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  • Entre Cordéis e Saberes: CIEP 172 inaugura a Sala de Leitura Poeta Popular J. Rodrigues

    Entre Cordéis e Saberes: CIEP 172 inaugura a Sala de Leitura Poeta Popular J. Rodrigues

    Hoje fui convidado pelo meu amigo Antônio Feitosa — o Totó — poeta, animador cultural, homem da política cultural iguaçuana, de esquerda e com posições muito bem definidas. O convite era especial: a inauguração de uma sala de leitura no CIEP 172, onde ele atua como educador. Um espaço novo, criado com afeto e dedicado à memória do poeta popular J. Rodrigues.

    Fui como quem vai prestigiar um amigo querido, mas saí profundamente impactado. A riqueza do ambiente, a beleza do espaço e o cuidado com cada detalhe me tocaram de verdade. Era impossível sair de lá e não escrever sobre isso.

    Por isso, a minha coluna de hoje é dedicada a esse lugar que nasce como farol de cultura, memória e afeto. Com vocês: a Sala de Leitura Poeta Popular J. Rodrigues.

    Um Espaço Inédito na Escola: A Sala de Leitura

    Em uma iniciativa emocionante e transformadora, a equipe do CIEP deu um passo importante na valorização da leitura, da cultura e da memória local. Foi inaugurada hoje, dia 26 de junho de 2025, uma quinta-feira, às 13 horas, uma sala de leitura inédita na escola, criada especialmente para oferecer um ambiente acolhedor e interativo voltado ao incentivo à leitura, à pesquisa e ao acesso a materiais diversificados — não necessariamente pertencentes ao acervo tradicional da biblioteca escolar.

    Diferente da biblioteca já existente, esta nova sala de leitura nasce com o propósito de abrigar livros e materiais que serão utilizados de forma mais flexível e dinâmica por professores, principalmente das áreas de Língua Portuguesa e História. A ideia é que este seja um espaço aberto, de interação com alunos, professores e membros da comunidade escolar.

    Dudu de Morro Agudo, Aparecida Rodrigues (Filha do J. Rodrigues) e Antônio Feitosa.
    Dudu de Morro Agudo, Aparecida Rodrigues (Filha do J. Rodrigues) e Antônio Feitosa.

    Uma Homenagem ao Poeta da Baixada: Sr. J. Rodrigues

    O nome do novo espaço não foi escolhido por acaso. A sala de leitura presta homenagem ao poeta de cordel Sr. J. Rodrigues, figura querida e marcante da cultura popular na Baixada Fluminense. A escolha veio da vontade pessoal do educador Antônio Feitosa, que idealizou e liderou a criação da sala.

    Feitosa já havia homenageado o poeta em outras ocasiões, como na reinauguração de uma biblioteca no CIEP 022 e na criação de um espaço literário no Casco de Morro Agudo. Como os demais espaços da escola já levavam nomes de outras figuras homenageadas, ele solicitou à direção que a nova sala fosse batizada em memória de J. Rodrigues. O pedido foi prontamente aceito.

    Uma linda homenagem que conta a história do poeta.
    Uma linda homenagem que conta a história do poeta.

    Um Espaço Vivo e Acolhedor

    A nova sala não será apenas um local para leitura silenciosa. A proposta é transformá-la em um polo cultural ativo, com exposições permanentes e itinerantes, lançamentos de livros, encontros com autores — especialmente da Baixada Fluminense — e ações que estimulem o protagonismo estudantil e comunitário.

    O acervo contará com obras do próprio Sr. J. Rodrigues, mas será amplamente diversificado. Autores e editoras da região estão convidados a enviar exemplares de suas obras para enriquecer o espaço. A ideia é que os estudantes não apenas leiam os livros, mas conheçam pessoalmente os autores, estabelecendo pontes entre a literatura e a vida real.

    Um espaço vivo, que eterniza o poeta Jota Rodrigues o apresentando para as novas gerações.
    Um espaço vivo, que eterniza o poeta Jota Rodrigues o apresentando para as novas gerações.

    Quem Foi J. Rodrigues?

    Nascido em 1934, o poeta J. Rodrigues faleceu em 2018, deixando um legado profundamente enraizado na cultura popular fluminense. Morador de longa data de Morro Agudo, ele foi um importante divulgador da literatura de cordel no estado do Rio de Janeiro, com forte atuação nas escolas públicas, universidades e demais espaços educativos e culturais. Sua obra tinha como marca o compromisso com a oralidade, a memória e a valorização das raízes nordestinas.

    Além de poeta, era também raizeiro, músico e líder de um grupo de forró, o que o tornava um artista plural e profundamente conectado com sua comunidade.

    Aparecida Rodrigues, filha de J. Rodrigues, conhecendo a sala que homenageia seu pai.
    Aparecida Rodrigues, filha de J. Rodrigues, conhecendo a sala que homenageia seu pai.

    A Inauguração: Entre Poesia e Música

    A inauguração da sala contou com a presença de Aparecida Rodrigues, filha do poeta homenageado, e com um show musical do artista Edu Miranda, que ofereceu um momento de celebração e afeto ao evento. A cerimônia reforçou o caráter simbólico e afetivo do espaço, que nasce já carregado de memória, arte e identidade.

    A cultura pulsante do nordeste permanedeu forte na produção artística e na vida de J. Rodrigues.
    A cultura pulsante do nordeste permanedeu forte na produção artística e na vida de J. Rodrigues.

    Um Legado que Inspira

    A Sala de Leitura Poeta Popular. J. Rodrigues representa mais do que um espaço físico: é um gesto de resistência, valorização da cultura local e promoção do acesso democrático ao conhecimento. A iniciativa, conduzida por Antônio Feitosa com apoio da direção da escola e da equipe de Animação Cultural, é um exemplo de como pequenas ações podem gerar grandes transformações na vida escolar e comunitária.

    A leitura, a cultura e a memória agradecem.

    📍 SAIBA MAIS
    Local: CIEP 172 – Nelson Rodrigues
    Endereço: Rod. Pres. Dutra, Km 182, Comendador Soares – Nova Iguaçu, RJ, CEP 26280‑000
    Sala de Leitura J. Rodrigues

    📅 Visitação:
    De segunda a sexta-feira, das 9h às 17h
    Aberta a estudantes, professores, comunidade e visitantes interessados

    📞 Telefone: (21)9.8171-5134

    Para doações de livros, agendamentos de visitas em grupo ou realização de eventos, entre em contato pelo telefone ou e-mail acima.

     

  • A universidade rimou: uma tese, muitas histórias

    A universidade rimou: uma tese, muitas histórias

    Nem sei por onde começar. São tantas coisas a dizer, tantos sentimentos que permeiam meu coração, mas vou começar do jeito que dá—transbordando o que sinto, deixando que as palavras fluam.

    Este processo de pesquisa foi, sem dúvida, um grande aprendizado. Aprendi a olhar para lugares que antes não enxergava, a ouvir de forma atenta e afetuosa essa juventude potente que orbita o Quilombo Enraizados e participa das atividades do RapLab e tantas outras, e a refletir sobre nossas próprias práticas e vidas. Mas, acima de tudo, aprendi a inventar mais futuros possíveis para nós.

    Conectei minhas redes a outras redes educativas, e isso expandiu meus horizontes de uma forma que eu jamais imaginei. Lembro-me de uma conversa que tive com minha grande irmã, Lisa Castro, quando ainda estava no mestrado. Ela me perguntou se a universidade tinha me mudado. Na época, respondi que sim, mas que minha presença e de tantos outros iguais a nós, também tinha mudado a universidade de alguma forma.

    Hoje, minha resposta seria diferente. Diria:

    — Sim, minha amiga, entrar para a universidade mudou minha vida. Ou melhor, mudou as nossas vidas, a minha, a sua e de tantos outros que suas redes se cruzam com as nossas.

    Graças a essa jornada acadêmica, conheci pessoas incríveis e me conectei com o grupo de pesquisa Juventudes, Infâncias e Cotidianos (JICs), onde encontrei pessoas que hoje são parte importantíssima do Enraizados. São pessoas que nos ensinam tanto quanto aprendem conosco. Graças a essas conexões, chegamos ao terceiro ano do Curso Popular Enraizados, com contribuições fundamentais da Bia, da Júlia e da Maria, à terceira turma de teatro em parceria com o Projeto Teatro Nômade, graças a Luísa e a toda turma do Projeto Teatro Nômade, e esses projetos não só impactaram minha trajetória, mas também envolveram minha esposa, meu filho e a família da própria Lisa. Hoje, minha irmãzinha cursa pedagogia, minha esposa está prestes a entrar para cursar história na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, aqui em Nova Iguaçu, ambas estudaram no Curso Popular Enraizados. Meu filho, com apenas sete anos, já atuou em duas peças teatrais.

    As redes foram se cruzando, as possibilidades se ampliando, e hoje vejo dezenas de pessoas que tiveram suas vidas transformadas a partir dessas conexões.

    O dia da defesa de doutorado foi um dos mais intensos da minha vida. Organizar transporte, lanches, presentes, preparar slides, ensaiar… Um turbilhão de tarefas. Nada disso seria possível sem a força coletiva de tantos amigos que chegaram e nunca mais saíram.

    Um amigo conseguiu o ônibus, outro a van, e minha esposa preparou cuidadosamente os kits de lanche para todos. Samuca estava mais ansioso que eu, porque percebia que, no meio da produção desse dia, eu não encontrava tempo para ensaiar minha apresentação.

    Antônio Feitosa chegando no Quilombo Enraizados, às 5:30 da manhã

    Baltar, Higor, FML, DMA, Samuca e Kaya

    Enraizados rumo a UFF, de ônibus

    Marcamos a saída para as 5h30 da manhã, e todos chegaram pontualmente ao Quilombo Enraizados. Dorgo seguiu comigo de carro, que já estava carregado com um isopor cheio de bebidas e gelo, projetor, caixa de som, cabos e outros equipamentos. Seguimos viagem cantando para aliviar a tensão, embora eu estivesse em um estado quase mecânico, semelhante ao que senti no dia do nosso show no Rock in Rio. A meta era clara: viver o dia, fazer o que havia sido ensaiado e não improvisar. O famoso “sorria e acene”.

    Mas, como em toda grande história, imprevistos aconteceram.

    Ainda na Avenida Brasil, um carro bateu na traseira do meu. O barulho foi assustador, e saí do carro sem conseguir disfarçar minha insatisfação. O motorista do outro veículo estava visivelmente nervoso, mas, felizmente, não houve grandes danos e seguimos viagem.

    Ao chegar na UFF, outro desafio: o auditório reservado para a defesa estava ocupado por um evento de química. Tivemos que nos adaptar rapidamente e mudar para o auditório do Bloco F. Mesmo com os contratempos, tudo foi resolvido com o apoio das minhas amigas do JICs, que cuidaram da burocracia, do café da manhã, da comunicação da mudança de sala e de mais um monte de coisas. Luísa, Inês, Bia, Andreza, Pedro, Laís, Ravelly, Rebecca… Quase todas e todos  estavam lá. Senti falta da Patrícia, da Clarice, da Maria Fernanda que infelizmente não puderam estar presentes.

    Minha amiga Emília me recebeu com um presente logo na minha chegada —uma linda orquídea e um bolo de rolo, um gesto de carinho que guardarei para sempre. Ana Massa, amiga de quase duas décadas, também estava lá. Foi emocionante perceber que aquela conversa que tivemos anos atrás, em Paris, sobre fazer eu doutorado, quando eu ainda nem tinha começado a graduação, finalmente se concretizava.

    Lista de Presença?
    Valter Filé observando a apresentação de Dudu de Morro Agudo

    Ana Enne, minha querida amiga e professora da UFF, que conheci lá pelos anos de 2010, quando trouxe sua turma de graduandos para conhecer o nosso Pontão de Cultura e nossa rádio web, onde o âncora era uma criança de 11 anos. Ela também esteve presente.

    Cada detalhe foi pensado com amor e dedicação. Higor Cabral e Josy Antunes registraram tudo com filmagens e fotografias, Aclor fez belos registros em vídeo e Baltar criou um flyer incrível para divulgar o grande dia. A presença de tantos amigos, colegas e familiares tornou tudo ainda mais especial.

    A banca era o time dos sonhos. Sou fã de cada membro, tanto por suas trajetórias acadêmicas quanto por seus posicionamentos políticos e ideológicos. Adriana Facina, Adriana Lopes, Valter Filé, João Guerreiro e minha orientadora, Nivea Andrade. Infelizmente, Erica Frazão não pôde estar presente por motivos pessoais, mas sua contribuição na qualificação foi fundamental.

    Banca formada por Adriana Facina, Adriana Lopes, Nivea Andrade, João Guerreiro e Valter Filé, ao lado Dudu de Morro Agudo

    Como homenagem à cultura hip hop, fizemos um zine, inspirado nos coletivos dos anos 90, com o resumo da pesquisa e as letras das músicas “Reflexões que ainda me tiram o sono”—uma criação nascida dentro da universidade, na disciplina Psicologia da Arte, ministrada pela professora Zoia Prestes, a quem sou imensamente grato—e “Jovem Negro Vivo”, a música mais emblemática dos encontros do RapLab.

    Durante a defesa, a banca fez apontamentos valiosos, que renderam discussões até no ônibus de volta para casa.

    Quando chegou minha vez de falar novamente, a emoção tomou conta. As lágrimas vieram, e aquele nó na garganta que sempre aparecia até nos momentos de ensaio da apresentação ou quando simplesmente imaginava o dia da defesa, estava lá, presente. Refletir sobre a própria trajetória é uma viagem cheia de turbulências.

    Ao final, Nivea Andrade fez uma fala emocionante, tecendo palavras sobre minha mãe, meus filhos, minha companheira e os mais velhos do Enraizados. Foi uma homenagem afetuosa e respeitosa, que tocou fundo em todos nós.

    E então, o veredito foi lido: APROVADO.

    Adriana Facina, Adriana Lopes, Nivea Andrade, Dudu de Morro Agudo, João Guerreiro e Valter Filé

    JICs: Rebecca, Ravelly, João, Gabi (agachada), Bia, Nivea, Dudu, Duduzinho, Luísa, Inês (ao meio), Laís (agachada), Andreza e Pedro

    Imperatriz (filha), Lúcia (mãe), Alcione (tia e madrinha) e Milena (prima)

    Fernanda Rocha (esposa) e Dudu de Morro Agudo

    O bonde todo.

    A festa começou. A universidade rimou e rimou. Vieram os abraços, as mensagens inundaram o WhatsApp, as redes sociais explodiram. O Enraizados inteiro se tornava doutor.

     

    Depois, a celebração continuou no Quilombo: cantamos, rimos, choramos, bebemos, comemos, caímos, tomamos banho de chuveiro, dançamos. A felicidade era palpável.

    No dia seguinte, acordei cedo e fui para o Quilombo arrumar tudo, sozinho lavando o quintal e refletindo sobre as últimas 24 horas. Os vizinhos já me chamavam de “doutor”, perguntando quando poderiam ler minha tese. Eu respondia com sorrindo:

    — Logo! Semana que vem estará nas ruas!

    Como se fosse meu novo disco.

    A ficha ainda não caiu completamente, mas sei que este não é o fim —é o início de uma nova e longa jornada. Agora é hora de agradecer, viver o momento e seguir desenhando futuros possíveis.

    Amo cada uma e cada um de vocês!