Tag: Segurança Pública na Baixada Fluminense

  • Juventude e Mobilidade Urbana: mais de 06 horas para ir de Nova Iguaçu à Duque de Caxias e voltar

    Juventude e Mobilidade Urbana: mais de 06 horas para ir de Nova Iguaçu à Duque de Caxias e voltar

    Olá leitores do Portal Enraizados!!!

    Estamos de volta com mais uma matéria falando sobre Mobilidade Urbana. Na primeira, eu (Dorgo) e Beatriz Dias, afim de respondermos algumas questões relacionadas com a juventude e a mobilidade urbana, decidimos acompanhar três outros jovens que cortaram cinco cidades, em uma trajetória de mais de 40 quilômetros, em busca de uma nova experiência cultural. <<leia aqui>>

    Beatriz Dias e Dorgo
    Beatriz Dias e Dorgo

    A matéria de hoje tem a mesma dinâmica, mas com uma missão diferente: curtir o Rap Free Jazz, em Duque de Caxias.

    O Rap Free Jazz é um evento no formato de Roda Cultural, realizado pelo Coletivo FALA há dois anos, com o intuito de ser itinerante e levar os acontecimentos da Baixada Fluminense para a própria Baixada, através das artes.

    Caso queira conhecer melhor, pode conferir na matéria que escrevemos sobre o projeto.

    No dia 21 de outubro, rolou a edição do Rap Free Jazz com seletiva para o Duelo Nacional de MC’s, de onde saiu um representante da Baixada Fluminense. O evento aconteceu na Praça do Galo, no Parque Fluminense, em Duque de Caxias, e teve seu início ás 18:30.

    Nossos personagens neste artigo são:

    • Albert Paula (Einstein NRC), 21 anos, Mc e Beatmaker.
    • Camila Lemos, 22 anos, Produtora e empreendedora.
    • Victor Carvalho, 22 anos, Produtor cultural e técnico em eletrônica.

    A ideia desse artigo, assim como no último, é responder algumas questões relacionadas com a mobilidade urbana sob a ótica da juventude periférica, como opções de transporte, valor das passagens, estado de conservação do coletivo e segurança.

    Para que você possa se situar, o Parque Fluminense é um bairro do município de Duque de Caxias, com cerca de 13 mil habitantes, que faz divisa com o município de Belford Roxo. A Praça do Galo se localiza próximo a estrada do China, uma das principais vias do bairro, que fica a 23,6 quilômetros de distância de Morro Agudo, bairro mais populoso da cidade de Nova Iguaçu, local de partida da nossa jornada.

    As nossas opções de transporte eram:

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    1. Trem da Super Via, sentido Central do Brasil. Baldeação na estação Maracanã, novo trem sentido Gramacho e descer na estação Duque de Caxias e outra condução até a praça. Um trajeto total de 02:20 (duas horas e vinte minutos) de duração, com o custo de R$8,20 (oito reais e vinte centavos).
    2. Ônibus até a rodoviária de Nova Iguaçu. Ônibus da viação Flores “115-Duque de Caxias” até a Estrada do China e andar cerca de 05 minutos até a Praça do Galo, trajeto com 02:00 (duas horas) de duração e custa de R$7,80 (sete reais e oitenta centavos).
    3. Ônibus na Dutra (várias opções) até o “Posto 13”, com trajeto de cerca de 15 minutos. Ônibus da viação Flores “115-Duque de Caxias” ou o “116-Duque de Caxias”, também da viação Flores, até a estrada do China e andar cerca de 05 minutos até a Praça do Galo, num trajeto com 01:30 (uma hora e trinta minutos) de duração, com o total de 01:50 (uma hora e cinquenta minutos) custando R$8,60 (oito reais e sessenta centavos).[/padding]

    As principais metas desse rolé eram economizar e não chegar tarde no evento. Como a faixa de preço não diferenciava muito entre as opções, demos preferência ao tempo de viagem e fomos pela Dutra, por ser um trajeto mais curto e mais rápido.

    Saímos de Morro Agudo às 18:00 e esperamos cerca 40 minutos pelo ônibus, que demorou 25 minutos pra chegar ao Posto Treze, lá esperamos cerca de 01 hora pelo ônibus que nos levaria até o Parque Fluminense, num trajeto que durou cerca de 01:50 (uma hora e cinquenta minutos), tendo como tempo total da viagem 03:55 (três horas e cinquenta e cinco minutos), contrariando a estimativa de tempo apresentada pelas empresas de ônibus.

    O mesmo trajeto de carro leva em média 36 minutos de duração.

    O Einstein diz que “é muito complicado pra todo mundo circular, até mesmo dentro da Baixada Fluminense, pois muitas vezes temos que pegar 2, 3 e até 4 conduções pra chegarmos no local que desejamos. Se tiver sem dinheiro e precisar esperar um ônibus específico, pode ficar horas no ponto esperando”.

    Camila acrescenta a fala de Einstein dizendo que “não é uma experiência muito agradável, se você não tem dinheiro, perde o direito de ir e vir, que teoricamente seria um direito de todos”.

    Albert Paula (Einstein NRC), 21 anos, Mc e Beatmaker
    Albert Paula (Einstein NRC), 21 anos, Mc e Beatmaker

    Como já foi dito, escolhemos esse trajeto para poupar tempo, porém os atrasos e as estradas cheias de buracos tornam o percurso cada vez mais difícil e demorado.

    Quando perguntamos ao Victor sobre os obstáculos de transitar entre as cidades da Baixada Fluminense, ele comenta com humor “que tem vários obstáculos, literalmente”.

    “É muito complicado gastar cerca de R$20,00 com transporte estando desempregada, é uma situação muito difícil. O que culmina também na perda de muitas oportunidades de emprego, por conta das empresas darem preferência a pessoas que gastam menos passagem”, diz Camilla.

    A segurança é uma das maiores preocupações dos jovens que se aventuram para curtir eventos em outras cidades, o perigo que estávamos correndo com os equipamentos na rua acabou resultando na falta de dinâmica na hora de tirarmos algumas fotos, por mais que estivéssemos em grupo, o medo falava mais alto.

    Rap Free Jazz

    Para Einstein “o gasto não compensa, por que as ruas são muito danificadas, os transportes são de péssima qualidade, os horários são muito incertos e além de tudo isso, os passageiros sofrem com a falta de segurança”.
    “Não sei se mais policiamento nas ruas resolveria” comenta Camilla, em tom de descontração.

    Chegamos ao nosso destino com 01:55 (uma hora e cinquenta e cinco minutos) de atraso, já estava no segundo round da batalha de MC’s e mesmo assim valeu muito a pena. Vimos um representante da Baixada Fluminense levando a vaga para a seletiva do Duelo Nacional de MCs, além do show de Felipe Westt com a participação do Einstein.

    Victor Carvalho, 22 anos, Produtor cultural e técnico em eletrônica.
    Victor Carvalho, 22 anos, Produtor cultural e técnico em eletrônica.

    Próximo ao fim do evento, nos deslocamos um pouco e fomos até o fim da praça conversar sobre o tema abordado. Como ainda eram 03:30 da manhã conversamos com bastante calma, já que os ônibus só voltariam a circular às 05 horas da manhã.

    Camilla afirma que “os principais problemas de mobilidade são, além do valor alto das passagens, o perigo de transitar pelos lugares e a baixa rotatividade dos ônibus que, além de demorar, param de circular cedo muitas das vezes”.

    Ao ser questionado sobre a experiência de se deslocar de Morro Agudo até o Parque Fluminense (local onde aconteceu o evento) Victor diz: “Pô, a gente tem que gastar uma grana boa e ainda ficar no mínimo duas horas em condução, se eu tivesse carro, com certeza iria preferir transitar de carro, tudo bem que tem os problemas de trânsito e etc, mas o custo-benefício acaba compensando mais.

    Após cerca de uma hora de conversa fomos andando até o ponto de ônibus, e na saída da Praça encontramos uma menina que perguntou se estávamos indo para o ponto de ônibus, e ao afirmarmos ela perguntou se podia nos acompanhar, pois estava sozinha e com medo, fato que infelizmente já faz parte de nossas rotinas, ainda mais quando se é mulher.

    Chegamos no ponto de ônibus, mas dessa vez não esperamos muito, em menos de 10 minutos passou o primeiro ônibus para Nova Iguaçu, embarcamos e durante o trajeto, a cena cotidiana se repetiu, Beatriz foi assediada dentro do transporte público.

    Camila Lemos, 22 anos, Produtora e empreendedora
    Camila Lemos, 22 anos, Produtora e empreendedora

    Ao chegarmos em Nova Iguaçu, aproximadamente às 06:20 da manhã, esperamos mais uns 20 minutos até pegarmos o ônibus para Morro Agudo. Chegamos às 07:10 em casa.

    O rolé teve 13 horas e 10 minutos de duração, desde a hora que saímos de casa até a hora que chegamos, porém 06 horas e 15 minutos foram destinados ao deslocamento, o que é um absurdo se tratando de um trajeto que pode ser feito em menos de uma hora de carro.

    No final das conversas com cada um, os questionei sobre algumas soluções que segundo eles poderiam ser tomadas para melhorar o transporte público.

    Einstein acha que “a principal melhoria a ser realizada é a manutenção dos ônibus, que são precários e obviamente a passagem, que já ultrapassou o absurdo, porém o poder público deveria intervir nisso, fazendo algum tipo de fiscalização quanto ao serviço oferecido pelas empresas de transporte público”.

    Na opinião de Camilla “só aumentar a rotatividade dos ônibus já resolveria bastante coisa”.

    Para Victor as empresas deveriam disponibilizar mais linhas de ônibus, uma grade de horários melhor e seguida à risca”. Ele diz também que as empresas deveriam fazer alguma espécie de plataforma onde os passageiros pudessem acompanhar os ônibus, para saber o horário exato em que ele chegará ao ponto, evitando transtornos ao esperar os coletivos por muito tempo”.

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    Licença Creative Commons
    O trabalho Juventude e Mobilidade Urbana: mais de 06 horas para ir de Nova Iguaçu à Duque de Caxias e voltar. de Marlon Gonçalves, Beatriz Dias e Flávio de Assis, faz parte de uma série de reportagens sobre Mobilidade Urbana da 1ª Chamada Pública do Fundo Casa Fluminense e está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.

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  • Quem será a próxima vítima da violência na Baixada Fluminense?

    Quem será a próxima vítima da violência na Baixada Fluminense?

    Morro Agudo é o bairro onde eu nasci e vivo há 35 anos, onde dedico minha vida trabalhando com meus parceiros em busca de melhoria e oportunidades para a juventude. O lugar que adotei como meu sobrenome, que falo com imenso carinho, e onde trouxe milhares de pessoas, de diversas partes do mundo para conhecer.

    Esse é o meu Morro Agudo.

    Mas vou contar um breve relato, que talvez vocês não saibam:

    Nasci em 1979. Minha infância foi nas ruas, brincando com meus amigos. Entre uma brincadeira e outra, íamos ver os corpos sem vida, às vezes atropelados na Via Dutra, outras assassinados. Muitas vezes pessoas que se conheciam desde a infância se matavam por motivos fúteis.
    Tudo isso fazia parte do meu cotidiano. Quando meus pais chegavam do trabalho, nossa conversa durante a janta – nos intervalos comerciais entre a novela – era sobre os mortos do dia.

    O tempo foi passando, fui crescendo e meus amigos continuaram se matando. Cada vez morrendo mais jovens, todavia os motivos eram sempre os mesmos.

    Quando iniciei minha história no hip hop, comecei a ter um olhar crítico a respeito da minha comunidade. Percebi que em todos esses anos, NUNCA, eu disse NUNCA,  houve sequer uma investigação sobre as mortes violentas que aconteceram na minha comunidade.

    Os anos foram passando e nada mudava. Um vizinho – e camarada – morreu aos 17 anos porque fumava maconha no bairro, outro morreu porque era encrenqueiro, não fazia mal à ninguém, apenas era chato, esse foi o motivo de um amigo de infância tirar sua vida após várias tentativas. Outro morreu com 16 anos por causa de inveja, também morto por um amigo de infância. Atualmente, até esses jovens que mataram, já foram mortos.

    No dia 31 de março de 2005, eu tinha 26 anos, foi quando aconteceu a maior chacina aqui da região, onde 29 pessoas inocentes foram assassinadas em Nova Iguaçu e em Queimados. Eu lembro muito bem o que eu fazia no exato momento da chacina. Estava vindo da rádio comunitária do Fator Baixada, que funcionava na casa do DJ do grupo. Eu andava pela rua, por sorte os assassinos não passaram por essa rua.

    O caso ganhou repercussão mundial, mas acredito que foi somente porque foram 29 mortos de uma só vez, pois se formos contar as mortes violentas de cada mês, esse número certamente ultrapassará essa marca.

    A questão é: Dez anos se passaram. Quais foram as políticas públicas de segurança que foram aplicadas na região?

    Depois da implantação das UPPs nas favelas do Rio de Janeiro a violência na Baixada Fluminense aumentou, os dados comprovam. O aumento de roubo de carros, por exemplo, aumentou muito. Meu tio teve o carro roubado na porta de casa por bandidos armados com fuzil, coisa que não se via por aqui anos antes. A taxa de homicídios por 100 mil habitantes subiu de 52 para 58, de 2013 para 2014.

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    Grafiteiro Babu

    E quem está nesse fogo cruzado é quem paga muitas vezes com a vida. Pessoas inocentes. Como “quase” foi o caso de um dos meninos que cresceu no Enraizados, na escola de hip hop Enraizados na Arte, e que hoje trabalha ministrando aulas de graffite em uma escola pública do bairro.

    Ele foi baleado na perna, após homens tentarem assassinar um outro jovem do bairro – sabe-se lá por qual motivo. Ele ficou literalmente no meio de um fogo cruzado e levou um tiro na perda, e agora está internado em um hospital público, com a canela quebrada ao meio.

    Alguns dizem que ele deu sorte, pois o tiro poderia ter sido no joelho, no peito ou na cabeça. Mas pra mim ele teve muita falta de sorte, pois estava tentando ir para casa pelo caminho que considerava o menos perigoso, dentre todas as opções que tinha, depois de um dia inteiro de trabalho e de estudo.

    Jean Lima, mais conhecido como grafiteiro Babu, um cara da paz, mais uma vítima da violência da região da Baixada Fluminense.

    Pra mim não importa quem deu o tiro e muito mesmo a quem ele estava endereçado, o que importa realmente é saber porque as pessoas andam armadas aqui e ninguém faz nada? É saber porque um jovem pacífico, que não faz nada de errado, está internado, com um monte de ferro na perna, com sua vida estagnada?

    Sem contar com a paralisação da vida de seus familiares. Você consegue imaginar o que o pai dele sentiu quando recebeu um telefonema dizendo que o filho havia sido baleado enquanto voltada da escola?

    Eu sei o que ele sentiu porque ele me disse: – “Eu achei que isso nunca fosse acontecer com meu filho. Não estava preparado. Perdi o chão”.

    Infelizmente na Baixada Fluminense é assim, todo mundo anda armado. Os assaltantes que roubam de bicicleta e de moto andam armados, os que roubam na passarela andam armados, os que vendem drogas andam armados, o maconheiro não anda armado, mas é alvo (por aqui não tem distinção entre tráfico e usuário), os justiceiros, milicianos e policiais também andam armados.

    Sabe quem não anda armado? Nós!!!

    O que nos resta é rezar para que nenhuma dessa balas nos achem e para que a taxa de homicídios na região não se iguale à de 1989, quando a Baixada conheceu seu mais alto índice de homicídios: 95,55 mortos por 100 mil habitantes.