Categoria: Entrevistas

  • GB Montsho: Reflexões sobre educação clandestina e formação política no RapLab

    GB Montsho: Reflexões sobre educação clandestina e formação política no RapLab

    Paulo Gabriel Queiroz Pereira, conhecido como GB Montsho, tem 23 anos de idade, iniciou no RapLab em 2016, com 15 anos de idade. Morou em Nova Iguaçu, Pavuna, e atualmente reside em Anchieta. É estudante de Letras na UFRRJ, em Nova Iguaçu, onde faz parte do diretório estudantil. Além disso, é rapper e poeta.

    GB tornou-se uma figura central em minha pesquisa porque, além de ser um jovem que está há quase uma década participando do RapLab, esteve presente em 130 dos 150 encontros que realizamos, sendo responsável por trazer muitos dos jovens participantes, incluindo os outros dois personagens com quem conversei: Debrah e Jatobá. Minha conversa com GB ocorreu em 31 de março de 2024 e está transcrito abaixo.

    GB Montsho duranta apresentação no evento Baixada Rap Festival, onde foi o campeão.

    Fale um pouco sobre você?
    Bom, sou GB Montsho, tenho 23 anos e nasci em Nova Iguaçu, mas atualmente moro em Anchieta.
    Acredito que hoje sou alguém que busca apenas viver tranquilo, tá ligado? Sou um cara que faz seus corres na política, faço parte do movimento negro e também do movimento estudantil. Além disso, sou estudante de Letras na UFRRJ, trabalho na área de revisão de texto e faço parte do diretório estudantil da minha universidade.

    Além disso, dedico parte do meu tempo à escrita de poesias.
    Mas na prática, eu quero estar movimentando pessoas, para que possamos alcançar uma vida tranquila para todos. Porque acredito que não podemos simplesmente ignorar. A gente não consegue mais passar batido hoje. São vários atravessamentos.

    E a escolha que fiz de ser um cara do hip-hop, que busca conscientização, faz com que esses atravessamentos doam mais. Eles se tornam mais evidentes, pois não há como ser do hip-hop e não mudar sua maneira de agir perante o mundo. Não apenas em pensamento, mas também em seu comportamento nas ruas. É uma parada que te persegue. Acho que eu sou um cara normal, um estudante, um trabalhador.
    Um estudante que se esforça para conseguir se manter na universidade, enfrentando muitas dificuldades. Que está indignado e deseja ter uma vida normal. Que não é essa vida que está colocada aí pras pessoas.

    Você se lembra da primeira vez que participou do RapLab?
    A primeira vez foi em 2016, na Arena Jovelina Pérola Negra, na Pavuna, eu tinha 15 anos.

    E como é que você ficou sabendo da atividade?
    Foi através do Inbute. Eu lembro que comecei a querer fazer rap aos 14 anos, então me juntei com a galera que tinha um grupo de rap de São João de Meriti. Fui a um evento na Pavuna, que ocorreu no Museu do Graffiti lá.

    Se não me engano, o RapLab era às quartas-feiras, e o evento era às terças. O Inbute disse que haveria algo na Arena na quarta-feira, e eu comecei a participar.
    Por acaso foi quando a gente estava para fazer o rap “Rio 2017”, um rap que fizemos em 2016, falando sobre 2017. Se eu não me engano era um rap de um projeto específico.

    Naquele dia, conheci muita gente, o Marcão (Baixada) estava indo para o RapLab, o Léo da XIII, a rapaziada toda. E esse RapLab foi mais cheio, porque era uma parada da Casa Fluminense, era um projeto específico.
    A partir daí eu estava sempre presente. Toda quarta-feira que tinha RapLab na Arena, eu estava lá.

     

    O que te motivou a frequentar o RapLab com tanta assiduidade naquela época e a continuar indo?
    Pra mim, especificamente, foi primeiro o lance da experiência, porque eu já tinha interesse em fazer rap. Não entendia exatamente para que o RapLab era voltado, por exemplo.
    O RapLab, na maioria das vezes, é feito com a galera mais crua do rap do que com quem de fato faz a parada. Eu não sabia exatamente o que era, mas sabia que era uma parada de desenvolvimento do rap, que era de graça, e que tinha a possibilidade de eu me desenvolver em alguma coisa, de gravar música e tal.

    Só que quando eu chego lá e vejo uma rapaziada que entendia da parada, aí eu falo: – ‘Mano, vou continuar vindo nessa parada aqui’.
    Primeiro, porque era legal, isso era um elemento. Nessa época, eu estava morando na Pavuna com a minha mãe, e aí, na quarta-feira à noite, eu não tinha nada para fazer, então era algo para eu fazer ali. Era uma galera legal, e fazendo rap.

    Como eu queria viver disso, na época queria ser rapper, queria ser famoso, toda essa história. Porque a gente achava que ia começar a fazer rap e deslanchar. Eu achava que a galera tinha muito para ensinar, e tinha mesmo. Lembro que quando o Marcão (Baixada) ministrava as oficinas, ele dava várias dicas de como encaixar o flow na música, aquelas coisas que eu não sabia. Acho que essas coisas, principalmente, fizeram com que eu continuasse.

    Como foi que você começou a participar desse projeto durante a pandemia?
    Primeiro foi essa parada do Jatobá, porque mandei mensagem no grupo em que ele estava. Lembro que o Dorgo me enviou uma mensagem falando sobre um projeto. O Dorgo me disse assim: – ‘Pô, mano, a gente queria fazer com adolescentes, de 15 a 20 anos.’ Então, mandei nos grupos, e foi nessa que veio o Jatobá.

    Só que lembro que eu fazia os corres das cestas básicas e vivia no Quilombo Enraizados durante o dia. Como era pandemia e eu não tinha internet em casa, usava a internet do Enraizados. E assim fui ficando.
    Lembro que eu era o único que fazia o RapLab de dentro da sala com vocês. Eu ia para o Enraizados para participar do RapLab. Não participava de casa.
    E aí foi indo, tá ligado?

    GB Montsho, Baltar e Dorgo, durante os encontros do RapLab.

     

    E aí você foi ficando?
    É… Eu fui ficando. Primeiro, porque acho que durante a pandemia houve o ponto alto do lockdown. Conforme ele foi se afrouxando, porque as pessoas precisavam trabalhar e várias outras coisas nesse sentido.
    A cabeça das pessoas foi ficando muito loucas também, né? E tem isso, eu não ia simplesmente, mas eu participava presencialmente também.

    Isso se devia à nossa troca de ideias antes do RapLab. Às vezes começávamos trocando ideias antes do RapLab, depois íamos para o RapLab, e depois a troca de ideias continuava.
    Às vezes, essa troca de ideias se estendia até tarde. Lembro que era uma correria para pegar o último ônibus, porque os horários dos ônibus estavam limitados até as 21h30, devido à pandemia.

    Acho que esse espaço para trocar ideias era muito interessante, porque a gente ficava filosofando. Era mais do que apenas discutir sobre rap. Houve dias em que, conforme o lockdown foi afrouxando e as mentes das pessoas ficavam agitadas, as coisas voltavam ao normal. Tive a sensação de que a participação no RapLab diminuiu. Então, íamos atrás das pessoas, e elas voltavam a frequentar novamente.

    Mas esvaziava de novo. Nos dias em que estava mais vazio, às vezes a gente nem conseguia fazer rap. Mas tínhamos a troca de ideias, que era como filosofia, mas a gente podia falar sobre… sei lá, por que Malcolm X não escreveu um livro?

    Falar de coisas profundas e até de uma coisa completamente “não profunda”, e falando de forma profunda de uma coisa “não profunda”. Então, eu acho que era uma coisa que deixava sempre as ideias fluindo ali.
    Acho que também era uma espécie de ócio criativo, porque normalmente não temos tempo para pensar. Parece que quando estamos pensando, refletindo, maquinando algo, não estamos fazendo nada de concreto, estamos desperdiçando tempo que poderia ser utilizado para produzir algo material.

    Para algumas pessoas, produzir pensamentos não é o mesmo que produzir algo material, sabe? E acredito que o RapLab era uma forma de conseguirmos produzir pensamentos sem nos sentirmos culpados.
    Porque todos nós tínhamos várias coisas para fazer, mas no RapLab, acreditávamos que estávamos produzindo algo, que estávamos fazendo rap e, ao mesmo tempo, essa produção era a troca de ideias.

    E não necessariamente algo muito bom surgiria dessa troca de ideias. Isso também era algo incrível. Porque não precisávamos necessariamente fazer um rap excelente em cada RapLab. Só precisávamos fazer as palavras rimarem uma com a outra, e isso já era suficiente. Mas a partir daí, várias outras ideias muito boas surgiam.”

    GB Montsho se apresentando no Festival Caleidoscópio.

     

    Dentre os 156 encontros, três temas foram os mais discutidos. O terceiro lugar ficou com a ‘questão racial’, algo relacionado à questão racial. Foram cerca de 20 encontros em que falamos sobre esse assunto. O segundo lugar foi ‘resistência’. E o primeiro lugar, correspondendo a dois terços dos encontros, foi sobre ‘luta de classes’.
    Por que você acha que discutimos tanto sobre luta de classes durante esse período?”
    Eu até pensei que o primeiro lugar seria a questão racial, mas faz sentido ela estar em terceiro, especialmente devido à composição da galera que frequentava o RapLab. Havia muitas pessoas negras, mas era um grupo bastante diverso.
    Uma coisa se destacava em relação à outra, mas as questões estavam interligadas.

    E eu acho que o motivo de termos falado tanto de “luta de classes” foi justamente porque era uma coisa que unificava geral.
    Como as histórias com o Jatobá. A gente vinha com um papo e o Jatobá vinha com uma reflexão totalmente diferente, da vivência dele em Rocha Miranda. E aí tinha isso, a galera da Baixada tinha outra ideia.

    Por exemplo, o Dorgo e o Baltar eram de Morro Agudo; eu era do Carmari, e estava frequentemente em Morro Agudo; tinha a RVN, que era de Xerém; o Jatobá, de Rocha Miranda; o PS, de Saquarema.
    Só que essa questão de ser pobre era o que impactava a todos, inclusive para manter a estrutura do RapLab funcionando. Quantas vezes foi difícil realizar o encontro porque a internet do Jatobá estava ruim?

    Então, acho que isso também mostra que era uma galera muito consciente de todo o contexto em que vivíamos. Conseguíamos entender que havia um motivo para as coisas acontecerem daquela forma. Não éramos uma galera acomodada com a ideia de ser pobre. Compreender que éramos pobres porque, por exemplo, a qualidade dos alimentos que consumíamos era muito ruim, era apenas reconhecer o óbvio.

    Eu acho que também éramos uma galera sedenta por conhecimento, que pensava: – ‘Ah, sou pobre, mas por que sou pobre? O que eu posso fazer a partir do momento em que entendo como pobre?’
    E é por isso que acho que faz sentido esse top 3 dos temas: luta de classes, resistência e a questão racial.”

    O que é formação política, no seu entendimento?
    Então, no meu entendimento, acredito que a formação política segue o mesmo caminho do letramento racial. Não apenas no que diz respeito à questão racial, é claro, mas considero que alguém que possui letramento racial também possui uma formação política em relação a essa questão.

    Uma pessoa com letramento racial sabe que é negro, reconhece as injustiças raciais que enfrenta e entende que o sistema pode não ser favorável a ela. Isso é parte do letramento racial.
    Por outro lado, alguém com formação política não só vai entender essas coisas, como vai ser um sujeito ativo. Não vai somente entender que é negro e que enfrenta injustiças, mas vai procurar se mobilizar com outras pessoas ao seu redor, trocar ideias e trabalhar em conjunto para encontrar maneiras de combater o racismo.

    Se tornará um sujeito ativo, buscando articular formas de mudar essa situação. E eu acredito que isso está totalmente relacionado ao estudo da questão racial, por exemplo, ter conhecimento de causa. Não basta apenas confiar na própria experiência; para ter formação política, é essencial compreender também as vivências das pessoas ao redor.

    Para isso, é preciso minimamente ouvir, ler, conviver com pessoas diferentes que possam contribuir com essa formação ao longo da vida.
    Além disso, esse processo não acontece de uma hora para outra. Não basta frequentar um curso de formação política e se considerar formado. É um processo contínuo de aprendizado, de entender outras perspectivas, de conhecer mais.

    Dudu de Morro Agudo e GB Montsho durante esta conversa.

     

    Você mencionou algo aqui certa vez que realmente me deixou intrigado, e desde então tenho refletido sobre isso com frequência: o que é exatamente a Educação Clandestina?
    A Educação Clandestina é uma forma de educação não formal. Fico pensando que é chamada de clandestina porque, de certa forma, é oculta ou restrita. Não é oficialmente proibida ou institucionalmente reprimida nos dias de hoje. Não há proibição oficial de adquirir livros de autores como Clóvis Moura ou Abdias do Nascimento.

    Mas, ao mesmo tempo, em algum momento, já foi assim. Certos tipos de estudos que realizamos já foram considerados subversivos. Acredito que é nesse sentido que se encaixa o conceito de Clandestino.
    Apesar de precisarmos de um ensino formal devido à estrutura do sistema em que vivemos, onde é necessário ter uma formação formal para conseguir um bom emprego e desenvolver uma carreira, o conceito de Clandestino permanece relevante.

    Pois, para conseguirmos nos desenvolver enquanto seres humanos, precisamos da educação clandestina, pois o ensino formal tem suas limitações e ele é historicamente negado para nós. Na escola, aprendemos a ler, porém não desenvolvemos plenamente habilidades como raciocínio crítico e interpretação dos significados implícitos. Acredito que isso é função da educação clandestina, e eu acredito que essa educação clandestina precisa ser desenvolvida entre nós.

    Eu penso muito sobre a educação popular, especialmente sobre aqueles que utilizam métodos freirianos para alfabetização. Acho isso uma coisa incrível. Embora eu já tenha lido sobre Paulo Freire, nunca havia presenciado na prática o processo de alfabetização, a galera alfabetizar um pedreiro falando sobre ele ser pedreiro, os caras falam de reforma agrária.

    O que você diria para um jovem para participar de uma atividade do RapLab?
    É desafiador, porque acredito que depende do contexto em que eu estaria com esse jovem.
    Penso que o RapLab cumpre diferentes funções sociais. Ele proporciona um espaço de socialização, onde as pessoas podem trocar ideias e fazer amizades.

    Além disso, serve como um espaço de educação, ensinando fundamentos básicos para aqueles que desejam se tornar MCs. É impressionante como o RapLab consegue ensinar fundamentos básicos de como ser um MC que faz total diferença.

    Se observarmos as pessoas que passaram pelo RapLab, como o Inbute, por exemplo, podemos perceber que a maneira como elas trabalham na música hoje é completamente diferente daquelas que não passaram pelo projeto.

    Porque essas pessoas tiveram uma rede de outras pessoas que ensinaram como fazer rap, como mardar um flow, e isso não era a função do RapLab, não está no programa do RapLab fazer isso. Mas as pessoas fazem. Você consegue aprender outras coisas, porque você não vai se prender só naquilo que é o objetivo central, tem outras coisas que atravessam.

    Acho que depende muito de onde esse jovem vem. Mas, de modo geral, eu diria que o RapLab é um lugar onde ele pode aprender de uma maneira muito diferente da escola. No RapLab, o aprendizado não é abordado da mesma forma que na escola. Ele vai ter gosto por aprender, tá ligado? E ele vai trocar ideia com gente que é igual a ele, o que torna a experiência divertida.

    Não é um aprendizado chato. Muitos jovens associam educação à chatice. Eles pensam: – “Vou para a escola, que chato”. No entanto, no RapLab, a mentalidade é diferente: “Cara, vou lá aprender e isso vai ser muito legal, além de estar com uma galera bacana”.

    GB nos encontros para a gravação das músicas do RapLab

     

    Como você convenceria a diretora de uma escola? Você usaria os mesmos argumentos que usou com o estudante?
    Então, para a diretora, acho que já vai ser diferente.
    Para a direção de uma escola, o RapLab representa uma oportunidade valiosa para enriquecer a experiência educacional dos alunos. Primeiramente, muitas escolas enfrentam limitações no acesso a atividades culturais, e isso faz falta no currículo de formação de um estudante.

    E eu acho que só esse elemento já é o suficiente para uma pessoa querer ir RapLab na sua escola. O RapLab é uma iniciativa que aglutina todos os estudantes. Onde todos os estudantes tem oportunidades de aprender conforme o seu tempo. Desde os mais reservados e tímidos até os mais extrovertidos e barulhentos, o RapLab consegue alcançar todos os alunos.

    Quando estamos envolvidos no RapLab e percebemos que há um aluno mais retraído, conseguimos incentivá-lo a participar através da atmosfera criada no ambiente, estimulando-o a se expressar.
    Eu não me lembro de um RapLab em que alguém não tenha falado; pode ter ocorrido, mas não me recordo. E o que aquela pessoa diz, as outras não encaram como algo determinante, entende? Porque o RapLab não busca ser certo ou errado, ele simplesmente existe. Portanto, as pessoas se sentem mais à vontade para expressar suas opiniões, pois há espaço para o contraditório.

    Existe espaço para você dizer que essa parede é azul, outro afirmar que é amarela, e ainda outro argumentar que é vermelha, e então discutir sobre isso. Por essa razão, acredito que o RapLab é capaz de reunir todos os tipos de estudantes, desde os mais agitados até os mais reservados, desde aqueles com dificuldades de alfabetização até os que têm mais facilidade nessa área. o RapLab consegue aglutinar todos eles.

    Isso já é argumento suficiente para um diretor querer o RapLab em sua escola.

    Saiba mais sobre o GB:
    https://www.instagram.com/gabrielgb.up

  • Explorando a formação política no RapLab: O caminho de Debrah

    Explorando a formação política no RapLab: O caminho de Debrah

    Débora de Souza Costa Seabra é natural da cidade de Nilópolis, na Baixada Fluminense. Tinha 19 anos quando ingressou no RapLab em 2020, enquanto cursava o Ensino Médio no IFRJ, em Nilópolis. Atualmente, identifica-se como Debrah.

    Tivemos uma conversa no dia 28 de março de 2024, que durou cerca de 40 minutos. Discutindo sua participação no RapLab durante o período da pandemia.
    Revisitamos o período visando ajudar-me a responder algumas questões para minha tese de doutorado, principalmente relacionadas ao conceito de formação política e ao papel do RapLab nesse processo.
    Contudo, assim como aconteceu na conversa que tive com Jatobá, novos caminhos foram abertos para diversas reflexões.

    A seguir, apresento uma transcrição de nossa conversa, destacando os pontos abordados por Debrah. Para iniciar a conversa, perguntei como ela tomou conhecimento dos encontros do RapLab durante a pandemia. E a partir daí a conversa se desenrolou.

    Como você tomou conhecimento do RapLab pela primeira vez durante a pandemia?
    Certa vez aconteceu um caso de racismo no IFRJ de Nilópolis, onde um estudante foi acusado de roubar o celular de outro estudante, na realidade ele não tinha feito isso, mas isso desencadeou uma revolta nas pessoas, e por isso aconteceram algumas atividade lá, e uma dessas atividades foi um SLAM de poesias.
    Certa vez, ocorreu um caso de racismo no IFRJ de Nilópolis, onde um estudante foi acusado de roubar o celular de outro estudante. Na realidade, ele não havia feito isso, porém, essa acusação desencadeou uma revolta entre as pessoas. Por isso ocorreram várias atividades na instituição, e uma delas foi um SLAM de poesias.
    Era muito interessante, porque não havia ninguém ali no IFRJ que fazia poesia. Era algo introspectivo. Eu, por exemplo, nunca havia recitado, mas havia dois rapazes lá que recitavam poesia, e mais ninguém participava. Eles continuavam a recitar, e um complementava o outro em suas poesias. Mais tarde, descobri que eles faziam parte do “Enraizados no Vagão”, um grupo que produzia poesias nos vagões dos trens, e ambos eram membros do Instituto Enraizados.
    Um daqueles caras, o Gabriel (GB Montsho), me perturbou muito para eu recitar poesia naquele espaço, eu não o conhecia, mas os meus amigos ficaram insistindo para que eu participasse. A gente recitava poesia em sala de aula, mas apenas ocasionalmente, e então escolhi uma poesia e recitei em público pela primeira vez na vida.
    Marquei aquela pessoa que me incentivou no Instagram, comecei a segui-la, e ela me seguiu de volta. Assim, acabamos nos tornando amigos, de certa forma.
    Algum tempo depois ele postou que teria um encontro do RapLab. Enviou um texto que explicava um pouco sobre a atividade, que era pra fazer rap e eu achei o nome legal, RapLab. Me inscrevi porque parecia uma oportunidade legal. Preenchi o formulário e depois recebi o link, gostei e fiquei indo.

    Você participava do movimento estudantil?
    Eu comecei nessa época. Na verdade, esse caso [de racismo] aconteceu mais ou menos no final de 2018. Em 2019, o Bolsonaro entra no governo e aí ele começa a cortar verba da educação, e a minha escola, assim como a escola do Jatobá (Pedro II), ficam ameaçadas.

    Você conhecia o Jatobá nessa época?
    Não. Comecei a me aproximar mais do GB (Montsho), inclusive, nessa época começamos a construir o movimento estudantil. Era algo pequeno, eu apenas participava dos protestos. Eu ia porque comecei a gostar disso. Foi ali que fui me aproximando mais do GB.

    O que te fez participar mais vezes pro RapLab?
    Pra ser sincera, o que me fez voltar de novo foi um sentimento de não querer perder aquele encontro. Eu gostei muito da troca de ideia, porque eu criei uma afeição pelas pessoas que participavam. Eu sentia que não podia negar o convite daquelas pessoas.
    Toda vez que as pessoas me convidavam, eu comparecia. Se não recebesse esse convite, se não tivesse alguém me mandando mensagem, às vezes até no privado do celular, me marcando na rede social e fazendo questão, eu não voltaria.
    Mas como era algo fácil, bastava clicar no link, e eu estaria ali encontrando pessoas com quem gostava de conversar, eu sempre comparecia, porque não queria abrir mão da minha conexão com elas.
    Durante a pandemia, o pessoal tentou realizar muitas atividades. Eu era, inclusive, membro do Grêmio Estudantil da minha escola, então o Grêmio começou a promover ações de forma virtual. Nas reuniões do Grêmio, as pessoas falavam, mas às vezes eu não conseguia entender completamente o que diziam, sabe? Eu prefiro muito mais conversar olhando nos olhos das pessoas. Por isso, eu não conseguia priorizar essas outras reuniões, mesmo que houvesse pessoas me chamando para participar, da mesma forma que acontecia com o RapLab. Acho que nenhuma daquelas coisas me atraia.
    Alguns dos meus amigos moravam perto e iam lá pra casa. Eu preferia ficar com eles do que participar das reuniões. O RapLab aconteceu num horário que eu ficava muito sozinha. Era de tarde, então como eu estava sozinha, eu tinha uma probabilidade maior de participar.
    E era uma troca de ideia que, por mais que eu entrasse na metade do encontro, eu ia conseguir entender o que estava sendo conversado e me envolver ali. E ia ter permissão de falar e de me colocar. Sem esperar muito pra isso, sabe? A gente trocava ideias sobre várias coisas legais. E trocava umas ideias muito boas. Eu tinha muito espaço pra poder falar e colocar minhas opiniões.
    Mesmo que, às vezes, as pessoas discordassem. Era um espaço seguro, de certa forma. Isso me manteve ali, a fim de continuar. Foi a única coisa que eu consegui fazer na pandemia.

    Você já tinha gravado rap antes do RapLab?
    Não, era uma realidade muito distante para mim. A partir do RapLab, minhas poesias ganharam mais consistência; foi quando mais compus. É algo curioso, pois trabalhei muito durante a pandemia, e o RapLab era um dos meus raros dias de folga. Então, participava do RapLab e compunha durante o trabalho. Durante meu expediente, pegava o caderno e escrevia poesia.
    Através do RapLab, conheci pessoas que me ajudaram a me tornar efetivamente um rapper. Atualmente, também faço rap. Lancei uma música no início de 2022 com uma pessoa que era um dos coordenadores do RapLab. Fizemos uma colaboração, e agora estou trabalhando com outra pessoa que conheci através do Enraizados, embora não participasse do RapLab, mas é um produtor musical, e estamos colaborando juntos.
    E estou para lançar também um EP de rap.

    Houve algum encontro específico no RapLab que você considerou particularmente significativo ou marcante? Se sim, qual foi e por que você o considerou assim?
    Tem um encontro em que discutimos a questão da terceirização e da ‘uberização’ do trabalho. Abordamos especificamente a situação dos entregadores de aplicativos, destacando o papel do Galo de Luta e como a economia avançava durante a pandemia. Falamos também sobre a estratégia global de precarização da vida dos trabalhadores e as dificuldades enfrentadas por esses entregadores. O fato de o Galo de Luta ter sido preso foi mencionado, e esses temas em discussão me marcaram profundamente.
    Foi, inclusive, um encontro que eu lembro que estava no quarto, mas o encontro foi durando, durando, durando e eu vi que estava no finzinho da tarde, ia anoitecer e o encontro ia continuar. Como eu não queria perder o fim de tarde, pois estava um dia bonito, eu saí e continuei conversando com o pessoal sobre esses temas, com fone de ouvido.

    Foi, inclusive, um encontro que lembro que começou de tarde, mas continuou se estendendo, e percebi que já estava chegando ao fim da tarde e prestes a anoitecer, e ainda assim a discussão seguia. Como não queria perder o entardecer, pois estava um dia bonito, saí e continuei conversando com o pessoal sobre esses temas, utilizando fones de ouvido.

    Um terço dos encontros teve como tema algo relacionado à luta de classes. Por que você acha que discutíamos tanto esse assunto?
    Eu acho que discutimos tanto isso porque esses encontros ocorreram durante a pandemia, um momento árduo de crise do capitalismo. O capitalismo está em crise; começou em 2008 e continua até hoje, se agravando cada vez mais.
    E ele precisa dessas crises porque é durante as crises do capitalismo que conseguem justificar as guerras. Conseguem ampliar os lucros por meio da crise, como está acontecendo hoje. Refiro-me a “guerras” entre aspas, pois o que está ocorrendo entre Israel e Palestina não é uma guerra, é um massacre.
    Mas conseguem justificar essas coisas durante o período de crise. E nesse mesmo período, a luta de classes fica mais aguda, onde as pessoas percebem mais claramente as disparidades, pois se tornam mais evidentes. Era óbvio quem era a população que estava morrendo de covid-19 naquele período. E diversas outras coisas.
    Quem estava passando fome? Quem estava realmente priorizando essas questões de ajuda mútua? No Enraizados, havia um grupo que organizava cestas básicas para doar, a fim de ajudar as pessoas próximas. Percebemos que, mesmo o governo tendo muitos recursos, não estava investindo em vacinas.
    Estava claro para nós que o governo atuava em benefício dos ricos e dos interesses pessoais dos próprios governantes. Por exemplo, o Bolsonaro comprava vacinas e recebia propina em troca. Ele comprava vacinas que não eram comprovadamente eficazes, mas menos eficazes, visando lucrar com isso. Todo esse esquema visava gerar ainda mais dinheiro para aqueles que já eram privilegiados financeiramente.
    As pessoas que conduzem o RapLab, que fizeram parte do RapLab, são pessoas que conseguiram perceber essas coisas, porque é muito óbvio para a gente. Porque a gente está de um lado. A gente pertence a uma classe. A gente é da classe trabalhadora. Não tinha ninguém ligado a outra classe. Então a gente conseguiu ter isso mais claro. Eu acho que foi por causa disso, não tinha como falar de outra coisa.
    Se a gente entrasse no tópico do racismo, a gente entrava no tópico da luta de classes também. Se a gente entrasse no tópico pra falar de sorvete, a gente entrava no tópico da luta de classes. Porque quem é que está comendo sorvete? A gente não está comendo sorvete. Acredito que a gente falou muito por conta disso.

    Qual é a sua definição de formação política?
    Acho que formação política é você ter a capacidade de compreender os movimentos da sociedade, como a sociedade funciona, por que as coisas acontecem da forma que acontecem. Acho que a formação política é um meio de se conseguir compreender o mundo, o mundo da forma que ele é, porque tudo no mundo é político.
    Inclusive, a educação é política, nada é neutro nesse mundo, então tudo é político. Creio que a formação política é você conseguir compreender o que está por trás, por exemplo, da reforma do novo ensino médio, dessas questões. Acho que isso é formação política.

    Todo mundo tem essa compreensão?
    Não, não acho. Eu acho que, inclusive, existe todo um movimento, de uma cultura de massas, que é o que aparece na televisão, nessas mídias de massa, no TikTok, que faz com que as pessoas fiquem constantemente sob uma névoa que camufla a realidade, deixa a realidade um pouco mais dura para a nossa compreensão.
    Algumas pessoas acham que o mundo é assim porque ele é assim e pronto. Ou porque na pandemia quem estava morrendo era porque em outras vidas tinham cometido erros e estavam pagando nessa vida. Que a pandemia era um momento de resgate dessas pessoas. Que as pessoas estavam morrendo na pandemia porque elas tinham sido predestinadas. Essa coisa do destino.
    Que tudo que aconteceu com a gente já estava escrito antes da gente nascer. Isso é o que as igrejas e o que frequentemente a gente vê na televisão também.
    Acredito que isso atrapalha um pouco as pessoas a adquirirem formação política, porque elas acreditam que o candidato ganhou a eleição presidencial por estar predestinado. Elas acham que não havia nada que pudéssemos fazer para mudar isso. Eu entendo que a formação política é justamente compreender a situação.
    Além de compreender, eu mencionei apenas a questão de entender o mundo. Mas também é perceber que sua ação, em conjunto com a ação de outras pessoas, por meio da ação coletiva, pode transformar o mundo. Eu acredito que isso é formação política.
    Só que eu acho que muitas pessoas, muitos intelectuais não têm. Ou têm uma perspectiva diferente, de se achar muito inteligente por achar que nada pode se transformar.
    Boa parte das pessoas não têm formação política por não conseguir ter essa compreensão dos movimentos políticos que acontecem no mundo.
    Mudou agora o Ensino Médio, agora os estudantes pobres não vão ter aula mais de História. Mas é isso. É isso que está dado. As pessoas não conseguem compreender o que está por trás disso e o que faz com que isso aconteça.
    Eu acho que o RapLab estimula isso. Porque se o tema do RapLab for, por exemplo, o novo Ensino Médio, a gente vai trocar de ideia sobre isso. Vai chegar uma hora que a gente vai ficar sem ideia para trocar sobre o que é, então a gente vai entrar na ideia do porquê que é.
    Então vamos começar a cavar as coisas para podermos ter mais ideias para trocar, para não fugir do assunto. Porque o assunto do RapLab é esse. Acho que isso faz com que a gente consiga ter esse espaço de desenvolvimento, de formação política.
    Porque o RapLab traz muito a perspectiva da coletividade. Não apenas realizávamos os encontros, mas também compúnhamos as músicas de forma coletiva. Eu já partia da ideia de que não se trata apenas da genialidade individual, em que apenas uma pessoa consegue compor.
    Nós compúnhamos de forma coletiva, nos encontrávamos e fazíamos. Além disso, nos reuníamos para construir o estúdio do Enraizados, participar de mutirões e distribuir cestas básicas. Então, contávamos com a coletividade não apenas para criar música, mas também para ajudar a transformar a vida das pessoas. Fazíamos isso porque entendíamos que tínhamos essa capacidade. No entanto, várias pessoas ao meu redor, incluindo minha família e amigos, não praticavam esse tipo de ação.

    Como você acredita que ocorre o despertar das pessoas para a realidade além da anestesia?
    Então, comigo aconteceu da seguinte forma, eu fui me desligando de algumas coisas. Eu me desliguei do pastor, porque a igreja faz com que você ache que está tudo predestinado, que você não tem controle sobre nada, que o controle é de Deus e que você não pode fazer nada para transformar as coisas.
    Eu saí disso no momento que eu percebi que eu era uma pessoa LGBT. E, segundo eles, eu ia necessariamente para o inferno. Eu falei, cara, eu sou uma pessoa boa, eu não vou para o inferno, isso aí é mentira. E eu saí disso.
    A gente viveu uma efervescência política muito grande no nosso país, mas eu sempre acreditei que eu podia ajudar a transformar o mundo de alguma forma. Certa vez eu soube que poderia ficar sem concluir o meu ensino médio por causa de um corte que um político tinha feito na educação. E falaram pra mim que, se eu fosse pra rua protestar, e fosse um protesto muito grande, eu conseguiria reverter aquilo. Eu pensei assim: – “Pô, vou fazer isso”. E fui pra rua e ele voltou atrás.

    Quem te chamou pro protesto?
    O pessoal do Grêmio. Jovens da minha idade que tiveram contato com o marxismo. Jovens marxistas, comunistas, me falaram isso. Falaram que era possível a gente pressionar coletivamente o governo para poder transformar uma coisa na sociedade.
    E a gente fez e o cara voltou atrás do corte e a minha escola não fechou. Aí eu falei: “Pô, então isso daí dá certo. Se eu me juntar com um monte de gente, eu posso perturbar a vida desse cara, e eu vou”.
    Eu comecei a ir para todos os cantos que eu podia, toda vez que tinha um monte de gente junta para poder encher o saco daquele fascista, eu estava lá. Comecei a perceber que em vários momentos ele voltava atrás. Então pensei: – “Cara, eu não sou tão pequena assim se eu estiver em conjunto com outras pessoas”.
    Comecei a perceber como as ações coletivas eram feitas. Eu tive esse despertar a partir disso. Comecei a procurar outras experiências de transformação da sociedade. Fui estudar sobre Cuba. Comecei a perceber que é possível transformar.
    Hoje eu sou comunista, mas para ter formação política você não precisa ser comunista, basta você conseguir ter uma compreensão mais material do mundo.
    Se um presidente, cercado por pessoas que defendem os direitos dos ricos, quer lutar pelos direitos dos pobres, os pobres precisam se unir e mostrar que a maioria da sociedade, composta principalmente por pessoas pobres, tem interesse nisso. Assim, os ricos serão pressionados, visto que constituem uma minoria na sociedade.
    Eu acho que o RapLab foi muito importante para mim nesse sentido também, porque foi um dos primeiros espaços de debate político que eu tive na minha vida, onde eu pude colocar minha opinião e entender que a minha opinião política, de certa forma, em alguns momentos, estava certa. E eu não tinha estudado em lugar nenhum, não tinha estudado Marx, não tinha estudado nada, mas eu sou uma pessoa pobre. Eu tinha algum nível de formação política que foi sendo aprofundado através de uma troca com outras pessoas pobres, algumas um pouco mais estudadas que eu.

    Quem é você hoje?
    Atualmente, estudo Produção Cultural na faculdade do IFRJ em Nilópolis. Anteriormente, enquanto cursava Química no IFRJ, eu planejava trabalhar em uma fábrica, mas nunca consegui emprego devido à alta taxa de desemprego.
    E aí eu fui estudar outra coisa, fui fazer curso técnico em iluminação cênica. Por isso eu estudo produção cultural no IFRJ. Lá eu desenvolvo o movimento estudantil, ainda nessa perspectiva de transformar as coisas, eu busco trazer essa perspectiva para outras pessoas.
    Eu sou presidente do Centro Acadêmico, que é uma representação dos estudantes do meu curso. Isso tem me dado um trabalho também, mas é um trabalho voluntário que realizo.
    Trabalho com iluminação cênica para peças de teatro, mais na cidade do Rio de Janeiro, que é onde existem mais investimentos em cultura e é onde eu consigo ter um salário.
    Na Baixada eu não consigo ter um salário, mas aprovei que um projeto pela Lei Paulo Gustavo, na cidade de Nilópolis, e estou produzindo esse projeto onde atuo como produtora musical e roteirista. O projeto tem como perspectiva apresentar a realidade de uma pessoa trans, não-binária, trabalhando com arte na cidade de Nilópolis.
    Eu sou uma pessoa trans, não-binária, que trabalha com arte, nem sempre na cidade de Nilópolis, mas esse projeto visa trazer essa perspectiva. Então estou fazendo essas coisas hoje em dia.

    Como você explicaria para um amigo da sua idade o que é o RapLab e por que ele deveria participar?
    O RapLab é um encontro onde nos reunimos com pessoas interessadas em rap, de vários lugares, com várias vivências. Trocamos ideias sobre um tema específico, que reflete as experiências de todos os participantes. Durante o debate, entramos em contato com diversas perspectivas, experiências e ideias. Após isso, escrevemos uma música coletivamente inspirada nessas discussões.
    Então, se você nunca fez música, se você nunca fez rap, é uma chance de você ter essa experiência pela primeira vez. E, ao mesmo tempo, mesmo que você não tenha interesse nenhum por rap, você vai ter a oportunidade de conhecer várias pessoas legais.
    Hoje em dia é muito difícil você conseguir conversar com as pessoas, pessoalmente, ouvir a voz das pessoas falando sobre as coisas, falando sobre temáticas profundas. E o RapLab é uma conversa coletiva com um monte de gente legal.
    Acredito que mesmo que você não tenha interesse no rap, você vai conhecer alguém que, de repente, vai ser alguém muito importante pra sua vida. Então, acho que vale a pena você ir.

    Você apresentaria para uma diretora de escola da mesma forma como apresentou para um amigo?
    Não, eu abordaria a diretora e explicaria que faço parte do projeto RapLab, o qual visa promover o desenvolvimento da escrita e da palavra entre jovens.
    É um projeto que desenvolve a formação de jovens para poderem apresentar suas ideias, porque os jovens pensam muito, mas raramente conseguem colocar suas ideias de uma maneira contundente na sociedade. O adolescente brinca muito e dificilmente consegue colocar suas opiniões de uma maneira efetiva. O RapLab existe para desenvolver isso nas pessoas.
    É um espaço onde esses jovens vão poder falar sobre temáticas que, inclusive, você, diretora, pode me ajudar a escolher, que seja interessante de trabalhar com esses jovens. A gente pode trabalhar sobre a temática do machismo, sobre a temática dos assédios, ou sobre a temática do Enem.
    A gente pode trabalhar sobre a importância de se fazer faculdade. A gente vai conseguir descobrir entre esses jovens o que eles pensam sobre essa temática, e isso pode ser interessante para a sua escola, para poder construir novas iniciativas a respeito desses jovens.
    E no final, a gente vai fazer um rap. E vai ser uma produção coletiva entre os jovens, e pode ser que isso desperte em alguns deles a vontade da escrita de poesia. A gente sabe que a escrita de poesia instiga outras coisas. Eles vão escrever um rap, depois pensar em escrever a própria poesia, depois pensar em escrever um texto maior. E vai acabar tendo mais facilidade para poder fazer uma redação.
    Os jovens ouvem muitas músicas, mas dificilmente enxergam nessas músicas a poesia que tem, e conseguem entender as mensagens que estão por trás, e o RapLab faz o movimento contrário, ele constrói uma poesia com uma mensagem que foi discutida antes. Isso ensina aos jovens a consumirem essas artes que eles já consomem constantemente de uma maneira mais crítica, e desenvolverem a capacidade de fazer essas artes de uma maneira mais crítica também.
    Os jovens frequentemente ouvem muitas músicas, mas raramente reconhecem a poesia nelas e compreendem as mensagens que estão por trás. O RapLab faz o movimento contrário, construindo poesias com mensagens discutidas anteriormente. Isso pode ensinar aos jovens a consumirem as artes que já consomem de maneira crítica e desenvolverem a capacidade de produzi-las de forma crítica também.
    Creio que seria uma coisa muito positiva para a juventude dessa escola, porque o nosso maior interesse é o desenvolvimento desses jovens que estão aí.

  • Reflexões de Jatobá: Uma jornada de formação política e artística no RapLab

    Reflexões de Jatobá: Uma jornada de formação política e artística no RapLab

    Raulf Henrique Gomes Jatobá, de 20 anos, é natural de Rocha Miranda, situada na Zona Norte do Rio de Janeiro. Iniciou no RapLab em 2020, aos 16 anos de idade. Destacou-se como um dos participantes mais assíduos, participando de aproximadamente 90 encontros de um total de 150.
    É importante ressaltar que sua participação no projeto teve início a partir do trigésimo encontro. Atualmente, ele se identifica como Jatobá.

    Tive uma conversa com ele em 28 de março de 2024, de cerca de 40 minutos, discutindo sua participação no RapLab durante o período da pandemia.
    Convidei-o para revisitar comigo esse período, visando ajudar-me a responder algumas questões para minha tese de doutorado, principalmente relacionadas ao conceito de formação política e o papel do RapLab nesse processo, contudo a conversa abriu caminho para diversas reflexões.

    A seguir, trago uma transcrição de nossa conversa, destacando os pontos abordados por Jatobá.

    Para iniciar a conversa, perguntei como ele tomou conhecimento dos encontros do RapLab durante a pandemia.
    Em seguida, explorei qual encontro teve o maior impacto nele, falamos sobre o tema mais recorrente “a luta de classes” e, finalmente, sobre sua compreensão sobre o que é formação política.

    Jatobá
    Ilistração de Jatobá gerada via software de edição de imagens.

    Como você ficou sabendo dos encontros do RapLab durante a pandemia?
    Eu sempre fiz parte do movimento estudantil. Na época, o GB (Montsho) estava envolvido também. Ele acabou me convidando para o RapLab. Como eu já estava envolvido com arte e cultura, me interessei.
    Acreditei que poderia ser interessante. Ele tinha mandado pra rapaziada do coletivo. Tanto é que, na época, veio o Lil, o Paulo, o Santoro, uma rapaziada assim. Quando ele (GB Montsho) )divulgou pra mim, eu achei que fosse algo pontual. Que era uma oficina e acabou. Acreditei que não fosse algo que tivesse uma continuidade, assim, toda semana, sabe?
    Depois que eu fui entender que fazia parte de algo maior, que havia outras ações também, tá ligado? Foi quando eu conheci o Enraizados e todo mundo que é de lá.

    Qual foi sua primeira impressão quando foi convidado para participar? Como você interpretou o convite inicial? Pode descrever a sua impressão sobre a dinâmica das atividades e o objetivo por trás delas?
    Eu achei que era uma oficina que ia morrer ali. Que não teria outras edições, uma continuidade, sabe? Achei bem interessante, acho que por causa da organicidade de como tudo se dava, em cada dinâmica, e essa sensação também de que você está sendo representado mesmo que não escolha a frase [do rap] necessariamente.
    Porque às vezes a tua ideia gerava uma reflexão, e a outra pessoa dava uma palavra, e uma terceira pessoa pegava essa palavra e criava uma frase. Essa sensação de um pensar coletivo. De uma reflexão coletiva. De um espaço para troca. Uma troca natural. Eu acho que esse ritual semanal foi pra mim o grande diferencial, esse rolê da continuidade.
    Porque querendo ou não, não é que uma oficina pontual não seja efetiva, ela tem a sua relevância, mas a continuidade dá espaço para essa formação mais aprofundada. É como quando você planta algo, qualquer coisa que seja. Não é do dia pra noite que vai florescer. Tem que plantar, ficar regando, regando, regando todo dia.
    Acho que isso tem a ver com esse lance de formação política, no sentido de que é uma parada que está em constante construção. E nunca vai chegar ao ponto final, é sempre continuidade.

    Muitas pessoas que participaram do RapLab durante a pandemia foram apenas duas ou três vezes, sem continuar tanto. O que te motivou a participar de tantos encontros do RapLab?
    Eu acho que, sendo muito sincero, a principal coisa que eu vi ali naquele momento e não vi em outro lugar durante toda a minha vida em que eu já trabalhei com arte, com cultura, foi ali, onde mais percebi a essência do hip-hop, porque para mim a essência do hip-hop é a coletividade, é entender que somos um coletivo, entende?
    O hip-hop surge no meio de várias brigas de facção e usa a arte e a cultura simplesmente como uma forma de explicar que a gente não precisa ficar se matando. A gente consegue ver quem é melhor, digamos assim, por meio da arte. Um batalhando contra o outro de diferentes formas. Aí vem vários fundamentos, desde as batalhas às festas.
    Várias batalhas de MC, de dança, de Bboy. Eu acho que esse espaço coletivo é útil para que possamos entender as nossas diferenças. E a partir dessas diferenças entender que tem uma coisa ali que une a gente.
    A partir desse coletivo, construir conhecimento, gerar arte, diversão, tá ligado?
    Eu acho que esse é o principal potencial do Rap Lab. Esse é um espaço orgânico, uma parada que se tu olhar de fora, sem entender a profundidade dele, vai pensar que é simplesmente uma troca de ideia de maluco, que no final os caras fazem um rap. Mas o bagulho tem várias trocas, várias produções de conhecimento.
    Eu estava numa fase de reflexão e compreendi que as coisas surgem da troca de ideias, de descobrir, na verdade, essa potência da troca de ideias, que é algo muito menosprezado, considerando o que é geralmente valorizado como cultura. Essa troca de ideias é vista como uma sub-epistemologia, digamos assim.
    E é algo muito comum no cotidiano das periferias, das favelas, a troca de ideia é uma das coisas mais presentes ali. E geralmente é a principal terapia.Por isso, às vezes, o RapLab era justamente esse espaço para mim também. Como o RapLab tinha essa questão de você escolher o tema, eu pensei que era uma oportunidade de expressar as coisas que estavam presas na cabeça há anos. Coisas que nunca tive oportunidade de desabafar, de trocar ideias mais profundas com alguém, ainda mais para desenvolver em rap.
    Quanto ao rap, já era algo que eu estava com “sangue no olho”, fazendo todo dia. Uma coisa que eu amava fazer. Então, acho que essa própria experiência de fazer um rap coletivo já é muito massa, porque eu sempre fiz sozinho. Então, a experiência de fazer algo coletivo, pra mim era muito incrível.
    Eu nunca tinha pisado no estúdio. A primeira vez que eu pisei pra gravar foi no Enraizados, a partir do RapLab. Depois eu fui em outro estúdio para gravar uma cypher, mas mesmo assim, pra ser muito sincero, de lá pra cá ainda não é uma vivência que eu tenho. Porque pra escrever eu preciso de um papel e caneta, e hoje em dia nem do papel e caneta, com o celular eu consigo escrever tranquilo.
    Mas pro estúdio já demanda uma outra condição financeira, um outro investimento, um outro recurso para estar no estúdio, de você ter um beat. E se você está indo pro estúdio, você já pensa em lançar música. Então, você precisa ter algum produtor pra mixar, masterizar, é outro rolê de investimento também.

    Jatobá
    Flávia e Jatobá durante a atividade “Acampamento Musical”, no Quilombo Enraizados

    Qual dos encontros do RapLab mais te marcou? Se não me engano, fizemos 156 encontros. Você consegue lembrar de algum que te marcou especialmente? Vamos refletir sobre isso por um momento.
    Tiveram vários encontros que me marcaram, vários que foram muito legais, aquelas trocas que davam vontade de ficar ali umas cinco horas trocando ideia. Nem dava vontade de nem fazer o rap. Mas a gente ainda tinha um cronograma, um horário ali para cumprir.
    Mas teve um específico que eu acho que foi um dos que mais me marcou, que foi um rap que fizemos só com gírias. Porque é algo que desde cedo, desde pequeno, sempre esteve presente em todos os espaços que frequentei. Sempre teve esse aspecto de ter um linguajar diferente, esse linguajar que é visto como um sublinguajar, digamos assim, uma sublinguagem, é visto como menor.
    Então fizemos um rap só com gírias, uma música inteira usando apenas gírias. Cada verso tinha uma gíria. Fizemos isso porque a Olga, quando chegou nos encontros, não entendia o que era “ainda”, ou algo assim. Então decidimos fazer uma música para ensinar para a Olga.

    Por que você acha que a maioria das conversas no RapLab se concentrava tanto na questão da luta de classes?
    Porque não tem como não falar. São coisas que constituem, fundamentalmente, a nossa identidade social. Então elas vão estar presentes ali. São coisas que a gente lida direto, todo dia. E quando falo “a gente”, tô falando da periferia, do pobre, do trabalhador, quem tá nesse espaço de marginalização.
    Mas dentro disso tem vários outros recortes que foram abarcados em cada edição (do RapLab) específica. Teve edição que a gente tinha um recorte mais de pessoas pretas, tinha outras edições que a gente falava de outros recortes, como a realidade da mulher, disso e daquilo, dessa intersecção entre vários recortes sociais.
    A gente foi construindo essa troca que acaba sendo plural, no sentido de que envolve pessoas com diferentes realidades, identidades sociais. E de certa forma, acredito que isso tenha sido espontâneo também. Acredito muito nisso, porque o tema era escolhido na hora. Por não ser algo pré-estabelecido, do tipo “o tema vai ser esse e pronto”.
    Se fosse assim, acho que dificilmente teria participado de tantas edições, se já houvesse um tema pré-definido. Às vezes estou num dia em que estou muito inclinado a falar sobre algo específico, e se surgir outro tema com o qual não estou conectado naquele momento, já não me interesso tanto. Acredito que essa flexibilidade seja importante também.
    Por exemplo, esse RapLab específico das gírias, onde fizemos um rap usando apenas gírias, eu acho que marcou porque em qualquer espaço que eu estivesse, sempre me vi sendo visto como uma pessoa diferente, olhado de forma diferente, como se as pessoas dissessem “olha aquele cara ali, falando estranho”.
    Então ver isso partindo de outra rapaziada, fazendo isso junto também, e ver isso no produto final, foi bom. Acho que outra parada que eu gostei foi a leveza desse assunto. Como a gente sempre falava sobre luta em toda edição, chegava um momento em que a gente pensava: “Pô, só estamos falando sobre isso, vamos abordar algo que seja nosso, algo que a gente não precise ficar batendo neurose.”
    Foi uma questão mesmo de afirmação nesse sentido, sabe? E não deixa de ser luta no sentido de você reafirmar o modo de fala que já tem uma contundência só por existir. Eu lembro que era uma letra que falava de várias coisas, falava de marcar com a mina, não sei mais o que. Falava várias coisas de uma forma muito orgânica, porque tinha um menino que estava paquerando uma menina de Manaus e trouxe essa discussão pro RapLab.

    Jatobá e outras participantes do CPPEC durante a produção do Sarau Poetas Compulsivos, no Quilombo Enraizados.

    O que você entende por formação política?
    Eu acredito que a formação política é uma parada que é continuada, ela nunca termina, ela tem um momento tipo de um start inicial. Eu acredito que esse momento é justamente quando a gente desperta esse senso crítico em relação ao mundo.
    A gente desperta essa indignação com o mundo, que a gente percebe as coisas que acontecem, então a gente se entende como um ser político. Entende que o político não é simplesmente a parada chata que a gente tem que ir de 4 em 4 anos votar, digo, de dois em dois, no caso.
    Que é muito mais um rolê que é feito no dia-a-dia. Eu acho que essa virada de chave pra mim foi quando eu entendi a micropolítica como muito mais presente e eficaz do que a macropolítica. E eu acho que também a micropolítica me fez acreditar na política de certa forma. A gente é irrelevante pro macro, a gente não tem força, a gente é impotente pra mudar alguma coisa.
    O próprio RapLab é um ótimo exemplo de micropolítica. Esse processo de despertar a consciência, de gerar um senso crítico, promover uma produção de conhecimento, a troca de ideia, a reflexão sobre determinados assuntos e pautas, esse desenvolvimento interno. Isso porque o público principal do Rap Lab era muito jovem.
    Esse papo de autoconhecimento, todo esse desenvolvimento pessoal, ao gerar isso em cada indivíduo, esse conhecimento que se desenvolvia organicamente a cada semana, é um ótimo exemplo de micropolítica.
    Outro exemplo de micropolítica é a leitura de um texto teatral em grupo, ou então um sarau. São atividades que não necessariamente precisam estar ligadas à arte, mas fazem parte do cotidiano. Por exemplo, um evento beneficente na comunidade, como um corte de cabelo grátis, isso é micropolítica. São várias ações que ocorrem fora do contexto geral, macro.
    Enquanto os políticos podem fazer mudanças que afetam a vida de todos com uma simples canetada, com a micropolítica você vai cultivando aos poucos, movimentando gradualmente e despertando essa percepção do que é essa formação política também.
    Porque formação política parte do ponto que você se entende como ser político. Então, eu acho que quando você se entende como ser político, tu entende que, primeiro precisa entender o que aconteceu na história, no passado, para não repetir as mesmas besteiras que ocorreram. Entender o contexto de tudo, entender o contexto atual, e ser visionário no sentido de entender para onde as coisas estão caminhando também. Se está caminhando para tal lado, entender que alguns caminhos não são interessantes, então é necessário tentar mudar a nossa direção. Acho que é nesse sentido.

    Você já usou o RapLab fora do nosso grupo? Se sim, onde e como foi essa experiência?
    Já utilizei o RapLab, não de forma literal, mas naquela ideia da antropofagia cultural, de me inspirar em certos aspectos do RapLab. Por exemplo, na metodologia das oficinas que eu dou atualmente pelo “VidArtEducação”, elas partem de um caminho que foi influenciado pelo RapLab em vários aspectos.
    Além disso, ao longo dos últimos sete anos, tive outras influências neste percurso artístico e cultural, mas o RapLab foi uma das mais significativas.

    Qual é a atividade que você está realizando hoje? Quem é o Raulf atualmente?
    Eu sou graduando em Filosofia, estou no quinto período no Pedro II e sou um artista múltiplo. A primeira coisa que eu penso é que sou um artista múltiplo. Que se eu começar a destrinchar, digo que faço isso e faço aquilo, as pessoas começam a rir, porque acham que não é possível.

    Jatobá gravando nos encontros do RapLab.

    Até que ponto o RapLab foi importante para transformar Raulf em Jatobá?
    Eu sou uma pessoa que acredita profundamente no rolê do “efeito borboleta”. Então, cada coisinha que está envolvida na minha história, na minha trajetória, constitui o que eu sou hoje.
    No final das contas, é sempre sobre o pequeno, sobre a relevância do pequeno. E não no pequeno no sentido de menosprezar, mas pelo contrário, de potencializar aquilo, de entender a importância do pequeno diante da conjuntura como um todo.
    Eu tenho certeza, não é uma especulação, que se não fosse pelo RapLab eu não seria quem eu sou hoje, não teria a mesma profundidade em relação à minha arte, à escrita, a tudo, da construção que eu tenho hoje. Contribuiu demais nessa produção de conhecimento, a produção da cosmopercepção, de mundo, de tudo.
    Muitas vezes, o que faz a pessoa querer estar no RapLab também é a troca de corredor, que é para além da atividade em si. Que seria toda a relação de afeto que tem entre eu e tu, o Dorgo, o Baltar, eu e todos na comunidade do Enraizados, que construímos ao longo do tempo.
    Acredito que, querendo ou não, afeto também é uma palavra-chave nesse contexto como um todo. Só consigo ser afetado pelo conhecimento, por aquela informação, ou qualquer coisa que seja, a partir do momento em que há afeto envolvido. Acreditando muito nesse conceito do efeito borboleta, no qual pequenas ações têm grandes repercussões, o RapLab contribuiu significativamente para transformar quem eu era na pessoa que sou hoje.

    Jatobá e demais participantes do Acampamento Musical, no Quilombo Enraizados.

    Em vez de perguntar o que o RapLab significa para você, gostaria que você me mostrasse como você convidaria um jovem amigo ou amiga para participar do RapLab.
    Uma pessoa que está na mesma realidade que eu. Primeira coisa, pergunto a ela se já produziu uma música ou se já se imaginou produzindo uma. Depois, eu conto que o RapLab é literalmente uma atividade na qual, a partir de uma troca de ideias, nós vamos produzir uma música e, no final, ela sairá sendo co-autora dela.
    Eu diria: “E aí, tropa, tá ligado, bora? O bagulho é tranquilão, tu vai chegar lá, você pode inclusive escolher o tema que a gente vai trocar ideia. Chega lá, troca ideia, depois tem vários momentos da dinâmica, tu vai falar umas palavras, depois vai falar uns versos e no final vai sair uma música”.
    Aí o maluco vai falar: – “Pô, mentira!!! Como assim, cara?”
    Eu acho que hoje em dia isso é um pouco menos, mas historicamente foi muito construída essa ideia em relação à arte, quem produz isso tem dom, já nasce com esse bagulho, essa elitização partia muito desse discurso. Eu acho que a ideia é quebrar com isso de uma forma que seja orgânica, que seja simples, demonstrado que dá pra fazer.
    Essa é a forma mais simples e direta também de quebrar com esse paradigma.
    É uma música com a mesma potência das músicas que são “estouradas”; muitas vezes, o que difere é o dinheiro investido na divulgação, no marketing, etc., e não a qualidade do produto cultural em si.

    Para convencer uma diretora de escola, você utilizaria os mesmos argumentos?
    Eu acredito que de uma pessoa pra outra já é outro discurso, porque cada pessoa é única, cada pessoa tem uma particularidade que você tem que ir naquela particularidade da pessoa, não tem como você generalizar. Eu acho que, inclusive, esse é um dos maiores problemas da educação como um todo.
    Acho que a forma que eu chegaria nessa diretora, primeiro dando a entender pra ela o que aquilo poderia agregar na escola dela, de uma forma geral. Mas antes disso eu tenho que entender também com o que ela se preocupa, se ela está preocupada realmente com o desenvolvimento dos estudantes, ou se ela está preocupada com outras coisas.
    Vou falar que o RapLab é uma metodologia de ensino que acredita na construção coletiva, na participação de todos, até mesmo aqueles alunos que são mais difíceis, aqueles alunos que costumam não participar das atividades.
    É um ambiente de troca e de protagonismo do educando num processo de ensino-aprendizagem, onde eles contribuem para construção de um produto artístico-cultural, que é uma música, um rap, que vai ser construído no final e gravado.
    Ressaltar a ressonância que essa atividade terá naquela turma específica, e cada estudante compreenderá também que, para além daquele momento específico, terá a oportunidade de construir isso em outros momentos, podendo dar continuidade ao processo. É importante que o estudante compreenda a construção do conhecimento e perceba a importância de sua presença na sala de aula, participando ativamente do processo. Ele se afetar e afetar os outros, em relação a essa troca.
    De dar mais espaço e abertura para o professor, permitindo que ele absorva ideias que antes talvez fossem bloqueadas.
    Entender também a atmosfera que o RapLab transmite, de ser uma atividade para todos, pois é coletiva. Não seria possível limitá-la a um grupo específico, e acredito que muitas das falhas das atividades propostas pela escola, pelo sistema educacional tradicional, estão justamente nisso. Elas são direcionadas para uma camada específica, para os alunos que são “nerds” e gostam daquilo, mas nem todos têm esse interesse.

    Sobre Jatobá:
    https://www.instagram.com/jatobrabo
    https://instabio.cc/jatobrabo

  • Slow da BF: As histórias do hip hop da Baixada Fluminense

    Slow da BF: As histórias do hip hop da Baixada Fluminense

    Meu nome é Slow da BF, eu nasci na Zona Oeste porque meu pai era militar, mas só por isso. Em seguida já voltei pra Baixada. Morei em Nilópolis, São João, Caxias, sempre fui de lá.

    Comecei muito cedo a ir pra baile porque meu pai era DJ. É DJ até hoje. Desde que eu me entendo por gente, até antes de ir pra baile, eu já ia pra feira dos discos com meu pai, então sempre ficava ouvindo essas músicas e tal.

    Pra mim, a minha parada com arte, com cultura, começou com vinil, ouvindo disco, queria saber o que era, e quando eu menos esperei estava escrevendo pra poder fazer o que eu via os caras cantando.

    Eu não comecei inspirado em gente que eu conheço, amigo, comecei dentro da minha casa, ouvindo o disco do Afrika Bambaata, e tinha aqueles caras fazendo a rima. Eu era muito bom na escola também, sempre fui.

    Eu fazia redação, então ficava pensando, na minha cabeça, antes de saber que existia hip hop, que se eu conseguisse colocar rima nas coisas que eu escrevia, aquilo ia parecer com o que aqueles caras estavam cantando, em inglês primeiro, porque a gente não tinha referência brasileira, em oitenta e pouco não, foi ter a primeira referência com o Black Junior, que era um rapper meio breaker, isso em 84. Eu ouvi, mas não era meu o disco, ouvi uma vez em algum lugar e alguém falou que era Black Junior.

    <continua…>

  • Dudu de Morro Agudo fala sobre a importância RapLab no ‘Reflexão da Semana’, do Oi Futuro

    Dudu de Morro Agudo fala sobre a importância RapLab no ‘Reflexão da Semana’, do Oi Futuro

    O projeto “Reflexão da Semana” visa levar para o público das redes sociais do Oi Futuro um breve fala dos parceiros, projetos e iniciativas que transformam a vida das pessoas para melhor.

    Karina, da Agência Rastro, responsável pelo conteúdo online do Oi Futuro ligou para o Dudu de Morro Agudo e perguntou na lata: Como a Cultura Hip Hop pode ajudar na educação e na criatividade de jovens e crianças?

    Pra quem não tá ligadx:

    Na década de 70, nasceu nas ruas de Nova Iorque um movimento cultural que influenciaria o comportamento de jovens por todo o mundo nas décadas seguintes. Pensando nisso, o Instituto Enraizados passou a usar o rap, o grafite e outras expressões artísticas para formar jovens da Baixada Fluminense. Dudu de Morro Agudo, gestor da iniciativa, fala da importância de considerar sempre a realidade dos estudantes na hora de ensinar.

     

  • Conheça o projeto Literatura da Ruas

    Conheça o projeto Literatura da Ruas

    O Literatura das ruas é um projeto que tem como objetivo mesclar a literatura com as artes das ruas, através de intervenções literárias em eventos de cultura urbana como: rodas culturais, saraus de poesia, entre outros.

    As Intervenções literárias contam com:

    • Uma biblioteca comunitária que incentiva a troca de livros e o consumo da literatura marginal produzida nas periferias do Brasil.
    • Distribuição de poesias e letras de rap, de artistas da Baixada Fluminense.
    • Apresentação de um(a) DJ e um Pocket Show.

    Em sua primeira edição terão 6 intervenções em diferentes cidades da Baixada Fluminense, que culminarão em um grande evento na praça Zumbi dos Palmares; onde haverá shows, batalha de mc’s, slam de poesia, DJs, entre outras atrações. O line será composto pelos artistas das cidades visitadas, visando fazer um intercâmbio artístico e cultural.

    Antes de ser Literatura das Ruas o projeto se chamava “Banca Ohana Livros, uma biblioteca comunitária dentro do Festival Caleidoscópio, foi idealizado por Carol Tavares aka DJ Moonjay e criado com a ajuda de Marlon Gonçalves aka DorgoDJ.

    Moonjay sempre sonhou em ver uma biblioteca comunitária em seu bairro e através do Enraizados esse sonho se tornou real. Na primeira edição os livros foram levados e organizados em caixotes de madeira, cerca de 80 livros conseguidos em doações; no final do festival havia cerca de 80 livros como no início, porém eram outros livros, o público abraçou a ideia da biblioteca de “trocar livros”, além de consumirem literatura, eles contribuíram para que outras pessoas também pudessem consumir.

    Dorgo DJ conta um pouco sobre o know-how de ter uma biblioteca itinerante:

    “Nossa experiência nos faz crer que a juventude gosta de ler, ao contrário do que algumas pessoas acreditam; contudo, o difícil acesso a um conteúdo específico, que seja realmente interessante para estes jovens, faz com que os mesmos acabem buscando satisfação em outras formas de cultura.

    Acreditamos que proporcionar um espaço onde livros escritos por pessoas com histórias de vida parecidas com a nossa realidade, com temas interessantes, estejam disponíveis nos locais onde a juventude já ocupa, sem custo, apenas com o compromisso de devolver ou passar adiante em outra biblioteca móvel, pode transformar a relação entre os jovens e os livros. Além de incentivar a leitura, valorizar os escritores marginais e incentivar a criação de uma rede de bibliotecas móveis, sabemos que o hábito de ler trará benefícios para a juventude, como o desenvolvimento de um pensamento crítico e estímulo da criatividade.

    A primeira intervenção do Literatura das Ruas foi no Festival Caleidoscópio e novamente foi um sucesso, a próxima será no Rap Free Jazz em Duque de Caxias, no dia 16 de Setembro, com muitas novidades. Se você quer saber mais ou contribuir de alguma forma para o projeto, fique atento nas redes sociais.”

  • 25 anos da polêmica ‘Sacolinha’ de Dudu de Morro Agudo

    25 anos da polêmica ‘Sacolinha’ de Dudu de Morro Agudo

    Neste ano a música “Sacolinha”, do rapper Dudu de Morro Agudo, completa 25 anos e o videoclipe 05, e para comemorar resolvemos relembrar do processo criativo e da polêmica em que ela resultou.

    Eu escrevi a música com 13 anos, gravei com 28, produzi o videoclipe com 32 e hoje, com 38 anos, ela continua atual”, afirma Dudu.

    É uma música atemporal que critica a conduta de algumas igrejas e suas lideranças, gerando questionamento e reflexão a partir do humor, de forma descontraída. A animação 2D, elabora pelo cineasta Bruno Thomassim, ajudou para que um assunto relativamente sério fosse absorvido pelo público com mais leveza, fazendo com que o primeiro clipe do rapper fosse um grande sucesso.

    A frase mais famosa da música é a pergunta:  -“Vamos recolher a sacolinha?“, você sabe o porquê disso?

    CONFIRA A ENTREVISTA ABAIXO

    Dudu de Morro Agudo
    Dudu de Morro Agudo

    Portal Enraizados: Você é ateu?

    Dudu: Não. Eu acredito numas paradas aí.

    Quais paradas, qual a sua religião?

    Eu não tenho religião. Vou em tudo e não fico em nada. Acredito nas energias, nas árvores, nos gnomos, em Deus, nos santos. Em tudo, tá ligado? Acredito em tudo que não posso provar que não existe. Se tu me falar que uma parada existe, já era, respeito e bola pra frente. O problema todo é que eu não concordo quando usam essas coisas para fins lucrativos.

    Quando você lançou o clipe, alguma pessoa, algum líder religioso veio te criticar, falar que você estava fazendo errado, que ia pro inferno ou alguma coisa do tipo?

    Sim, antes de eu lançar o disco, um amigo meu que é evangélico veio me questionar, brigar comigo mesmo, me dar esporro, dizendo que eu ia pro inferno, que não podia ter feito isso, que eu estava denegrindo a igreja e, consequentemente, Deus.

    Eu fiquei perplexo por ser um cara tão próximo da gente e ter uma visão tão antiquada, quadrada. A minha reação foi chamar outro camarada e realizar um debate. Então eu fiquei meio neutro na história e deixei os dois debatendo, pois os dois eram evangélicos, e cada um colocou seu argumento.

    O que estava a meu favor, falou que achava que não tinha nada demais na música e que se eu cheguei àquela conclusão foi porquê eu fiz uma análise, passei por uma experiência e relatei em forma de música, poderia ser uma tese, um quadro ou qualquer outra coisa. E que qualquer revista que se comprasse, ou até mesmo quando se ligasse a TV, viria que tudo era realidade.

    Bea: Vi uma tirinha na internet que mostra que é muito bizarro quando você mexe com a igreja católica ou evangélica. Não pode fazer sátira falando disso por que é pecado, mas as pessoas fazem isso diariamente com o candomblé, a “macumba” é pejorativa e as religiões de matrizes africanas  são usadas o tempo inteiro em filme, mas não podem fazer o mesmo com as religiões protestantes.

    As pessoas me questionavam: – “Porque você não faz isso com os muçulmanos? Eles vão te explodir.”
    Mas ninguém lembra que há um tempo a igreja católica tava queimando gente. Eu não teria problema em mexer com a ideia dos homens bomba, eu mexeria com os caras e não com a religião em si, por que o islã não tem nada a ver com o que os homens bombas fazem, é só você ter um entendimento um pouco maior da religião pra entender isso. Da mesma forma que o cristianismo não tem nada haver com o que os pastores fazem, são pessoas sem escrúpulos que se utilizam de MÁ FÉ para enganar pessoas. Negociam a fé.

    Você só cai nisso quando tá no fundo do poço, muito fodido, ou você tá muito doente, sua família muito doente, eles se aproveitam disso, ou seja, quando você tá vulnerável o cara vai lá e acaba de te foder.

    Dudu de Morro Agudo
    Dudu de Morro Agudo

    Essa história do clipe, da sua mãe te levar pra igreja, ela realmente aconteceu?

    Não, essa história não é real. Minha mãe só me levou pra igreja no meu batizado, quando eu era bebê, depois ela nunca mais quis me influenciar em nada, nem primeira comunhão eu fiz.

    O que aconteceu foi o seguinte. Na minha pré-adolescência eu e uns amigos íamos pra uma festa, mas uma das meninas que saía com a gente não podia ir porque tinha que ir pra igreja com a tia, aí decidimos comprar a causa da menina e ir junto pra igreja. A igreja era a catedral da Universal, na Suburbana. Eu nunca tinha visto nada como aquilo, parecia um mundo. Fiquei perplexo com a quantidade de dinheiro que circulava ali dentro, o pastor perguntava “quem pode dar R$100.000,00 (cem mil reais)?” e um monte de pessoas levantavam as mãos, saíam e recebiam uma oração especial, depois os pastores pediam R$50.000,00, e assim por diante.

    Mas quando chegava R$1.000,00 já era uma oração genérica, pra todo mundo. Pessoas esclarecidas caiam nessa onda e doavam coisas que não tinham, deixavam faltar coisas em casa pra poder colaborar mais com a igreja. E depois aconteceu na minha família, casos com a minha vó, minha tia.

    A partir daí eu fui fazendo a primeira parte da música, comecei a escrever com 13 anos e terminei com 19, quando a Bea tinha nascido, eu tinha um tempinho sobrando e então escrevi o final da música. Cinco anos depois tudo continuava exatamente do mesmo jeito e cada vez mais coisas vinham à tona.

    Hoje em dia tu escreve uma música, como por exemplo eu escrevi a música “Legado”, que é sobre a Copa do Mundo, e ela tem um prazo de validade, passou a Copa do Mundo e aquilo já não funciona mais, mas Sacolinha é uma música atemporal, é um problema que é recorrente, não só no Brasil, mas em vários lugares do mundo, e nos lugares mais pobres são onde eles mais se agravam.

    Dudu de Morro Agudo
    Dudu de Morro Agudo

    Victor: Essa música é para as pessoas despertarem?

    Eu acho que a música tem um papel social, o meu rap tem isso, pra fazer as pessoas pararem para analisar. Eu não quero que ninguém concorde comigo, quero que as pessoas acordem pra vida e tirem suas próprias conclusões, vejam se aquilo realmente acontece. Mesmo que não seja na profundidade que eu narro, desejo que cada um seja capaz de analisar em que profundidade é.

    Bea: Mas também tem isso, se não chocar, as pessoas não se interessam e não param pra ver, tem que ter aquele choque.

    Se for muito melódico as pessoas não ouvem a letra. Eu cantarolo algumas músicas que eu nunca parei pra analisar a letra.

    De onde surgiu a frase “Vamos recolher a sacolinha?”

    A inspiração veio do Tim Tones, personagem do Chico Anysio. Eu assistia muito na minha infância, sempre fui muito fã, mas certo dia aquilo tudo o que ele protestava começou a fazer muito sentido pra mim, ao ponto de eu ter que fazer uma música.

    Hoje, 25 anos depois, a sua ideia sobre a igreja continua a mesma ?

    Piorou bastante, surgiram novos personagens que são bem piores dos que tinham a 25 anos atrás, tem uma legião do mal agora, tem Valdomiro, Silas Malafaia, RR Soares, Bispo Macedo, tem Agenor Duque e a mulher dele que eu nem conheço, tem os outros da Renascer que foram pegos no aeroporto cheios de dólares.

    Teve uma parada que aconteceu que eu quase voltei pra igreja, não me converti nem nada, mas quase voltei a frequentar, foi no batismo da Bea, porque o pastor era meu parceiro, ele me chamava de “Dudu Cabeção” eu chamava ele de “Pastor Bilão” e era maneiro e você via que aquilo ali era de verdade, não tinha nada de valor na igreja, você via o pessoal passando necessidade ali pra pagar uma conta.

    Mas a partir do momento em que o cara começa a querer construir prédio, botar tudo de blindex, estacionamento gigante e depois cobrar pelo estacionamento, pastor chegar com carro importado na igreja e dizer que o pastor tem que dar exemplo.  Eu já ouvi isso. O cara na rádio disse: – “Você acha que Jesus andava num burrico velho ou num burrico 0km?”

    Você pretende fazer algo a mais com esse foco?

    Não, o que eu tinha que fazer, ja fiz.

  • A revolução através do Rap: Sasquat muda sua história e lança seu primeiro álbum solo ‘A essência vive’

    A revolução através do Rap: Sasquat muda sua história e lança seu primeiro álbum solo ‘A essência vive’

    O rap literalmente transformou sua vida, “O Hip Hop salva… mais do que qualquer projeto financiado pelo governo”.

    De Barueri-SP, Sasquat teve enquanto integrante do grupo Matéria Rima (Diadema – SP) a oportunidade da transformação. O rap mudou sua visão de mundo em um momento crucial de sua vida. Quando era adolescente passou por situações conturbadas e foi orientado pelo psicólogo que o acompanhava que trocasse as horas de liberdade assistida por uma oficina cultural. Foi então que conheceu o Hip Hop e o MC Joul, que enxergou além dos seus problemas, vendo o talento que ele tinha como uma alternativa nunca antes proposta. Um jovem falando pra outro: “Você quer mudar seu entorno? Sua comunidade? Quiçá o seu país? Então só o conhecimento e a leitura vão te trazer esse tipo de coisa, te dar essa oportunidade”. Esse foi seu divisor de águas e então sua vida começou a dar um andamento pra um caminho bacana, começou a estudar, ganhou bolsa, viajou através do Hip Hop e agora, em 2017, lança o seu primeiro álbum solo intitulado “A essência vive”.

    Recheado de rimas contundentes, o álbum se destaca por trazer críticas e reflexões em prol da vida e da conscientização do ato de se doar ao próximo. Bebe da fonte do reggae, do samba, do funk, além dos tradicionais beats.

    O rapper acaba de fazer participação no show do ator e cantor César Mello que, admirado por “A essência vive” e a forma que Sasquat desenrola os versos, o convidou para uma parceria especial. Juntos garantiram ao palco uma beleza dupla de se ver e ouvir interpretando “Ela é afro” – exaltação a mulher negra.

    Provavelmente o ponto alto de crítica e reflexão do álbum está na faixa “Só que não” regada de relatos escancarados de preconceitos nas mais diversas situações.

    “Somos todos iguais” vocês estão falando, abrem as portas pros europeus, mas humilham os haitianos.
    “Somos todos iguais” mas não quer me ver nas universidades públicas federais.
    “Somos todos iguais” mas não nos encaixamos nos requisitos dos seus comerciais.
    “Somos todos iguais” mas você tem vergonha de me apresentar pros seus pais.

    Essa música na verdade não entraria no disco. Ele foi pro estúdio, o beatmaker desenvolveu a base e em questão de minutos ele escreveu e gravou, mas só depois percebeu que não poderia deixar essas questões passarem despercebidas. “É muito fácil para a televisão se manisfestar quando acontece com alguém que está na mídia, tentando maquiar, dizendo ‘olha, estou fazendo a minha parte em relação ao que aconteceu’ todo o tipo de preconceito, seja ele racial, contra a orientação sexual, etc. Só que no dia-a-dia a parada é bem mais embaixo, vai além de sofrer ataques na internet. Acontece constantemente quando a gente vai procurar emprego e não se enquadra nos padrões impostos pela sociedade de que, por exemplo, eu não posso ter um cabelo black power para trabalhar em uma empresa de contabilidade, sabe? Isso já aconteceu comigo e com várias pessoas que eu conheço.” desabafa Sasquat. 

    Com as produções de Ricardo Mock, Nixon Silva, Skeeter, e a mixagem e masterização do ícone do Hip Hop nacional DJ Hum, “A essência vive” está disponível nas principais plataformas digitais.

    Contato:

  • Entrevista com Camila Guimarães e Higor Cabral da Pitanga Audiovisual

    Entrevista com Camila Guimarães e Higor Cabral da Pitanga Audiovisual

    Camila Guimarães e Higor Cabral são casados, pais de uma linda menina chamada Maria Flor e sócios em uma produtora chamada Pitanga Audiovisual, onde além de garantir o ganha pão, permite que coloquem em prática muitas ideias legais.

    Durante os últimos anos eles produziram muitos clipes de rap, principalmente dos MCs da Baixada Fluminense, onde destacam-se Marcão Baixada, Léo da XIII e Einstein. Em março eles ministrarão no Espaço Enraizados um curso totalmente experimental de audiovisual, com ênfase na produção de videoclipes.

    Aproveitando a oportunidade que tivemos, nós, da Hulle Brasil, fizemos uma entrevista pra lá de exclusiva com eles. Esperamos de todos e todas curtam muito!!!

    Hulle Brasil – O que é a Pitanga Audiovisual?

    Pitanga Audiovisual – É uma produtora criada por nós para que pudéssemos colocar pra fora tudo o que ficávamos pensando quando não tínhamos condição de ter uma câmera. Tudo mesmo.
    Buscamos sempre captar as imagens de forma artística, porém orgânica e visceral ao mesmo tempo. Gostamos de deixar fluir, sem muita firula. Prezamos pelo real até quando estamos fazendo algo mais controlado como um clipe. São nesses pilares que a Pitanga se apoia.
    Mas não se engane, no fim somos apenas um casal que adora fazer vídeos (risos).

    Vocês já produziram muitos clipes de rap, como começou essa correria na cena?

    Um belo dia fizemos um trabalho em um evento do Dia da Baixada. Foi um show com vários MCs no SESC Nova Iguaçu. Ali entrevistamos Marcão Baixada, Slow da BF, Dudu de Morro Agudo e muitos outros.

    A partir daí foi totalmente natural entrarmos nesse mundo. Além de começarmos a curtir de verdade o trabalho do pessoal, fomos aos poucos conhecendo mais a fundo cada um. Conhecemos o Enraizados e passamos a acompanhar a produção cultural da Baixada, coisa que a gente, morando aqui desde sempre, não conhecia.

    Ficamos muito próximos do Marcão Baixada e propomos a ele fazer um clipe. Porque como dissemos numa pergunta anterior, queríamos fazer, colocar pra fora. E estávamos curtindo de verdade o trabalho da galera. Ele aceitou e fizemos “Baixada em Cena” na guerrilha total, do jeito que a gente sempre faz, pois quase sempre a nossa condição e a do artista não permite uma produção maior. A partir daí muitas pessoas vieram perguntar sobre o nosso trabalho. Já fizemos outras coisas com outros estilos musicais, mas o rap predomina totalmente, pois já estamos inseridos na cena.

    A gente conhecia bem pouco sobre rap e fomos aprendendo enquanto fomos trabalhando dentro da cena. Isso foi incrível porque hoje o que mais toca em casa é rap.

    Quantos videoclipes vocês já fizeram?

    Nunca contamos, mas deve estar em torno de 10. Tem muita coisa já gravada que em breve estará na rua.

    É só rap? Porque?

    90% sim. Não nos limitamos. Mas por estarmos inseridos na cena acaba que rola muita indicação de um artista para o outro.

    Como surgiu a ideia de fazer esse curso de audiovisual com ênfase em videoclipe?

    A gente sempre pensou em fazer algo assim. Principalmente focando na produção em condições precárias, na guerrilha. Porque não adianta nada ensinar a trabalhar com equipamentos incríveis e numa produção que dificilmente as pessoas conseguirão participar no começo.

    Estamos há 4 anos nessa e fizemos pouquíssimas produções maiores como quando produzimos junto da Leila, do Eu Amo Baile Funk, e do pessoal do Apavoramento o clipe “Paradinha”, do MC Duduzinho. Não participamos da parte audiovisual do clipe em si, fizemos o vídeo de making of e a produção executiva e de set.

    E a ênfase em videoclipe é porque é a coisa que mais estamos fazendo nos últimos tempos, sem contar os trabalhos com casamento. Já temos uma boa bagagem em produzir algo sem muita estrutura e conseguir um resultado legal.

    Higor Cabral
    Higor Cabral

    Vocês são donos de uma produtora, não é contraditório formar pessoas que podem ser seus concorrentes?

    Não mesmo! Inicialmente pode parecer, mas além de podermos ter pessoas para poder trabalhar conosco futuramente, “formar concorrentes” é ótimo para aumentarmos a diversidade de coisas produzidas.

    Tem muita gente que gosta de esconder o jogo, não dizer como faz isso ou aquilo. Como conseguiu tal coisa. Não temos problema nenhum com isso. Estamos sempre trocando informações valiosíssimas com todos.

    Acho essa troca essencial para a evolução da cena audiovisual na Baixada. Tem muita coisa pra fazer em relação a vídeo. E outra coisa que pensamos muito é: – “Só 3 produtoras vão fazer todos os clipes de todos os artistas?”
    Não faz sentido algum, pois cada um tem uma estética e originalidade a oferecer.

    Como esse curso vai funcionar na prática? Tipo dias e horários, conteúdo e como serão as aulas?

    Vai acontecer do dia 15 ao dia 19 de março, das 16h às 20h. Cada dia será totalmente diferente do outro. No primeiro dia falaremos sobre a nossa forma de trabalho e viajaremos entre referências e nossos trabalhos antigos.

    No segundo dia conversaremos com Léo da XIII e Dudu de Morro Agudo sobre a música e veremos todo o norte para a produção do clipe de uma forma totalmente livre, nós não pensaremos nada sobre o clipe até o curso.

    Essa urgência será um diferencial para o curso também, teremos pouco tempo para resolver tudo. No terceiro dia definiremos tudo de roteiro e produção. A partir do quarto dia já estaremos filmando, editando e colorizando.

    Na outra semana faremos a conclusão do curso com uma festinha e exibição do clipe pronto.

    Porque a música O AÇO, do Léo da XIII?

    Já fizemos o clipe da música Novos Planos” do Léo da XIII e sempre fica aquele gostinho de quero mais. Um dia ele veio falar sobre fazer um clipe dessa música. E naquela mesma semana nós estávamos falando sobre finalmente colocar algo como um curso em prática. Aí juntamos tudo. Falei com o Léo que falaria com o Dudu sobre isso e aí a gente aproveitava e usava o clipe como um produto do curso. E já temos o artista para o próximo curso, será uma música ainda não escolhida do Marcelo Peregrino.

    Camila Guimarães
    Camila Guimarães

    Todo o processo de produção e concepção do videoclipe será coletivo, isso me parece complexo, pois serão muitas cabeças pensando coisas diferentes tanto para roteirizar, gravar e editar. Têm certeza que isso vai dar certo?

    Então, vai ser totalmente experimental. Na verdade vai ser como um exercício de criatividade. Com muitas cabeças pensando, tudo pode ser ótimo e horrível ao mesmo tempo. Mas acho que o mais legal do curso vai ser isso.

    Ver como podemos nos perder, pensar mil coisas impossíveis e depois colocar os pés no chão. Já que o curso tem a premissa de ser uma produção de custo quase zero. Penso nas pessoas saindo desse curso com a mente aberta e a certeza de que podem fazer tudo que quiserem.

    Vai ser um experiência completa pois teremos o clipe pronto no final. Isso é um diferencial sensacional para as pessoas verem que fizeram a diferença naquele projeto. Porque é assim mesmo que acontece, a pessoa que não é a roteirista do projeto dá a melhor ideia para o roteiro, o próprio artista dá a melhor ideia de direção, alguém do elenco acaba pegando a câmera e filmando.

    Aconteceu isso em “Psico” do Marcão, não conseguiríamos subir numa laje para filmar de cima, daí um dos caras do elenco filmou pra gente.

    O Espaço Enraizados ainda não está pronto, mas mesmo assim vocês decidiram fazer o curso no quintal, no chão de terra. Qual o motivo?

    Já estávamos com essa vontade a muito tempo. então queríamos fazer logo (risos).
    E um curso de audiovisual num quintal, embaixo de uma árvore, pisando no chão de terra, me parece uma belíssima ideia. Vai ser um ambiente informal e com uma produção feita na raça; Exataamente o que o curso propõe.

    Em breve a sede do Enraizados estará totalmente reformada e nós vamos usufruir de todo conforto e estrutura. Mas nunca podemos esquecer dos momentos difíceis, pois é exatamente nesses momentos que mora a genialidade e a criatividade de fazer algo único.

    Depois de 4 anos estamos com condição de alugar uma câmera melhor para os clipes, mas nem sempre foi assim. Precisamos saber fazer acontecer com tudo e com nada.

    Pitanga Audiovisual em ação
    Pitanga Audiovisual em ação

    Qual resultado vocês esperam com esse curso?

    Não esperamos um resultado imediato ou algo que mude totalmente quem participar.
    O que esperamos é mostrar uma perspectiva que talvez eles ainda não tenham enxergado sobre a produção audiovisual. As vezes a gente pensa que tudo acontece de uma forma mágica, mas no curso vão ver a quantidade de erros, problemas e gambiarras que precisamos fazer para tudo dar certo no final.

    Só assistir ao clipe não traz toda essa noção dos bastidores. É só assistir algum making of de um filme milionário de Hollywood que você percebe o quão complicado é, mesmo com milhões disponíveis.
    Então a ideia é o pessoal sair desse curso com uma ideia mais desconstruída do que é fazer um vídeo.

    E pro futuro, pretendem fazer outros?

    Com certeza! Temos várias outras ideias que em breve colocaremos em prática. A ideia vai ser sempre plantar uma sementinha que aos poucos vai brotar na cabeça da galera. De que dá pra fazer muito com pouco, de que é possível fazer as paradas acontecerem e no fim de tudo, poder conseguir algum dinheiro com isso.

    Se esperássemos ter algum dinheiro antes de fazer algo, não existiria 90% da classe artística aqui na Baixada. Temos que arrumar um jeito de fazermos antes pra conseguir algo depois. E as vezes isso pode ser bem depois.
    Inclusive esse curso de videoclipe já tem até outra edição, só não sabemos quando, mas vai ter.

    SAIBA MAIS

    Facebook Pitanga Audiovisual: https://www.facebook.com/pitangaaudiovisual

     

     

  • Dudu de Morro Agudo participa da web série Só Lazer, da Mate Leão

    Dudu de Morro Agudo participa da web série Só Lazer, da Mate Leão

    DMA (Dudu de Morro Agudo) recebeu o convite para fazer parte de uma web série cujo o principal objetivo  era fazer um mapeamento cultural na cidade de Nova Iguaçu. Apresentada por Rafael Mike, do Dream Team do Passinho, a web série também contou com a presença de outros Enraizados como Lisa Castro e Marcão Baixada, além dos produtores culturais Diego Bion, produtor do Cineclube Buraco do Getúlio e Rogério Costa, proprietário do Cultural Bar.

    O vídeo de Dudu de Morro Agudo já conta com mais de 250.000 vizualizações no youtube e mais de 350.000 no facebook.

    Veja o que ele achou da iniciativa:

    Como surgiu o convite para participar dessa web-série?

    Recebi uma ligação do Wesley Brasil dizendo que estavam interessados em fazer a filmagem. Achei a proposta interessante, mas não sabia o que era a fundo, só aceitei a priori por que haviam outros amigos envolvidos.

    O resultado foi o esperado?

    Sim, na verdade eu não esperava muita coisa, não estava na muito claro pra mim. Eu só sabia que era um filme e que haveria um mapeamento cultural da cidade. Pra mim esse tipo de mapeamento sempre foi interessante, é sempre interessante promover a cidade e seus artistas, contudo a repercussão foi muito maior do que eu esperava. A equipe que produziu os vídeos tratou a cidade, seus produtores e artistas com muito respeito e investiram em mídia para promover os videos. Foi legal.