai preso por um homicídio, ainda mais quando a vítima é pobre.

    Sempre tive a desconfiança de que a Baixada nunca esteve nos planos de segurança pública do Estado, porém tive essa certeza ao ouvir a fala do Vinicius George, delegado da polícia civil, durante uma mesa que participamos no Observatório de Favelas no sábado passado (13), onde ele afirmou que a polícia funciona do jeitinho que tem que funcionar e o Estado está presente em todos os lugares, inclusive na Baixada. O problema, segundo ele, é que a polícia e o Estado não funcionam e estão presentes do jeito que nós queremos. A polícia foi criada para atender os interesses da corte (hoje governantes e elites) e controlar o resto (o povo). Afirmou que enquanto a sociedade não mudar, a polícia não muda. As atitudes da polícia só mudam com uma maior pressão popular.

    Segundo dados do Governo Federal, Duque de Caxias e Nova Iguaçu são a segunda e terceira cidade do Estado do Rio de Janeiro mais perigosas para um jovem negro, com idade entre 15 e 29 anos viver. Aqui é onde os jovens mais matam e mais morrem. Aí eu te pergunto: – Quais são as políticas públicas de segurança para a juventude negra na cidade? NENHUMA!!!

    No momento especialistas forenses, psicólogos e psiquiatras estudam o caso para saber se Sailson é ou não um Psicopata. Mas qual diferença isso faz agora? 43 pessoas já morreram e a culpa é do Estado. Um estado omisso. Que entrega toda uma população, cerca de 4 milhões de habitantes, à própria sorte.

    Pra mim, a mensagem surreal que Sailson passa com sua prisão é de que a Baixada Fluminense é “Terra de Malboro”: – Venham matar aqui, não serão presos. A Baixada Fluminense está sitiada e o Estado assiste nossas mortes de camarote.

     

     

  • “Sonho, realidade e desabafos”

    “Sonho, realidade e desabafos”

    Li uma vez num livro que: “A vida não é feita apenas de sonhos que se realizam, mas de realidades que se sonham…”.

    Isto é realmente como estou me sentindo, ainda estou sonhando.

    Essas palavras são de Naddo Ferreira, ainda exultante, como uma mãe após dar a luz ao seu primogênito. “Sonho, realidade e desabafos”, eis o nome do primogênito. É um livro de poesias que o autor escreveu entre 1990 e 1994, quando o mesmo ainda era adolescente. Por conta disso, Naddo Ferreira afirma que a obra tem muito mais valor sentimental, que “valor técnico”. Minha singela contribuição nesse trabalho é no poema chamado “Folha em Branco”.

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    Eis o poema: http://www.recantodasletras.com.br/poesias/4609676

    Naddo Ferreira é um grande amigo e parceiro artístico de longa data, inclusive foi um dos fundadores do U-Sal, lá em 1998. Participou também da faixa “Banho de Chuva”, que integra o meu mais recente álbum “Prótons [Partícula Nº2]”.

    Eis a música: https://www.youtube.com/watch?v=RQI12iBit-0

    Em breve informarei os pontos de venda do livro.

  • Deus quer que eu eu malhe

    Deus quer que eu eu malhe

    Há alguns meses venho me sentindo mal com aquela barriguinha de chopp que cisma em fazer uma forma de bola em minhas blusas. 

    Contudo me encontro entre a cruz e a espada, pois não consigo parar de comer as imundices deliciosas que me cercam desde os “Chinas” até aos “Subways” – que inclusive acaba de chegar com uma linda lanchonete aqui na comunidade – e não me imagino trancado dentro de uma academia, pagando R$100/mês para levantar pesos insuportáveis (pelo menos para um cara sedentário como eu).

    Não nego, sou sedentário. Sei que isso faz muito mal à minha saúde. Trabalho há cerca de 800 metros da minha casa e vou de carro. Até para comprar pão, em uma padaria que fica próxima da minha casa, também vou de carro. Confesso que me sinto mal quando passo de carro pelas ruas e encontro meu amigo Átomo praticando sua corrida diária.

    Mas em uma curta reflexão, percebi que tenho praticado alguns exercícios mesmo sem querer, e acho que isso é uma empreitada de Deus, respondendo às minhas preces, pois todos os dias, antes de dormir, peço a Deus em minhas orações que me dê disposição para malhar ou “arrume uma forma de eu entrar em forma”.

    Aprendi que quando você pede a Deus paciência, por exemplo, ele te dá a oportunidade de praticar a paciência, colocando as criaturas mais perturbadas no seu caminho, para que você pratique.

    Mas no meu caso, eu queria disposição.

    Foi então que eu percebi que, no mês de novembro choveram todos os finais de semana, de quinta a domingo. Até aí tudo bem, mas acontece que eu aceitei o desafio de produzir 16 eventos em Morro Agudo, durante todos os finais de semana, de quinta a domingo, e choveu somente nesses dias.

    Por causa dessa chuva eu tive que subir em escadas, estender lonas, carregar caixas e correr muito de um lado para o outro. Tudo o que fosse necessário para que o evento acontecesse. De segunda a quarta não caia uma gota do céu, mas quinta-feira a chuva caía com raiva. Porém, quando acabou o mês de novembro, e consequentemente todo o meu trabalho, findou-se a chuva também.

    Daí eu pensei: E agora? Minha vida sedentária voltará ao normal?

    Não!!! Deus ainda tem muitos planos pra mim.

    Ontem, por volta da meia noite, estávamos eu e minha digníssima namorada em casa, conversando sobre a vida, quando aquela fome avassaladora se abateu sobre nós. Foi então que decidimos pedir uma pizza, porém como já era muito tarde, a pizzaria não entregava mais, sendo assim tivemos que ir buscá-la.

    Aí você pergunta: Foram caminhando?

    Claro que não, fomos de carro.

    Lá chegando, ficamos cerca de 05 minutos, pegamos a pizza e quando entramos no carro para voltar pra casa. Adivinhem…

    Meu pneu estava furado. Fiquei cerca de 20 minutos fazendo diversos exercícios que passaram por afrouxar  parafusos que pareciam estar soldados na roda, levantar o carro em um macaquinho que parecia ser um brinquedo de criança, centenas de agachamentos e retirar o estepe (que é algo extremamente bizarro de se fazer no meu carro).

    Conclusão: – Hoje amanheci na porta da academia, com um sorriso que não cabia no meu rosto e cheio de disposição.

    E uma dica pra vocês: – Cuidado com o que pedem em suas orações.