Categoria: Coluna

  • A Filosofia do Scratch: DJ Qbert e o futuro do turntablism

    A Filosofia do Scratch: DJ Qbert e o futuro do turntablism

    A lenda e sua jornada infinita nos rabiscos

    Nascido em 7 de outubro de 1969, Richard Quitevis, mais conhecido pelo nome artístico DJ Qbert, é uma lenda viva no mundo do DJing. De origem filipino-americana, Qbert é amplamente reconhecido como um dos maiores turntablists de todos os tempos, influenciando profundamente a história do DJing. Seu impacto é tão notável que ele foi nomeado o Melhor DJ dos EUA (America’s Best DJ) em 2010, através de votação popular, e venceu competições de prestígio, como o DMC USA Champion em 1991 e os títulos de Campeão Mundial do DMC em 1992 e 1993. Qbert também foi um dos membros fundadores do Invisible Skratch Piklz, um dos primeiros grupos a aplicar o conceito de banda ao turntablism, criando camadas de sons com scratch, linhas de baixo e solos sobrepostos.

    Em 1990, Qbert começou sua carreira musical no grupo FM20, com Mix Master Mike e DJ Apollo. Esse grupo logo chamou a atenção de Crazy Legs, que os convidou para se juntarem ao lendário Rock Steady Crew*. O trio, atuando como Rock Steady DJs, venceu o Disco Mix Club World DJ Championships (DMC) de 1992, solidificando sua posição na elite do DJing mundial. Ao longo de sua carreira, Qbert tem sido um líder na inovação do turntablism e um educador dedicado. Em maio de 2009, ele lançou a Qbert Skratch University (QSU), uma escola de aprendizado online que proporciona uma plataforma interativa para DJs de todo o mundo, promovendo uma comunidade vibrante de artistas do scratch.
    Em abril de 2013, durante um debate ao vivo na Skratch University, Qbert compartilhou seus pensamentos sobre a evolução do DJing, a importância da teoria do scratch e como ele encara sua jornada como um eterno estudante da arte.

    A Teoria do Scratch: explorando as profundezas do DJing

    Mesmo com sua vasta experiência e seus muitos títulos, DJ Qbert se define como um eterno estudante. “Deixe-me começar dizendo que também sou estudante. Ainda estou aprendendo coisas e realmente… Estou apenas arranhando a superfície — desculpe o trocadilho — de aprender sobre a teoria do scratch”, disse ele logo no início da discussão.
    Essa humildade e desejo constante de aprendizado são características que definem não só sua carreira, mas também sua abordagem ao ensino por meio da QSU.
    A Teoria do Scratch, segundo Qbert, vai muito além das técnicas básicas. Trata-se de uma filosofia que abrange a manipulação criativa do som e a expressão de emoções por meio do scratching. Para ele, o DJing é comparável à arte visual, onde conceitos como volume, profundidade e eco podem ser traduzidos em formas tridimensionais de som. Qbert
    menciona que Justin Bua, artista visual, que o ajudou a entender essa conexão. “Bua realmente me ensinou muitas coisas sobre pintura e arte e como isso se aplica à teoria do scratch. Ele estava falando sobre profundidade e coisas assim, e como isso é tridimensional. Eu meio que traduzi isso para o volume, você sabe, como ecoar os scratches e coisas assim.”

    Essa abordagem que mistura arte visual e DJing reflete o desejo de Qbert de expandir as fronteiras do que o scratching pode ser. Ele vê o DJing como uma forma de arte que transcende suas raízes no hip hop, uma evolução que está apenas começando. “A teoria do scratch é sobre sair do básico e começar a criar com esse novo vocabulário”, afirmou.

    Legenda: DJ Qbert byJustin BUA

    De técnicas básicas a uma nova linguagem

    Nos anos 1980, quando o scratching começou a surgir na cultura hip hop, ele era amplamente visto como uma técnica rudimentar, usada para adicionar efeitos sonoros às batidas. Hoje, Qbert vê o scratching como uma linguagem completa, que pode ser usada para expressar ideias complexas e emoções profundas. Ele explicou que, à medida que a prática do scratching evoluiu, as técnicas básicas deram lugar a uma verdadeira gramática musical, permitindo que os DJs construíssem frases e contassem histórias por meio do som.
    “Agora que sabemos como fazer scratches, a questão é por quê. A teoria do scratch é sobre sair do básico e começar a criar com esse novo vocabulário”, disse ele. Para Qbert, o scratching se tornou um idioma em que o DJ pode “conversar” com o público, criando uma narrativa sonora que vai além das batidas e dos efeitos. Essa evolução técnica é um reflexo direto do que Qbert chama de “gramática do scratch”, onde a compreensão de como os sons se entrelaçam e se sobrepõem se torna a chave para um desempenho mais dinâmico. “Começamos com scratches simples, depois as pessoas começaram a usar o crossfader, depois vieram as técnicas de flaring, o uso do vinil em velocidades diferentes, e então tudo se tornou mais sobre teoria musical, com a cor, a
    textura, as emoções, o lado espiritual”, afirmou.

    O elemento espiritual no scratching

    Um dos aspectos mais fascinantes da abordagem de DJ Qbert ao DJing é a importância que ele dá ao elemento espiritual. Para ele, o scratching não é apenas uma atividade técnica, mas também uma forma de meditação. “Às vezes, eu faço esses exercícios de meditação e, depois de cerca de 20 minutos, entro em um estado onde tudo parece se encaixar. Isso acontece com o scratching também, onde você atinge um estado de foco profundo, onde tudo flui naturalmente”, explicou.
    Qbert comparou esse estado de fluxo a um fenômeno que alguns atletas de elite experimentam, onde os movimentos parecem desacelerar, permitindo uma percepção mais clara do que está acontecendo ao redor. Ele mencionou que, durante sessões de scratching, frequentemente atinge um ponto onde suas mãos estão operando no presente, enquanto sua mente está alguns segundos à frente, antecipando os próximos movimentos.

    “Quando você entra nessa zona, seus scratches ficam assim, onde você já está pensando no próximo movimento enquanto suas mãos e o som estão no presente”, disse ele.
    Essa descrição revela a profundidade com que Qbert encara sua prática, onde o scratching se torna quase uma extensão de sua própria mente e corpo, um meio de expressão onde o
    tempo e o espaço parecem se dissolver.

    O silêncio como parte da música

    Durante a discussão, Qbert também abordou a importância do silêncio na música e no DJing. Ele destacou como as pausas e os espaços vazios podem ser usados para criar tensão e dar mais impacto ao som. “O silêncio é tão importante no scratching quanto o som em si. As pausas criam tensão, assim como na poesia ou na arte, onde o espaço negativo
    adiciona significado”, observou.
    Essa ideia de usar o silêncio como parte integral da música está em sintonia com o conceito de minimalismo em várias formas de arte, onde o que não é dito ou mostrado é tão importante quanto o que é exposto. Para Qbert, os momentos de pausa no scratching são oportunidades para o DJ criar uma expectativa no público, tornando o retorno do som ainda
    mais poderoso.

    A transição do vinil para o digital

    Embora DJ Qbert tenha começado sua carreira trabalhando exclusivamente com vinil, ele reconhece as vantagens e desafios que as tecnologias digitais trouxeram para o DJing.
    Durante a discussão, ele refletiu sobre as diferenças entre o scratching feito com vinil tradicional e o uso de sistemas digitais, como o Traktor.
    “Quando se trata de digital vs. vinil, há uma pequena diferença na sensação, especialmente para scratches mais complexos. O vinil me dá mais controle para certas técnicas, mas o
    digital é conveniente para performances ao vivo”, explicou Qbert.
    Ele mencionou que, embora o vinil ainda ofereça uma sensação única para técnicas mais avançadas, os sistemas digitais permitem que os DJs realizem performances com uma flexibilidade que seria impossível de outra forma. A capacidade de misturar faixas de diferentes fontes e manipular sons digitais em tempo real tem permitido que Qbert e outros
    DJs explorem novos territórios criativos.
    Essa flexibilidade em usar diferentes tecnologias mostra que, para Qbert, o importante não é a ferramenta em si, mas a forma como ela pode ser usada para aprimorar a expressão
    artística.

    DJ QBERT tocando AO VIVO

    A jornada contínua de Qbert

    DJ Qbert continua a ser uma força inovadora no mundo do turntablism, e sua dedicação ao ensino e à expansão das fronteiras da arte do scratching é evidente. Para ele, o DJing não é apenas sobre técnica ou performance, mas sobre criar uma conexão profunda com a música, com o público e com algo maior. Em suas próprias palavras: “Ainda estou aprendendo, e essa jornada nunca vai acabar.”
    Com uma carreira que já atravessa décadas, DJ Qbert permanece como uma inspiração para DJs em todo o mundo, mostrando que, independentemente do nível de habilidade ou
    reconhecimento, sempre há algo novo a descobrir e a explorar na arte do scratching.
    QBert centraliza suas atividades no site oficial www.djqbert.com. A plataforma oferece uma variedade de produtos como discos de vinil, roupas, equipamentos para DJs, além de
    downloads de músicas exclusivas. Também abriga a marca Dirtstyle Records, fundada pelo próprio QBert, com lançamentos e acessórios para DJs. O site é voltado tanto para fãs da
    cultura DJ quanto para profissionais, incluindo assinaturas que oferecem descontos e acesso a edições limitadas de seus produtos.

    DJ Q-Bert – Wave Twisters. Um filme de 2001.

    Notas:
    1- O Turntablism é a arte de manipular sons e criar músicas usando o toca-discos e mixer. A palavra turntablist foi criada para descrever a diferença entre um DJ, que apenas reproduz discos, de um DJ que manipula e mistura as músicas para criar um novo som.
    2- O Rock Steady Crew (RSC) foi uma equipe de breakdance criada em 1979, no Bronx, Nova Iorque.
    3- Crazy Legs é um b-boy americano, undador da Rock Steady Crew, e foi destaque nas primeiras histórias sobre breakdance que apareceram na grande imprensa.
    4- Justin Bua é um artista conhecido por suas pinturas narrativas líricas de músicos, DJs e personagens. Bua projetou e ilustrou uma infinidade de produtos que que incluem skates, capas de álbuns de CD, vestuário e campanhas publicitárias.

  • De Kingston para o mundo: a trajetória do Studio One e o nascimento do reggae 

    De Kingston para o mundo: a trajetória do Studio One e o nascimento do reggae 

    Como o Studio One, sob a liderança de Clement “Coxsone” Dodd, moldou o panorama musical da Jamaica, transformando uma ilha recém-independente na capital mundial do reggae.

    O surgimento de uma nação e o despertar cultural

    No início dos anos 1950, Jamaica ainda era uma colônia britânica, conhecida principalmente por suas plantações de açúcar e seu papel no comércio do Caribe. Após a Segunda Guerra Mundial, a ilha começou a atrair turistas de elite, com sua exuberante costa e hotéis de luxo como Round Hill e Tower Isle. As praias paradisíacas de Montego Bay e Ocho Rios transformaram a ilha em um refúgio tropical desejado.

    No entanto, ao mesmo tempo que o turismo prosperava, Kingston, a capital da ilha, fervilhava com a energia criativa que logo mudaria o cenário cultural global. Em 6 de agosto de 1962, a Jamaica conquistou sua independência do Reino Unido. A celebração foi marcada pela visita da Princesa Margaret, representando a Rainha Elizabeth, e pelo entusiasmo de uma população ansiosa por definir seu destino.

    Sir William Bustamante, o primeiro-ministro, liderou o país em uma nova era de autogoverno. Com uma economia relativamente estável, a Jamaica se preparava para enfrentar os desafios e
    oportunidades que a independência traria.

    No entanto, a verdadeira revolução jamaicana não foi apenas política – foi cultural. Nas ruas de Kingston, uma geração de jovens começava a moldar uma identidade musical única que,
    em poucas décadas, dominaria o mundo.

    A verdadeira revolução jamaicana não foi apenas política – foi cultural.

    O cenário musical em transformação

    Nos anos 1950, o gosto musical da Jamaica estava em transição. A música tradicional, como o mento e o calipso, não conquistava o público local. Em vez disso, os jamaicanos eram atraídos pelo som vibrante do R&B e do boogie-woogie norte-americano, com artistas como Louis Jordan e Fats Domino dominando as pistas de dança. As grandes festas de Kingston, conhecidas como sound systems, eram o centro da vida noturna, e foi nesse ambiente que surgiu um dos maiores pioneiros da música jamaicana: Clement “Coxsone” Dodd (☆1932 ✞ 2004).

    Coxsone, como era amplamente conhecido, nasceu em Kingston e sempre teve uma paixão pela música. No início de sua carreira, ele importava discos de R&B e jazz dos Estados Unidos e os tocava em festas organizadas por sua equipe de som, Downbeat Sound System. “Naquela época, o que fazia sucesso nas pistas de dança de Kingston era o boogie-woogie e o R&B americano”, disse Dodd em uma entrevista de 1975.

    “As pessoas queriam ouvir aquela batida pulsante, e eu sabia exatamente quais discos trariam a multidão para o salão”. Mas Coxsone não estava satisfeito em ser apenas um DJ. Ele tinha uma visão maior: criar música jamaicana original que refletisse o espírito da ilha. Nos anos 1950, ele começou a experimentar gravar suas próprias produções, recrutando músicos locais talentosos e lançando discos sob seu próprio selo. Foi assim que nasceu o Studio One, o estúdio que se tornaria o epicentro da música jamaicana.

    Studio One: a fábrica de estrelas

    Fundado em 1954, o Studio One começou modestamente, mas logo se tornou uma verdadeira instituição cultural. Clement Dodd tinha um talento único para descobrir e
    desenvolver artistas. Sob sua orientação, muitos dos maiores nomes do reggae começaram suas carreiras no Studio One, incluindo Bob Marley e The Wailers, Dennis Brown, Alton
    Ellis, Burning Spear e Toots and the Maytals.

    “Quando entrei pela primeira vez no Studio One, era só um jovem com grandes sonhos”, lembra Bob Marley em uma entrevista de 1978. “Coxsone me deu a chance de mostrar meu talento. Ele não era só um produtor, ele era um mentor. Eu e os Wailers aprendemos tudo lá dentro – desde como construir uma música até como tocar para as massas”.

    Dodd também acreditava na importância de criar uma identidade sonora jamaicana. No início, ele e seus músicos misturavam o R&B americano com elementos de música tradicional da ilha. Esse processo experimental levou ao desenvolvimento do ska, o precursor direto do reggae. “Foi uma evolução natural”, disse Dodd. “Nós queríamos algo com uma batida própria, algo que as pessoas pudessem chamar de jamaicano. E foi assim que o ska nasceu”.

    O Studio One funcionava como uma escola de música. Dodd reunia uma equipe talentosa de músicos, como o saxofonista Roland Alphonso e o trombonista Don Drummond, que formaram a banda The Skatalites, uma das mais importantes da história do ska. Com sua liderança, o Studio One produziu uma sequência de sucessos que moldariam o som da Jamaica para sempre.

    A era do Ska e a chegada do Reggae

    Nos anos 1960, o ska dominava as pistas de dança da Jamaica. O ritmo acelerado, com seus metais vibrantes e batida marcada, refletia o clima de otimismo e agitação que
    permeava a sociedade jamaicana após a independência. As festas promovidas pelos sound systems de Coxsone eram lendárias. As canções gravadas no Studio One, como “Simmer
    Down” dos Wailers e “Carry Go Bring Come” de Justin Hinds, tornaram-se hinos de umanova geração.

    No entanto, à medida que a década avançava, o clima na Jamaica começou a mudar. A tensão social e política levou a uma desaceleração no ritmo da música. O ska deu lugar ao
    rocksteady, um estilo mais lento e introspectivo, que refletia o crescente descontentamento nas ruas. “O rocksteady veio do ska”, explicou Dodd. “Nós começamos a diminuir o tempo
    das músicas, colocar mais ênfase nas letras e nas harmonias”.

    Essa evolução abriu caminho para o surgimento do reggae no final dos anos 60. O reggae, com sua batida sincopada e mensagem de resistência e espiritualidade, tornou-se a voz de
    uma Jamaica em transformação. E mais uma vez, o Studio One estava na vanguarda dessa revolução.

    LINK:

    O impacto global do Reggae

    Nos anos 1970, o reggae explodiu no cenário internacional, em grande parte graças a artistas como Bob Marley, que levaram o som da Jamaica a audiências globais. O Studio One continuou a desempenhar um papel central na produção de novos talentos e na inovação sonora. Dodd, sempre à frente de seu tempo, começou a experimentar com o dub, uma técnica de remixagem que adicionava efeitos como eco e reverb às faixas de reggae, criando uma nova dimensão musical.

    “Quando começamos a brincar com o dub, foi uma revolução”, disse Dodd em uma entrevista. “O som ficou mais profundo, mais envolvente. Era como se a música tivesse
    ganhado outra vida”. Além disso, o Studio One influenciou diretamente a cultura dos sound systems. Esses sistemas de som móveis, operados por DJs e selectors, tornaram-se o centro da cultura
    musical jamaicana, levando o reggae e o dub a cada canto da ilha e, eventualmente, para o exterior. Dodd, com sua experiência em festas de som, sabia exatamente como moldar a música para que ela ressoasse com o público.

    As lendas do Studio One

    Ao longo dos anos, o Studio One lançou uma quantidade impressionante de músicas que se tornaram clássicos. Clement Dodd não apenas produziu grandes sucessos, mas também criou uma atmosfera onde os artistas podiam experimentar e desenvolver suas habilidades. “Coxsone sempre me dizia: ‘Você tem que sentir a música, deixar ela te guiar’“, disse Dennis Brown, um dos maiores nomes do reggae, em uma entrevista de 1981.

    Ele nos dava liberdade para criar, mas também sabia como nos direcionar”. O Studio One era mais do que um estúdio de gravação – era um espaço de colaboração e aprendizado. Músicos como Jackie Mittoo, Leroy Sibbles e Marcia Griffiths se reuniam ali para criar músicas que seriam ouvidas por todo o mundo. “Era uma verdadeira família”, recorda Griffiths. “Nós passávamos horas e horas no estúdio, experimentando novas ideias, tocando e aprendendo uns com os outros. Aquela energia criativa era única”.

    O legado de Clement “Coxsone” Dodd

    Clement Dodd faleceu em 2004, mas seu legado permanece vivo. O Studio One é amplamente reconhecido como um dos estúdios mais importantes da história da música. O impacto de Dodd na criação e disseminação do reggae e suas inovações no ska e dub deixaram uma marca indelével na cultura musical global.

    “Ele foi o grande visionário”, disse Alton Ellis em uma homenagem a Dodd. “Sem ele, a música jamaicana não seria o que é hoje. Ele abriu as portas para tantos de nós e nos deu uma plataforma para mostrar nossa arte ao mundo”.

    Hoje, o Studio One é reverenciado como o “Motown do reggae”, e seu catálogo é um dos mais influentes e amplamente reconhecidos na música popular. De Bob Marley a Sean Paul, as influências do Studio One podem ser ouvidas em praticamente todos os cantos da música contemporânea. Com milhares de gravações inéditas guardadas em seus cofres, o Studio One continua a ser uma fonte de inspiração para artistas e produtores em todo o mundo.

    LINK:

     

    “Real Rock”: o riddim que transformou o Reggae

    “Real Rock” é uma canção instrumental de reggae da banda jamaicana Sound Dimension. Gravada em 1967 e lançada como single em 1968 pelo Studio One, a faixa foi produzida por Clement “Coxsone” Dodd e contou com a participação de Eric Frater (guitarra), Boris Gardiner (baixo), Phil Callender (bateria), Denzel Laing (percussão), Vin Gordon (trombone) e Jackie Mittoo (teclados), que tocou o icônico riff de três notas no órgão Hammond.

    A importância de “Real Rock” vai além de ser apenas uma música instrumental. Ela deu origem a um dos riddims mais populares da história do reggae, sendo reinterpretada centenas de vezes por artistas de diversos gêneros, incluindo The Clash, KRS-One e 311. Em um artigo de 2004 do The New York Times, Clement Dodd afirmou que considerava “Real Rock” seu maior feito. “Real Rock é realmente forte. Está no topo”, disse ele com um sorriso. Na mesma entrevista, Dodd mencionou sucessos dos Wailers, como “One Love” e “Simmer Down”.

    O riddim de “Real Rock” se destacou por sua simplicidade hipnótica: uma nota de baixo seguida por uma sucessão rápida de notas mais leves, criando uma batida cativante e repetitiva. Gravada em uma tarde por Dodd com sua banda Sound Dimension, esse som único deu origem a um estilo de reggae conhecido como “rub a dub”, voltado para danças lentas e profundas, e rapidamente se tornou um dos riddims mais regravados na história da música jamaicana.

    “Real Rock” foi construída em torno de uma base sólida liderada pelo baixo de Boris Gardiner, com a contribuição de Phil Callender na bateria e Jackie Mittoo ao órgão. Mittoo, conhecido por seu talento visionário, inseriu acordes precisos no espaço antes da queda do baixo, definindo a estrutura hipnótica do riddim.

    A partir daí, “Real Rock” fez ondas na cena do reggae, sendo usada em diversos estilos, como dub, dancehall, punk rock e até hip hop. Sua influência foi tão abrangente que artistas de várias partes do mundo passaram a “versionar” o riddim em suas próprias canções.

    Entre as versões mais notáveis estão “Rockers’ Rock” de Augustus Pablo e “Keep In Touch” de Sizzla.

    Lista parcial de canções que usaram o riddim de “Real Rock”:
    1967 – “Real Rock” – Sound Dimension
    1973 – “Rockers’ Rock” – Augustus Pablo
    1978 – “Stop The Fussing & Fighting” – Dennis Brown
    1983 – Ababa John I (Father Majesty) – Don Carlos
    1990 – “The Real Rock” – Shinehead
    2003 – “Keep In Touch” – Sizzla
    2019 – Koffee – Raggamuffin

    Com o passar dos anos, “Real Rock” continuou a ser um pilar no reggae e em muitos outros gêneros musicais. Sua presença nas pistas de dança, nos Sound Systems e até em grandes palcos internacionais atesta sua relevância duradoura.

    Uma Ilha, Um Som, Um Mundo

    A jornada da Jamaica, de colônia britânica a nação independente, é inseparável da evolução de sua música. O Studio One, sob a liderança visionária de Clement Dodd, não apenas moldou o som de uma nação, mas também transformou a Jamaica em um centro global de inovação musical. O reggae, nascido das ruas de Kingston, ecoou pelo mundo, levando consigo uma mensagem de resistência, espiritualidade e unidade.

    “Não éramos apenas músicos”, disse Burning Spear, refletindo sobre seus dias no Studio One. “Estávamos criando algo maior do que nós mesmos, algo que uniu pessoas de todos
    os lugares. Essa era a magia do Studio One”.

    Referências:

    KENNER, Rob. ‘Real Rock’ Through the Ages. The New York Times, 23 de maio de 2004.
    BAKER, Stuart. Studio One Story [documentário]. 2003.

  • OffStep: Solução ou armadilha para o artista?

    OffStep: Solução ou armadilha para o artista?

    O sonho de ser músico e levar sua arte ao mundo está cada vez mais presente entre jovens das periferias.

    A música sempre foi uma ferramenta de expressão e resistência, e com as novas tecnologias, qualquer pessoa com acesso à internet pode gravar e distribuir suas faixas em plataformas como Spotify, Apple Music e YouTube. Nesse cenário, surgem empresas como a One RPM, com o serviço OffStep, que promete distribuir músicas em mais de 45 plataformas, mantendo 100% dos royalties.

    Mas será que esse modelo é realmente vantajoso para um jovem músico sem financiamento?

    O que o OffStep oferece?

    O principal atrativo do OffStep é seu baixo custo: 12 dólares por ano para distribuição ilimitada de músicas, mantendo todos os royalties para o artista. Em tempos de crise, isso parece tentador. A plataforma também oferece ferramentas avançadas de marketing e análise de dados nos planos intermediário e avançado, o que promete ajudar os artistas a alcançar mais público e entender o impacto de suas músicas.
    Entretanto, jovens de periferia, sem suporte financeiro, precisam analisar essas promessas com cautela.

    Ponto positivo: acesso rápido à distribuição

    Talvez o maior ponto positivo do OffStep seja a facilidade de uso. Com poucos cliques, você pode cadastrar suas músicas e distribuí-las nas principais plataformas de streaming, sem intermediários ou grandes investimentos iniciais. Para quem está começando do zero, isso pode parecer atraente.

    O músico e criador de conteúdo Nando Ramos, que promoveu o serviço, descreve: “A offstep é simples, rápida e intuitiva. Suba e distribua quantas músicas quiser, ou seja, ilimitado”.

    Essa simplicidade pode parecer uma vantagem para quem não tem experiência, mas o músico e produtor Gustavo Vasconcelos, da GRV, questiona se essa agilidade realmente beneficia o artista no início da carreira. Segundo ele, “O positivo seria o artista, no início, receber uma informação correta e precisa, ter apoio de alguém. Essa coisa da agilidade é questionável. Prefiro a alternativa que me dá mais segurança”.

    Vasconcelos critica a ideia de que agilidade, por si só, seja um benefício, principalmente para músicos que estão começando. Ele afirma que “como estamos falando de obra e música, que são patrimônios criativos do artista, não acho positivo excluir a possibilidade de uma iniciação assistida em troca de agilidade”.

    Ponto negativo: custos ocultos

    Apesar do baixo valor inicial, é importante lembrar que 12 dólares por ano podem não ser acessíveis para quem vive na periferia, muitas vezes com empregos informais. Além disso, esse valor refere-se apenas ao plano básico, com recursos limitados. Para utilizar ferramentas de marketing e análise mais avançadas, os custos sobem.

    Outro ponto a se considerar é que a One RPM, sendo uma multinacional dos EUA, mantém uma relação comercial que pode favorecer a empresa em vez do artista. Planos intermediário e avançado cobram por recursos que podem ser encontrados em plataformas mais baratas ou até gratuitas, criando barreiras para jovens músicos que não têm como arcar com esses custos.

    Dependência de empresas estrangeiras

    Optar por uma distribuidora estrangeira como a OneRPM pode significar depositar a carreira nas mãos de uma empresa que não compreende as necessidades dos músicos brasileiros.

    O mercado musical no Brasil tem suas particularidades, e grandes corporações estrangeiras podem não estar alinhadas à realidade de músicos de periferia, que enfrentam desafios financeiros e de infraestrutura.

    Alternativa nacional: a GRV como solução

    Uma solução mais adaptada à realidade brasileira é a GRV, uma distribuidora musical nacional que entende as necessidades do mercado local. Fundada em 1993, a GRV oferece suporte para músicos iniciantes e consagrados, com um serviço de distribuição eficiente e foco na música brasileira e independente.

    Além de distribuir músicas, a GRV oferece uma assessoria completa, desde o registro de músicas até o suporte jurídico, garantindo que o artista compreenda e proteja seus direitos.

    A empresa também está conectada à realidade econômica do país, praticando valores em reais, o que evita as flutuações do dólar, algo vantajoso para quem tem poucos recursos.

    GRV: uma solução completa e acessível

    A GRV se diferencia por seu atendimento personalizado e uma equipe qualificada que compreende as dificuldades enfrentadas pelos músicos no Brasil. Além da distribuição de fonogramas e vídeos, a GRV oferece:

    ● Licenciamento e comercialização de obras em mídias digitais e audiovisuais.
    ● Sincronização e clearance, facilitando o uso das músicas em filmes, séries ou campanhas publicitárias.
    ● Criação de estratégias de marketing digital, com promoção de músicas em vitrines digitais, pré-saves e campanhas promocionais.
    ● Transparência na gestão de direitos autorais, com prestação de contas trimestral e acompanhamento detalhado dos ganhos.

    Transparência e resultados

    Um dos grandes diferenciais da GRV é a transparência. A empresa se responsabiliza pela gestão de direitos autorais, garantindo que o pagamento seja feito diretamente pelas plataformas digitais, sem burocracia para o artista.

    Além disso, os relatórios de prestação de contas são disponibilizados trimestralmente na Rede Célula, permitindo que o músico acompanhe suas receitas e entendimentos financeiros com clareza.

    OffStep é para você?

    Para o jovem músico da periferia, o OffStep pode parecer uma solução rápida, mas é importante avaliar os custos e a real acessibilidade dos recursos oferecidos. O plano básico pode não ser suficiente para impulsionar uma carreira, e os planos mais completos podem se tornar caros, especialmente no cenário econômico brasileiro.

    Por outro lado, a GRV oferece uma alternativa mais justa e adequada ao mercado nacional. Com serviços pensados para músicos independentes, a empresa entende as dificuldades de quem não tem financiamento para promover sua arte e oferece soluções acessíveis e transparentes.

    Portanto, antes de optar por plataformas internacionais que muitas vezes não priorizam os interesses dos pequenos artistas, vale a pena explorar opções nacionais como a GRV, que proporciona o suporte necessário para construir uma carreira sólida no Brasil.

  • Imersão Enraizados: Um encontro cultural entre Chile, Estados Unidos e Brasil no Quilombo Enraizados, em Nova Iguaçu, na próxima terça (13).

    Imersão Enraizados: Um encontro cultural entre Chile, Estados Unidos e Brasil no Quilombo Enraizados, em Nova Iguaçu, na próxima terça (13).

    Na próxima terça-feira, 13 de agosto, o Quilombo Enraizados sediará uma atividade cultural especial intitulada “Imersão Enraizados”.

    Esta imersão é composta por uma série de atividades realizadas por artistas e ativistas do Instituto Enraizados com o objetivo de apresentar a instituição para parceiros e visitantes.

    A programação inclui um café da manhã, que oferece uma oportunidade para interação com os anfitriões, seguido por um tour pelas instalações do Quilombo. Em seguida, haverá uma apresentação formal dos projetos desenvolvidos pelo instituto, culminando em um mix de atividades culturais, como exposições, sarau de poesias e uma batalha de rimas.

    Tour pelas instalações do Quilombo Enraizados.

    A Imersão Enraizados é aberta ao público, permitindo que qualquer pessoa interessada participe, desde que se inscreva previamente com a equipe do Instituto através do whatsapp (21)9.6566-8219.

    Nesta edição, estarão presentes a produtora cultural Fabiana Menini, de Porto Alegre, o rapper chileno MC Egrosone e o produtor musical chileno Mauro QuJota, além de uma comitiva de seis estudantes da Duke University, liderada pelo historiador e professor Dr. John French.

    Este evento marcará o início de uma série de atividades culturais e educacionais que acontecerão ao longo dos dez dias em que a comitiva americana estará em Nova Iguaçu. Enquanto os artistas chilenos permanecerão na cidade até o dia 14 de agosto, a comitiva americana ficará até o dia 21. Embora tenham vindo para diferentes atividades no Instituto Enraizados, todos estarão reunidos nesta imersão.

    Os estudantes da Duke University que chegam em Nova Iguaçu nesta segunda-feira (12) fazem parte do projeto “Activism, Culture and Education for Citizenship in Brazil and the U.S.”, projeto este que reúne acadêmicos, artistas e estudantes da Duke University, North Carolina Central University (NCCU), Instituto Enraizados e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, com o objetivo de investigar as principais formas de ativismo e organização cultural em Morro Agudo, abrangendo movimentos negros, de mulheres e LGBTQ+, além da memorialização da escravidão e das expressões religiosas e musicais locais.

    Dorgo durante apresentação artística.
    Dorgo durante apresentação artística.

    A equipe do projeto também examinará questões como eleições, lutas urbanas e trabalhistas, especialmente entre professores de escolas públicas. O resultado desta pesquisa será apresentado em uma conferência internacional de pesquisa que será realizada em março de 2025, na Duke University e na NCCU, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

    Os estudantes da Duke University que estarão nesta viagem incluem Julian Alvarez, candidato a PhD no Departamento de História; Rhayssa Braz, estudante do terceiro ano na Duke Kunshan University; Yuri De Melo Costa, de Juiz de Fora, Minas Gerais, especializado em Economia e Estudos de Políticas Públicas; Akshay Gokul, estudante do terceiro ano, especializado em Política Pública e Economia; e Travis Willian, que possui formação em Direito e Serviço Social, atualmente estudando Teologia na Duke University. Para todos eles, exceto os brasileiros, esta será a primeira visita ao Brasil.

    Durante a “Imersão Enraizados”, eu, Dudu de Morro Agudo, apresentarei formalmente o Instituto Enraizados, compartilhando um pouco da nossa história e destacando os principais projetos e programas que desenvolvemos. A programação contará com a exposição “Nós Todes”, de Aline Ignácio, e a exposição fotográfica “Meu Bairro, Meu Ambiente”.

    Além disso, teremos intervenções poéticas de Lisa Castro, Baltar, Aclor, e outros talentosos poetas, uma emocionante batalha show com Jovem RD e Kr7, e para completar, DJ Dorgo comandará a discotecagem, garantindo a trilha sonora do evento.

    Lisa Castro durante apresentação artística.

    Este evento promete ser um marco na troca cultural e na construção de laços entre o Instituto Enraizados e seus parceiros internacionais, destacando a importância da cultura, do ativismo e da educação como ferramentas de transformação social.

    Todos e todas estão convidados a participar desta imersão e a vivenciar de perto o que faz do Quilombo Enraizados um espaço de resistência, criatividade e conhecimento compartilhado.

    Não perca a oportunidade de fazer parte deste encontro que unirá talentos, histórias e perspectivas diversas em um ambiente de aprendizado e celebração.

    SAIBA MAIS:
    Imersão Enraizados
    Data: 13 de agosto de 2023
    Horário: 10h às 13h
    Local: Quilombo Enraizados, Rua Presidente Kennedy, 41, Morro Agudo, Nova Iguaçu, RJ

  • A revolução silenciosa: hip hop e inclusão educacional

    A revolução silenciosa: hip hop e inclusão educacional

    Olá artistas, educadores, amigos e leitores dessa coluna (quase) semanal. rsrsrsr

    No meu texto de hoje quero compartilhar com vocês uma reflexão que venho fazendo sobre hip hop e educação. É um texto que está em aberto, por isso sintam-se a vontade para criticar, pois seus comentários e críticas são extremamente valiosos e contribuirão significativamente para o avanço desta reflexão.

    Vamos nessa???

    Desde os primeiros passos na cultura hip hop, minha jornada tem sido uma imersão profunda em uma escola de vida única. Posso afirmar que a cultura hip hop foi a universidade mais extensa que participei (participo) ao longo da minha vida, afinal são 30 anos dedicados a essa cultura.

    Mais do que uma expressão artística, o hip hop tornou-se um veículo de conhecimento e resistência, moldando não apenas minha visão de mundo, mas também a de muitos outros jovens que, como eu, à época, encontraram nesse movimento uma forma de compreender e questionar a realidade ao seu redor.

    O hip hop, com suas quatro manifestações principais —rap, break, graffiti e DJ— sempre foi mais do que apenas entretenimento. Ele é uma resposta cultural às condições sociais e econômicas das periferias, um espaço de contestação e construção de identidade. Para mim, essa cultura foi uma porta de entrada para um universo de ideias e experiências que a educação formal muitas vezes ignorou ou marginalizou.
    Através do rap, fui apresentado a livros e autores, discos e compositores, que jamais teria conhecido de outra forma.

     

    Alguns autores e seus textos, cantores e suas letras, passaram a fazer parte do meu repertório intelectual, muitas vezes traduzidos e adaptados pelas letras de artistas que admiro, como Mano Brown. Essas influências ajudaram a formar uma consciência crítica sobre as estruturas de poder e desigualdade, tanto locais quanto globais. Essa formação autodidata, impulsionada pela curiosidade e pelo desejo de compreender o mundo, complementou e, em muitos aspectos, superou a educação formal que recebi.

    Não quero com isso afirmar que o hip hop substitui de alguma forma a educação formal, não é isso, minha própria história poderia contradizer tal afirmativa, pois estou prestes a concluir meu doutorado em educação na Universidade Federal Fluminense (UFF), e trabalho de forma muito próxima a universidades e institutos federais, como a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e o Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), e até mesmo universidades internacionais como a Duke University e a North Carolina Central University (NCCU).

    O hip hop me fez valorizar a educação formal e compreender a importância de participar e colaborar com essas instituições. No entanto, essa riqueza cultural e educativa proporcionada pelo hip hop raramente é reconhecida ou valorizada nas instituições de ensino tradicionais. A inclusão de elementos dessa cultura em currículos escolares e em projetos culturais talvez seja uma forma poderosa para engajar estudantes e promover uma educação mais inclusiva e contextualizada. O RapLab, por exemplo, é uma iniciativa que busca explorar o rap como uma forma de produção de conhecimento em rede. Ao debater questões sociais, políticas e culturais de maneira sensível, acessível e relevante para as realidades desses jovens.

    O hip-hop me trouxe de volta à escola, desta vez como um rappereducador. Como alguém que valoriza a diversidade de conhecimentos, meu objetivo é disseminá-los em lares, escolas, ruas, praças, centros culturais, universidades, etc., por meio de escritos, músicas e das vozes poderosas de quem frequentemente não é tido como produtor de conhecimento. O hip-hop tem descolonizado minha mente há 30 anos.

    A integração do hip hop na educação não é apenas uma questão de representar culturas marginalizadas; é uma questão de justiça educacional. Os educadores e as escolas têm a responsabilidade de reconhecer e valorizar as diversas formas de conhecimento e expressão que seus alunos trazem para a sala de aula. Incorporar o hip hop e outras culturas urbanas nos currículos é uma forma de legitimar essas experiências e oferecer uma educação mais significativa e transformadora.

    No final de 2023, tive a oportunidade de liderar duas sessões do RapLab em uma escola em Ramos, no Rio de Janeiro. Foram três dias de interação com pré-adolescentes dessa escola, refletindo sobre questões raciais, com a presença de professores e diretores. No primeiro dia, tivemos um momento para nos conhecermos e ganharmos confiança uns nos outros; no segundo dia, focamos na produção intelectual; e no terceiro dia, infelizmente, foi o dia da despedida.

    Produzimos duas músicas incríveis que se tornaram uma só, pois se completavam devido ao tema. Os estudantes chamaram o diretor da escola e exigiram que aulas de rap fossem incluídas no currículo escolar. Lembro que o diretor comentou que uma pequena revolução havia começado na escola.

    DJ Dorgo ministrando o encontro do RapLab em uma escola de Ramos.
    DJ Dorgo ministrando o encontro do RapLab em uma escola de Ramos.

    Senti uma saudade de algo que ainda não tinha visto nem vivido. Percebi que, se trabalhasse durante um ano com aquelas crianças, poderíamos alcançar resultados incríveis ao final do ano. Imaginei uma sala de aula repleta de referências negras, do hip-hop e das periferias do Rio de Janeiro, com estúdio musical, câmeras de vídeo, jogos e tudo mais que pudesse permitir o máximo desenvolvimento desses jovens.
    Logo, entretanto, tirei essa ideia da mente, pois parecia distante da nossa realidade. No entanto, em março de 2024, tive a oportunidade de viajar para Athens, na Geórgia, Estados Unidos, e conheci uma escola onde o professor era rapper. A sala de aula superava tudo o que eu havia imaginado.

    William Montu I Miller, mais conhecido como Montu, é escritor, poeta, mentor e organizador comunitário, além de professor na Cedar Shoals High School. Ele também é o Embaixador da Comunidade Hip-Hop de Athens.

    Montu é escritor professor na Cedar Shoals High School
    Montu é escritor professor na Cedar Shoals High School
    Travis Willians, Dudu de Morro Agudo e John French na Cedar Shoals High School, em Athens, na Georgia.
    Travis Willians, Dudu de Morro Agudo e John French na Cedar Shoals High School, em Athens, na Georgia.
    Sala de aula da Cedar Shoals High School, em Athens, na Georgia.
    Sala de aula da Cedar Shoals High School, em Athens, na Georgia.

    Os projetos culturais que envolvem o hip hop podem atuar como espaços de resistência e empoderamento. Eles não apenas oferecem aos jovens uma plataforma para expressar suas vozes, mas também os conectam com uma comunidade maior de pensadores e artistas que compartilham suas lutas e aspirações. Esses espaços permitem que os jovens se vejam como agentes de mudança, capazes de transformar suas realidades e contribuir para uma sociedade mais justa.

    Em resumo, o hip hop desempenhou um papel crucial na minha formação e continua a ser uma força vital na educação de muitos jovens. Sua inclusão em currículos escolares e projetos culturais é essencial para construir uma educação que valorize a diversidade, promova a equidade e capacite os estudantes a se tornarem cidadãos críticos e conscientes. É através dessas vivências que podemos vislumbrar um futuro onde todas as formas de conhecimento sejam reconhecidas e celebradas.

    É isso, chegamos ao fim!!!

    Se você discorda, concorda ou tem outras ideias, não deixe de escrever nos comentários e que certamente eu responderei.

    Até mais!!!

  • O Impacto da Technics SL-1200 na evolução da música

    O Impacto da Technics SL-1200 na evolução da música

    A Technics SL-1200 revolucionou a cena musical dos anos 70, contribuindo para o nascimento do turntablism. Feito de aço e alumínio, pesa cerca de 12 kg. Seu prato de 33 cm e 1,75 kg é movido diretamente por um motor Direct-Drive, garantindo tração forte e alto torque. Lançado em 1972, o SL-1200 rapidamente se tornou um padrão na indústria musical, especialmente entre DJs, devido à sua robustez, precisão e funcionalidades inovadoras.

    O design do SL-1200 foi criado por Shuichi Obata da Matsushita Electric Industrial. Embora “SL” possa significar “Stereo Lightweight”, isso não está confirmado no manual do equipamento. O SL-1200 é renomado por sua durabilidade e precisão, popular entre DJs e fãs de vinil.

    A marca Technics foi fundada pela Matsushita, criada por Konosuke Matsushita em 1918. Technics foi lançada em 1965 para produtos de áudio de alta fidelidade. Konosuke Matsushita é amplamente reconhecido como um dos maiores empresários do Japão, e sua empresa cresceu para se tornar uma das maiores e mais influentes fabricantes de eletrônicos do mundo.

    Atualmente, a Technics opera sob a Panasonic Corporation, sem um CEO específico, sendo gerida por executivos da estrutura da Panasonic.

    Revolução do DJ: Technics SL-1200

    Ao permitir scratches perfeitos, esse toca-discos molda a cultura do DJ e muda a história da música para sempre. O motor Direct-Drive, junto com o braço em formato de “s”, possibilita um controle excelente sobre a velocidade do prato. Você pode mexer no disco e ainda manter uma velocidade constante (graças ao motor), voltando quase instantaneamente à rotação desejada. Isso garante uma performance confiável, sem ruídos ou perda de qualidade do áudio durante a discotecagem.

    Gênios como Kool Herc, Wizzard Theodore e Afrika Bambaataa, três dos DJs mais importantes de suas épocas, inventam as técnicas de scratching — as famosas arranhadas em discos de vinyl — e mudam o mundo da música para sempre. Mais do que um excelente toca-discos, o SL-1200 é o instrumento certo na hora certa, abrindo portas para a criação de diversos gêneros musicais e de toda uma cultura em torno dos DJs.

    Modelos Technics que modelaram a forma de discotecar.

    SL 1200 (1972)

    O SL-1200 foi o primeiro toca-discos padrão para discotecas, lançado em 1972. Com um sistema de acionamento direto, oferecia rotação estável e torque poderoso, ideal para a cultura disco. A primeira geração do SL-1200 estava repleta de muitas funções que os DJs desejavam, por isso rapidamente se tornou um toca-discos padrão para DJs.

    SL 1200 – MK2 (1979)

    O SL-1200MK2, lançado em 1979, foi o primeiro toca-discos Hi-Fi projetado para DJs. Incorporou o sistema Quartz Lock para controle preciso de rotação e um controlador de fader para ajuste de pitch. Seu gabinete de absorção de vibração e design robusto transformaram-no em um “instrumento musical” essencial para DJs

    As concorrentes

    Os toca-discos Technics SL-1200 são reconhecidos pela sua qualidade, durabilidade e precisão, tornando-se um padrão na indústria de DJs. No entanto, outras marcas como Pioneer DJ, Numark, Reloop, Audio-Technica e Denon DJ também oferecem produtos de alta qualidade que competem diretamente com os Technics SL-1200.

    Abaixo, analisei algumas das principais marcas concorrentes:

    1 – Pioneer DJ: O PLX-1000 é comparado ao Technics SL-1200 pelo design robusto e funcionalidades semelhantes, destacando-se pela estabilidade e confiabilidade.
    2 – Numark: O TTXUSB é popular pela flexibilidade e recursos avançados, incluindo motor de torque ajustável e saídas USB, combinando funcionalidade e inovação a um preço acessível.
    3 – Reloop: A Reloop RP-7000 MK2 é um concorrente direto dos Technics SL-1200, conhecida por sua tecnologia moderna e design clássico, atraindo DJs profissionais e amadores.
    4 – Audio-Technica: O AT-LP1240-USB oferece construção sólida e conectividade USB, sendo uma alternativa confiável aos Technics.
    5 – Denon DJ: O VL12 Prime destaca-se pela construção robusta, torque ajustável e luzes LED personalizáveis, proporcionando uma experiência premium com tecnologia de ponta.

    Rappers e suas referências as lendárias Technics

    Muitos rappers se referem ao toca-discos simplesmente como “emekás”, “1200”, “Technics”, “Tec 12” e “ones and twos”. Essas músicas destacam a importância dos toca-discos na cultura do hip-hop e mostram como os DJs e suas técnicas de são fundamentais para a cultura.

    Aqui estão algumas músicas de rap que mencionam os toca-discos, particularmente os Technics SL-1200, também conhecidos como “1200”, “Technics”, “Tec 12” e “ones and twos”:

    1. “Peter Piper” – Run-D.M.C.

    Letra: “He’s the king of scratch and he’s here to stay / With Grandmaster flash and the Furious Five / Run-D.M.C. and the DJ on the rise / The king of the cuts with a Tech and two twelves / Sucker DJs, he be paying your dues.”

    2. “The Magnificent Jazzy Jeff” – DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince

    Letra: “He’s the magnificent / Jazzy Jeff / He’s a DJ, I’m the rapper, he’s the one and twos / With a touch of finesse and the cuts are fresh.”

    3. “The 18th Letter” – Rakim

    Letra: “Check out my melody / I want you to hear me out / I want to live my life / I’m here for one night / I’m the microphone fiend / On the ones and twos / With the Technics.”

    4. “Respect the Architect” – Guru (feat. Bahamadia)

    Letra: “DJ on the 1 and 2’s / Technics, the wheels of steel / The architects of hip-hop.”

    5. “The Symphony 2000” – Marley Marl (feat. Big Daddy Kane, Kool G Rap, Craig G & Masta Ace)

    Letra: “I come in peace, but I do not cease / To wreck your set with my 1200 Techs / You can guess the rest.”

     

    “Colagens, batidas, viradas em contratempo. É coisa pra quem tem talento. DJ que é DJ, nunca foge da raia. Troca a cápsula, dá início na batalha. O representar, os pratos. Esquenta. Faz gostoso. Risca nervoso. Sente firmeza, mano… Põe o vinyl nos toca-discos e não deixa pular. DJ que é DJ representa as MKs. Risca, risca. Buvu buvu pá. Só peso, peso, peso. Buvu buvu pá.”
    (Escravo das MK`s – Estrutura Verbal)

     

    E surgiram mil novos DJs

    Nos anos 70, conseguir equipamento de som era um baita desafio pra quem queria ser DJ. Pra começar, você precisava de pelo menos 2 toca-discos, caixas de som, um mixer e uma coleção de discos de vinyl. Tudo isso custava uma grana que a maioria dos jovens no Bronx não tinha.

    Aí vem a famosa história do apagão de 13 de julho de 1977. A cidade de Nova York estava no escuro total, e muitos aproveitaram para saquear lojas. Foi nesse caos que muitos jovens conseguiram seus primeiros equipamentos de DJ. Esse apagão rolou bem no meio de uma crise financeira pesada, e 31 bairros foram atingidos por saques e vandalismo.

    DJ Grandmaster Caz, um dos pioneiros do Hip Hop no Bronx, contou à revista Slate que aproveitou a oportunidade: “Fui até o lugar onde comprei meu primeiro equipamento de DJ e peguei um mixer pra mim”, disse ele. “A diferença antes e depois do blecaute foi enorme”.

    Esse evento foi tão marcante que inspirou o episódio 4 (“Esqueça a Segurança, Seja Notório”) da primeira temporada da série The Get Down, que mostra imagens reais daquela época.
    Antes do apagão, alguns DJs já eram conhecidos, como Kool Herc, Afrika Bambaataa, Grandmaster Flash, Disco Wiz, Grandmaster Caz e o Funky Four Plus One. Mas depois do blecaute, segundo Grandmaster Caz, o número de DJs explodiu: “surgiram mil novos DJs”.

    Technics MKs no DMC World DJ Championships

    Ganhar o DMC World é o maior prêmio para qualquer turntablist. Vestir a famosa DMC World Champion Jacket é o maior prêmio no DJing.
    Os toca-discos Technics MK foram os primeiros modelos usados no “DMC World DJ Championships”, ou “Campeonato Mundial de DJs do DMC”. Esse evento, fundado em 1985, é uma das competições de DJ mais prestigiadas do mundo, reunindo talentos de diversos países para mostrar suas habilidades em técnicas de mixagem e scratching.

    Os modelos SL-1200MK2 e suas variações tornaram-se os equipamentos padrão devido à sua robustez, precisão e confiabilidade. O motor e o braço em “S” oferecem o controle necessário para performances complexas e criativas, características fundamentais para os DJs competidores. Esses toca-discos permitem que os DJs executem movimentos rápidos e precisos, mantendo a estabilidade do áudio e minimizando a distorção, essencial para uma performance de alto nível.

    A Technics, ao fornecer os SL-1200MK2 para o campeonato, solidificou sua reputação na comunidade DJ. Esses toca-discos não eram apenas ferramentas; tornaram-se ícones culturais, simbolizando a habilidade e a inovação dos DJs. O impacto dos Technics MKs no DMC World DJ Championships ajudou a definir padrões de qualidade e performance, influenciando gerações de DJs e a evolução do Hip Hop.

    A escolha dos SL-1200MK2 para o DMC World DJ Championships não foi apenas uma questão de conveniência, mas um reconhecimento de que esses toca-discos ofereciam a melhor plataforma possível para que os DJs mostrassem suas habilidades. A precisão e a durabilidade dos Technics permitiram que os DJs se concentrassem em sua arte, levando o nível das competições a novas alturas e ajudando a expandir a popularidade do turntablism em todo o mundo.

    Desde a sua introdução no DMC, os Technics SL-1200MK2 e seus sucessores continuam a ser reverenciados como os toca-discos de escolha para DJs profissionais, tanto em competições quanto em performances ao vivo. A história dos Technics no DMC World DJ Championships é um testemunho da importância desses toca-discos na cultura DJ e na música moderna.

    Quando as Technics saíram de cena: o impacto no mundo dos DJ

    O ano era 2010 e os fãs de vinyl sofreram um golpe quando a Panasonic anunciou que descontinuaria os produtos analógicos da marca Technics, incluindo a lendária linha de toca-discos.
    Em 20 de outubro, a empresa informou que estava encerrando a produção do toca-discos Technics SL-1200MK6, devido a desafios no mercado.

    “A Panasonic decidiu encerrar a produção devido ao declínio na demanda por produtos analógicos e à dificuldade de adquirir componentes necessários”, disse a empresa em comunicado ao The Tokyo Reporter.
    No ano anterior, a última fábrica de prensagem de vinyl do Japão, Toyo Kasei, havia produzido cerca de 400.000 discos, muito longe do pico de 70 milhões há quatro décadas. A Panasonic afirmou que as vendas dos toca-discos representavam aproximadamente 5% do valor de dez anos antes. Naquele momento, a empresa não tinha planos de relançar toca-discos analógicos.

    Desde 1972 até 2010 foram produzidas mais de 3,5 milhões de unidades, tornando o logotipo da Technics um ícone nas casas noturnas.
    A comunidade de DJs do Japão reagiu. Tatsuo Sunaga, conhecido como “The Record Chief”, lamentou o anúncio: “Uso esses produtos há cerca de 20 anos e raramente tive problemas. Essa excelência é rara, e o fato de não precisar comprar modelos subsequentes força a mudança.” Mesmo com a diminuição na produção de toca-discos, Sunaga acreditava que os amantes do vinyl não permitiriam que o formato se tornasse extinto. “Não acho que os usuários perderão o interesse”, disse ele.

    Na mesma época, as técnicas de mixagem digital se difundiam entre os DJs, que passaram a usar mais computadores do que toca-discos. Os LPs também ficaram fora das prateleiras por algum tempo. Mas, com a retomada no mercado dos discos de vinyl nos últimos anos, em 2019, a Technics retomou a produção da série com o lançamento da sétima geração do lendário aparelho. Em 2022, para comemorar os 50 anos do SL-1200, foi anunciada uma edição limitada de 12.000 exemplares do novo Technics SL-1200MK7L.

    Modelos 2024

    Atualmente, a Technics oferece quatro linhas de toca-discos: DJ Series, Grand, Premium e Reference. O modelo SL-1200MK7 (DJ Series) custa cerca de mil e cem dólares, ou seis mil reais, sendo o menor valor no site oficial da empresa. Na série Grand, estão disponíveis os famosos toca-discos nas cores prata e preto, semelhantes aos clássicos, mas com novas ferramentas e tecnologia aprimorada. Os valores podem chegar até 4 mil dólares.

    Recentemente, a empresa lançou uma colaboração entre a Technics e a Automobili Lamborghini. Como a escolha preferida dos DJs do mundo todo, a Série SL-1200 agora inclui o SL-1200M7B, que reúne os conceitos de som das duas marcas. Este modelo inclui um LP de vinyl com os sons dos motores dos carros principais da Lamborghini, um slipmat e adesivos com designs exclusivos, além da mais alta qualidade de som e funções de DJ abrangentes. O LP tem a imagem de um pneu do modelo mais recente da Lamborghini, o Revuelto.

    Onde comprar?

    Aqui no Brasil é possível encontrar alguns modelos no Mercado Livre, sendo que os preços dos Technics SL 1200 usados variam bastante dependendo do modelo e da condição. Os mais caros são geralmente aqueles que estão mais próximos da condição de ‘como novos’.

    Imortalidade

    O equipamento está imortalizado em exibição permanente no Museu de Ciências de Londres junto às tecnologias que “moldaram o mundo em que vivemos”.

    Entrevista com “Veilton Freitas: O guardião das Technics SL-1200-MK2 e a arte da customização”

    Antes de finalizar este artigo, decidi entrevistar o amigo Veilton Freitas, um verdadeiro mestre na restauração e customização de Technics SL-1200-MK2. Carioca de nascimento, Veilton veio ao mundo no hospital Rocha Faria, em Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. Ele completará 53 anos em outubro deste ano.

    Sobre carreira e experiência

    Perguntei a Veilton como ele começou sua carreira como técnico em eletrônica e o que despertou seu interesse específico em reformas e customização de toca-discos, especialmente os modelos Technics SL-1200-MK2.

    Veilton Freitas: “Então, Fábio. Vou tentar responder aqui enquanto ainda não liguei o ferro de solda e aquelas coisas todas. Então, em relação a como começou a carreira de técnico, eu já venho de família de técnicos. Meu pai, meu irmão, meu tio, todo mundo já era técnico de eletrônica. Então, eu sempre cresci dentro desse ambiente de eletrônica. Só que assim, eu não queria trabalhar diretamente com isso, então fui seguir outros caminhos.

    Aí eu fui trabalhar em oficina de carro, trabalhei muito tempo em oficina de carro, pintando carro. Ajudando, na verdade. Ajudante do pintor. Eu era faz tudo da oficina, né? Eu era tipo um faz tudo. Eu inclusive ajudava o mecânico. Desmontava motor. E com isso eu tive uma experiência com pintura. E aí, quando eu larguei esse serviço, eu comecei a realmente me interessar com eletrônica e comecei a montar um negócio de sonorização. Negócio de equipe de som. E uma coisa, puxa a outra, né?

    Monta a caixa de som, monta aquele negócio todinho, e monta os PAs. Comecei a fazer baile. Aí já me interessei pela arte do DJ. Isso em 88, 87… Acho que foi até menos um pouquinho. Aí a gente tocava com o que tinha, né? Antigamente era assim, tocava com qualquer toca-discoss que tinha na equipe. MK2 era luxo. Era só para quem tinha muitas condições, né? Era muito caro. Então no início dos anos 90, eu tive a oportunidade de pegar duas MK2 de um maluco que ia morar em Brasília com a mulher e desfez de tudo aqui, inclusive das MK2. Me passou elas. Mas elas estavam moídas, acabadas. Pitch já não existia. Toda arranhada. Estava velha. Aí eu pensei: – Porra, vou juntar essa experiência que eu já tive com pintura e vou pintar as minhas eu mesmo.”

    “Então restaurei e fiz o lance da pintura. Peças, eu tive que sair correndo atrás por aí. Não tinha internet. Muita pesquisa até conseguir algumas peças e conseguir recuperar as minhas MKs. E não tinha lance de serigrafia. Isso aí foi bem depois. Eu tive que fazer um cursinho de serigrafia. Então eu colocava as letras com Decadry. Não sei se você chegou a ver isso. Decadry vendia em papelaria. Tu esfregava e o número e as letra saiam e grudavam no objeto.

    Aí eu fiz a marca do Technics com o modelo em cima da pintura do toca-discoss com Decadry. Mas foram só as minhas. Então, até aí tava tranquilo. Quando eu fui fazer baile, festinha, essas coisinhas, que alguns DJs viram que era uma cor diferente, que não existia toca-discos de cor diferente, só existiam prata e preta. Eu acho que a minha foi azul, que eu fiz.

    Aí um perguntou: – Onde é que tu comprou?
    Daí eu falei: – Fui eu que pintei.
    – Ah, não acredito! Mentira.
    – Não. Fui eu que pintei. Essa é minha. Eu que pintei” e tal.
    – Porra, faz na minha. E foi aí que tudo começou.

    O primeiro toca-discos que eu fiz, foi para o Alexandre de Bangu, inclusive, ele faleceu há uns dois meses. O pessoal chamava ele de Shrek. E ele foi o primeiro. Daí outros vieram, outros foram pedindo e começou, cara. Começou, e virou um negócio. Aí eu tive que me profissionalizar melhor, né? Aí eu já fiz a tela de silk screen com as marcas, né, Technics, aquela coisa toda. E foi assim que comecei.”

    Antes e depois.

    Sobre técnicas e processos

    Curioso sobre os desafios que ele enfrenta, perguntei sobre as técnicas e processos envolvidos na reforma de um toca-discos Technics SL-1200-MK2.

    Veilton Freitas: “Bom. Desafios para reformar um Mk2? É tudo, né? Tudo é um desafio. Todas as partes têm que ser muito bem analisadas. Tem que ter muita atenção, desde o lixamento. Não pode ter resíduo nenhum embaixo, senão a pintura sai ruim. Tem todo aquele trabalho de primer, lixar, mais primer se necessário, lixar de novo, alisar. Entendeu?

    Depois vem a cor, depois entra o verniz. Esses são só os desafios normais, né? Agora o trabalho, sei lá, que deu o desafio. Acho que foi uma dourada que eu fiz. Essa dourada eu fiz para mim. Depois eu acabei passando para o DJ Cientista e aquela deu trabalho, que foi muita tentativa e erro. Eu comprei um pigmento, um candy lá de fora.

    Bem, bem amarelo, bem dourado, para poder colocar em cima do cromado para dar o efeito. E aquilo ali foi muito trabalhoso. No início deu muito errado, por isso que eu não faço mais, porque deu muito trabalho. Tive que desfazer e refazer várias vezes. Agora, ferramentas, equipamentos e ferramentas normais. Eu uso um compressor normal.

    Pistola normal. Ferramentas básicas. A única coisa que eu tive que fazer diferente, foi uma chave cortada no meio para poder tirar o pivô do braço. Aqueles pivôs que têm no braço para regular, ele tem uma contra porca. Aquilo ali que deu um pouquinho de trabalho. Fiz uma ferramenta só para aquilo.”

    Sobre o modelo Technics SL-1200-MK2

    Veilton explicou o que torna o Technics SL-1200-MK2 tão especial para os DJs.

    Veilton Freitas: “Bom a Technics ela ficou tão popular entre os DJs, por vários fatores. Na minha opinião, o principal é o torque. Ela tem um torque danado. E a precisão, né? A precisão por causa do quartzo, né? Que é aquele cristal que controla a rotação que está sempre sendo reajustada no lugar que você deixa o pitch. Então isso é uma coisa Na época foi inédita. Os toca-discoss não eram assim. Revolucionou, né? Ah, tem muitos fatores, né cara, que ela se popularizou.

    O design dela, ah, ela é robusta, pesada, dificilmente dá humming. E a facilidade de acertar o pitch com um potenciômetro deslizante é uma coisa fundamental. Você acerta o pitch rápido, diferente do pitch rotativo, então tem várias características que tornaram ela bem popular, né? A parte que mais critica, na minha opinião, é o braço. O braço é praticamente o coração do toca-discos. Se ele não estiver bem regulado, soltinho e tal, a música vai pular, independente do disco novo ou velho. Então o braço tem que estar perfeito.

    Ele não pode ter mal contato nos contatos ali com o shell, né? Se não, o som sai ruim. Se tiver mal contato, um Serato não reconhece. Então tem toda uma complexidade em torno do braço. É uma das partes mais críticas, na minha opinião.”

    Sobre o Mercado e a Comunidade

    Perguntei a Veilton sobre o mercado atual para reformas e customização de toca-discos clássicos.

    Veilton Freitas: “Em relação ao mercado de reforma. Muita gente que já tinha que reformar, já reformou. O que está acontecendo agora é muito mesmo a questão do design. Muita gente personalizando para ficar com a cara de cada um, né? Seguir o gosto de cada um. Muita gente preparando um setup diferente. Então vem muito mais customização do que restauração em si. Restauração tem pouco agora. Eu acho que eu já fiz tudo que tinha que fazer aqui no Rio de Janeiro e alguns lugares também do Brasil. Sobraram-se poucas.

    E tem também muita gente que pegou esse bonde e tá fazendo também. Então, dividiu as tarefas por aí, né? Eu acho que eu fui um dos pioneiros. Eu faço isso desde a época do falecido Orkut. Eu já fazia esse trabalho, já, já divulgava fotos e tal, né? Então, já é uma coisa bem antiga. Agora, hoje em dia as tendências muita gente tá usando phaser. Muita gente usando Serato, Traktor, Recordbox. A digitalização está muito expressiva.

    Não sou contra a tecnologia. A tecnologia veio para facilitar. Para facilitar o que sempre foi difícil. Antigamente o cara tinha que carregar dez caixas de disco para poder fazer um baile. Agora ele pode levar tudo num pen drive. Facilitou a vida dele. É claro que os saudosistas ainda vão preferir a bolacha. Eu particularmente prefiro. Mas se for um baile de flashback de uma noite toda, vale a pena. Agora, se for uma festinha de poucas horas, é melhor levar uma mídia digital. Fica mais fácil. Facilitou a vida da gente, né? Não precisa carregar aquele peso todo.”

    Reações dos clientes

    Para encerrar a entrevista perguntei ao Veilton, qual era a reação dos seus clientes ao verem seus toca-discos reformados e customizados pela primeira vez?

    Veilton Freitas: “Aí foi muito engraçado. No início eu me divertia. Eu cobria os toca-discoss com um pano. Quando ficavam aqui no balcão prontos, justamente para ver a reação. Cada um tinha uma reação peculiar. Uns ficavam quietos, com a mão no queixo, outros sorrindo. Teve um que levantou o pano, abaixou, voltou, levantou de novo, abaixou. Ele não estava acreditando. Parecia criança. Muito engraçado.

    E teve também umas pegadinhas que eu fiz. Um rapaz do sul pediu para colocar a cor do time de futebol dele. Eu esqueci agora qual era o time. Sei que era vermelho. Aí, em homenagem ao time dele, o que eu fiz? Eu fiz o trabalho, tudo do jeito que ele pediu. Vermelho. Mas eu não mandei foto nenhuma.

    Mas eu arrumei duas carcaças azuis e cobri com um pano. Na hora que ele veio buscar, ele levantou o pano. Ele quase teve um choque. – Não. Tu errou isso é do Grêmio. Falei: – Ué, mas tu não é gremista? O cara quase morreu. Aí, depois eu fui buscar a dele. Tinha que ver a sensação de alívio. Foi engraçado. Pena que essas coisas não foram filmadas. Nada disso foi filmado. Mas fica para a memória.”

    Toca-discos vermelho

    As histórias e experiências de Veilton Freitas refletem uma paixão genuína pela arte da restauração e customização, algo que transcende meramente consertar equipamentos. Ele não apenas revive os toca-discos, mas também preserva uma parte vital da cultura DJ. É uma jornada de dedicação e criatividade, onde cada projeto é uma obra-prima. E assim, as Technics SL-1200-MK2 continuam a girar, trazendo nostalgia e alegria para uma nova geração de entusiastas do vinyl.

    Veilton entregando os toca-discos do DJ Fábio ACM em 2013.

     

    Referências

    1. Technics (Site oficial)
    https://www.technics.com

    2. Manual Technics SL-1200 (Download)
    https://drive.google.com/drive/folders/1VLxBODqppDvig5tjL0f6gZZtpESJJ8Yg? usp=sharing

    3. Toyo Kasei
    https://toyokasei.co.jp/

    4. Dead spin: Panasonic descontinua toca-discos analógicos Technics
    https://www.tokyoreporter.com/japan-news/national/dead-spin-panasonic-discon tinues-technics-analog-turntables/

    5. TECHNICS SL-1200 por Daniel Vila Nova – 27 de Abril de 2021
    https://gamarevista.uol.com.br/estilo-de-vida/objeto-de-analise/technics-sl-1200/ #:~:text=O%20Technics%20SL%2D1200%20deu,um%20turntable%20e%20um %20mixer

    6. Como um apagão em Nova York impulsionou o surgimento do Hip Hop (Juliana Domingos – 15 de agosto de 2016)
    https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/08/15/como-um-apagao-em-nova-york-impulsionou-o-surgimento-do-hip-hop

    7. Apagão em Nova Iorque de 1977 (Wikipedia)
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Apag%C3%A3o_em_Nova_Iorque_de_1977

    8. Technics SL-1200: 50 anos do toca-discos que revolucionou a música (Erick Bonder – 20/04/2022)
    https://noize.com.br/technics-sl-1200-50-anos-do-toca-discos-que-revolucionou a-musica/

    9. Museu de Ciências de Londres
    https://collection.sciencemuseumgroup.org.uk/objects/co8621931/technics-sl-12 10-mk2-mode-quartz-synthesizer-direct-drive-turntable-one-of-two-synthesizer

    10. Veilton – DJ | Turntable Artist | Técnico em Eletrônica
    https://veiltondj.blogspot.com/

  • O Reggae Maranhense: Uma jornada de influência e identidade cultural

    O Reggae Maranhense: Uma jornada de influência e identidade cultural

    São Luís do Maranhão, conhecida nacionalmente como a “Ilha do Reggae”, ou até mesmo a “Jamaica Brasileira”, é uma cidade cuja identidade musical é profundamente entrelaçada com os ritmos caribenhos. Desde a sua introdução na década de 1970 até os dias atuais, o reggae tem deixado uma marca indelével na cultura e na música maranhense, moldando não apenas os sons que ecoam pelas ruas, mas também a identidade e a expressão artística de seu povo.

    A chegada do reggae às terras maranhenses foi marcada por uma mistura peculiar de circunstâncias sociais e econômicas. Fluxos migratórios entre Maranhão e Pará, impulsionados pela construção da estrada de ferro de Carajás, trouxeram consigo não apenas trabalhadores e suas famílias, mas também a riqueza musical do Caribe. Sons caribenhos, especialmente o reggae, encontraram um lar na periferia de São Luís, onde vinis trocados por produtos e disseminados por rádios de ondas curtas e radioamadores do Caribe rapidamente se tornaram trilha sonora dos bairros menos abastados.

    Entretanto, a jornada do reggae no Maranhão transcendeu a mera importação de uma forma estrangeira de música. Rapidamente, o reggae se entrelaçou com a cultura local, adotando novas formas de expressão e identidade. Onde antes havia danças individuais, surgiram coreografias sensuais, enraizadas na ginga maranhense, transformando o reggae em uma celebração coletiva de ritmo e paixão.

    A linguagem do reggae também foi adaptada às realidades locais, com a criação dos “melôs”, versões em português dos títulos das músicas que refletiam a proximidade fonética com o inglês e elementos da vida cotidiana maranhense. Essa apropriação linguística não apenas facilitou a compreensão das letras para aqueles que não dominavam o inglês, mas também solidificou o reggae como uma expressão autêntica da cultura maranhense.

    “Melô do Caranguejo” (White Witch – The Andrea True Connection)

    O papel dos locutores e DJs não pode ser subestimado nesse processo de adaptação e difusão. Eles não apenas transmitiam a música, mas também criavam uma linguagem própria, com termos como “pedra” para descrever um bom reggae, “magnatas” para os empresários dos clubes e “radiolas” como uma versão local dos “Sound Systems” jamaicanos. Nomes como Edmilson Tomé da Costa (DJ Serralheiro), Ferreirinha, Fauzi Beydon (Tribo de Jah), Antônio José, Ademar Danilo, Robert Tchanco, Luzico, Carlinhos Tijolada, Magnata Serralheiro, Natty Nayfson e muitos mais ecoavam pelos salões da cidade, fazendo vibrar os adeptos de suas Radiolas.

    À medida que o reggae ganhava espaço nos bairros periféricos, sua presença começou a ser notada em outras esferas da sociedade. Empresários e donos de clubes viram no reggae não apenas uma expressão cultural, mas também um produto comercialmente viável. A compra de espaço na mídia local permitiu que o reggae migrasse das páginas policiais para as seções de cultura, encontrando aceitação não apenas entre os
    mais pobres, mas também entre a classe média e intelectual.

    Desde então, o reggae cristalizou sua posição como uma força cultural dominante no Maranhão. Shows de artistas internacionais tornaram-se eventos comuns, com apresentações memoráveis de grandes nomes como “The Wailers”, “Jimmy Cliff”, “The Gladiators”, “Gregory Isaacs” e “John Holt”, entre outros. Programas de rádio e televisão especializados proliferaram e o reggae se tornou não apenas uma música, mas um estilo de vida para muitos maranhenses. A exemplo do programa Rádio Reggae, na Rádio Mirante FM, líder de audiência em São Luís nos anos 90, comandado pelo DJ Fauzi Beydon, um dos pioneiros do reggae no Maranhão.

    Assim, a influência do reggae na música maranhense não pode ser subestimada.

    Mais do que apenas uma forma de entretenimento, o reggae tornou-se uma expressão poderosa de identidade cultural, enraizada nas ruas de São Luís e ecoando através dos corações e mentes de seu povo.

    No dia 11 de setembro de 2023, o governo Lula oficializou São Luiz como a Capital Nacional do Reggae, mediante a promulgação da Lei n° 14.668, divulgada no Diário Oficial da União. [Texto integral]

    Referência:
    1. Fernandes, M. S. (2014). A Influência do Reggae na Cultura Maranhense: Um Estudo sobre a Adoção e Transformação de um Gênero Musical Internacional*. Tese de Doutorado,
    Universidade Federal do Maranhão.
    2. Oliveira, R. T. (2010). Ritmos do Maranhão: A Integração do Reggae na Periferia de São Luís. Revista Brasileira de Música Popular, 12(3), 45-67.
    3. Costa, A. L. (2008). Radiolas e Reggae: A Cultura Sonora de São Luís do Maranhão*. São Paulo: Editora USP.
    4. Santos, J. F. (2016). Música e Identidade: A Apropriação do Reggae pelos Jovens Maranhenses. São Luís: Editora UFMA.
    5. Diário oficial – D.O.U de 12/09/2023, pág. nº 8

  • A arte da discotecagem permanece viva, véi!

    A arte da discotecagem permanece viva, véi!

    Há cinco anos, o Hip Hop perdeu um de seus talentos mais brilhantes e inovadores, o DJ Tydoz, também conhecido como TDZ. Para marcar esta data, escrevo este artigo em celebração à vida e à obra de Tydoz. Neste relato, revisito alguns dos momentos mais notáveis de sua carreira, suas contribuições para a cultura Hip Hop e o impacto duradouro de sua arte.

    O legado de Tydoz é narrado por meio de depoimentos emocionantes de amigos, colegas DJs e figuras importantes do Hip Hop brasileiro. A trajetória de Tydoz vai além do Hip Hop, deixando uma marca profunda na vida de muitas pessoas.

    Nesta homenagem, exploro a sua carreira e suas contribuições únicas para a cultura de DJs, desde a criação dos discos para DJs de competição até sua influência na preservação do vinyl. Através dos depoimentos de amigos e colegas, ofereço uma imagem nítida de um artista cuja paixão pela música e pela cultura Hip Hop continua a ecoar.

    Convido todos a relembrar e celebrar a herança do DJ Tydoz, um verdadeiro aliado do ritmo que, mesmo após cinco anos de sua partida, mantém viva a arte da discotecagem.
    No cenário vivo do Hip Hop brasileiro, poucos nomes se destacam tanto quanto o de DJ Tydoz. Citado várias vezes no livro “Trajetória de Um Guerreiro” de DJ Raffa Santoro, Tydoz tem uma história que se confunde com a própria evolução do movimento Hip Hop no Brasil, especialmente na região do Distrito Federal (DF).

     As raízes e o break na Ceilândia

    A trajetória deste grande flamenguista começa no efervescente cenário da Ceilândia, um dos berços do breakdance no Brasil. Nos anos 80, a Ceilândia viu o nascimento de grupos lendários como Reforços e DF Zulu Breakers. Tydoz fez parte desse movimento que, apesar das adversidades, manteve viva a chama do breakdance na periferia do DF. Em sua obra, DJ Raffa Santoro destaca que “No grupo, o rapper era o X. No graffitti, o Snupi, Satão, Fokker e Tempo. Os DJs são TDZ e Léo”.

    Encontros na igrejinha e a ascensão de um DJ

    Outro ponto importante na carreira de Tydoz foi sua participação nos encontros na Igreja São Paulo Apóstolo, também conhecida como Igrejinha, na Quadra E7 do Guará I. Foi lá, em 1985, que muitos dos primeiros b-boys e amantes do funk eletrônico do DF se encontravam.

    Raffa Santoro também ressalta que “Um jovem dançarino, que depois se tornou um dos maiores DJs de performance e militantes do movimento Hip Hop nacional, também frequentava a Igrejinha. Era o TDZ. TDZ se especializou em produzir discos de batalhas nacionais para DJs de todo o Brasil, na série Arsenal Sônico. Foi por uma iniciativa dele que a cultura dos DJs e do vinyl permanece viva até hoje”.

    Além de brilhar como DJ, TDZ teve ainda um papel fundamental na preservação e promoção da cultura dos DJs e do vinyl no Brasil. O DJ Raffa explica: “A insistência dele fez com que o Dario (dono da loja Porte Ilegal) corresse o risco de apoiar a única fábrica de vinyl do Brasil, a Poly Som, que fica em Belford Roxo, na Baixada Fluminense (RJ), quando a própria fábrica queria encerrar sua produção. TDZ foi o responsável por manter a chama do vinyl acesa”.

     Grupo Morte Cerebral

    A parceria com Dino Black no grupo Morte Cerebral marcou outra fase significativa na carreira de Tydoz. O grupo era conhecido por suas letras sérias, abordando temas sobre injustiça social. DJ Raffa Santoro menciona em seu livro que “Dino Black e TDZ formavam o grupo Morte Cerebral, que adotou uma linha de trabalho bastante pesada, com letras sérias e conteúdo político-social”.

     

    Colaborações e “DJ Scratch”

    Uma das colaborações mais notáveis de Tydoz foi na música “DJ Scratch”, produzida por DJ Raffa Santoro. Em 1990, Raffa criou uma versão original para o disco DF Movimento, que se tornou um marco. Anos depois, Tydoz foi convidado a participar de uma nova versão dessa música, junto com outros DJs renomados.

    DJ Raffa relembra: “Convidamos os DJs TDZ (que ainda era do grupo Morte Cerebral, com o Dino Black), Chocolate (que fora campeão brasiliense de um concurso DJs), Dourado (Código Penal) e o Junior Killa, também falecido, para que cada um fizesse uma versão diferente da música comigo. O Genivaldo cedeu o selo para podermos prensar o disco e a capa foi uma homenagem ao grande DJ Zinho, que servirá de inspiração para todos nós”.

    Sua trajetória, como narrada por DJ Raffa Santoro, é um exemplo inspirador de como a cultura Hip Hop pode ser um poderoso instrumento de transformação social.

     Quando o TDZ pregou uma peça

    No início dos anos 2000, as redes sociais começaram a ganhar força, mas nem todos estavam dispostos a embarcar nessa nova onda digital. O ativista Def Yuri foi um desses resistentes, até que uma brincadeira de seu amigo, o DJ Tydoz, mudou tudo. Em um artigo intitulado “Quer Ser Meu Amigo?”, publicado no portal Viva Favela em 3 de fevereiro de 2005, Def Yuri revelou como foi surpreendido e “forçado” a entrar no Orkut.

    “Após um ano de muita resistência às inúmeras tentativas feitas por camaradas de trabalho ou não para que eu aceitasse participar de um sistema de comunicação estilo pirâmide, fui surpreendido pelo ato cara-de-pau daquele que considero um dos ícones da cultura Hip Hop e amigo de longa data, falo do Dj Tydoz, também conhecido como TDZ,” escreveu Def Yuri.

    A relutância de Def Yuri era bem conhecida por seus amigos, mas o TDZ decidiu tomar uma atitude drástica para ver seu amigo no mundo digital. Sem avisar, ele criou um perfil para Def Yuri no Orkut. Somente depois que o perfil foi descoberto por outras pessoas, Tydoz enviou um e-mail para Def Yuri com a mensagem: “Aí se fudeu! Login: Def Yuri Senha tal! Vê lá… rs”.

    Reação e reflexão

    Def Yuri admitiu que sua reação inicial não foi das melhores. “Confesso que a primeira reação não foi das melhores, lembram da minha relutância? Porém, o DJ tem salvo conduto”, ele revelou. No entanto, ao acessar seu perfil e ver as mensagens deixadas por amigos e colegas de trabalho, ele não pôde deixar de rir da situação.

    Def Yuri concluiu seu texto com uma mistura de humor e seriedade, ressaltando a complexidade da vida e a necessidade de mudança. A história de como foi “forçado” a entrar no Orkut pelo DJ Tydoz serve como um lembrete de que, às vezes, as brincadeiras entre amigos podem nos levar a novas experiências e reflexões importantes.

    “Mantendo o Hip Hop vivo!
    DJ Tydoz ou simplesmente, TDZ, mesmo morto nos mostra a partir do seu legado que isso é possível, na prática.
    Não seguia cartilhas e discursos ensaiados.
    Não era teatral. Era adepto do faça você mesmo.
    Pra mim sempre será a fiel retratação do Hip Hop livre das amarras, do Hip Hop que não beija-mão.
    Do Hip Hop plural, mas autêntico, autônomo e indomesticável!”

    Def Yuri (Julho de 2024)

    X, DEF YURI, AMARELO, TDZ, GOG
    X, DEF YURI, AMARELO, TDZ, GOG (2005)

    Depoimento de X do Câmbio Negro sobre Tydoz

    Em um depoimento carregado de emoção, X da banda Câmbio Negro, um dos nomes mais respeitados do rap nacional, homenageou seu grande amigo e parceiro, DJ Tydoz. Reconhecido como um dos pilares da cena Hip Hop no Brasil, DJ Tydoz foi exaltado por sua dedicação, pesquisa e contribuição significativa para a cultura Hip Hop.

    X destacou a excelência de Tydoz como DJ, enfatizando seu compromisso com a arte da discotecagem. “Um DJ de excelência, um cara que pesquisava muito, treinava muito, conhecia muito, buscava sempre a informação, estava sempre garimpando discos, músicas,” disse X.

    Ele relembrou o impacto dos discos “Electro Overdose” e a coleção “Arsenal Sônico”, esta última sendo, segundo X, a primeira série de discos de vinyl produzida especificamente para DJs brasileiros, marcando um momento crucial na história do Hip Hop nacional.

    O depoimento enfatiza a importância do trabalho de Tydoz na pesquisa e compilação de frases e efeitos para DJs, utilizando vozes de artistas brasileiros, o que representou um marco na cultura Hip Hop. “Foi o responsável por fazer os discos ‘Electro Overdose’, as músicas que a gente dançava break na época dos anos 80 e também por fazer a lendária coleção ‘Arsenal Sônico’”, afirmou X.

    Ele ressaltou que, “antes, nós usávamos os discos com frases em inglês, e ele teve todo esse trabalho de pesquisa, de procurar as frases nos discos de rap, para poder colocar isso em vinyl, para que os DJs usassem, além de efeitos scratches e colagens com a voz de artistas brasileiros”.

    X também criticou a falta de reconhecimento de Tydoz dentro da cena atual, lamentando que muitos DJs utilizem seus discos sem conhecer a origem ou o valor histórico por trás deles. “Hoje tem muito apertador de botão aí que diz que é DJ, mas não sabe, não valoriza a verdadeira arte da discotecagem. E às vezes tem DJ até utilizando esses discos sem saber quem foi o criador”, desabafou X.

    X encerrou sua homenagem afirmando que, apesar da falta que DJ Tydoz faz, seu legado permanece indelével na história do Hip Hop brasileiro. “É só um pouco da história desse grande entusiasta, desse grande DJ. Faz muita falta, mas escreveu o nome dele na história do Hip Hop nacional”, concluiu X, reforçando a imensa contribuição e o impacto duradouro de Tydoz na música e cultura Hip Hop do Brasil.

    C MBIO NEGRO
    CÂMBIO NEGRO

     

     Arsenal Sônico: O legado revolucionário de DJ Tydoz na cultura Hip Hop brasileira

    “O ano: 2000. O crime, a extinção do vinyl. Mas não existe crime perfeito. E eis que na periferia surge a resistência. Soldados do ritmo lutam incansavelmente contra a tirania do som digital. Um deles, Tydoz, também conhecido como TDZ. Meu parceiro prepara rajadas certeiras. Prepare-se! Porque seu Arsenal Sônico nunca esteve tão abastecido. O resultado é uma batalha sonora. Que vença o vinyl. (Voz: GOG)”

    Acima, a abertura do Arsenal Sônico Vol.2. O famoso álbum verde.

    Logo após a vinheta de abertura com a voz do X. Só o TDZ para juntar duas das mais poderosas vozes do rap do DF. Peguei esse trecho e mandei o áudio pro GOG que respondeu:

    “Que louco, hein, mano. Foi bom relembrar isso aí. É a verdade. Falar sobre o Tydoz, principalmente como profissional, facilita muito. Porque ele foi um precursor, um desbravador, né, mano. Isso trouxe muita consistência pra minha estrada, porque nós estávamos crescendo profissionalmente no mesmo momento. Embora ele fosse mais novo que eu, a evolução do Tydoz era uma coisa impressionante. Ele tava pra além do tempo. Ele nasceu com a mente avançada muitos anos. E a engenharia do Tydoz, essa estrutura que ele montou, já foi pensado né, mano? Em segurar todos os momentos, tanto aqueles que o som tá na pista como também quando a gente tem a escassez da possibilidade do vinyl. E essa fala aí que eu fiz, ela é muito rica em relação a isso. A gente viveu esse momento”. (GOG – 4 julho de 2024 pelo WhatsApp)

    Assim, começa o segundo volume da coleção Arsenal Sônico, uma obra-prima de DJ Tydoz que revolucionou a cena do Hip Hop. Este visionário, nascido e criado em Brasília, desafiou as tendências digitais da época e manteve vivo o legado do vinyl com suas produções inovadoras.

     A criação do Arsenal Sônico

    Em meio à transição do analógico para o digital, DJ Tydoz lançou a coleção Arsenal Sônico, uma série de discos de vinyl projetados especificamente para DJs de competição.

    A série rapidamente se tornou uma ferramenta essencial para DJs em todo o Brasil. Marola, parceiro de Tydoz na produção e distribuição da coleção Arsenal Sônico, recorda.

    “Eu conheci o TDZ em meados de 2001, através do DJ Beetles, DJ RCD (Firma de Scratches), que eram os caras da cena do vinyl. Eu já conhecia eles há mais tempo, ali o Beetles, da Feira do Rolo, de Ceilândia. E aí, o TDZ tinha lançado o Arsenal Sônico volume 1 e estava lançando volume 2, em parceria com a CD Box. Eu comecei a vender os discos para CD Box, levando para São Paulo, trocando, trazendo outros, fazendo este intercâmbio aí, Brasília-São Paulo. E o Tydoz vendo isso, me convidou para fazer uma parceria para prensar o Arsenal Sônico volume 3. Que foi um sucesso. A gente fez um álbum duplo. Naquela época poucos discos saíam duplos e estourou. Todas as lojas vendendo. Aí ele rompeu com a CD Box e me convidou para distribuir todos os discos dele. Aí veio o volume 4, 5 e o 6. E o TDZ é o seguinte, ele acreditou no meu trabalho, né? Na Marola Discos. Na época, estava nascendo o selo Marola Discos e ele foi uma peça muito importante para mim porque ele acreditou em mim. Através dos discos Arsenal, eu comecei a introduzir os meus CDs também nas lojas, junto com os discos de vinyl. Então o TDZ foi um cara que abriu as portas para mim. Eu já conhecia a Galeria 24 de maio em São Paulo. Depois eu comecei vendendo para outros estados, abastecendo todas as lojas do Brasil. Foi importante as portas que o TDZ abriu. Na época não existia disco de vinyl de batidas e efeitos. Só gringo. O TDZ fez o primeiro disco de batidas e efeitos, junto com Marcelinho, do Câmbio Negro. E aí, era legal porque a Porte Ilegal lançava um em São Paulo, a gente lançava um aqui de Brasília. E aí ficou aquela. Não uma disputa, mas aqueceu o mercado brasileiro, né? Foi da hora. E assim, só agradeço. Só tenho boas lembranças do Tydoz. O cara, que confiou na minha pessoa. Eu tenho uma gratidão enorme. E o Hip Hop, os DJs do Brasil, todos agradecem a contribuição dele, até porque o vinyl dele chegou em boa hora e todos os DJs compraram. Porque facilitava a vida dos DJs. Um disco de batidas de efeitos com frases do rap nacional. Foi muito da hora conhecer o TDZ, mano. O que ele fez pelo Hip Hop brasileiro foi foda.”

     Impacto na cultura do DJ

    DJ Tydoz, DJ Raffa Santoro, DJ Elyvio Blower, DJ Celsão (Já falecido), DJ Toninho Pop e DJ Leandronik
    DJ Tydoz, DJ Raffa Santoro, DJ Elyvio Blower, DJ Celsão (Já falecido), DJ Toninho Pop e DJ Leandronik

    O Arsenal Sônico não foi apenas uma coleção de discos; foi um movimento que uniu DJs de todas as partes do Brasil. DJ Hool Ramos, fundador do Clube do Vinyl do DF, destaca a contribuição de Tydoz: “O TDZ, com a série de discos do Arsenal Sônico, teve uma grande contribuição para a cultura do DJ, não só do Distrito Federal, mas do Brasil. Por conta da produção dos LP’s. Antes de falecer, estava prevista a produção do Arsenal Sônico volume 7”.

    DJ Hool Ramos também relembra momentos significativos compartilhados com Tydoz: “Ele participou do primeiro Clube do Vinyl DF em 2009. Depois ele participou do Clube do Vinyl em 2013 onde nós tivemos a participação do DJ Celsão. Teve também a participação do TDZ no Clube do Vinyl DF de 2012, no qual ele foi homenageado ainda em vida. Se eu não me engano, ele recebeu duas homenagens do Clube do Vinyl. Uma em 2012 e uma em 2013″.

    Ele destaca a importância das homenagens póstumas a Tydoz: “Ele foi homenageado também uma terceira vez, pós mortem, onde recebeu das mãos da sua filha e da sua esposa no evento Arte Urbana em Ação em agosto de 2023 em Sobradinho. Um projeto que foi apoiado pelo FAC e coordenado por mim e com apoio do Clube do Vinyl DF e do Alan DEF. O TDZ era um camarada ímpar. Um atleta. Não bebia. Não fumava. E fatidicamente faleceu, mas deixa o seu legado. O homem se foi, mas o legado do artista ficou. Nas suas obras. E por isso não tem como não lembrar dele. Salve o TDZ”.

    DJ Nino Leal, uma lenda do Hip Hop no Rio de Janeiro e campeão de diversos títulos nacionais e internacionais, também reconhece a importância de Tydoz: “Eu conheci o Tydoz de nome, né? Esse maluco aí contribuiu demais com a cultura, muita coisa. Vários discos, todos os DJs que são da nossa área usaram os discos dele. Ajudou demais da conta, tudo. Esse cara aí colaborou muito”.

    A influência de Tydoz foi sentida profundamente por aqueles que o conheceram pessoalmente. DJ Léo Cabral, importante DJ da cena cultural de Brasília, relembra a generosidade e o impacto do amigo: “Cara, o Tydoz era um ser humano muito sangue bom. Baita DJ. Se fez contribuir muito com a cena dos DJs e o Hip Hop nacionalmente. Fez várias participações com scratch em vários álbuns. Lançou o lendário ‘Arsenal Sônico’, discos de vinyl para DJs. Todos eles chegavam lá em Fortaleza – CE. Na minha época de militância por lá, ele mandava para gente revender nas lojas, tirando uma porcentagem para termos a grana para fazer o Hip Hop acontecer. Ajudou muito!”

    Outro testemunho marcante vem de DJ Beetles, também de Brasília, que homenageia Tydoz com carinho: “Hoje, presto homenagem a um amigo que deixou uma marca indelével na cultura Hip Hop. DJ Tydoz apenas não conhecia e tocava músicas, e sim criava experiências únicas, transformando discos em histórias que se tornaram trilhas sonoras de nossas vidas. Sua contribuição vai além da música; seus discos de batidas Arsenal Sônico, uniu pessoas de diferentes origens e estilos sob o mesmo ritmo, mostrando que o Hip Hop é uma forma de expressão e resistência. Seu legado vive em cada um de nós que teve a sorte de conhecê-lo”.

    DJ Beetles continua e expressa a profunda influência pessoal de Tydoz: “Tydoz, você nos inspirou a ser autênticos, a buscar nossa própria voz e a nunca desistir de nossos sonhos. Por isso o DJ Scratch Campeonato saiu do papel. Você não foi apenas um DJ, você foi um amigo, mentor e irmão que sempre estará em meu coração. A cultura Hip Hop nunca será a mesma sem você, sou e somos eternamente gratos por tudo que nos deu”.

    DJ Erick Jay, um dos poucos DJs do mundo a conquistar cinco campeonatos mundiais, enfatiza a importância dos discos de Tydoz: “Infelizmente, há cinco anos atrás, tivemos essa perda terrível pra cena. O DJ Tydoz era uma pessoa muito importante, um dos pioneiros a fazer os discos nacionais especializados para DJs de competição, o Arsenal Sônico. E eu tenho todos ainda, e guardo com muito carinho. E foi muito importante ele ter feito isso, porque o acesso era difícil da gente, né? O acesso era difícil. O acesso aos discos importados, dos DJs que a gente gosta lá fora. E o Tydoz ajudou demais, demais a cena. O acesso aos efeitos, as frases, ficou mais fácil, entendeu? E ele pegava os arquivos com os efeitos nacionais e os internacionais, as frases dos rappers, entendeu? Que ajuda demais assim na batalha de DJs. Enfim, pra colagem, entendeu? Esse foi um grande. Foi um grande passo. Foi uma grande perda”.

    Japão (Viela 17), relembra com carinho o DJ Tydoz: “Ele era um grande DJ de performance, um DJ de grupo de rap. Um grande irmão e flamenguista, né? Um cara massa. Tenho um carinho muito grande por ele”.

    Japão comenta a foto acima: “Essa foto aí foi no dia que nós gravamos a música ‘Se Esse Som Estourar’ em SP, com participação do Thaíde e DJ Hum, produção do Fábio Macari. Nesse tempo o Tydoz estava trabalhando com a gente como DJ”.

    DJ Ocimar, de Ceilândia, DF, compartilha a saudade e a reverência por Tydoz: “DJ Tydoz foi uma grande referência no DF. Para Brasília. Eu tive a oportunidade de conhecê-lo. Ele era o cara da informação no tempo que a internet não era tão popularizada. Ele sempre foi um cara das informações. Ele falava bem inglês, conseguia traduzir muitas coisas que chegavam por aqui, as músicas e toda aquela situação no mundo dos DJs, dos campeonatos e tudo mais. Ele encomendava muita coisa lá de fora, que chegavam pra ele e ele passava essas informações pra gente. E também, daí ele viu a dificuldade que nós DJ ‘s aqui no Brasil, principalmente no DF, tínhamos de comprar os discos importados de efeitos. A gente via os campeonatos lá de fora, os caras com os discos tudo montadinhos de efeitos para os campeonatos. E aí então, foi onde ele teve essa ideia de fazer e de produzir aqui no Brasil. E aí ele fez uma parceria lá em São Paulo, depois ele fez com o DJ Marola aqui em Brasília, que eram os discos Arsenal Sônicos. Esses discos são raridade. Hoje esses discos custam caro na internet. Muito caro, mesmo! Se você for procurar aí. Foram várias edições. Até o volume seis. Ele também teve programa no rádio. Ele é oficialmente o DJ da DZ Zulu Breakers. O Tydoz então foi uma referência. Ele deixou seu legado pelo Hip Hop DF, pelo Hip Hop no Brasil e no mundo. E a gente devia ter mais ou menos a mesma idade. Então eu, com esses 30 anos de Hip Hop, o DJ Tydoz fez parte dessa história. Fez parte dessa história comigo também. Que ele esteja num bom lugar. Que Deus lhe conceda paz. E para os familiares e amigos que ficaram aqui, o conforto da saudade, né? Quando a gente perde uma pessoa que é importante pro ser humano, pra vida, né, pra esse mundo que veio pra cá e faz seu nome, seu legado. Deixa realmente saudades. É isso. DJ Tydoz, esteja em paz. Foram cinco anos. Vou falar, hein gente. Passou rápido, hein? Que isso? Paz a todos”.

    DJ Portela, autor do livro 11 343 Lei Para Prender Os 4Ps, relembra com emoção sua relação com Tydoz: “O cara fez disco de vinyl pra gente tocar e era um professor, né, pra gente. Então assim, ele, além dessa simplicidade e profissionalismo com que ele tratava o Hip Hop já ali em 95 e tudo, e depois quando eu fui conhecê-lo indo ali por 97, 98, ele sempre foi um cara muito, muito tranquilo”.

    Portela também destaca a paixão de Tydoz pela escrita: “Uma vez ele falou que queria escrever para um site de Hip Hop. Eu escrevia para o Real Hip Hop e aí arrumei uma coluna pra ele lá e ele ficou muito feliz. E a alegria dele era tanta, parecia uma criança ganhando uma festa. Ele queria escrever sobre o que o DJ pensava. Sobre como fazer discos de vinyl. Queria escrever sobre como a cultura poderia ser profissionalizada, melhorada, encarada como uma cultura de verdade, ser aceita pela mídia, aceita por todos, e eu lembro, que é uma das lembranças que eu tenho dele, dessa felicidade. E eu lembro que eu fiz assim numa simplicidade, e não achava que era tão importante para ele. E foi muito importante para ele escrever e poder falar”.

    Portela relembra a generosidade de Tydoz: “E sempre quando a gente se encontrava ele era sempre muito solícito aos meus pedidos. Eu tenho os Arsenais, todos os Arsenais Sônicos. Tenho os discos de batidas e efeitos. Eu não consegui comprar nenhum, né? Porque ele não deixava eu comprar. Ele falava: – Portela, você é moleque nosso. Eu vou te passar aqui. – Portela, chegou Arsenal. Chegou Batidas e Efeitos. Vem aqui pra gente trocar uma ideia sobre os discos. E umas coisas que eu achava massa nele é que ele fazia questão de colocar muitas frases do rap de Brasília dentro dos Arsenais Sônicos e chama assim a prioridade pro Câmbio Negro, que ele gostava. Pela proximidade que ele tinha com X”.

    DJ Chiba do grupo Opanijé expressa profunda emoção ao falar sobre DJ Tydoz, destacando sua importância colossal na cultura Hip Hop. Chiba relata ter conhecido Tydoz através do segundo disco de GOG, Vamos Apagá-los com Nosso Raciocínio (1993), onde Tydoz foi co-produtor de algumas faixas. Ele elogia a habilidade técnica excepcional de Tydoz no turntablism, scratch, back-to-back e mixagem, além de seu vasto conhecimento sobre a história e os grupos de Hip Hop.

    Chiba menciona: Tydoz “era uma referência muito grande pra todos nós, assim, pra minha geração, principalmente”. Ele acrescenta: “Era um dos DJs diferenciados em todos os sentidos. E assim, na questão de talento, o cara era um absurdo nas técnicas de turntablism, nas técnicas de performance de DJ, de scratch, de back-to-back, de mixagem. O cara era um monstro, o cara era um absurdo, o cara era uma referência muito grande pra todos nós, assim, pra minha geração, principalmente”.

    Chiba lembra com carinho da amizade que desenvolveu com Tydoz, destacando sua generosidade e a dedicação em fazer a cena dos DJs brasileiros evoluir. “Eu tive o privilégio de me tornar amigo dele… ele sempre foi uma figura muito generosa comigo,” diz Chiba. A perda de Tydoz foi um golpe profundo para a geração de DJs, mas seu legado perdura entre os verdadeiros amantes e ativistas da cultura Hip Hop. Chiba conclui: “O seu legado não vai ser esquecido jamais pelos verdadeiros amantes da cultura Hip Hop, pelos Hip Hoppers, que são ativistas também. Enfim, é uma figura que não merece ser esquecida e sempre ser lembrada e reverenciada.”

    O deputado distrital Max Maciel também prestou homenagem a Tydoz: “O TDZ fez parte de uma história do rap do Brasil e do Distrito Federal. Importante nome de muitos grupos como o próprio GOG e tantos outros grupos no DF que passaram pelas mãos do TDZ, que seguiu a sua caminhada, seu legado, da música. Numa época em que o Hip Hop era muito mais criminalizado. Então fica aqui a memória, o registro, da gente sempre saudar as pessoas e respeitar o legado de cada um em vida, mas sobretudo aqueles que já partiram, já fizeram a passagem. Tydoz na nossa memória sempre”.

    “Juntem-se breakers, rappers, grafiteiros do DF, de São Paulo, BH, Goiânia, Maranhão, Piauí, Ceará, unidos nós somos foda o bicho vai pegar.”

    (Boicote – Câmbio Negro, 1995)

    “Referência valiosa no meu trabalho”

    Eu também, DJ Fábio ACM, “durante a década de 2000, adquiri toda a coleção de discos Arsenal Sônico e também a coleção Porte Ilegal. Usei muitos cortes do volume 2 verde do Arsenal no repertório da minha banda de rap, Antizona. Em todos os volumes do Arsenal, o TDZ sempre destacava as vozes do X (Câmbio Negro). Foi de lá que tirei a frase para o scratch da música “Não Pixe! Grafite!”, utilizando a palavra “grafiteiros”, e para a música “Direitos”, usei a frase “o bicho vai pegar”, ambas com a voz do X. Eu já tinha o vinyl “Diário de Um Feto” do Câmbio Negro, mas encontrar frases do Thayde, GOG, Cambio, Racionais, Japão, Baseado nas Ruas, todas no mesmo disco, facilitava muito a vida do DJ. Eu já era fã do TDZ. Até que o Def Yuri, do Ryo Radical Repz nos apresentou. Em 2003, eu e o Def fizemos uma viagem do Rio para Brasília e assistimos a um show do Racionais junto com o TDZ. Ficamos na casa dele, acho que era no Guará. Foi minha primeira vez em Brasília, e nem imaginava que no futuro essa cidade seria meu lar. Na casa dele, o TDZ me mostrou como era o processo de edição que usava para editar as frases e efeitos e construir os álbuns, usando o Acid Pro para cortar os samples e ajustar todos ao mesmo BPM. A influência do TDZ no meu trabalho é clara”.

    O Arsenal Sônico não foi apenas uma série de discos, mas uma celebração da cultura Hip Hop brasileira. Tydoz deixou um legado que continuará a influenciar e inspirar DJs e amantes da música por gerações. Como DJ Portela resumiu: “É muita saudade dele porque os bons vão primeiro, e o Tydoz era um desses que deixou saudades”.

    Em cada batida e em cada frase, o espírito de Tydoz vive, ecoando a paixão e a resistência que definiram sua vida e obra. Sua dedicação, inovação e amor pela cultura Hip Hop permanecem como uma fonte de inspiração inestimável.

     Discografia:
    1. DJ Tydoz & DJ Marcelinho – Batidas & Efeitos Vol.1 (LP, Stereo)
    ○ Selo: Porte Ilegal
    ○ Ano: 1999
    2. Arsenal Sônico Vol.1 (LP, Stereo)
    ○ Selo: C.A. Produções
    ○ Ano: 1999
    3. Arsenal Sônico Vol.2 (LP, Stereo, Verde)
    ○ Selo: C.A. Produções
    ○ Ano: 2000
    4. Arsenal Sônico Vol.3 (2×LP, Stereo)
    ○ Selo: C.A. Produções
    ○ Ano: 2001
    5. Arsenal Sônico Vol.4 (LP, Stereo)
    ○ Selo: C.A. Produções
    ○ Ano: 2002
    6. Electro Overdose Parte 1
    ○ Selo: C.A. Produções
    ○ Ano: 2002
    7. Arsenal Sônico Vol.5 (LP, Stereo)
    ○ Selo: Marola Discos
    ○ Ano: 2004
    8. Arsenal Sônico Vol.6 (LP, Stereo)
    ○ Selo: Marola Discos
    ○ Ano: 2005

     Link para download da Coleção Arsenal Sônico (link para DJs)
    https://drive.google.com/drive/folders/18vAXYxWqtBM6Dm1mfAfxvkhbchNhujTJ

     

    “Peraí TD! Joga pra frente que pra trás é prejú moleque!”

    Algumas participações notáveis:
    Além de suas próprias produções, DJ Tydoz também deixou sua marca em algumas produções icônicas, onde demonstra suas habilidades nos scratches:
    1. “E Se Esse Som Estourar?”
    ○ Álbum: Prepare – GOG
    ○ Faixa: 06
    ○ Ano: 1996
    ○ Ouça Aqui:

    2. “DJ Que é DJ Parte 2”
    ○ Álbum: Riscando Um – DJ Marcelinho
    ○ Faixa: 09
    ○ Ano: 2002
    ○ Ouça Aqui:

    TDZ foi o precursor de livesets de Hip Hop no Brasil.

    Este programa “Aliados do Ritmo”, produzido e apresentado por TDZ, foi transmitido no dia 05 de julho de 2014 e apresenta um live-set ao vivo com mais de 2 horas de mixagens. Tydoz foi precursor das transmissões de Hip Hop pela internet, com ensaios e performances com djs de todo mundo. Esta sessão ao vivo foi inovadora para a época, pois a internet brasileira ainda não estava habituada a transmitir performances de DJs ao vivo. Esse tipo de conteúdo só ganhou popularidade após a pandemia da Covid-19, quando as festas presenciais foram suspensas devido ao distanciamento social.

    Sua música continua, mesmo após sua partida

    Na noite de 9 de julho de 2019, a comunidade Hip Hop ficou de luto com a perda de uma de suas figuras mais icônicas. Aos 46 anos, Tydoz faleceu tragicamente, em um acidente de trânsito no Park Way, Brasília. Ele pilotava sua motocicleta Kawasaki Vulcan quando colidiu de frente com uma caminhonete Mitsubishi L200.

    O acidente aconteceu às 22h no viaduto da estação Park Way do BRT, próximo à quadra 14. Segundo relatos, o impacto foi devastador, resultando na morte instantânea de Tydoz. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o Corpo de Bombeiros foram acionados, mas não puderam salvar o DJ, que já estava sem vida quando as equipes chegaram.

    A notícia de sua morte gerou uma onda de comoção e homenagens. O PCdoB, partido no qual Niquele Moura Siqueira (Tydoz) trabalhava como analista legislativo na Câmara dos Deputados desde 2002, expressou seu pesar e solidariedade à família. Colegas de trabalho lembraram dele como um profissional dedicado, sempre disposto a ajudar e com um espírito alegre.

    Na época, em um tributo emocionado, Gil Souza, Gilberto Yoshinaga e Noise D, do site Bocada Forte, destacaram a importância de Tydoz para o turntablism brasileiro. Eles ressaltaram sua influência, tanto através da internet quanto em eventos ao vivo, e sua contribuição imortal para a cultura Hip Hop.

    Despedida

    O velório de DJ Tydoz foi realizado na quinta-feira, 11 de julho de 2019, na capela 6 do cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, em Brasília, e a cerimônia de cremação ocorreu no dia seguinte na cidade de Valparaíso, em Goiás. Ele deixa sua esposa Bárbara e duas filhas, Alice e Sara, além de um legado que continuará a inspirar futuras gerações de DJs e amantes do Hip Hop.

    A perda de DJ Tydoz é sentida profundamente por todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo e trabalhar ao seu lado. Sua paixão pela música e dedicação ao Hip Hop asseguram que sua memória permanecerá viva nas batidas e scratches que ele tanto amava.

    DJ FABIO ACM E DJ TYDOZ
    DJ FÁBIO ACM E DJ TYDOZ

    Referências:

    – Depoimentos coletados diretamente de entrevistas, fornecendo uma visão abrangente e profunda sobre a vida e o legado de DJ Tydoz.
    – RAFFA, Dj. Trajetória de um guerreiro: história do DJ Raffa. Rio de Janeiro: Aeroplano Ed., 2007.
    – MIRANDA, E. (2013). A poética híbrida da pós-modernidade nos RAPs de GOG: Poeta periferia (Tese de Mestrado). Universidade de Brasília, Brasília.
    – Viva Favela: Quer Ser Meu Amigo? Artigo por Def Yuri. 03 de fevereiro de 2005.
    – Jornal do Rap. Sexta Nostálgica: 10 anos da morte do Mano Thutão. Artigo por Jefferson 25 de junho de 2016.
    – Bom Dia DF, Globo. “Acidente Fatal no Park Way.” Acesso em 10 de julho de 2019.
    – Correio Braziliense. “Motociclista Morre em Acidente de Trânsito no Park Way.” Publicado em 9 de julho de 2019.
    – Liderança do PCdoB na Câmara dos Deputados. “Homenagem a Niquele Moura Siqueira.” Publicado em 10 de julho de 2019.
    – Bocada Forte. “Turntablism Brasileiro Está de Luto por DJ Tydoz, um dos Mais Importantes DJs do Brasil.” Escrito por Gil Souza, Gilberto Yoshinaga e Noise D, em 10 de julho de 2019.
    – Correio Braziliense. “Morre DJ Tydoz, Pioneiro e Referência na Cena Hip Hop do DF, aos 46 anos.” Publicado em 11 de julho de 2019.

  • MV Bill e 2Pac: A união de dois mundos em “Só Deus Pode Me Julgar”

    MV Bill e 2Pac: A união de dois mundos em “Só Deus Pode Me Julgar”

    Em um cruzamento de gerações e culturas, as músicas “Só Deus Pode Me Julgar” de MV Bill, lançada em 2002, e “Only God Can Judge Me” de 2Pac, lançada em 1996, se encontram em um terreno comum, onde a resistência e a autoafirmação são os pilares que sustentam as vozes de dois ícones do hip-hop mundial.

    As letras dessas músicas, compostas em diferentes contextos e momentos, convergem em uma mensagem de determinação, desafiando os padrões sociais e reivindicando a autonomia individual perante as adversidades. Tanto MV Bill quanto 2Pac expressam a ideia de que apenas Deus pode julgar suas ações e escolhas, rejeitando os julgamentos da sociedade.

    MV Bill – “Só Deus Pode Me Julgar”:
    “Só Deus pode me julgar, por isso eu vou na fé
    Soldado da guerra a favor da justiça
    Igualdade por aqui é coisa fictícia”

    2Pac – “Only God Can Judge Me”:
    “Só Deus pode me julgar
    Aquilo que não me mata só me deixa mais forte
    E eu não entendo porque as pessoas acham que
    Precisam ficar me dizendo como viver a minha vida”

    Esses trechos compartilham uma mensagem poderosa de autenticidade, resistência e determinação, enquanto desafiam a autoridade e os julgamentos externos.
    No trecho de MV Bill, ele proclama que somente Deus pode julgá-lo, expressando sua fé e confiança em um poder superior. Ao se declarar um “soldado da guerra a favor da justiça”, ele reforça seu compromisso com a luta por um sistema mais justo e igualitário. A referência à igualdade como algo fictício sugere uma crítica contundente à realidade social brasileira, onde a igualdade ainda é uma meta distante e muitas vezes ilusória para grande parte da população.

    Por sua vez, 2Pac também invoca a autoridade divina. Ele reflete sobre a resiliência diante das adversidades, argumentando que as experiências que não o destroem apenas o fortalecem. A linha “E eu não entendo porque as pessoas acham que/ Precisam ficar me dizendo como viver a minha vida” ressoa com uma mensagem de independência e autoconfiança, desafiando a interferência externa na sua forma de
    viver e se expressar.

    Ambos os trechos destacam a importância de manter a própria integridade e autenticidade, mesmo diante das críticas e pressões sociais. “Only God Can Judge Me” de 2Pac foi produzida por Doug Rasheed, um renomado produtor musical americano, enquanto “Só Deus Pode Me Julgar” de MV Bill foi produzida pelo DJ Luciano Rocha.

    MV Bill, nascido Alex Pereira Barbosa, inspira-se em suas vivências nas favelas do Rio de Janeiro para criar músicas que denunciam a injustiça social e promovem a resistência. Já 2Pac, ou Tupac Shakur, vindo de um contexto de pobreza e violência nos Estados Unidos, utiliza sua arte como uma forma de expressar suas frustrações com as injustiças do mundo, transmitindo mensagens de empoderamento para comunidades marginalizadas.

    As letras de ambas as músicas são marcadas por críticas sociais contundentes, abordando temas como desigualdade, injustiça racial, corrupção e violência. MV Bill discute a realidade das favelas brasileiras, enquanto 2Pac enfrentava questões como segregação e opressão nos Estados Unidos.

    As músicas “Só Deus Pode Me Julgar” de MV Bill e “Only God Can Judge Me” de 2Pac representam um testemunho poderoso da força do hip-hop como veículo de expressão e resistência. Em um mundo onde as vozes dos marginalizados são frequentemente silenciadas, essas músicas ecoam como hinos de determinação e empoderamento, unindo dois artistas e duas realidades em uma busca comum por justiça e igualdade.

    As referências bibliográficas para a elaboração do texto são baseadas nas análises das letras das músicas e no contexto dos artistas. Seguem algumas fontes que podem ser utilizadas para aprofundar o estudo:
    1. Biografias e Análises Críticas:
    ○ Chang, Jeff. Can’t Stop Won’t Stop: A History of the Hip-Hop Generation. St. Martin’s Press, 2005. (Este livro oferece uma visão abrangente da evolução do hip-hop, incluindo o impacto de 2Pac na cena musical).
    ○ MV Bill e Celso Athayde. Cabeça de Porco. Objetiva, 2005. (Este livro co-escrito por MV Bill oferece uma visão detalhada de suas experiências e visão sobre a desigualdade social no Brasil).
    2. Entrevistas e Documentários:
    ○ Entrevistas de MV Bill disponíveis em portais como G1 e Folha de S.Paulo.
    ○ Documentário Tupac: Resurrection (2003), dirigido por Lauren Lazin. (Este documentário sobre a vida de 2Pac fornece insights sobre suas inspirações e lutas).

  • Impacto ecológico da produção de discos de vinyl e a solução sustentável da Good Neighbor

    Impacto ecológico da produção de discos de vinyl e a solução sustentável da Good Neighbor

    A produção de discos de vinyl, apesar de seu charme nostálgico e som característico, está longe de ser um processo ecológico. A fabricação do vinyl envolve o uso de cloreto de polivinyla (PVC), um tipo de plástico que, por si só, já é problemático do ponto de vista ambiental.

    A produção de PVC requer a polimerização do cloreto de vinyla, um processo químico que libera toxinas perigosas, incluindo dioxinas, que são prejudiciais tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana. Além dos problemas químicos, a produção de discos de vinyl demanda uma quantidade significativa de energia. Desde a extração e processamento das matérias-primas até a prensagem final dos discos, o consumo energético é alto.

    Isso não só contribui para a pegada de carbono da indústria, mas também aumenta a dependência de fontes de energia não renováveis, exacerbando os impactos ambientais negativos. Entretanto, surge uma luz no fim do túnel com a iniciativa da empresa americana Good Neighbor, que propõe uma solução inovadora e ecologicamente sustentável para a produção de discos. A missão da Good Neighbor é oferecer uma experiência auditiva de alta fidelidade sem comprometer o meio ambiente.

    Seus discos são praticamente indistinguíveis do vinyl tradicional em som, aparência e toque, mas são 100% recicláveis, produzidos de forma eficiente e feitos sem qualquer tipo de PVC tóxico. Segundo o fundador da Good Neighbor, Tim Anderson, a empresa surgiu de uma frustração pessoal com os métodos tradicionais de fabricação de vinyl. “Ainda era uma coisa arcaica de dinossauro”, ele lembra sobre como as gravadoras abordavam a prensagem de discos.

    “Vimos logo quando os conhecemos que eles haviam feito algo que poderia ser um grande desbloqueio”, diz Anderson sobre a parceria com a empresa holandesa Green Vinyl Records (GVR).

    A Good Neighbor utiliza um método inovador que envolve a moldagem por injeção de tereftalato de polietileno (plástico PET), reduzindo a energia em 60% e aumentando a produção em três vezes. Pierre van Dongen e Harm Theunisse, da GVR, explicam que se inspiraram no processo de prensagem de CDs e DVDs, adaptando-o para a fabricação de discos. “Levamos seis anos para aperfeiçoar o desenvolvimento”, dizem, destacando os testes de mais de 200 materiais para encontrar a combinação ideal.

    Reyna Bryan, presidente da empresa de embalagens inovadoras RCD e CEO da Good Neighbor, destaca os benefícios ambientais da nova tecnologia. “No meu negócio de transformação das cadeias de abastecimento, qualquer oportunidade de reduzir a produção de carbono ou eliminar produtos químicos preocupantes do processo é uma grande vitória”, afirma Bryan.

    Além disso, a Good Neighbor promete um custo de produção competitivo, em muitos casos mais barato do que os métodos tradicionais. A empresa também garante um tempo de espera mais curto, com a capacidade de produzir mais discos por dia por máquina do que qualquer grande fábrica de prensagem de vinyl.

    A Good Neighbor está estabelecendo um novo precedente para a sustentabilidade na produção de discos, oferecendo uma alternativa viável e ambientalmente consciente para os amantes de música e colecionadores de vinyl. “Se esta indústria continuar a crescer a este ritmo, tem de mudar”, diz Anderson. “Quando os maiores artistas do mundo começam a vender milhões e milhões destes [vinis] embrulhados em plástico, foi então que pensei: ‘Isto parece algo que seria divertido interromper.’”

    Referências Bibliográficas
    1. Good Neighbor Record Manufacturing: Sustainable Approach. Billboard.
    2. Good Neighbor Music. Site oficial da Good Neighbor.
    3. Sustainable Vinyl Production: An in-depth analysis of the environmental
    impact of vinyl records. Green Vinyl Records.
    4. Energy Consumption in Vinyl Record Manufacturing: A study on the
    energy usage and carbon footprint of traditional vinyl production.
    Environmental Research Journal.