Categoria: Coluna

  • Eu acredito em tudo

    Eu acredito em tudo

    Eu acredito em tudo, acredito que existem vidas fora da terra, acredito que existe vida que nem imaginamos na terra, acredito que vivemos em uma simulação, ou que somos máquinas como relatado em West World. Enfim acredito em tanta coisa que me sinto perdido as vezes, porém, tudo é possível, toda teoria que tenha um bom fundamento tem que ser analisada.

    Acredito que Deus existe, que Ele tem grande poder e influência na natureza e consequentemente em nossas vidas, mas não acho que Ele tenha controle sobre tudo, que decide o destino de tudo e todos, afinal, cada um faz o seu caminho e toma suas próprias decisões. Acredito que todos têm um Deus dentro de si e esses Deuses servem a um Deus maior, que pode ser o criador de tudo, ou uma energia e/ou espécie evoluída ao ponto de criar uma realidade e se nomear o Deus de sua própria.

    Durante muito tempo fui cristão. Cresci dentro da igreja católica, mas aos poucos fui questionando muita coisa e pesquisando, vendo divergências dentro da igreja e na palavra, além de alguns acontecimentos que abalaram muito minha fé. Hoje em dia posso dizer que não tenho religião, pois religião só existe para nos separar. Podem existir religiões com boas ideologias e que são importantes para muitas pessoas, mas ainda vejo religião como uma segregação.

    Mas como eu tenho dito desde o início do texto, isso é o que eu acredito e não o que eu sei. Na real não sabemos nada relacionado à nossa existência, assim como não sei nada em relação a Deus.

    Isso tudo pode ser uma simulação, Deus pode ser o programador, ou o Big Bang pode ter sido o Big Boot e nós fazemos parte da programação assim como os agentes em Matrix, como uma parte completamente virtual dessa simulação, que nem precisa ser tão realista. O universo simulado pode parecer bem simples pra quem vive dentro dele e só parecer complicado pra quem olha de perto.

    Então rapaziada, esse texto é mais uma viagem minha, mas realmente acredito em tudo isso e muito mais que preferi não me aprofundar pra não transformar em um texto gigante bem mais viajado.

    Espero que tenha ficado claro que essas são minhas crenças e respeito a crença de todos, menos se você acredita que não houve golpe.

  • A estória de Adriana Rieger

    A estória de Adriana Rieger

    Hoje, no Rio de Janeiro, 2,5 milhões de jovens estão fora da escola. Onde estão esses jovens? Fui conversar com Adriana Cavalcanti Rieger, formada em Serviço Social pela UFF e graduada em Letras (Português-Alemão) pela UFRJ, especializada em Gênero e Sexualidade pela UERJ e atuante na rede estadual de Educação do Rio de Janeiro desde abril de 2008, trabalhando atualmente no sistema prisional do Estado.

    Adriana respondeu perguntas cruciais e difíceis no Sistema Prisional nesse tempo de encarceramento em massa e extermínio da população jovem, principalmente preta, no país. O resultado você confere agora.

    Cleber: Conte sua estória no sistema.

    Adriana: Entrar numa cadeia não é para qualquer um, ainda mais sendo mulher, mas uma coisa que nunca temi foi trabalhar numa instituição como esta. Primeiro pela minha formação em Assistente Social, segundo porque queria muito experimentar uma nova situação de trabalho tão desafiadora. No sistema prisional não trabalho como assistente social, mas sim como professora de português. Já trabalhei no Degase (instituição sócio educativa prisional para jovens de 15 até 17 anos), também já passei por duas cadeias masculinas, Bangu 4, Bangu 9 e atualmente trabalho no Complexo de Bangu.⁠⁠⁠⁠ Durante esse tempo vivi e vivo muitas situações, escuto e convivo diretamente com os presos em regime fechado. Muitas vezes a aula mesmo de língua portuguesa não acontece, mas sim a conversa e a escuta desses jovens e adultos. São muitas histórias e situações. Ver os jovens num sistema prisional é muito doloroso, principalmente os mais novos que estão cumprindo pena no Degase. As histórias de vida desses meninos são de muito abandono afetivo, sem referências de acreditar num futuro qualquer. O que eles vivem desde que nascem é a pobreza, o descaso do governo, a falta de referências e o pior: a desesperança.

    Hoje no Rio de Janeiro 2,5 milhões de jovens fora da escola. Onde eles estão?

    Boa parte passando pelas cadeias, cumprindo suas penas da pior forma possível e saindo dessas instituições piores do que entraram, isso muitas das vezes, também acontece a reincidência de alguns e outros que acabam voltando para o crime e morrendo nas comunidades ou no asfalto. No Degase esses jovens são jogados nas celas e misturados muitas vezes com facções rivais, o que ocasiona mais conflitos. Esses jovens não tem a chamada visita íntima, são muito jovens sim, mas a maioria já é pai e tem suas namoradas ou esposas. E sabe o que mais impressiona? É a inteligência desses meninos que não foi aproveitada para seguir outros caminhos. Muitos se arrependem de não ter frequentado ou dado a devida importância à escola, porque a necessidade os chamavam para o crime. Além disso há o deslumbramento pelo poder, o poder de segurar uma arma, o poder e o respeito que produzem nas comunidades, principalmente com as meninas, a adrenalina de estar em conflitos com a polícia, de roubar, usar drogas, etc. Isso tudo pelo simples fato desses meninos não serem reconhecidos pela própria sociedade e pelo Estado. Eles estão jogados na margem, não há de fato políticas públicas para manter esses jovens nas escolas, uma vez que muitas vezes a escola não é atrativa, além do preconceito que sofrem dentro das escolas por direções e professores. A violência simbólica que eles vivem nesses espaços faz com que eles desistam e pensem que a vida no crime é melhor, o reconhecimento é melhor. Esses meninos é que deveriam receber maior atenção nas escolas, claro que a mudança parte deles, mas tentar trabalhar de outras formas seria um pouco mais digno e humano para um novo resgate, uma nova esperança de vida e a volta de crer na esperança de um futuro, porque nem isso eles sabem pensar ao certo. Portanto, os meninos que passam pelo Degase, às vezes ficam um mês e são libertos, às vezes voltam, não voltam, ficam um, dois ou três anos que é o limite; enfim, nessa passagem pela escola eles aprendem e começam a entender suas realidades, alguns parecem já perdidos para o crime, poucos acreditam que podem mudar e viver outra vida mais digna. Outros acreditam apenas que a vida deles é curta e que mais cedo ou mais tarde vão morrer mesmo.⁠⁠⁠⁠

    Como mudar essa realidade?

    Minha luta e de outros profissionais que querem mudar a vida desses meninos ou fazê-los acreditar numa condição de vida melhor apesar de todas as suas dificuldades para viver nessa nossa sociedade. É um caminho difícil, mas não impossível. Dentro desse quadro já tivemos sucesso e isso é muito gratificante. É muito bom sabermos de que alguns voltaram para escola, estão trabalhando, mesmo vendendo balas nos sinais de trânsito, se dedicando mais a família, ouvindo mais seus pais, enfim, nem tudo está perdido quando se trabalha com fé, fé na mudança desses meninos, mesmo apenas dentro das escolas prisionais, único lugar de fato de ressocialização para eles.⁠⁠⁠⁠

    É possível haver ressocialização?

    O único lugar onde tanto os jovens e adultos podem buscar e entender sobre a ressocialização é dentro das escolas que funcionam dentro dos presídios. Em algumas cadeias não há oficinas de trabalho, não há lazer, não há mais nada além da escola. As parcerias com instituições profissionalizantes não existem em todos os complexos, ou seja, em todas as cadeias. Um dado alarmante e preocupante: muitos que passam pelo Degase, após completar 18 anos já vão direto para as cadeias adultas. No Complexo de Bangu convivo com muitos meninos jovens também, a maioria enquadrados no crime de tráfico de drogas. Em Complexo de Bangu as celas estão superlotadas, não há atividades extras, a assistência á saúde é muito deficiente, faltam remédios, faltam auxílios para os que mais precisam, além do ambiente insalubre que vivem. Nessas cadeias o índice de tuberculose é alarmante, além da contaminação pelo HIV. Dados do Infopen de 2014 indicam que a incidência de contaminação por HIV e tuberculose chega a ser 60 vezes superior á média nacional, e a incidência de mortes intencionais ( suicídios e homicídios), 6 vezes maior . Em consequência da precariedade que se vê é se vive nesses locais houve o fortalecimento de atuações de facções criminosas dentro do próprio presídio. Além disso a qualidade da água é insalubre, há ratos, celas lotadas, truculência dos agentes ( muitos acreditam que não há esperança para os internos e por eles quem está ali não deveria ter direito algum, muito menos a ida a escola). Nós professores também sofremos com piadinhas, preconceito, intimidações e não somos tão “queridos” assim (por alguns agentes) quando cruzamos o corredor da cadeia para irmos à escola. Somos vistos, muitas vezes, com olhares punitivos e desconfiados, mas mesmo assim seguimos na nossa luta e a equipe de professores do Complexo de Bangu é fantástica! Trabalhamos muito, fazemos da escola o melhor lugar para eles. Questionamos, escutamos, falamos na escola de esperança, de amor, de respeito e de mudança e que não desistam de sair dali diferentes. Nosso trabalho em Complexo de Bangu é de resgate. Sabemos que muitos não conseguem pensar em melhorias, mas isso soma-se a falta de outros meios de ressocialização. Fora a escola que resiste a tudo isso, o fato é que há inúmeras provas do fracasso do modelo punitivista adotado a partir do final do século passado, várias propostas vêm sendo feitas e adotadas nos últimos anos para restabelecer o lugar da prisão como último recurso ao combate à criminalidade. Além disso tal política punitiva de encarceramento não foi capaz de trazer mais segurança aos brasileiros, certo? Dados estatísticos demonstraram isso todos os dias. Outro dado importante: 71% dos internos sequer tem o ensino fundamental completo – INFOPEN 2014. E aí recaímos novamente na questão: onde estão os 2,5 milhões de jovens que estão fora das escolas no RJ?

    Futuro?

    Os problemas do sistema prisional são inúmeros, mas já obtivemos avanços, mesmo que modestos, as preocupações sobre a questão carcerária vêm se centrando justamente no resgate dos direitos e garantias constitucionais dessa população marginalizada, como acesso a oportunidades de educação e trabalho, o desenvolvimento de alternativas e mecanismos de proteção aos acusados contra restrições abusivas á sua liberdade. Será que um dia diante dessas iniciativas teremos um sistema prisional no Brasil digno e de ressocialização de fato? É o que esperamos, é o que espero e que dessa forma a criminalidade venha a se reduzir, mas sobretudo que pensemos no resgate, enquanto há tempo, dentro das escolas regulares, onde existem problemas a serem superados sim, onde a forças contrárias aos restabelecimento de melhores condições de aprendizado dos nossos jovens, mas é nadando contra toda essa maré que podemos reverter um pouco toda essa triste situação que se vive dentro das cadeias, não do do Rio de janeiro, mas do Brasil. Vamos pensar nas futuras gerações para que não tenhamos um país com tantas prisões e poucas escolas.

  • A importância dos saraus

    A importância dos saraus

    Como artista já tive oportunidade de me apresentar em alguns eventos variados, em sua grande maioria eram rodas culturais, porém em algumas oportunidades fui convidado para cantar ou recitar e inclusive tive a oportunidade de ser o poeta fixo de uma temporada do extinto Sarau do Vulcão, sarau que acontecia num shopping, o que fazia a experiência ser ainda mais interessante.

    No início tive bastante receio, porque na sua maioria o público do sarau não é um público que normalmente pararia para ouvir um rap. Mas ali naquele local, eles prestam atenção nas mensagens, e eu sempre tive a sorte dessas pessoas elogiarem o meu trabalho. Era uma troca de energia bastante interessante.

    No Sarau do Vulcão havia muita interação com o público, um sarau no shopping, além de suas normais adaptações tinha que ser algo mais dinâmico e de certa forma nós conseguimos criar um formato nosso. Ao fim de poesia, música, poesia e assim sucessivamente, rolava uma batalha de conhecimento com bastante interação da plateia sugerindo palavras aleatórias, nessa hora os senhores de idade, as crianças, os jovens paravam pra prestigiar e curtir a vibe.

    O Sarau é um ambiente bem diferente do ambiente do rap, das batalhas, mas de verdade, acho que todo MC deveria ir num sarau recitar seus versos e ver o respeito e a reciprocidade da energia, sairia um artista diferente com certeza.

  • Baixada Fluminense é sinônimo de empreendedorismo

    Baixada Fluminense é sinônimo de empreendedorismo

    A Baixada Fluminense tem um dos maiores índices de desemprego do país, segundo dados da Casa Fluminense divulgados em Abril de 2016, cerca de 195 mil pessoas ficaram desempregadas nesse período, de lá pra cá o índice só aumentou, hoje são cerca de 1.300.000 desempregados.

    Com tantos desempregados, não só na Baixada Fluminense, mas em todo o país, acaba se destacando quem pensa fora da caixinha.

    Pensar fora da caixinha não é algo simples, sair da zona de conforto é tão difícil quanto arrumar um emprego, mas mesmo em tempos de crise alguns conseguem, e nesse caso, pensar fora da caixinha é empreender.

    Empreendedorismo é ter a disposição de resolver problemas, ter ideias inovadoras, habilidade de organizar e liderar pessoas, mas a parte principal é ter determinação.

    Para os moradores da Baixada Fluminense empreender não é novidade, pois eles só tem duas escolhas: ser um trabalhador comum que enriquece o patrão; ou empreender pra ter uma vida melhor e mais digna. Lógico que não é fácil, mas pra quem vive na margem tudo é difícil e mesmo com tantas dificuldades pode se ver um aumento considerável no empreendedorismo da região.

    A juventude é a principal responsável por esse aumento, tendo em vista o quanto é difícil ganhar dinheiro, os jovens apresentam ótimas ideias de empreendedorismo com o passar do tempo. Temos ótimos exemplos como: o Bh Studio que é um estúdio onde o músico pode comprar desde o instrumental até gravar e lançar um videoclipe; o Brechó Original Bxd que é um brechó itinerante e online já há bastante tempo e pretende lançar sua marca Original Baixada no próximo ano; a Páia da Boa que  foi criada pelo Mc e Beatmaker, Gustavo Baltar com o intuito de ser sua fonte de renda e hoje já é um negócio mais bem estruturado, trabalhando com encomendas e com vagas abertas para revendedores.

    Se estiver desempregado e se interessar em ser um revendedor Páia da Boa pode entrar em contato com Baltar ou Dorgo.

    Existem outros empreendimentos que não foram citados mas que tem um impacto positivo assim como esses, no próximo domingo dia 3 de Setembro acontecerá a Feira Gambiarra na Praça do Skate de Nova Iguaçu com exposição de artesanato, brechós, culinária caseira e artesanal. Uma grande parte desses empreendedores estará lá pode ser uma ótima oportunidade de conhece-los, fazer umas comprinhas consciente nos brechós, comer umas delícias culinárias e curtir as apresentações das Dj’s Moonjay, Lari Hill e kakao. Vale apena conferir!

    Se você gostou da coluna, leia as últimas onde falei sobre o transporte público e a cultura na Baixada Fluminense e na próxima quinta tem mais.

    Nunca desista do seu sonho, independente de qual seja esse sonho, você pode realiza-lo.

    Nunca ignore uma ideia, são das ideias mais loucas que nascem as melhores coisas.

    Nunca duvide de você, pois apenas você pode se impedir de conquistar o que quer.

  • Um dia na vida de Mica

    Um dia na vida de Mica

    Todo dia na vida de Mica é assim. Ele acorda cedo e ainda escuro pega a marmita e segue para o trem rumo a cidade. Ele não pode ir no ônibus de ar condicionado porque o preço da passagem não é acessível ao seu bolso, e o trem lotado acaba sendo a sua solução.

    Não sei como é possível para esse homem conviver com essa realidade. São trinta anos de uma migração pendular dura, cansativa e desgastante. Tratado como gado nos vagões abarrotados de pessoas como ele que buscam o sustento diário, Mica sonha com o dia em que a realidade atual seja mudada, mas de onde virá a salvação?

    No trem se discute política como algo distante, presente apenas nas campanhas eleitorais onde os candidatos mais famosos ou donos de alguma patente próxima (posto de saúde, de gasolina, professores, médicos, sargentos etc.) cheguem ao seu humilde bairro para prometer e não cumprir suas famigeradas ações sociais. Já prometeram até emprego! Mica sonha com esse dia, um dia em que a vida de gado seja transferida para a vida de sonho, a fábula que ele vê na TV na hora da novela das 8, ou das 9, sei lá.

    O que Mica nunca entendia era porque aquele povo não mudava, não causava uma revolução. Contando a quantidade de vagões, normalmente sete por composição, cada uma com umas 150 pessoas dentro, e com intervalos de 15 minutos cada trem, a capacidade revolucionária daquele povo era gigantesca, ele notava que era a maioria dos trabalhadores quem reclamava daquelas viagens diárias regadas a suor, lamurias, contos, baralho, pastores, pregadores e vendedores de um shopping sobre trilhos que se deslocava desde a Central até Japeri. Contou que haviam outros ramais, igualmente cheios, e tentou compreender cada vida dentro daquele espaço, como cada um tinha um pensamento, mas que nunca se concatenavam.

    Mica notou a evolução da técnica, há algum tempo o trem não tinha ar condicionado, as pessoas hoje tem uma certa regalia ali. Notou que os jornais foram substituídos pelos celulares, mas ele ainda não possui um, o que o faz diferente de boa parte dos passageiros. Isso foi bom porque ele nunca perdeu o foco na observação. Viu aquela linda menina de trinta anos atrás que viajava com ele. Hoje ela aparenta ter uns 50, ele tem 55, mas ela é bem mais acabada. Talvez a jornada tripla, já que ela sai cedo, prepara a comida do marido e da filha, que aos trinta já é avó, pega o trem, trabalha, e durante a noite ainda arruma tempo para pegar os livros e ir para a humilde escola do bairro, que não tem merenda, tem carteiras depredadas e banheiros pichados, pois a arte do grafite ainda não faz sentido para aqueles alunos.

    Eles estão exilados mesmo numa periferia como outra qualquer do país. Aliás eles não tem aula de artes, pois a escola é de difícil acesso, e os professores nela não conseguem chegar. Mica nunca gostou da aula de artes, achava coisa de “viado” num preconceito absurdo que se instalou por lá. Aliás, Mica teve de parar de estudar na quarta série para trabalhar bem cedo, pois a comida era a principal necessidade de sua família e os sete irmãos não podiam esperar, ainda não era época de programas sociais de distribuição de alimentos e renda, como bem sabemos, mas isso era o que fazia mais falta àquele guerreiro, ele sentia falta da escola, sentia que aquilo poderia ter mudado sua vida. Em trinta anos de viagem no trem aquele pensamento jamais se afastara. Poderia ter ganho dinheiro, vida mais folgada, conhecido a Europa, África ou Japão, como via nas aulas de estudos sociais, poderia ter sido médico, pois adorava a aula de ciências, mas o destino o aproximou do trem.

    A estória de Mica se confunde com muitas outras, começou quando ele não pôde estudar e num efeito dominó chegou aos dias atuais. Dia desses peguei o trem com ele para ir ao Sarau Catando Contos, confesso que peguei o trem para ver a atualidade pois sou um cientista social, e ele narrou que há trinta anos que passa por esse perrengue. Me pergunto porque aquele trem não muda isso, porque aquele povo sofrido não reage? Será culpa do pastor? Será culpa do padre? Da polícia? Mas isso é algo que ainda tenho muito a aprender. Acho que é falta da escola, mas não vou legislar em causa própria.

    Mica me falava muito de Tia Lucília, aquela professora fizera diferença na sua vida o ensinando a ler e a escrever, pena que ela não teve muito tempo para estar com ele, mas mesmo assim, esse homem consegue fazer reflexões no trem, algo fantástico numa sociedade oprimida que só obedece à televisão, num lugar onde pensar é luxo.

  • O independente depende de muita gente

    O independente depende de muita gente

     

    Como fazer o corre virar?

    Uma verdade universal imutável, principalmente nesse meio, é que sozinho não se vai a lugar nenhum. Hoje a música é um produto, há uma indústria que move tudo isso e move bastante dinheiro, nada comparado a gringa ainda, porém, o rap está virando algo midiático e lucrativo, mas eu não quero falar sobre as gravadoras, porque afinal, elas na maioria das vezes deixam o artista “confortável” para ter o trabalho somente de escrever.

    Quero falar sobre a galera independente, tem a galera invisível pra cena atual e a galera que conseguiu uma visibilidade sendo independente. Nenhum deles chegou aonde chegou sozinho. Pode ser um artista solo, mas por trás de cada música, tem um time trabalhando em prol daquele artista, coletivos com um só propósito: ir atrás do seu sonho. E assim um artista vem puxando outros e expandindo a cena.

    Cada vez se veem mais coletivos, bancas, etc; todos querem o  seu espaço e elevarem os seus e a sua área, acredito que há lugar pra todos e isso é muito benéfico. A distribuição de tarefas dentro de um coletivo faz o lance ser o mais profissional possível, um mano responsável pela escrita, outro responsável pelo beat, outro pela distribuição nas plataformas digitais, de grão em grão, acredito que esse é o caminho certo para voos maiores.

  • Baixada Fluminense é o Epicentro da Cultura no Rio De Janeiro

    Baixada Fluminense é o Epicentro da Cultura no Rio De Janeiro

    A Baixada Fluminense é o epicentro da cultura no Rio de Janeiro, a região que é marginalizada gera conteúdos incríveis, como: poesias, músicas, livros, entre outros.

    A cultura na Baixada sempre foi muito rica, apesar da falta de atenção e verbas destinadas a mesma.

    Na última coluna falei do transporte público, ou melhor dizendo da falta dele, também citei alguns outros problemas que podem afetar drasticamente a cultura na região, porém mesmo com tantos fatores contra, vemos uma explosão cultural na Baixada Fluminense.

    Grande parte disso é devido a ocupação dos espaços públicos, a juventude vem produzindo saraus de poesia, rodas culturais e feiras criativasreunindo centenas de jovens nesses espaços, com intuito de revitalizar os espaços ocupados, valorizar a arte e os artistas locais e enaltecer o poder que os cidadãos têm, fazendo pressão política e pedindo por melhorias.

    Morro agudo lugar onde cresci e aprendi tudo que sei hoje, é um ótimo exemplo, temos artistas excepcionais, que realmente fizeram a diferença na região, Dudu de Morro Agudo, Lisa Castro, Átomo e Antonio Feitosa são alguns deles que através da arte e da cultura tem trazido melhorias não só pra Morro Agudo e sim pra todo território Fluminense.

    Muitos nomes não foram citados aqui, mas o intuito é mostrar a você um pouco do que a Baixada tem e faz em relação a cultura, a terra de Serginho Meriti, Robson Gabiru e Jota Rodrigues está muito bem representada.

     

     

  • Mais uma estória, a estória de um menino

    Mais uma estória, a estória de um menino

    Na exilada ilha não havia uma só pessoa que pudesse sonhar. Era proibido sair daquela lógica de dominação imposta pela alta cúpula de comando que tornava pessoas verdadeiros autômatos, seres cumpridores de ordens e carrascos de suas próprias vidas. Era impossível até mesmo enxergar que a vida poderia ser diferente para aqueles moradores, eles tinham vendas invisíveis em seus olhos. Até mesmo os mais letrados estavam vendados, não conseguiam se organizar e produzir alguma alegria ou vida para a região. No máximo se reuniam nos finais de semana e tomavam uma cerveja saboreando um churrasco.
    Mas um menino diferente apareceu por lá. Nasceu com uma anomalia que deixou estudiosos preocupados e inquietos, parecia ser um ser de outro mundo, tão jovem, tão diferente e tão assustador. Tinha o ideal de ver aquele lugar diferente, colorido, cheio de boas energias e sorrisos. Isso não era possível ao seu nascimento, mas com sua visão apurada, ele notava que existiam pessoas que mesmo desprovidas de recursos e sem a mesma dotada visão, destoavam um pouco do padrão local. Era questão de tempo juntar um exército para combater aquele marasmo na qual a ilha se encontrava, uma mente pensante não resiste ao desafio.
    Saiu de sua área insular, pegou um bote e foi ver o que acontecia além daquela praia. Viu cores e formas diferentes, sabores exóticos, se encheu de ideias e sonhos, viu afinal que uma nova forma de vida era possível, teve certeza disso. Precisava então traçar um plano para que tudo o que havia aprendido pudesse ser posto em prática. Sabia que a maior dificuldade seria convencer outros amigos, mas nunca duvidou que pudesse ser bem sucedido.
    A ilha, sabendo de seus planos, tratou de se armar para resistir. Não é possível mudar do dia para a noite um padrão dominador que atravanca o progresso da maioria em detrimento do poder de meia dúzia. E essa meia dúzia é muito bem articulada, prepara todas as artimanhas possíveis para deter jovens anômalos, como o nosso amigo, quando eles aparecem. Esse pessoal tem registros históricos em suas estantes que não permitem que eles adoeçam duas vezes da mesma doença.
    Construíram um muro ideológico para impedir a volta do menino. Ele foi bombardeado de todos os lados por dragões mitológicos que já dominavam aquela população. Blindaram todas as portas, todas as janelas receberam reforço. O menino insistente descobriu a internet, propôs diálogos, tentou uma forma diferente de juntar gente e falar sobre os problemas da ilha. Sabia que os dominadores tinham um aparelho formidável que entrava na casa de 99% dos habitantes e que contava para todos as histórias mais incríveis para lhes fazer dormir. Inclusive colocava medo nas pessoas para que elas comprassem coisas desnecessárias, pagassem escola, educação e saúde privadas. Isso enriquecia cada vez mais os dominadores. Mas o menino não desistiu, e é essa sua utopia que o mantém vivo até hoje. Os moradores da ilha ainda estão vendados, mas ele coloca muita pulga atrás da orelha de muita gente. Como esse menino é um incômodo, dizem até que ele é rico pra ver se tiram a sua moral. Rico ele é. Mas vocês sabem como.
  • Fator Cinderela

    Fator Cinderela

    Durante toda existência, a Baixada Fluminense sofreu com diversos problemas, desde a falta d’água e esgoto a céu aberto, até escolas mal estruturadas. Muitos problemas persistem até hoje e alguns não estão nem perto de uma solução. Meu pai me conta histórias de problemas da época dele que se encontram do mesmo jeito ainda hoje.

    A Baixada Fluminense está à margem e o Estado não olha pra margem, as prefeituras, na maior parte dos mandatos, são abandonadas, os prefeitos fazem o que querem, e alguns não estão nem um pouco preocupados com o que acontece em suas cidades.

    Nós, moradores da Baixada, somos basicamente obrigados a trabalhar fora, pois as oportunidades por aqui são pouquíssimas e nem todos tem a sorte de conseguir uma vaga. Para sair ou transitar pela Baixada necessitamos de transporte público, assim como em todas as outras cidades, mas a diferença da Baixada para os outros lugares é o “Fator Cinderela”.

    O “Fator Cinderela” é bem simples de entender. Você é livre pra ir onde quiser, mas não na hora que quiser. Você tem até 23h 59Min, pois quando o relógio marcar 00h Puff!!! A fada madrinha acaba com a mágica do transporte. Lógico que não são todos que somem assim do nada, alguns acabam bem antes, tem os ônibus que passam na Dutra em direção a Central, porém os motoristas não param nesse horário, o transporte público por aqui se resume a isso.

    Já trabalhei no turno da noite em Copacabana, tinha que sair mais cedo de casa e ficar esperando no trabalho, pois se eu fosse descansar pra sair no horário certo, corria o risco de o motorista não parar pra mim e eu chegar atrasado, se eu conseguisse chegar.

    Já saí diversas vezes tendo que esperar o dia amanhecer pra voltar pra casa, tanto no Rio quanto na Baixada.

    Isso foi apenas um relato do que acontece na minha querida Baixada Fluminense que é repleta de problemas sim, mas que ainda assim é maravilhosa. As pessoas daqui são as que mais me inspiram, as histórias daqui são as mais impressionantes e pretendo dividi-las com vocês. Nas minhas próximas colunas farei uma série (aceito ideias para o nome) onde contarei algumas histórias e alguns relatos sobre a nossa BXD.

    Se curtiu a coluna, compartilha pra chegar na rapaziada, a próxima vou falar sobre………………………………………………………. Cola aqui na próxima quinta que eu te falo.

  • Uma estória que se repete

    Uma estória que se repete

    A estória começou há muito tempo atrás. Era século XIX, num lugar próximo daqui que não se pode precisar o nome, mas era no Brasil. Estava próximo o fim da escravidão e aquele jovem homem maltratado pelo tempo e pelo trabalho pesado não conseguia imaginar o futuro longe de sua amada, linda, mesmo sofrida, com um sorriso fora do comum.

    Eis que a alforria chegou, foi festa de arromba mesmo sem mantimentos, alegria por estar livre, mas, para onde ir? Jogados à própria sorte, foram parar na parte mais alta da cidade, uma subida íngreme onde com barro e pedaços de madeira construíram seu barraco. Comiam vegetais que sabiam cultivar, usavam lenha como combustível, não conseguiam proteínas animais.

    Cansado de tanta pobreza ele foi a luta; desceu o morro mas foi perseguido pela polícia, pois sem sapatos era enquadrado por vadiagem. Deixou a nega grávida, nem ele mesmo sabia. Ela soube pouco antes de parir que seu amado havia sucumbido. Desesperada e com o filho no colo não teve alternativa, com sua beleza conseguia alguns trocados, voltava a casa para alimentar o filho, que ficava com a vizinha igualmente desafortunada, mas que tinha um companheiro estivador. Era onde comiam carne, fruto de alguns desvios do cais. Seu filho cresceu, formou família; não foi a escola, era impossível. Um ciclo que se repetia com pobreza e tragédias, furtos e submissão.

    Em sua atual geração essa herança está na Presidente Vargas, o Di menor atual se alimenta com pequenos furtos, em geral de celular, que vende para comer pastel, sua favorita refeição. Um dos irmãos foi morar em Nova Iguacu com a avó paterna. O menino consegue ir a escola, que é para ele a maior alegria, em várias gerações, ele é o primeiro a completar o ensino fundamental. Dia desses ele até apareceu na TV. Me contou que ficou muito feliz nesse dia pois ganhou um copo de suco, comida gostosa, salgadinhos e ainda vai ficar famoso!

    E tem gente que quer mudar o destino desses meninos. Mas quando assumem o poder eles mudam de ideia. A revolução só existe até a véspera.