A Baixada Fluminense vem se mostrando um celeiro de jovens artistas de rap e com os holofotes voltados para a cena é comum vermos cada vez mais eventos de rap, cada dia nasce um MC pelos acessos da Baixada, agora, se ele vai se dedicar e continuar empregando a Profissão MC é outra história, mas vamos focar nos ditos eventos.
As tão famosas rodas culturais geralmente funcionam no formato:
Mestre de Cerimônia + DJ sets + Batalha de MC’s + Pocket show.
Porém enfrentamos um grande problema: O PÚBLICO. Sim, o público é alma da roda, o evento foi feito para ele, ele é o jurado das batalhas, grande parte do motivo daquela ocupação ser, na maioria das vezes, em um espaço público. Mas geralmente se a atração da noite é um artista local, a galera não presta a devida atenção no trabalho do amigo.
Todos pedem por uma intervenção artística, um evento fixo num local, e quando finalmente se movimentam nesse sentido, muitas das vezes, parte do público desrespeita os artistas envolvidos, muitos só estão ali para presenciar a batalha, o foco principal da noite, e quando o artista convidado vai se apresentar, se dispersam e o MC tem que doar sua energia para meia dúzia de pessoas.
Tudo depende do local, da vibe, mas é uma grande verdade que há um grande desrespeito com os grupos/MC’s desconhecidos da grande mídia que se apresentam em locais públicos. É comum presenciarmos um evento lotado e na hora do show, vermos menos da metade do público interagindo com o artista, isso ainda é triste. Não esperem que o trabalho do artista vire pra a partir de então passar a prestar atenção em seu trabalho, olhe agora, respeite aquele momento em que ele entrega seu trabalho para vocês. A partir do momento em que ele recita seus versos, a canção não é mais dele, retribuam com a energia necessária como um incentivo e façam daquele momento algo bonito, vocês verão os frutos a frente, lembrem-se, digo isso também enquanto artista.
Minha entrevista dessa semana é com o escritor Alessandro Buzo. Hoje em dia é difícil definí-lo (ou rotulá-lo) somente como escritor, pois ele também é empresário, produtor de eventos, jornalista, cineasta e… “sabe-se lá Deusmais o que”. Nessa entrevista procurei trazer para o leitor as multifaces deste incansável produtor de cultura urbana.
Senhoras e senhores, com vocês… ALESSANDRO BUZO!!!
DMA – Atualmente quantos livros você tem publicado?
Alessandro Buzo: Em junho de 21012 lancei PROFISSÃO MC pela NVersos Editora, meu décimo livro, que foi inspirado no meu filme de mesmo nome. Além desses 10 livros, publiquei outros seis, que são 05 volumes da coletânea PELAS PERIFERIAS DO BRASIL e 1 volume do POETAS DO SARAU SUBURBANO.
Destes, qual é o seu livro de maior sucesso em vendas e repercussão?
Difícil falar com precisão, sempre vende um pouco de cada, geralmente o que mais vende é o ultimo, mas O TREM é um dos que deu maior repercussão.
Capa do livro Profissão MC
Você faz o evento Favela Toma Conta a quantos anos?
Desde 2004, nos primeiros anos eram 3 ou 4 edições por ano, agora uma ou duas.
Com isso foram realizadas 26 edições, 22 no Itaim Paulista (Zona Leste de SP), 03 em São Miguel Paulista (vizinho do Itaim, também na Zona Leste) e uma na cidade de Ribeirão Preto, interior de SP. Poucos (não sei precisar outro) eventos de hip hop (de graça e na rua) tiveram tantas
edições.
O evento Favela Toma Conta já é uma festa tradicional onde passaram artistas consagrados como Thaide, Criolo, Dexter, Emicida, entre outros. Porque você acha que ainda assim o estado não patrocina o evento e o coloca no calendário da cidade?
Falta planejamento cultural, tanto do estado quanto da prefeitura. Com isso eu fico sempre sofrendo pra conseguir estrutura (palco, som, gerador e iluminação), na ultima edição – Dia das Crianças 2012 – a liberação veio a poucos dias do evento. Isso atrapalha o cronograma, como pensar nas atrações, brindes, etc…
Um sofrimento.
Porque você mantém o evento acontecendo tudos os anos mesmo com tanta dificuldade?
Já dizia o Sabotage: – Rap é Compromisso.
O Favela Toma Conta é o meu compromisso com o RAP e com o Itaim Paulista. Amo o evento e não tenho ele com intuito de ter lucro, não dando prejuízo já é lucro.
Quando você decidiu fazer o filme Profissão MC?
Desde 2007, quando passei a trabalhar na Produtora DGT FILMES, eu dizia que queria fazer um filme na minha quebrada, mas eles sempre respondiam que precisava roteiro (eu só tinha o argumento), que precisava captar dinheiro.
De tanto eu falar, o Toni Nogueira – dono da DGT – me disse: – Vamos fazer eu e você!
Fizemos sem captar um único real, com uma câmera pequena que filma em HD, na raça e na coragem.
Alessandro Buzo
Quais os melhores retornos que o filme te proporcionou?
O sucesso de público e crítica, a medalha GALGO ALADO, no Festival de Gramado, os 400 mil acessos no Youtube, o fato de o filme já ter 03 anos e seguir sendo exibido.
Além do sucesso, na vida real, do protagonista CRIOLO, mesmo não estando ligado diretamente ao filme e sim ao seu talento, mas foi bom ter feito parte da história de vida dele.
Agora você prepara o filme Profissão MC II, onde o Dexter é o protagonista. Porque escolheu o Dexter? Quem mais participa do filme?
Escolhi o Dexter porque além de um grande talento ele tem a personalidade forte. Porque a trama do filme é parecida com a tragetória dele na vida real (crime, cadeia e superação através do RAP), mas não é a história dele, assim como o primeiro filme é uma ficção.
Vi que você estava tentando recurso para o realizar o filme através crowdfunding (financiamento coletivo), como está a arrecadação? Como os interessados podem contribuir?
Colocamos no CATARSE pra tentar arrumar 90 mil em 2 meses, mas não deu certo. Se cada pessoa que viu o primeiro filme no youtube de graça tivesse dado 01 real, iria sobrar dinheiro, mas ficou a lição. Sei que depois de pronto a primeira coisa que vão perguntar é se vou disponibilizar gratuitamente?
Mas na boa, o filme vai acontecer, estamos montando o projeto profissionalmente e vamos tentar os editais de cinema.
Alessandro Buzo e Tony Nogueira gravando.
Sua carreira como repórter começou com um quadro na TV Cultura, no programa Manos e Minas. Como surgiu a oportunidade de trabalhar no SPTV, da Rede Globo?
Fiquei 03 anos na TV Cultura, sei que meu quadro chamou a atenção da Globo, estive na emissora fazendo uma palestra e posteriormente surgiu o convite. Achei incrível a possibilidade de mostrar a cena cultural da periferia com a audiência que o telejornal SPTV 1a edição tem.
Conversamos e entrei na estréia do novo formato do SPTV, que passava a ter o César Tralli de ancora.
Você sofreu algum tipo de preconceito das pessoas do hip hop por causa desse seu trabalho na Rede Globo?
Nenhum, ou muito pouco. Sabia que o trabalho bem feito iria falar por si só e é o que está acontecendo, o quadro completou 01 ano, mais de 50 quadros exibidos e é um sucesso.
Além de todas essas atribuições, você ainda é proprietário de uma livraria Suburbano Convicto, no Centro de São Paulo. A primeira especializada em Literatura Marginal no Brasil. Como consegue administrar a livraria?
É complicado porque ela ou fica no vermelho ou empata. Quando fecha o mês no azul é bem pouca grana. Não poderia viver da livraria, como não vivo, mantenho ela porque muito mais que um comércio é meu escritório e um centro cultural, além do mais é a única do Brasil especializada em Literatura Marginal.
É na livraria Suburbano Convicto que toda terça acontece o Sarau Suburbano. Ela hoje pertence ao movimento literário e ao Hip Hop, eu só administro porque alguém tem que fazer isso. Mas ela é muito mais que um comércio.
Alessandro Buzo no Programa do Jô
A pouco tempo você participou do Programa do Jô. Como foi a experiência?
Bacana pela audiência e repercussão. As pessoas fazem um castelo, pra muita gente foi importante me ver no Jô, então quem sou eu pra pensar o contrário.
Um vizinho meu no Itaim Paulista me disse: – Fiquei orgulhoso de te ver sentado no sofá do Jô e agora olha você aqui, sentado na minha calçada.
Familia Buzo. Alessandro Buzo, Evandro e Marilda Borges.
Sua esposa Marilda Borges é sua assessora e fotografa, como é trabalhar com a esposa ?
Não é fácil, porque ela tem o temperamento forte, mas ela enxerga as coisas que as vezes eu deixo passar batido. Mas além disso, ela é companheira e auxilia em tudo, sem ela eu não teria o Blog mais atualizado do Brasil, fotos de todo lugar que eu vou.
As vezes o contratante não quer pagar a passagem dela, pensa que quero levá-la pra fazer turismo. Já paguei do meu bolso pra ela ir comigo em alguns lugares. Agora não, minha equipe são duas pessoas, se não rolar nem vou, a não ser que o cachê seja irrecusável, caso contrário
ou somos nós dois ou nada. Recentemente uma feira do livro disse não, então eu disse que não iria e eles voltaram atrás.
O que você acha das Redes Sociais ?
Eu mesmo administro, mas algumas pessoas pensam que tem uma equipe e tal, mas sou eu mesmo. Gosto muito do Twitter (onde tenho 6 mil seguidores), uso como ferramenta de trabalho. O facebook é a versão atualizada e renovada do ORKUT, todo mundo tem, o Twitter é mais para
pessoas do meio artistico e do Hip Hop, uso e abuso dessa ferramenta.
Já o face tenho por “obrigação” mas é um saco, tenho 3 perfis (cada um “só cabe” 5 mil pessoas), e duas fã-pages, uma minha e outra da Suburbano, mas não gosto.
Alessandro Buzo no SPTV.
Como mantém a anos um Blog atualizado diariamente ?
Porque não tenho ele por obrigação e sim porque gosto, sempre quis ter um lugar pra falar o que eu quisesse e divulgar minhas atividades. Já tive fanzine, jornal e agora o blog, desde 2001. Amo o meu blog.
Seu time vai mal das pernas, você é palmeirense convicto?
Time é igual casamento, precisa ser na alegria e na tristeza.
Eu sou palmeirense desde criancinha e vou ser mesmo que ele caia (não acredito) de novo pra série B, me orgulho de meu filho ser palmeirense, o pior desgosto de um pai torcedor é ver o filho torcer pro adversário, meu filho é tão ou mais “porco” que eu.
Planos pro futuro ?
Seguir meu trabalho na TV, seguir publicando livros, seguir sendo um bom pai e marido, e produzir e realizar meu novo filme. O futuro a Deus pertence.
Alessandro Buzo é o tipo de mano polivalente, joga nas onze, que trabalha, se diverte, cria, harmoniza, reclama e ajuda, tudo isso ao mesmo tempo, talvez seja esse o segredo de ter tantos projetos dando frutos simultâneamente.
A última notícia que tivemos foi que seu filme, Profissão MC, foi premiado em Gramado. Segundo o próprio Buzo, “nem no mais otimista dos meus sonhos eu poderia imaginar que o filme “Profissão MC”, que a gente fez sem captar um único real, nas quebradas do Itaim Paulista, no Extremo da Zona Leste de São Paulo, chegaria a ser exibido em GRAMADO (RS)”.
Buzo foi, exibiu e saiu aplaudido e premiado com a “Menção Honrosa”, medalha galo alado, na quinta-feira, dia 11 de novembro de 2010, onde estavam também quatro, dos sete diretores do filme 5x Favela.