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  • De Kingston para o mundo: a trajetória do Studio One e o nascimento do reggae 

    De Kingston para o mundo: a trajetória do Studio One e o nascimento do reggae 

    Como o Studio One, sob a liderança de Clement “Coxsone” Dodd, moldou o panorama musical da Jamaica, transformando uma ilha recém-independente na capital mundial do reggae.

    O surgimento de uma nação e o despertar cultural

    No início dos anos 1950, Jamaica ainda era uma colônia britânica, conhecida principalmente por suas plantações de açúcar e seu papel no comércio do Caribe. Após a Segunda Guerra Mundial, a ilha começou a atrair turistas de elite, com sua exuberante costa e hotéis de luxo como Round Hill e Tower Isle. As praias paradisíacas de Montego Bay e Ocho Rios transformaram a ilha em um refúgio tropical desejado.

    No entanto, ao mesmo tempo que o turismo prosperava, Kingston, a capital da ilha, fervilhava com a energia criativa que logo mudaria o cenário cultural global. Em 6 de agosto de 1962, a Jamaica conquistou sua independência do Reino Unido. A celebração foi marcada pela visita da Princesa Margaret, representando a Rainha Elizabeth, e pelo entusiasmo de uma população ansiosa por definir seu destino.

    Sir William Bustamante, o primeiro-ministro, liderou o país em uma nova era de autogoverno. Com uma economia relativamente estável, a Jamaica se preparava para enfrentar os desafios e
    oportunidades que a independência traria.

    No entanto, a verdadeira revolução jamaicana não foi apenas política – foi cultural. Nas ruas de Kingston, uma geração de jovens começava a moldar uma identidade musical única que,
    em poucas décadas, dominaria o mundo.

    A verdadeira revolução jamaicana não foi apenas política – foi cultural.

    O cenário musical em transformação

    Nos anos 1950, o gosto musical da Jamaica estava em transição. A música tradicional, como o mento e o calipso, não conquistava o público local. Em vez disso, os jamaicanos eram atraídos pelo som vibrante do R&B e do boogie-woogie norte-americano, com artistas como Louis Jordan e Fats Domino dominando as pistas de dança. As grandes festas de Kingston, conhecidas como sound systems, eram o centro da vida noturna, e foi nesse ambiente que surgiu um dos maiores pioneiros da música jamaicana: Clement “Coxsone” Dodd (☆1932 ✞ 2004).

    Coxsone, como era amplamente conhecido, nasceu em Kingston e sempre teve uma paixão pela música. No início de sua carreira, ele importava discos de R&B e jazz dos Estados Unidos e os tocava em festas organizadas por sua equipe de som, Downbeat Sound System. “Naquela época, o que fazia sucesso nas pistas de dança de Kingston era o boogie-woogie e o R&B americano”, disse Dodd em uma entrevista de 1975.

    “As pessoas queriam ouvir aquela batida pulsante, e eu sabia exatamente quais discos trariam a multidão para o salão”. Mas Coxsone não estava satisfeito em ser apenas um DJ. Ele tinha uma visão maior: criar música jamaicana original que refletisse o espírito da ilha. Nos anos 1950, ele começou a experimentar gravar suas próprias produções, recrutando músicos locais talentosos e lançando discos sob seu próprio selo. Foi assim que nasceu o Studio One, o estúdio que se tornaria o epicentro da música jamaicana.

    Studio One: a fábrica de estrelas

    Fundado em 1954, o Studio One começou modestamente, mas logo se tornou uma verdadeira instituição cultural. Clement Dodd tinha um talento único para descobrir e
    desenvolver artistas. Sob sua orientação, muitos dos maiores nomes do reggae começaram suas carreiras no Studio One, incluindo Bob Marley e The Wailers, Dennis Brown, Alton
    Ellis, Burning Spear e Toots and the Maytals.

    “Quando entrei pela primeira vez no Studio One, era só um jovem com grandes sonhos”, lembra Bob Marley em uma entrevista de 1978. “Coxsone me deu a chance de mostrar meu talento. Ele não era só um produtor, ele era um mentor. Eu e os Wailers aprendemos tudo lá dentro – desde como construir uma música até como tocar para as massas”.

    Dodd também acreditava na importância de criar uma identidade sonora jamaicana. No início, ele e seus músicos misturavam o R&B americano com elementos de música tradicional da ilha. Esse processo experimental levou ao desenvolvimento do ska, o precursor direto do reggae. “Foi uma evolução natural”, disse Dodd. “Nós queríamos algo com uma batida própria, algo que as pessoas pudessem chamar de jamaicano. E foi assim que o ska nasceu”.

    O Studio One funcionava como uma escola de música. Dodd reunia uma equipe talentosa de músicos, como o saxofonista Roland Alphonso e o trombonista Don Drummond, que formaram a banda The Skatalites, uma das mais importantes da história do ska. Com sua liderança, o Studio One produziu uma sequência de sucessos que moldariam o som da Jamaica para sempre.

    A era do Ska e a chegada do Reggae

    Nos anos 1960, o ska dominava as pistas de dança da Jamaica. O ritmo acelerado, com seus metais vibrantes e batida marcada, refletia o clima de otimismo e agitação que
    permeava a sociedade jamaicana após a independência. As festas promovidas pelos sound systems de Coxsone eram lendárias. As canções gravadas no Studio One, como “Simmer
    Down” dos Wailers e “Carry Go Bring Come” de Justin Hinds, tornaram-se hinos de umanova geração.

    No entanto, à medida que a década avançava, o clima na Jamaica começou a mudar. A tensão social e política levou a uma desaceleração no ritmo da música. O ska deu lugar ao
    rocksteady, um estilo mais lento e introspectivo, que refletia o crescente descontentamento nas ruas. “O rocksteady veio do ska”, explicou Dodd. “Nós começamos a diminuir o tempo
    das músicas, colocar mais ênfase nas letras e nas harmonias”.

    Essa evolução abriu caminho para o surgimento do reggae no final dos anos 60. O reggae, com sua batida sincopada e mensagem de resistência e espiritualidade, tornou-se a voz de
    uma Jamaica em transformação. E mais uma vez, o Studio One estava na vanguarda dessa revolução.

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    O impacto global do Reggae

    Nos anos 1970, o reggae explodiu no cenário internacional, em grande parte graças a artistas como Bob Marley, que levaram o som da Jamaica a audiências globais. O Studio One continuou a desempenhar um papel central na produção de novos talentos e na inovação sonora. Dodd, sempre à frente de seu tempo, começou a experimentar com o dub, uma técnica de remixagem que adicionava efeitos como eco e reverb às faixas de reggae, criando uma nova dimensão musical.

    “Quando começamos a brincar com o dub, foi uma revolução”, disse Dodd em uma entrevista. “O som ficou mais profundo, mais envolvente. Era como se a música tivesse
    ganhado outra vida”. Além disso, o Studio One influenciou diretamente a cultura dos sound systems. Esses sistemas de som móveis, operados por DJs e selectors, tornaram-se o centro da cultura
    musical jamaicana, levando o reggae e o dub a cada canto da ilha e, eventualmente, para o exterior. Dodd, com sua experiência em festas de som, sabia exatamente como moldar a música para que ela ressoasse com o público.

    As lendas do Studio One

    Ao longo dos anos, o Studio One lançou uma quantidade impressionante de músicas que se tornaram clássicos. Clement Dodd não apenas produziu grandes sucessos, mas também criou uma atmosfera onde os artistas podiam experimentar e desenvolver suas habilidades. “Coxsone sempre me dizia: ‘Você tem que sentir a música, deixar ela te guiar’“, disse Dennis Brown, um dos maiores nomes do reggae, em uma entrevista de 1981.

    Ele nos dava liberdade para criar, mas também sabia como nos direcionar”. O Studio One era mais do que um estúdio de gravação – era um espaço de colaboração e aprendizado. Músicos como Jackie Mittoo, Leroy Sibbles e Marcia Griffiths se reuniam ali para criar músicas que seriam ouvidas por todo o mundo. “Era uma verdadeira família”, recorda Griffiths. “Nós passávamos horas e horas no estúdio, experimentando novas ideias, tocando e aprendendo uns com os outros. Aquela energia criativa era única”.

    O legado de Clement “Coxsone” Dodd

    Clement Dodd faleceu em 2004, mas seu legado permanece vivo. O Studio One é amplamente reconhecido como um dos estúdios mais importantes da história da música. O impacto de Dodd na criação e disseminação do reggae e suas inovações no ska e dub deixaram uma marca indelével na cultura musical global.

    “Ele foi o grande visionário”, disse Alton Ellis em uma homenagem a Dodd. “Sem ele, a música jamaicana não seria o que é hoje. Ele abriu as portas para tantos de nós e nos deu uma plataforma para mostrar nossa arte ao mundo”.

    Hoje, o Studio One é reverenciado como o “Motown do reggae”, e seu catálogo é um dos mais influentes e amplamente reconhecidos na música popular. De Bob Marley a Sean Paul, as influências do Studio One podem ser ouvidas em praticamente todos os cantos da música contemporânea. Com milhares de gravações inéditas guardadas em seus cofres, o Studio One continua a ser uma fonte de inspiração para artistas e produtores em todo o mundo.

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    “Real Rock”: o riddim que transformou o Reggae

    “Real Rock” é uma canção instrumental de reggae da banda jamaicana Sound Dimension. Gravada em 1967 e lançada como single em 1968 pelo Studio One, a faixa foi produzida por Clement “Coxsone” Dodd e contou com a participação de Eric Frater (guitarra), Boris Gardiner (baixo), Phil Callender (bateria), Denzel Laing (percussão), Vin Gordon (trombone) e Jackie Mittoo (teclados), que tocou o icônico riff de três notas no órgão Hammond.

    A importância de “Real Rock” vai além de ser apenas uma música instrumental. Ela deu origem a um dos riddims mais populares da história do reggae, sendo reinterpretada centenas de vezes por artistas de diversos gêneros, incluindo The Clash, KRS-One e 311. Em um artigo de 2004 do The New York Times, Clement Dodd afirmou que considerava “Real Rock” seu maior feito. “Real Rock é realmente forte. Está no topo”, disse ele com um sorriso. Na mesma entrevista, Dodd mencionou sucessos dos Wailers, como “One Love” e “Simmer Down”.

    O riddim de “Real Rock” se destacou por sua simplicidade hipnótica: uma nota de baixo seguida por uma sucessão rápida de notas mais leves, criando uma batida cativante e repetitiva. Gravada em uma tarde por Dodd com sua banda Sound Dimension, esse som único deu origem a um estilo de reggae conhecido como “rub a dub”, voltado para danças lentas e profundas, e rapidamente se tornou um dos riddims mais regravados na história da música jamaicana.

    “Real Rock” foi construída em torno de uma base sólida liderada pelo baixo de Boris Gardiner, com a contribuição de Phil Callender na bateria e Jackie Mittoo ao órgão. Mittoo, conhecido por seu talento visionário, inseriu acordes precisos no espaço antes da queda do baixo, definindo a estrutura hipnótica do riddim.

    A partir daí, “Real Rock” fez ondas na cena do reggae, sendo usada em diversos estilos, como dub, dancehall, punk rock e até hip hop. Sua influência foi tão abrangente que artistas de várias partes do mundo passaram a “versionar” o riddim em suas próprias canções.

    Entre as versões mais notáveis estão “Rockers’ Rock” de Augustus Pablo e “Keep In Touch” de Sizzla.

    Lista parcial de canções que usaram o riddim de “Real Rock”:
    1967 – “Real Rock” – Sound Dimension
    1973 – “Rockers’ Rock” – Augustus Pablo
    1978 – “Stop The Fussing & Fighting” – Dennis Brown
    1983 – Ababa John I (Father Majesty) – Don Carlos
    1990 – “The Real Rock” – Shinehead
    2003 – “Keep In Touch” – Sizzla
    2019 – Koffee – Raggamuffin

    Com o passar dos anos, “Real Rock” continuou a ser um pilar no reggae e em muitos outros gêneros musicais. Sua presença nas pistas de dança, nos Sound Systems e até em grandes palcos internacionais atesta sua relevância duradoura.

    Uma Ilha, Um Som, Um Mundo

    A jornada da Jamaica, de colônia britânica a nação independente, é inseparável da evolução de sua música. O Studio One, sob a liderança visionária de Clement Dodd, não apenas moldou o som de uma nação, mas também transformou a Jamaica em um centro global de inovação musical. O reggae, nascido das ruas de Kingston, ecoou pelo mundo, levando consigo uma mensagem de resistência, espiritualidade e unidade.

    “Não éramos apenas músicos”, disse Burning Spear, refletindo sobre seus dias no Studio One. “Estávamos criando algo maior do que nós mesmos, algo que uniu pessoas de todos
    os lugares. Essa era a magia do Studio One”.

    Referências:

    KENNER, Rob. ‘Real Rock’ Through the Ages. The New York Times, 23 de maio de 2004.
    BAKER, Stuart. Studio One Story [documentário]. 2003.

  • O Reggae Maranhense: Uma jornada de influência e identidade cultural

    O Reggae Maranhense: Uma jornada de influência e identidade cultural

    São Luís do Maranhão, conhecida nacionalmente como a “Ilha do Reggae”, ou até mesmo a “Jamaica Brasileira”, é uma cidade cuja identidade musical é profundamente entrelaçada com os ritmos caribenhos. Desde a sua introdução na década de 1970 até os dias atuais, o reggae tem deixado uma marca indelével na cultura e na música maranhense, moldando não apenas os sons que ecoam pelas ruas, mas também a identidade e a expressão artística de seu povo.

    A chegada do reggae às terras maranhenses foi marcada por uma mistura peculiar de circunstâncias sociais e econômicas. Fluxos migratórios entre Maranhão e Pará, impulsionados pela construção da estrada de ferro de Carajás, trouxeram consigo não apenas trabalhadores e suas famílias, mas também a riqueza musical do Caribe. Sons caribenhos, especialmente o reggae, encontraram um lar na periferia de São Luís, onde vinis trocados por produtos e disseminados por rádios de ondas curtas e radioamadores do Caribe rapidamente se tornaram trilha sonora dos bairros menos abastados.

    Entretanto, a jornada do reggae no Maranhão transcendeu a mera importação de uma forma estrangeira de música. Rapidamente, o reggae se entrelaçou com a cultura local, adotando novas formas de expressão e identidade. Onde antes havia danças individuais, surgiram coreografias sensuais, enraizadas na ginga maranhense, transformando o reggae em uma celebração coletiva de ritmo e paixão.

    A linguagem do reggae também foi adaptada às realidades locais, com a criação dos “melôs”, versões em português dos títulos das músicas que refletiam a proximidade fonética com o inglês e elementos da vida cotidiana maranhense. Essa apropriação linguística não apenas facilitou a compreensão das letras para aqueles que não dominavam o inglês, mas também solidificou o reggae como uma expressão autêntica da cultura maranhense.

    “Melô do Caranguejo” (White Witch – The Andrea True Connection)

    O papel dos locutores e DJs não pode ser subestimado nesse processo de adaptação e difusão. Eles não apenas transmitiam a música, mas também criavam uma linguagem própria, com termos como “pedra” para descrever um bom reggae, “magnatas” para os empresários dos clubes e “radiolas” como uma versão local dos “Sound Systems” jamaicanos. Nomes como Edmilson Tomé da Costa (DJ Serralheiro), Ferreirinha, Fauzi Beydon (Tribo de Jah), Antônio José, Ademar Danilo, Robert Tchanco, Luzico, Carlinhos Tijolada, Magnata Serralheiro, Natty Nayfson e muitos mais ecoavam pelos salões da cidade, fazendo vibrar os adeptos de suas Radiolas.

    À medida que o reggae ganhava espaço nos bairros periféricos, sua presença começou a ser notada em outras esferas da sociedade. Empresários e donos de clubes viram no reggae não apenas uma expressão cultural, mas também um produto comercialmente viável. A compra de espaço na mídia local permitiu que o reggae migrasse das páginas policiais para as seções de cultura, encontrando aceitação não apenas entre os
    mais pobres, mas também entre a classe média e intelectual.

    Desde então, o reggae cristalizou sua posição como uma força cultural dominante no Maranhão. Shows de artistas internacionais tornaram-se eventos comuns, com apresentações memoráveis de grandes nomes como “The Wailers”, “Jimmy Cliff”, “The Gladiators”, “Gregory Isaacs” e “John Holt”, entre outros. Programas de rádio e televisão especializados proliferaram e o reggae se tornou não apenas uma música, mas um estilo de vida para muitos maranhenses. A exemplo do programa Rádio Reggae, na Rádio Mirante FM, líder de audiência em São Luís nos anos 90, comandado pelo DJ Fauzi Beydon, um dos pioneiros do reggae no Maranhão.

    Assim, a influência do reggae na música maranhense não pode ser subestimada.

    Mais do que apenas uma forma de entretenimento, o reggae tornou-se uma expressão poderosa de identidade cultural, enraizada nas ruas de São Luís e ecoando através dos corações e mentes de seu povo.

    No dia 11 de setembro de 2023, o governo Lula oficializou São Luiz como a Capital Nacional do Reggae, mediante a promulgação da Lei n° 14.668, divulgada no Diário Oficial da União. [Texto integral]

    Referência:
    1. Fernandes, M. S. (2014). A Influência do Reggae na Cultura Maranhense: Um Estudo sobre a Adoção e Transformação de um Gênero Musical Internacional*. Tese de Doutorado,
    Universidade Federal do Maranhão.
    2. Oliveira, R. T. (2010). Ritmos do Maranhão: A Integração do Reggae na Periferia de São Luís. Revista Brasileira de Música Popular, 12(3), 45-67.
    3. Costa, A. L. (2008). Radiolas e Reggae: A Cultura Sonora de São Luís do Maranhão*. São Paulo: Editora USP.
    4. Santos, J. F. (2016). Música e Identidade: A Apropriação do Reggae pelos Jovens Maranhenses. São Luís: Editora UFMA.
    5. Diário oficial – D.O.U de 12/09/2023, pág. nº 8