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  • O Hip Hop brilhou e celebrou no Festival de Hip Hop do Cerrado

    O Hip Hop brilhou e celebrou no Festival de Hip Hop do Cerrado

     A 6ª edição aconteceu como parte das comemorações dos 54 anos da Ceilândia

    Por DJ Fábio ACM e Giovana Gomes

    Era um sábado de previsão de chuva, mas Ceilândia decidiu que o tempo seria outro. As nuvens se seguraram e deram espaço para o brilho do sol, da rima, da batida e do povo. Na Praça do Cidadão, coração pulsante da quebrada, o 6º Festival de Hip Hop do Cerrado tomou forma como um reencontro histórico — e eu, DJ Fábio ACM, tive a honra de estar lá, vivendo cada momento.

    Gente de todas as regiões do Distrito Federal se juntou naquele chão sagrado do Hip Hop. Não era só um festival. Era um chamado. Um ato de celebração, resistência e pertencimento. Ali, os quatro elementos estavam em comunhão: os b-boys e b-girls dançavam no chão, rolaram até os clássicos “passinhos”, MCs rimando, os DJs comandando a festa e o graffiti, nas paredes do Jovens de Expressão estampava a alma da Ceilândia.

    O camarim não era apenas um bastidor — era um terreiro de afeto, onde a energia entre os artistas era de verdadeira congregação. Ali, cada olhar, cada abraço e cada conversa trazia a certeza de que estávamos fazendo parte de algo maior. Estávamos continuando uma história, escrevendo mais uma página de luta, arte e identidade periférica.

    DJ Fábio ACM & DJ Raffa Santoro
    DJ Fábio ACM & DJ Raffa Santoro

    No centro de tudo isso, um nome: DJ Raffa Santoro. Um dos maiores nomes do Hip Hop nacional. Produtor premiado, DJ de respeito, mestre e inspiração. O culpado — sim, culpado com orgulho — por revelar tantos talentos e por, mais uma vez, reunir o Brasil do Hip Hop na Ceilândia. Ele, filho do maestro Claudio Santoro e da bailarina Gisele Santoro, é a soma perfeita de técnica e paixão. Viveu o exílio com a família na Alemanha, mas voltou pra Brasília e fez da cidade sua bandeira. B-boy, músico, radical, popular, periférico. Raffa é parte viva da nossa história. Seu livro “Trajetória de um Guerreiro” não é só um relato biográfico, é um documento do Brasil que rima, dança, canta e resiste.

    E resistimos. Após 11 anos de pausa, o Festival de Hip Hop do Cerrado voltou. E voltou gigante. A 6ª edição aconteceu como parte das comemorações dos 54 anos de Ceilândia — a capital do Hip Hop do DF, berço de grupos como Viela 17, Cirurgia Moral, Álibi, Câmbio Negro, Tropa de Elite e lendas como Japão e DJ Jamaika. Essa cidade, que transformou a dor em arte e a periferia em potência, merecia — e recebeu — um evento à altura.

    A Praça do Cidadão virou palco de um espetáculo que reuniu Viela 17, Atitude Feminina, MC Marechal (RJ), Cinthia Savoy (baiana radicada em Florianópolis), F-Dois (Porto Velho, RO), VK (MC de Florianópolis, filho do DJ Monkey), DJ Buiu, DJ Monkey e, claro, ele: G.O.G. — lenda viva do Hip Hop do DF, um dos momentos mais esperados da noite, e que levou o público ao delírio com sua presença.

    O festival contou com estrutura de alto nível: painéis de LED, experiências multimídia, lounge, food trucks e entrada gratuita. E mesmo com os ingressos esgotados, o público compareceu em peso. Foi emocionante.
    Do palco, vieram as rimas, as batidas e os scratchs. E também vieram as lembranças. Em um dos momentos mais marcantes da noite, o festival prestou homenagens póstumas a dois ícones que já partiram, mas seguem vivos na história do Hip Hop brasileiro: DJ Celsão, do grupo Cirurgia Moral, e DJ Jamaika. A reverência foi justa, merecida e comovente. A memória deles vive em cada batida, em cada verso, em cada jovem que hoje ocupa o microfone e o toca-discos.

    Eu estive lá com minha amiga Giovana Gomes, que além de parceira de trampo no jornalismo, é apaixonada por Hip Hop e ajudou a trazer um pouco do protagonismo das mulheres no Hip Hop do Distrito Federal.

    A mulher no Rap

    Por Giovana Gomes

    O rap do Distrito Federal tem sido palco para vozes femininas que transformam realidades e inspiram novas gerações. No Festival Hip Hop no Cerrado, mulheres que moldaram essa cena reafirmaram sua força e legado. O grupo Atitude Feminina, que há 26 anos ocupa espaços no Hip Hop com resistência e autenticidade, teve uma participação marcante. Aninha, uma das idealizadoras do festival, relembra os desafios do início: “Os caras naquela época não queriam a gente”. Mas elas seguiram firmes, construindo um caminho sólido para outras mulheres na música. Helen, também integrante do grupo, resume o impacto de sua trajetória: “Se eu tiver tocado uma mulher, para mim é suficiente”, diz, emocionada.

    Giovana Gomes, Hellen e Aninha (Atitude Feminina)
    Giovana Gomes, Hellen e Aninha (Atitude Feminina)

    Além delas, Cintia Savoy também brilhou no evento, trazendo sua mistura de reggae e rap e reafirmando a potência das mulheres na música urbana. Ex-residente de Ceilândia, Cintia sente a conexão do público com sua arte e valoriza cada troca com quem a escuta. “Sei que Brasília ama o rap, e a Ceilândia é um berço de grandes artistas”, comenta. Com anos de estrada, ela mostra que a música não é apenas entretenimento, mas um instrumento de transformação social. O Festival Hip Hop no Cerrado foi mais uma prova de que o rap do DF segue vivo, forte e, cada vez mais, feminino.

    Um pouco da história e da presença dos artistas de outros estados no palco do festival:

    F-Dois (Porto Velho, Rondônia)

    Diretamente de Porto Velho (RO), o rapper F-Dois celebrou sua participação no 6º Festival de Hip Hop do Cerrado, na Ceilândia, destacando a importância e abrangência do evento, que reúne artistas de todo o Brasil. Ele também esteve presente na 5ª edição e considerou mais uma vez uma experiência única, elogiando a energia do público e a organização do festival. F-Dois ressaltou sua parceria com DJ Raffa Santoro, produtor de todas as suas faixas, incluindo “Quem é Você”, do álbum Pronto para Guerra, disponível no Spotify.

    DJ Monkey

    Diretamente de Florianópolis, DJ Monkey celebrou sua participação no Festival de Hip Hop do Cerrado, na Ceilândia, ao lado do filho, o rapper e produtor VK. Para ele, foi emocionante unir gerações no palco e compartilhar a caminhada com artistas como Japão e DJ Raffa, que foi peça-chave para abrir portas para VK. Monkey destacou os desafios de se fazer Hip Hop em Santa Catarina, estado com cultura eurocentrada e baixa população negra, e exaltou a importância da Ceilândia como referência para o movimento.

    Iniciando sua carreira em 1992, Monkey contou que seu primeiro disco para scratch foi o DJ Scratch, produzido pelo DJ Raffa. Hoje, ele e VK gerenciam um estúdio musical em uma escola de São José (SC), atendendo 120 crianças em contraturno escolar. VK é também o primeiro rapper de sua geração no estado a cursar licenciatura em música pela UDESC. Para Monkey, o Hip Hop vai além da arte: “é ferramenta de transformação social e intergeracional.”

    MC VK (Florianópolis, SC)

    Com 19 anos, VK iniciou sua trajetória no rap aos 12, influenciado pelo pai, DJ Monkey, e pelo convívio desde a infância com estúdios e artistas em Florianópolis. Em sua fala no palco do 6º Festival de Hip Hop do Cerrado, na Ceilândia, destacou os desafios de fazer rap em Santa Catarina, um estado marcado pela cultura eurocentrada e com poucos espaços para a cena negra. Mesmo assim, ressaltou a qualidade e resistência dos artistas locais.

    VK celebrou a oportunidade de dividir palco com nomes como G.O.G., Japão e Atitude Feminina, agradecendo especialmente a DJ Raffa e Japão pelo apoio desde seus 14 anos. Contou também sobre os eventos que fortalece com o pai em Florianópolis, como o tradicional Baile Charme e batalhas de rima. O V de Victor, traz um K, em homenagem ao seu padrinho e pioneiro do Hip Hop em SC, o DJ Kchaça.

    Nova edição do festival confirmada

    A proposta do festival foi clara e poderosa: descentralizar o eixo Rio-SP e valorizar a cultura periférica, mostrando que a arte que nasce nas bordas transforma o centro. E conseguiu. Com maestria.
    A emoção ainda pulsa no meu peito. Vi sorrisos, lágrimas, danças, crianças no ombro dos pais, juventude vibrando, veteranos emocionados. Vi o Hip Hop que me formou e que continua formando tantos. Vi o futuro.

    E a melhor notícia: vem mais por aí. Uma nova edição do festival já está confirmada para o segundo semestre. Porque quando a quebrada se levanta, não tem tempo feio que segure.

  • A universidade rimou: uma tese, muitas histórias

    A universidade rimou: uma tese, muitas histórias

    Nem sei por onde começar. São tantas coisas a dizer, tantos sentimentos que permeiam meu coração, mas vou começar do jeito que dá—transbordando o que sinto, deixando que as palavras fluam.

    Este processo de pesquisa foi, sem dúvida, um grande aprendizado. Aprendi a olhar para lugares que antes não enxergava, a ouvir de forma atenta e afetuosa essa juventude potente que orbita o Quilombo Enraizados e participa das atividades do RapLab e tantas outras, e a refletir sobre nossas próprias práticas e vidas. Mas, acima de tudo, aprendi a inventar mais futuros possíveis para nós.

    Conectei minhas redes a outras redes educativas, e isso expandiu meus horizontes de uma forma que eu jamais imaginei. Lembro-me de uma conversa que tive com minha grande irmã, Lisa Castro, quando ainda estava no mestrado. Ela me perguntou se a universidade tinha me mudado. Na época, respondi que sim, mas que minha presença e de tantos outros iguais a nós, também tinha mudado a universidade de alguma forma.

    Hoje, minha resposta seria diferente. Diria:

    — Sim, minha amiga, entrar para a universidade mudou minha vida. Ou melhor, mudou as nossas vidas, a minha, a sua e de tantos outros que suas redes se cruzam com as nossas.

    Graças a essa jornada acadêmica, conheci pessoas incríveis e me conectei com o grupo de pesquisa Juventudes, Infâncias e Cotidianos (JICs), onde encontrei pessoas que hoje são parte importantíssima do Enraizados. São pessoas que nos ensinam tanto quanto aprendem conosco. Graças a essas conexões, chegamos ao terceiro ano do Curso Popular Enraizados, com contribuições fundamentais da Bia, da Júlia e da Maria, à terceira turma de teatro em parceria com o Projeto Teatro Nômade, graças a Luísa e a toda turma do Projeto Teatro Nômade, e esses projetos não só impactaram minha trajetória, mas também envolveram minha esposa, meu filho e a família da própria Lisa. Hoje, minha irmãzinha cursa pedagogia, minha esposa está prestes a entrar para cursar história na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, aqui em Nova Iguaçu, ambas estudaram no Curso Popular Enraizados. Meu filho, com apenas sete anos, já atuou em duas peças teatrais.

    As redes foram se cruzando, as possibilidades se ampliando, e hoje vejo dezenas de pessoas que tiveram suas vidas transformadas a partir dessas conexões.

    O dia da defesa de doutorado foi um dos mais intensos da minha vida. Organizar transporte, lanches, presentes, preparar slides, ensaiar… Um turbilhão de tarefas. Nada disso seria possível sem a força coletiva de tantos amigos que chegaram e nunca mais saíram.

    Um amigo conseguiu o ônibus, outro a van, e minha esposa preparou cuidadosamente os kits de lanche para todos. Samuca estava mais ansioso que eu, porque percebia que, no meio da produção desse dia, eu não encontrava tempo para ensaiar minha apresentação.

    Antônio Feitosa chegando no Quilombo Enraizados, às 5:30 da manhã

    Baltar, Higor, FML, DMA, Samuca e Kaya

    Enraizados rumo a UFF, de ônibus

    Marcamos a saída para as 5h30 da manhã, e todos chegaram pontualmente ao Quilombo Enraizados. Dorgo seguiu comigo de carro, que já estava carregado com um isopor cheio de bebidas e gelo, projetor, caixa de som, cabos e outros equipamentos. Seguimos viagem cantando para aliviar a tensão, embora eu estivesse em um estado quase mecânico, semelhante ao que senti no dia do nosso show no Rock in Rio. A meta era clara: viver o dia, fazer o que havia sido ensaiado e não improvisar. O famoso “sorria e acene”.

    Mas, como em toda grande história, imprevistos aconteceram.

    Ainda na Avenida Brasil, um carro bateu na traseira do meu. O barulho foi assustador, e saí do carro sem conseguir disfarçar minha insatisfação. O motorista do outro veículo estava visivelmente nervoso, mas, felizmente, não houve grandes danos e seguimos viagem.

    Ao chegar na UFF, outro desafio: o auditório reservado para a defesa estava ocupado por um evento de química. Tivemos que nos adaptar rapidamente e mudar para o auditório do Bloco F. Mesmo com os contratempos, tudo foi resolvido com o apoio das minhas amigas do JICs, que cuidaram da burocracia, do café da manhã, da comunicação da mudança de sala e de mais um monte de coisas. Luísa, Inês, Bia, Andreza, Pedro, Laís, Ravelly, Rebecca… Quase todas e todos  estavam lá. Senti falta da Patrícia, da Clarice, da Maria Fernanda que infelizmente não puderam estar presentes.

    Minha amiga Emília me recebeu com um presente logo na minha chegada —uma linda orquídea e um bolo de rolo, um gesto de carinho que guardarei para sempre. Ana Massa, amiga de quase duas décadas, também estava lá. Foi emocionante perceber que aquela conversa que tivemos anos atrás, em Paris, sobre fazer eu doutorado, quando eu ainda nem tinha começado a graduação, finalmente se concretizava.

    Lista de Presença?
    Valter Filé observando a apresentação de Dudu de Morro Agudo

    Ana Enne, minha querida amiga e professora da UFF, que conheci lá pelos anos de 2010, quando trouxe sua turma de graduandos para conhecer o nosso Pontão de Cultura e nossa rádio web, onde o âncora era uma criança de 11 anos. Ela também esteve presente.

    Cada detalhe foi pensado com amor e dedicação. Higor Cabral e Josy Antunes registraram tudo com filmagens e fotografias, Aclor fez belos registros em vídeo e Baltar criou um flyer incrível para divulgar o grande dia. A presença de tantos amigos, colegas e familiares tornou tudo ainda mais especial.

    A banca era o time dos sonhos. Sou fã de cada membro, tanto por suas trajetórias acadêmicas quanto por seus posicionamentos políticos e ideológicos. Adriana Facina, Adriana Lopes, Valter Filé, João Guerreiro e minha orientadora, Nivea Andrade. Infelizmente, Erica Frazão não pôde estar presente por motivos pessoais, mas sua contribuição na qualificação foi fundamental.

    Banca formada por Adriana Facina, Adriana Lopes, Nivea Andrade, João Guerreiro e Valter Filé, ao lado Dudu de Morro Agudo

    Como homenagem à cultura hip hop, fizemos um zine, inspirado nos coletivos dos anos 90, com o resumo da pesquisa e as letras das músicas “Reflexões que ainda me tiram o sono”—uma criação nascida dentro da universidade, na disciplina Psicologia da Arte, ministrada pela professora Zoia Prestes, a quem sou imensamente grato—e “Jovem Negro Vivo”, a música mais emblemática dos encontros do RapLab.

    Durante a defesa, a banca fez apontamentos valiosos, que renderam discussões até no ônibus de volta para casa.

    Quando chegou minha vez de falar novamente, a emoção tomou conta. As lágrimas vieram, e aquele nó na garganta que sempre aparecia até nos momentos de ensaio da apresentação ou quando simplesmente imaginava o dia da defesa, estava lá, presente. Refletir sobre a própria trajetória é uma viagem cheia de turbulências.

    Ao final, Nivea Andrade fez uma fala emocionante, tecendo palavras sobre minha mãe, meus filhos, minha companheira e os mais velhos do Enraizados. Foi uma homenagem afetuosa e respeitosa, que tocou fundo em todos nós.

    E então, o veredito foi lido: APROVADO.

    Adriana Facina, Adriana Lopes, Nivea Andrade, Dudu de Morro Agudo, João Guerreiro e Valter Filé

    JICs: Rebecca, Ravelly, João, Gabi (agachada), Bia, Nivea, Dudu, Duduzinho, Luísa, Inês (ao meio), Laís (agachada), Andreza e Pedro

    Imperatriz (filha), Lúcia (mãe), Alcione (tia e madrinha) e Milena (prima)

    Fernanda Rocha (esposa) e Dudu de Morro Agudo

    O bonde todo.

    A festa começou. A universidade rimou e rimou. Vieram os abraços, as mensagens inundaram o WhatsApp, as redes sociais explodiram. O Enraizados inteiro se tornava doutor.

     

    Depois, a celebração continuou no Quilombo: cantamos, rimos, choramos, bebemos, comemos, caímos, tomamos banho de chuveiro, dançamos. A felicidade era palpável.

    No dia seguinte, acordei cedo e fui para o Quilombo arrumar tudo, sozinho lavando o quintal e refletindo sobre as últimas 24 horas. Os vizinhos já me chamavam de “doutor”, perguntando quando poderiam ler minha tese. Eu respondia com sorrindo:

    — Logo! Semana que vem estará nas ruas!

    Como se fosse meu novo disco.

    A ficha ainda não caiu completamente, mas sei que este não é o fim —é o início de uma nova e longa jornada. Agora é hora de agradecer, viver o momento e seguir desenhando futuros possíveis.

    Amo cada uma e cada um de vocês!

  • GT-RJ representa e fortalece a cultura em Brasília

    GT-RJ representa e fortalece a cultura em Brasília

    Com rimas afiadas e ideias firmes, representantes do Hip Hop carioca mostram que a cultura Hip Hop é a ponte para a transformação social e política

    Nos dias 29 e 30 de novembro de 2024, Brasília respirou rima, ritmo e resistência com o Seminário Internacional da Construção Nacional do Hip Hop. Representando o Rio de Janeiro, oito vozes marcantes do movimento cultural mais revolucionário do planeta levaram suas histórias, perspectivas e desejos para o futuro do Hip Hop. O evento não foi só um marco, mas um grito de união, organizado para construir políticas públicas e fortalecer uma cultura que há 50 anos transforma vidas.

    As vozes do GT-RJ

    De Cabo Frio à Lapa, da CDD à Baixada Fluminense, do basquete de rua às batalhas de rima, os representantes do GT-RJ têm trajetórias que misturam arte, educação e transformação social. Conheça quem são algumas dessas lideranças e o que pensam sobre o impacto do seminário.

    Taz Mureb – MC e porta-voz da resistência do interior

    Primeira colocada no edital do Ministério da Cultura na região Sudeste, Taz Mureb, de Cabo Frio, é MC, produtora cultural e uma das vozes mais marcantes do GT-RJ. Para ela, o seminário é um divisor de águas para a cultura Hip Hop no Brasil.

    “O seminário é um marco. Estamos institucionalizando o Hip Hop como política pública cultural. É mais que música ou dança, é um movimento sociocultural e político. Aqui, a gente abre diálogo com órgãos do governo, empresas e até frentes internacionais. Sonho com o Hip Hop sendo ferramenta de promoção cultural no Brasil e no exterior. É o começo de algo muito maior.”

    Taz destacou também a importância de criar um legado para as próximas gerações: “Precisamos transformar iniciativas locais em políticas nacionais e mostrar que o Hip Hop pode mudar o Brasil. É isso que estamos construindo aqui.”

    DJ Drika – O coração pulsante da Baixada Fluminense

    Adriane Fernandes Freire, ou DJ Drika, carrega a Baixada Fluminense no peito. Fundadora da Roda Cultural do Centenário, ela e sua equipe levam os quatro elementos do Hip Hop para as favelas de Duque de Caxias há seis anos.
    “Estar aqui no seminário é histórico. É uma vitória da cultura periférica, uma chance de dialogar com o governo e fortalecer o que já fazemos nas comunidades. A cultura Hip Hop precisa de apoio contínuo, e eventos como este abrem caminhos para que nossas vozes sejam ouvidas.”

    Drika enfatizou que o Hip Hop não é só arte, mas também resistência: “Nosso movimento nasceu para transformar. Com a parceria do governo federal, podemos ir mais longe e impactar mais vidas.”

    MC Rafinha – A força da união

    Parceiro de Drika na Roda Cultural do Centenário, Rafael Alves, o MC Rafinha, é um mestre de cerimônias que acredita na força coletiva. Ele vê o seminário como uma plataforma para expandir o trabalho que já realiza com batalhas de rima, grafite e poesia na Baixada Fluminense.

    “Esse evento é sobre união. É a chance de estarmos juntos, trocando ideias e mostrando que o Hip Hop vai além das nossas rodas culturais. Aqui, colocamos nossa luta no mapa e mostramos que estamos prontos para construir juntos.”

    Para Rafinha, o seminário marca o início de um novo capítulo para o movimento. “O Hip Hop é a voz da periferia. Estar aqui é garantir que essa voz ecoe mais alto.”

    Erick CK – Conectando a cena em Niterói

    Com sete anos de atuação nas rodas culturais de Niterói, Erick Silva, o CK, sabe o peso de levar o Hip Hop para os palcos e ruas. No seminário, ele viu uma oportunidade de conectar as demandas dos artistas locais com políticas públicas mais amplas.

    “É muito importante estarmos aqui. Precisamos discutir os problemas reais do Hip Hop, como falta de patrocínio para DJs e grafiteiros, e a valorização dos produtores que estão sempre nos bastidores. O seminário abre essas portas.”

    CK ressaltou a relevância de manter o diálogo aberto para futuras edições: “Que este seja o primeiro de muitos eventos que fortaleçam o movimento em todo o Brasil.”

    Anderson Reef – Transformação social em Madureira

    Palestrante no painel “Retratos do Brasil: Narrativas Regionais e Potência Construtiva”, Reef é produtor cultural, responsável pela Batalha Marginow, evento semanal, que acontece todas as segundas e tem uma década de trabalho embaixo do Viaduto Madureira, zona norte do Rio. Ele usa o Hip Hop para revitalizar espaços e gerar economia criativa.

    “O Hip Hop salva vidas. Aqui em Brasília, mostramos ao governo que nosso movimento vai além da música. Trabalhamos com saúde, educação, teatro e dança. Precisamos de mais estrutura para continuar impactando nossas comunidades.”

    Para Reef, o seminário também é um espaço para pensar grande: “Quero ver o próximo evento num lugar maior, com mais gente. O Hip Hop merece ser tratado como prioridade nacional.”

    Anderson Reef

    Rafa Guze – Uma cineasta na linha de frente

    Educadora social e diretora do Instituto BR-55, Rafa Guze acredita no poder do Hip Hop para transformar vulnerabilidades sociais. Para ela, o seminário é uma chance de estruturar
    políticas que atendam as bases do movimento.

    “O Hip Hop é uma potência global, mas nossas comunidades ainda enfrentam muitas dificuldades. Este evento é sobre construir soluções, criar políticas que combatam fome, genocídio, feminicídio e outras desigualdades. É sobre usar nossa cultura para transformar realidades.”

    Rafa destacou a importância de trabalhar em parceria com o governo: “Sabemos como resolver os problemas. Só precisamos de apoio para fazer isso acontecer.”

    Lebron – Formando novas gerações

    Victor, ou Lebron, é um veterano do basquete de rua e do Hip Hop em Campos dos Goytacazes. Fundador de uma ONG que atua há 18 anos, ele vê o seminário como uma oportunidade de renovar o movimento.

    “O Hip Hop me ensinou tudo que sei. Agora, quero retribuir, formando novas gerações de artistas, DJs e produtores culturais. Precisamos de mais eventos assim, que conectem pessoas e ideias para planejar o futuro.”

    Para Lebron, o maior desafio é garantir que o movimento continue crescendo de forma sustentável: “Estamos retomando espaços e precisamos de articulação para avançar.”

    Bruno Rafael

    Bruno Rafael – Liderança que inspira

    Com 27 anos de trajetória, Bruno Rafael é uma figura central do Hip Hop carioca. Palestrante no painel “Retratos do Brasil: Narrativas Regionais e Potência Construtiva”, ele destacou o amadurecimento do movimento.

    “Esse seminário é fruto de trabalho coletivo. Mostramos que o Hip Hop está politizado e organizado. Hoje, conseguimos dialogar diretamente com ministros e secretários, algo que
    nunca foi possível antes.”

    Para Bruno, o evento é um reflexo da força do movimento: “O Hip Hop tem o poder de transformar vidas. Estamos só começando a mostrar do que somos capazes.”

    O impacto do seminário

    Entre as falas, há um consenso: o Hip Hop precisa ser reconhecido como política pública prioritária. Os representantes do GT-RJ destacaram que o movimento não é apenas arte, mas uma ferramenta para combater desigualdades, gerar renda e formar futuros líderes culturais. Para os representantes do GT-RJ, dois nomes de peso tiveram grande importância para a realização deste seminário: Claudia Maciel e Rafa Rafuagi.

    “A Claudia é pura visão estratégica”, disse Taz Mureb.

    Já Rafa Rafuagi, é a ponte que liga cultura e política: “Ele é aquele cara que transforma discurso em ação. Além de ser referência no rap do Sul, ele trouxe a ideia de que o Hip Hop pode e deve dialogar diretamente com o governo, sem perder nossa essência de resistência.”

    Para o grupo, Cláudia e Rafa não foram apenas organizadores, mas exemplos vivos de que o Hip Hop é articulação, união e transformação.

    Caminhos para o futuro

    O Seminário Internacional da Construção Nacional do Hip Hop foi mais do que um evento. Foi um passo firme em direção a um Brasil mais justo e diverso, onde a cultura Hip Hop ocupa o lugar que merece: o de protagonista na transformação social.

    Com vozes como as do GT-RJ, o futuro do Hip Hop promete ser brilhante – e revolucionário.

    No corre da favela e do asfalto, na batida da vida, todo mundo mandou o papo reto: “O Hip Hop salva vidas!”

  • Hip-Hop em Movimento: Transformação social e sustentabilidade na periferia e além

    Hip-Hop em Movimento: Transformação social e sustentabilidade na periferia e além

    No 1º dia do Seminário Internacional do Hip-Hop, artistas e ativistas mostram como o movimento une cultura, economia criativa e impacto social.

    O auditório da Petrobras em Brasília foi palco de um dos momentos mais significativos para a cultura Hip-Hop no Brasil nesta sexta-feira (29/11). Dentro do 1º Seminário Internacional do Hip-Hop, que se estende até sábado (30), o painel “Inovação e Sustentabilidade na Cultura Hip-Hop como Economia Criativa” reuniu artistas, pesquisadores e gestores culturais de diferentes partes do Brasil e da América Latina. Com o objetivo de discutir caminhos para fortalecer o movimento enquanto ferramenta de transformação social e fonte de renda, a conversa trouxe reflexões sobre políticas públicas, iniciativas locais e o papel do
    Hip-Hop como patrimônio cultural.

    Sustentabilidade e inovação no Hip-Hop: depoimentos que inspiram

    O painel contou com a participação de nomes expressivos, como CDJ de Goiás, Giovanni Nieto, conhecido como YBNT da Colômbia, Douglas Nunes da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, a produtora cultural Andrea Felix de Uberlândia, Minas Gerais e Jailson Correia, o Preto Mil Grau de Guiné Bissau. Cada um deles trouxe experiências de como o Hip-Hop vem rompendo barreiras e construindo novas possibilidades.

    Para o hip hoper CDJ, o Hip-Hop não é apenas um movimento cultural, mas uma ferramenta econômica e social transformadora. “Participar dessa rodada de conversa foi algo muito importante para que a gente pudesse transmitir um pouco do que eu acredito ser sustentabilidade. É buscar meios de capacitar a galera, principalmente nas periferias, para que elas possam olhar para o Hip-Hop como fonte de renda através da música, dança, grafite e discotecagem”, destacou.

    Ele também apontou ações concretas em Goiás, como plantio de árvores e hortas comunitárias, que geram não apenas renda, mas também segurança alimentar nas periferias. “O Hip-Hop pode dialogar com a iniciativa privada e o poder público, porque ele traz retorno. Diversas empresas querem seu nome ligado a algo sustentável, e acredito que o Hip-Hop é essa fonte.”

    Da Colômbia, YBNT, idealizador do festival ambiental Cuida Natura, compartilhou como o movimento se consolidou em parceria com instituições públicas. “Na Colômbia, conseguimos aliar o Hip-Hop à universidade pública, formando artistas e docentes capazes de ensinar Hip-Hop em escolas, universidades, fundações, e até mesmo em presídios. Nosso trabalho inclui populações indígenas, afrodescendentes e moradores de rua, sempre com um enfoque pedagógico e de paz nos territórios.”

    Negro Lamar (Maranhão), DJ Fábio ACM e DJ Big

    O papel das políticas públicas e do Conselhão

    Representando a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, Douglas Nunes destacou a importância do diálogo com o movimento para a construção de políticas públicas mais eficazes. Ele ressaltou a atuação de Cláudia Maciel, conselheira do presidente Lula e uma das articuladoras do seminário, no debate sobre igualdade racial.

    “Ela levou ao Conselhão o compromisso de transformar as demandas e propostas geradas aqui em políticas públicas concretas, reforçando a escuta ativa das comunidades.”

    Hip-Hop em rede: conexões nacionais e internacionais

    Para Andrea Felix, organizadora do UDI Hip-Hop Festival, o impacto do Hip-Hop transcende fronteiras. Ela compartilhou a experiência de Uberlândia, onde o festival se consolidou como o maior do Triângulo Mineiro, fomentando economia criativa e inspirando eventos semelhantes em Salvador, Portugal e Emirados Árabes. “Essa troca fortalece nossa construção nacional e expande nosso alcance. A 14ª edição do festival já conta com apoio da prefeitura pelo terceiro ano consecutivo, mostrando como é possível fazer o Hip-Hop gerar economia e transformação.”

    Já Jailson Correia, o Preto Mil Grau de Guiné Bissau, reforçou a essência educativa do movimento. “Um evento como esse traz um dos pilares do Hip-Hop, que é o conhecimento. Esse espaço é fundamental para a troca de saberes e a mistura de culturas, que só fortalecem o movimento.”

    Contexto e avanços do Seminário Internacional

    O seminário, que ocorre dentro do calendário da Campanha Cultura Negra Vive, celebra o Dia Mundial do Hip-Hop (12/11) e o Mês da Consciência Negra (20/11). A programação diversificada inclui mesas-redondas como “Cultura Hip-Hop como Patrimônio Imaterial”, debates sobre igualdade racial e apresentações culturais de grupos como Atitude Feminina e Viela 17.

    Segundo Cláudia Maciel, o evento marca um momento histórico para o movimento. “O decreto nº 11.784, assinado pelo presidente Lula, consolida o Hip-Hop como uma legítima expressão da identidade brasileira. Além disso, o inventário participativo com o Iphan avança no reconhecimento do Hip-Hop como Patrimônio Cultural Imaterial.”

    A ministra da Cultura, Margareth Menezes, e a socióloga Vilma Reis também estão entre os grandes nomes que compõem as discussões. O evento reflete o fortalecimento do movimento como força cultural e política no Brasil e no mundo, apontando para um futuro onde o Hip-Hop se consolida como eixo transformador da sociedade.

    Protagonismo das comunidades periféricas

    Os debates também destacam o papel das comunidades periféricas como epicentro do Hip-Hop. A conexão entre tradição e inovação surge como um dos principais motores para transformar realidades e ampliar a luta por justiça social e racial.

    No segundo dia do seminário, o foco será a implementação de políticas públicas específicas para o movimento, com mesas como “Mulherismo Afrikana e Políticas Públicas para
    Homens Negros” e “Cultura de Base Comunitária como Ferramenta de Transformação Social”.

    O encerramento ficará por conta do grupo Viela 17, consolidando o Hip-Hop como uma força vibrante e necessária para a cultura brasileira.

  • Lançamentos audiovisuais celebram a resistência da cultura hip hop na Baixada Fluminense

    Lançamentos audiovisuais celebram a resistência da cultura hip hop na Baixada Fluminense

    No próximo dia 26 de outubro, a partir das 18h, o Quilombo Enraizados será palco de dois lançamentos que celebram a trajetória e a resistência da cultura hip hop na Baixada Fluminense. O evento contará com a exibição do aguardado documentário “Mães do Hip Hop – 15 Anos Depois” e do videoclipe “Reflexões que ainda me tiram o sono”, de Dudu de Morro Agudo.

    Documentário “Mães do Hip Hop – 15 Anos Depois”

    O documentário “Mães do Hip Hop – 15 Anos Depois” é uma continuação de um projeto iniciado em 2010, dirigido por Dudu de Morro Agudo e Janaina Refem, que retratava a rotina de jovens envolvidos com o hip hop e a percepção de suas mães sobre a importância dessa cultura na educação de seus filhos. Agora, 15 anos depois, o filme revisita esses artistas e suas mães, abordando as transformações que ocorreram em suas vidas pessoais e na evolução da prática do hip hop no cenário da Baixada. O documentário, que tem direção de Átomo Pseudopoeta, revela não apenas as conquistas e desafios enfrentados, mas também o impacto duradouro do hip hop na formação da identidade desses jovens.

    Videoclipe “Reflexões que ainda me tiram o sono”

    Por sua vez, o videoclipe “Reflexões que ainda me tiram o sono”, de Dudu de Morro Agudo, apresenta uma mensagem poderosa sobre as microviolências diárias enfrentadas por pessoas negras no Brasil. A composição foi criada como parte da disciplina Psicologia da Arte, ministrada por Zoia Prestes durante seu doutorado em Educação na UFF, e foi apresentada em uma conferência sobre Vygotsky em Moscou, no final do ano passado. Dudu utiliza os princípios de Vygotsky para produzir uma obra de arte que se conecte às vivências de pessoas pretas, reforçando a importância do aquilombamento como forma de resistência e autocuidado coletivo.

    Um Marco para a Cultura Hip Hop

    O evento promete ser um marco para a cultura hip hop da região, proporcionando reflexões profundas sobre racismo, resistência e a relevância da cultura como ferramenta de transformação social. Além das exibições, a programação contará com um pocket show de Dudu de Morro Agudo, intervenções poéticas de Duduzinho e discotecagem de DJ Imperatriz, entre outras atividades culturais.

    SAIBA MAIS:

    • Onde: Quilombo Enraizados – Rua Presidente Kennedy, 41, Morro Agudo, Nova Iguaçu, RJ
    • Quando: 26 de outubro de 2024
    • Horário:
      • Lançamento do Documentário “Mães do Hip Hop” – 18h
      • Lançamento do Videoclipe “Reflexões que ainda me tiram o sono” – 20h

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    https://www.sympla.com.br/evento/convite-especial-lancamentos-no-quilombo-enraizados/2694926

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  • Imersão Enraizados: Um encontro cultural entre Chile, Estados Unidos e Brasil no Quilombo Enraizados, em Nova Iguaçu, na próxima terça (13).

    Imersão Enraizados: Um encontro cultural entre Chile, Estados Unidos e Brasil no Quilombo Enraizados, em Nova Iguaçu, na próxima terça (13).

    Na próxima terça-feira, 13 de agosto, o Quilombo Enraizados sediará uma atividade cultural especial intitulada “Imersão Enraizados”.

    Esta imersão é composta por uma série de atividades realizadas por artistas e ativistas do Instituto Enraizados com o objetivo de apresentar a instituição para parceiros e visitantes.

    A programação inclui um café da manhã, que oferece uma oportunidade para interação com os anfitriões, seguido por um tour pelas instalações do Quilombo. Em seguida, haverá uma apresentação formal dos projetos desenvolvidos pelo instituto, culminando em um mix de atividades culturais, como exposições, sarau de poesias e uma batalha de rimas.

    Tour pelas instalações do Quilombo Enraizados.

    A Imersão Enraizados é aberta ao público, permitindo que qualquer pessoa interessada participe, desde que se inscreva previamente com a equipe do Instituto através do whatsapp (21)9.6566-8219.

    Nesta edição, estarão presentes a produtora cultural Fabiana Menini, de Porto Alegre, o rapper chileno MC Egrosone e o produtor musical chileno Mauro QuJota, além de uma comitiva de seis estudantes da Duke University, liderada pelo historiador e professor Dr. John French.

    Este evento marcará o início de uma série de atividades culturais e educacionais que acontecerão ao longo dos dez dias em que a comitiva americana estará em Nova Iguaçu. Enquanto os artistas chilenos permanecerão na cidade até o dia 14 de agosto, a comitiva americana ficará até o dia 21. Embora tenham vindo para diferentes atividades no Instituto Enraizados, todos estarão reunidos nesta imersão.

    Os estudantes da Duke University que chegam em Nova Iguaçu nesta segunda-feira (12) fazem parte do projeto “Activism, Culture and Education for Citizenship in Brazil and the U.S.”, projeto este que reúne acadêmicos, artistas e estudantes da Duke University, North Carolina Central University (NCCU), Instituto Enraizados e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, com o objetivo de investigar as principais formas de ativismo e organização cultural em Morro Agudo, abrangendo movimentos negros, de mulheres e LGBTQ+, além da memorialização da escravidão e das expressões religiosas e musicais locais.

    Dorgo durante apresentação artística.
    Dorgo durante apresentação artística.

    A equipe do projeto também examinará questões como eleições, lutas urbanas e trabalhistas, especialmente entre professores de escolas públicas. O resultado desta pesquisa será apresentado em uma conferência internacional de pesquisa que será realizada em março de 2025, na Duke University e na NCCU, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

    Os estudantes da Duke University que estarão nesta viagem incluem Julian Alvarez, candidato a PhD no Departamento de História; Rhayssa Braz, estudante do terceiro ano na Duke Kunshan University; Yuri De Melo Costa, de Juiz de Fora, Minas Gerais, especializado em Economia e Estudos de Políticas Públicas; Akshay Gokul, estudante do terceiro ano, especializado em Política Pública e Economia; e Travis Willian, que possui formação em Direito e Serviço Social, atualmente estudando Teologia na Duke University. Para todos eles, exceto os brasileiros, esta será a primeira visita ao Brasil.

    Durante a “Imersão Enraizados”, eu, Dudu de Morro Agudo, apresentarei formalmente o Instituto Enraizados, compartilhando um pouco da nossa história e destacando os principais projetos e programas que desenvolvemos. A programação contará com a exposição “Nós Todes”, de Aline Ignácio, e a exposição fotográfica “Meu Bairro, Meu Ambiente”.

    Além disso, teremos intervenções poéticas de Lisa Castro, Baltar, Aclor, e outros talentosos poetas, uma emocionante batalha show com Jovem RD e Kr7, e para completar, DJ Dorgo comandará a discotecagem, garantindo a trilha sonora do evento.

    Lisa Castro durante apresentação artística.

    Este evento promete ser um marco na troca cultural e na construção de laços entre o Instituto Enraizados e seus parceiros internacionais, destacando a importância da cultura, do ativismo e da educação como ferramentas de transformação social.

    Todos e todas estão convidados a participar desta imersão e a vivenciar de perto o que faz do Quilombo Enraizados um espaço de resistência, criatividade e conhecimento compartilhado.

    Não perca a oportunidade de fazer parte deste encontro que unirá talentos, histórias e perspectivas diversas em um ambiente de aprendizado e celebração.

    SAIBA MAIS:
    Imersão Enraizados
    Data: 13 de agosto de 2023
    Horário: 10h às 13h
    Local: Quilombo Enraizados, Rua Presidente Kennedy, 41, Morro Agudo, Nova Iguaçu, RJ

  • Marginal Groove: Uma nova musicalidade e uma voz de resistência

    Marginal Groove: Uma nova musicalidade e uma voz de resistência

    Formada em 2019, a Marginal Groove surgiu com o propósito de acompanhar o rapper Dudu de Morro Agudo em sua apresentação no Rock In Rio. A banda, que inicialmente recriou roupagens para as músicas de Dudu, evoluiu para criar novas canções e uma sonoridade própria. Composta por Dudu de Morro Agudo, Rogério Sylp e Gustavo Baltar nos vocais, Ghille e Fábio Spycker nas guitarras, Dom Ramon no baixo, Rob na bateria e Dorgo como DJ, a banda é um coletivo de músicos talentosos e engajados.

    A sonoridade da Marginal Groove é uma fusão de influências diversas, refletindo as experiências musicais de seus integrantes. O resultado é uma mistura de rock, rap, funk, reggae e samba, com uma pegada que lembra bandas como Planet Hemp e Rage Against the Machine, mas vai além. Essa diversidade musical se manifesta em uma proposta única, marcada por letras politizadas e ácidas, abordando temas sociais e políticos com intensidade e autenticidade.

    O auge da trajetória da banda até o momento foi sua apresentação no Rock In Rio 2019, um marco para qualquer artista. Além disso, a Marginal Groove já se apresentou em locais icônicos como o Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói; o SESC Tijuca; a Praça de Morro Agudo; e o Quilombo Enraizados. Cada show reforça sua presença no cenário musical e seu compromisso com a arte e a sociedade.

    Apesar de ainda não terem lançado um álbum completo, a banda possui um vasto material disponível na internet, com registros ao vivo de suas apresentações. Os próximos passos incluem o lançamento de singles e videoclipes, , expandindo sua discografia e sua presença na cena musical, além da produção de um espetáculo especial para apresentar suas novas músicas, que promete ser uma experiência inesquecível para o público.

     

    A Marginal Groove é uma banda com uma forte inclinação política. Suas letras abordam temas como antirracismo, direitos das minorias e críticas à desigualdade social. A banda utiliza sua plataforma para expressar ideias e provocar reflexões, sempre com uma mensagem de resistência e empoderamento.
    Os shows da Marginal Groove são conhecidos por sua energia e interatividade. A banda não apenas toca suas músicas, mas também envolve o público em suas performances, criando uma atmosfera de diálogo e participação.

    Cada apresentação é uma experiência única, que vai além da música e se torna um ato de resistência e conexão.

    A recepção do público tem sido extremamente positiva. A participação ativa e o entusiasmo do público, mesmo com músicas ainda pouco conhecidas, demonstram o impacto que a banda tem nas pessoas. A Marginal Groove foi destaque no podcast “Ao Ponto”, do O Globo, onde o jornalista Bernardo Araújo a mencionou como uma das melhores apresentações do Espaço Favela, no Rock In Rio.

    A Marginal Groove mantém uma forte conexão com a comunidade de Morro Agudo e tem uma relação próxima com o Instituto Enraizados, uma organização de hip hop com 25 anos de atuação na região. Essa ligação com a comunidade se reflete na música da banda e em sua atuação social, reforçando seu compromisso com as causas sociais e culturais.

    Com uma proposta inovadora e uma voz potente, a Marginal Groove é mais do que uma banda; é um movimento que utiliza a música como ferramenta de transformação e resistência.

    SAIBA MAIS

    http://linktr.ee/marginalgroove

  • A arte da discotecagem permanece viva, véi!

    A arte da discotecagem permanece viva, véi!

    Há cinco anos, o Hip Hop perdeu um de seus talentos mais brilhantes e inovadores, o DJ Tydoz, também conhecido como TDZ. Para marcar esta data, escrevo este artigo em celebração à vida e à obra de Tydoz. Neste relato, revisito alguns dos momentos mais notáveis de sua carreira, suas contribuições para a cultura Hip Hop e o impacto duradouro de sua arte.

    O legado de Tydoz é narrado por meio de depoimentos emocionantes de amigos, colegas DJs e figuras importantes do Hip Hop brasileiro. A trajetória de Tydoz vai além do Hip Hop, deixando uma marca profunda na vida de muitas pessoas.

    Nesta homenagem, exploro a sua carreira e suas contribuições únicas para a cultura de DJs, desde a criação dos discos para DJs de competição até sua influência na preservação do vinyl. Através dos depoimentos de amigos e colegas, ofereço uma imagem nítida de um artista cuja paixão pela música e pela cultura Hip Hop continua a ecoar.

    Convido todos a relembrar e celebrar a herança do DJ Tydoz, um verdadeiro aliado do ritmo que, mesmo após cinco anos de sua partida, mantém viva a arte da discotecagem.
    No cenário vivo do Hip Hop brasileiro, poucos nomes se destacam tanto quanto o de DJ Tydoz. Citado várias vezes no livro “Trajetória de Um Guerreiro” de DJ Raffa Santoro, Tydoz tem uma história que se confunde com a própria evolução do movimento Hip Hop no Brasil, especialmente na região do Distrito Federal (DF).

     As raízes e o break na Ceilândia

    A trajetória deste grande flamenguista começa no efervescente cenário da Ceilândia, um dos berços do breakdance no Brasil. Nos anos 80, a Ceilândia viu o nascimento de grupos lendários como Reforços e DF Zulu Breakers. Tydoz fez parte desse movimento que, apesar das adversidades, manteve viva a chama do breakdance na periferia do DF. Em sua obra, DJ Raffa Santoro destaca que “No grupo, o rapper era o X. No graffitti, o Snupi, Satão, Fokker e Tempo. Os DJs são TDZ e Léo”.

    Encontros na igrejinha e a ascensão de um DJ

    Outro ponto importante na carreira de Tydoz foi sua participação nos encontros na Igreja São Paulo Apóstolo, também conhecida como Igrejinha, na Quadra E7 do Guará I. Foi lá, em 1985, que muitos dos primeiros b-boys e amantes do funk eletrônico do DF se encontravam.

    Raffa Santoro também ressalta que “Um jovem dançarino, que depois se tornou um dos maiores DJs de performance e militantes do movimento Hip Hop nacional, também frequentava a Igrejinha. Era o TDZ. TDZ se especializou em produzir discos de batalhas nacionais para DJs de todo o Brasil, na série Arsenal Sônico. Foi por uma iniciativa dele que a cultura dos DJs e do vinyl permanece viva até hoje”.

    Além de brilhar como DJ, TDZ teve ainda um papel fundamental na preservação e promoção da cultura dos DJs e do vinyl no Brasil. O DJ Raffa explica: “A insistência dele fez com que o Dario (dono da loja Porte Ilegal) corresse o risco de apoiar a única fábrica de vinyl do Brasil, a Poly Som, que fica em Belford Roxo, na Baixada Fluminense (RJ), quando a própria fábrica queria encerrar sua produção. TDZ foi o responsável por manter a chama do vinyl acesa”.

     Grupo Morte Cerebral

    A parceria com Dino Black no grupo Morte Cerebral marcou outra fase significativa na carreira de Tydoz. O grupo era conhecido por suas letras sérias, abordando temas sobre injustiça social. DJ Raffa Santoro menciona em seu livro que “Dino Black e TDZ formavam o grupo Morte Cerebral, que adotou uma linha de trabalho bastante pesada, com letras sérias e conteúdo político-social”.

     

    Colaborações e “DJ Scratch”

    Uma das colaborações mais notáveis de Tydoz foi na música “DJ Scratch”, produzida por DJ Raffa Santoro. Em 1990, Raffa criou uma versão original para o disco DF Movimento, que se tornou um marco. Anos depois, Tydoz foi convidado a participar de uma nova versão dessa música, junto com outros DJs renomados.

    DJ Raffa relembra: “Convidamos os DJs TDZ (que ainda era do grupo Morte Cerebral, com o Dino Black), Chocolate (que fora campeão brasiliense de um concurso DJs), Dourado (Código Penal) e o Junior Killa, também falecido, para que cada um fizesse uma versão diferente da música comigo. O Genivaldo cedeu o selo para podermos prensar o disco e a capa foi uma homenagem ao grande DJ Zinho, que servirá de inspiração para todos nós”.

    Sua trajetória, como narrada por DJ Raffa Santoro, é um exemplo inspirador de como a cultura Hip Hop pode ser um poderoso instrumento de transformação social.

     Quando o TDZ pregou uma peça

    No início dos anos 2000, as redes sociais começaram a ganhar força, mas nem todos estavam dispostos a embarcar nessa nova onda digital. O ativista Def Yuri foi um desses resistentes, até que uma brincadeira de seu amigo, o DJ Tydoz, mudou tudo. Em um artigo intitulado “Quer Ser Meu Amigo?”, publicado no portal Viva Favela em 3 de fevereiro de 2005, Def Yuri revelou como foi surpreendido e “forçado” a entrar no Orkut.

    “Após um ano de muita resistência às inúmeras tentativas feitas por camaradas de trabalho ou não para que eu aceitasse participar de um sistema de comunicação estilo pirâmide, fui surpreendido pelo ato cara-de-pau daquele que considero um dos ícones da cultura Hip Hop e amigo de longa data, falo do Dj Tydoz, também conhecido como TDZ,” escreveu Def Yuri.

    A relutância de Def Yuri era bem conhecida por seus amigos, mas o TDZ decidiu tomar uma atitude drástica para ver seu amigo no mundo digital. Sem avisar, ele criou um perfil para Def Yuri no Orkut. Somente depois que o perfil foi descoberto por outras pessoas, Tydoz enviou um e-mail para Def Yuri com a mensagem: “Aí se fudeu! Login: Def Yuri Senha tal! Vê lá… rs”.

    Reação e reflexão

    Def Yuri admitiu que sua reação inicial não foi das melhores. “Confesso que a primeira reação não foi das melhores, lembram da minha relutância? Porém, o DJ tem salvo conduto”, ele revelou. No entanto, ao acessar seu perfil e ver as mensagens deixadas por amigos e colegas de trabalho, ele não pôde deixar de rir da situação.

    Def Yuri concluiu seu texto com uma mistura de humor e seriedade, ressaltando a complexidade da vida e a necessidade de mudança. A história de como foi “forçado” a entrar no Orkut pelo DJ Tydoz serve como um lembrete de que, às vezes, as brincadeiras entre amigos podem nos levar a novas experiências e reflexões importantes.

    “Mantendo o Hip Hop vivo!
    DJ Tydoz ou simplesmente, TDZ, mesmo morto nos mostra a partir do seu legado que isso é possível, na prática.
    Não seguia cartilhas e discursos ensaiados.
    Não era teatral. Era adepto do faça você mesmo.
    Pra mim sempre será a fiel retratação do Hip Hop livre das amarras, do Hip Hop que não beija-mão.
    Do Hip Hop plural, mas autêntico, autônomo e indomesticável!”

    Def Yuri (Julho de 2024)

    X, DEF YURI, AMARELO, TDZ, GOG
    X, DEF YURI, AMARELO, TDZ, GOG (2005)

    Depoimento de X do Câmbio Negro sobre Tydoz

    Em um depoimento carregado de emoção, X da banda Câmbio Negro, um dos nomes mais respeitados do rap nacional, homenageou seu grande amigo e parceiro, DJ Tydoz. Reconhecido como um dos pilares da cena Hip Hop no Brasil, DJ Tydoz foi exaltado por sua dedicação, pesquisa e contribuição significativa para a cultura Hip Hop.

    X destacou a excelência de Tydoz como DJ, enfatizando seu compromisso com a arte da discotecagem. “Um DJ de excelência, um cara que pesquisava muito, treinava muito, conhecia muito, buscava sempre a informação, estava sempre garimpando discos, músicas,” disse X.

    Ele relembrou o impacto dos discos “Electro Overdose” e a coleção “Arsenal Sônico”, esta última sendo, segundo X, a primeira série de discos de vinyl produzida especificamente para DJs brasileiros, marcando um momento crucial na história do Hip Hop nacional.

    O depoimento enfatiza a importância do trabalho de Tydoz na pesquisa e compilação de frases e efeitos para DJs, utilizando vozes de artistas brasileiros, o que representou um marco na cultura Hip Hop. “Foi o responsável por fazer os discos ‘Electro Overdose’, as músicas que a gente dançava break na época dos anos 80 e também por fazer a lendária coleção ‘Arsenal Sônico’”, afirmou X.

    Ele ressaltou que, “antes, nós usávamos os discos com frases em inglês, e ele teve todo esse trabalho de pesquisa, de procurar as frases nos discos de rap, para poder colocar isso em vinyl, para que os DJs usassem, além de efeitos scratches e colagens com a voz de artistas brasileiros”.

    X também criticou a falta de reconhecimento de Tydoz dentro da cena atual, lamentando que muitos DJs utilizem seus discos sem conhecer a origem ou o valor histórico por trás deles. “Hoje tem muito apertador de botão aí que diz que é DJ, mas não sabe, não valoriza a verdadeira arte da discotecagem. E às vezes tem DJ até utilizando esses discos sem saber quem foi o criador”, desabafou X.

    X encerrou sua homenagem afirmando que, apesar da falta que DJ Tydoz faz, seu legado permanece indelével na história do Hip Hop brasileiro. “É só um pouco da história desse grande entusiasta, desse grande DJ. Faz muita falta, mas escreveu o nome dele na história do Hip Hop nacional”, concluiu X, reforçando a imensa contribuição e o impacto duradouro de Tydoz na música e cultura Hip Hop do Brasil.

    C MBIO NEGRO
    CÂMBIO NEGRO

     

     Arsenal Sônico: O legado revolucionário de DJ Tydoz na cultura Hip Hop brasileira

    “O ano: 2000. O crime, a extinção do vinyl. Mas não existe crime perfeito. E eis que na periferia surge a resistência. Soldados do ritmo lutam incansavelmente contra a tirania do som digital. Um deles, Tydoz, também conhecido como TDZ. Meu parceiro prepara rajadas certeiras. Prepare-se! Porque seu Arsenal Sônico nunca esteve tão abastecido. O resultado é uma batalha sonora. Que vença o vinyl. (Voz: GOG)”

    Acima, a abertura do Arsenal Sônico Vol.2. O famoso álbum verde.

    Logo após a vinheta de abertura com a voz do X. Só o TDZ para juntar duas das mais poderosas vozes do rap do DF. Peguei esse trecho e mandei o áudio pro GOG que respondeu:

    “Que louco, hein, mano. Foi bom relembrar isso aí. É a verdade. Falar sobre o Tydoz, principalmente como profissional, facilita muito. Porque ele foi um precursor, um desbravador, né, mano. Isso trouxe muita consistência pra minha estrada, porque nós estávamos crescendo profissionalmente no mesmo momento. Embora ele fosse mais novo que eu, a evolução do Tydoz era uma coisa impressionante. Ele tava pra além do tempo. Ele nasceu com a mente avançada muitos anos. E a engenharia do Tydoz, essa estrutura que ele montou, já foi pensado né, mano? Em segurar todos os momentos, tanto aqueles que o som tá na pista como também quando a gente tem a escassez da possibilidade do vinyl. E essa fala aí que eu fiz, ela é muito rica em relação a isso. A gente viveu esse momento”. (GOG – 4 julho de 2024 pelo WhatsApp)

    Assim, começa o segundo volume da coleção Arsenal Sônico, uma obra-prima de DJ Tydoz que revolucionou a cena do Hip Hop. Este visionário, nascido e criado em Brasília, desafiou as tendências digitais da época e manteve vivo o legado do vinyl com suas produções inovadoras.

     A criação do Arsenal Sônico

    Em meio à transição do analógico para o digital, DJ Tydoz lançou a coleção Arsenal Sônico, uma série de discos de vinyl projetados especificamente para DJs de competição.

    A série rapidamente se tornou uma ferramenta essencial para DJs em todo o Brasil. Marola, parceiro de Tydoz na produção e distribuição da coleção Arsenal Sônico, recorda.

    “Eu conheci o TDZ em meados de 2001, através do DJ Beetles, DJ RCD (Firma de Scratches), que eram os caras da cena do vinyl. Eu já conhecia eles há mais tempo, ali o Beetles, da Feira do Rolo, de Ceilândia. E aí, o TDZ tinha lançado o Arsenal Sônico volume 1 e estava lançando volume 2, em parceria com a CD Box. Eu comecei a vender os discos para CD Box, levando para São Paulo, trocando, trazendo outros, fazendo este intercâmbio aí, Brasília-São Paulo. E o Tydoz vendo isso, me convidou para fazer uma parceria para prensar o Arsenal Sônico volume 3. Que foi um sucesso. A gente fez um álbum duplo. Naquela época poucos discos saíam duplos e estourou. Todas as lojas vendendo. Aí ele rompeu com a CD Box e me convidou para distribuir todos os discos dele. Aí veio o volume 4, 5 e o 6. E o TDZ é o seguinte, ele acreditou no meu trabalho, né? Na Marola Discos. Na época, estava nascendo o selo Marola Discos e ele foi uma peça muito importante para mim porque ele acreditou em mim. Através dos discos Arsenal, eu comecei a introduzir os meus CDs também nas lojas, junto com os discos de vinyl. Então o TDZ foi um cara que abriu as portas para mim. Eu já conhecia a Galeria 24 de maio em São Paulo. Depois eu comecei vendendo para outros estados, abastecendo todas as lojas do Brasil. Foi importante as portas que o TDZ abriu. Na época não existia disco de vinyl de batidas e efeitos. Só gringo. O TDZ fez o primeiro disco de batidas e efeitos, junto com Marcelinho, do Câmbio Negro. E aí, era legal porque a Porte Ilegal lançava um em São Paulo, a gente lançava um aqui de Brasília. E aí ficou aquela. Não uma disputa, mas aqueceu o mercado brasileiro, né? Foi da hora. E assim, só agradeço. Só tenho boas lembranças do Tydoz. O cara, que confiou na minha pessoa. Eu tenho uma gratidão enorme. E o Hip Hop, os DJs do Brasil, todos agradecem a contribuição dele, até porque o vinyl dele chegou em boa hora e todos os DJs compraram. Porque facilitava a vida dos DJs. Um disco de batidas de efeitos com frases do rap nacional. Foi muito da hora conhecer o TDZ, mano. O que ele fez pelo Hip Hop brasileiro foi foda.”

     Impacto na cultura do DJ

    DJ Tydoz, DJ Raffa Santoro, DJ Elyvio Blower, DJ Celsão (Já falecido), DJ Toninho Pop e DJ Leandronik
    DJ Tydoz, DJ Raffa Santoro, DJ Elyvio Blower, DJ Celsão (Já falecido), DJ Toninho Pop e DJ Leandronik

    O Arsenal Sônico não foi apenas uma coleção de discos; foi um movimento que uniu DJs de todas as partes do Brasil. DJ Hool Ramos, fundador do Clube do Vinyl do DF, destaca a contribuição de Tydoz: “O TDZ, com a série de discos do Arsenal Sônico, teve uma grande contribuição para a cultura do DJ, não só do Distrito Federal, mas do Brasil. Por conta da produção dos LP’s. Antes de falecer, estava prevista a produção do Arsenal Sônico volume 7”.

    DJ Hool Ramos também relembra momentos significativos compartilhados com Tydoz: “Ele participou do primeiro Clube do Vinyl DF em 2009. Depois ele participou do Clube do Vinyl em 2013 onde nós tivemos a participação do DJ Celsão. Teve também a participação do TDZ no Clube do Vinyl DF de 2012, no qual ele foi homenageado ainda em vida. Se eu não me engano, ele recebeu duas homenagens do Clube do Vinyl. Uma em 2012 e uma em 2013″.

    Ele destaca a importância das homenagens póstumas a Tydoz: “Ele foi homenageado também uma terceira vez, pós mortem, onde recebeu das mãos da sua filha e da sua esposa no evento Arte Urbana em Ação em agosto de 2023 em Sobradinho. Um projeto que foi apoiado pelo FAC e coordenado por mim e com apoio do Clube do Vinyl DF e do Alan DEF. O TDZ era um camarada ímpar. Um atleta. Não bebia. Não fumava. E fatidicamente faleceu, mas deixa o seu legado. O homem se foi, mas o legado do artista ficou. Nas suas obras. E por isso não tem como não lembrar dele. Salve o TDZ”.

    DJ Nino Leal, uma lenda do Hip Hop no Rio de Janeiro e campeão de diversos títulos nacionais e internacionais, também reconhece a importância de Tydoz: “Eu conheci o Tydoz de nome, né? Esse maluco aí contribuiu demais com a cultura, muita coisa. Vários discos, todos os DJs que são da nossa área usaram os discos dele. Ajudou demais da conta, tudo. Esse cara aí colaborou muito”.

    A influência de Tydoz foi sentida profundamente por aqueles que o conheceram pessoalmente. DJ Léo Cabral, importante DJ da cena cultural de Brasília, relembra a generosidade e o impacto do amigo: “Cara, o Tydoz era um ser humano muito sangue bom. Baita DJ. Se fez contribuir muito com a cena dos DJs e o Hip Hop nacionalmente. Fez várias participações com scratch em vários álbuns. Lançou o lendário ‘Arsenal Sônico’, discos de vinyl para DJs. Todos eles chegavam lá em Fortaleza – CE. Na minha época de militância por lá, ele mandava para gente revender nas lojas, tirando uma porcentagem para termos a grana para fazer o Hip Hop acontecer. Ajudou muito!”

    Outro testemunho marcante vem de DJ Beetles, também de Brasília, que homenageia Tydoz com carinho: “Hoje, presto homenagem a um amigo que deixou uma marca indelével na cultura Hip Hop. DJ Tydoz apenas não conhecia e tocava músicas, e sim criava experiências únicas, transformando discos em histórias que se tornaram trilhas sonoras de nossas vidas. Sua contribuição vai além da música; seus discos de batidas Arsenal Sônico, uniu pessoas de diferentes origens e estilos sob o mesmo ritmo, mostrando que o Hip Hop é uma forma de expressão e resistência. Seu legado vive em cada um de nós que teve a sorte de conhecê-lo”.

    DJ Beetles continua e expressa a profunda influência pessoal de Tydoz: “Tydoz, você nos inspirou a ser autênticos, a buscar nossa própria voz e a nunca desistir de nossos sonhos. Por isso o DJ Scratch Campeonato saiu do papel. Você não foi apenas um DJ, você foi um amigo, mentor e irmão que sempre estará em meu coração. A cultura Hip Hop nunca será a mesma sem você, sou e somos eternamente gratos por tudo que nos deu”.

    DJ Erick Jay, um dos poucos DJs do mundo a conquistar cinco campeonatos mundiais, enfatiza a importância dos discos de Tydoz: “Infelizmente, há cinco anos atrás, tivemos essa perda terrível pra cena. O DJ Tydoz era uma pessoa muito importante, um dos pioneiros a fazer os discos nacionais especializados para DJs de competição, o Arsenal Sônico. E eu tenho todos ainda, e guardo com muito carinho. E foi muito importante ele ter feito isso, porque o acesso era difícil da gente, né? O acesso era difícil. O acesso aos discos importados, dos DJs que a gente gosta lá fora. E o Tydoz ajudou demais, demais a cena. O acesso aos efeitos, as frases, ficou mais fácil, entendeu? E ele pegava os arquivos com os efeitos nacionais e os internacionais, as frases dos rappers, entendeu? Que ajuda demais assim na batalha de DJs. Enfim, pra colagem, entendeu? Esse foi um grande. Foi um grande passo. Foi uma grande perda”.

    Japão (Viela 17), relembra com carinho o DJ Tydoz: “Ele era um grande DJ de performance, um DJ de grupo de rap. Um grande irmão e flamenguista, né? Um cara massa. Tenho um carinho muito grande por ele”.

    Japão comenta a foto acima: “Essa foto aí foi no dia que nós gravamos a música ‘Se Esse Som Estourar’ em SP, com participação do Thaíde e DJ Hum, produção do Fábio Macari. Nesse tempo o Tydoz estava trabalhando com a gente como DJ”.

    DJ Ocimar, de Ceilândia, DF, compartilha a saudade e a reverência por Tydoz: “DJ Tydoz foi uma grande referência no DF. Para Brasília. Eu tive a oportunidade de conhecê-lo. Ele era o cara da informação no tempo que a internet não era tão popularizada. Ele sempre foi um cara das informações. Ele falava bem inglês, conseguia traduzir muitas coisas que chegavam por aqui, as músicas e toda aquela situação no mundo dos DJs, dos campeonatos e tudo mais. Ele encomendava muita coisa lá de fora, que chegavam pra ele e ele passava essas informações pra gente. E também, daí ele viu a dificuldade que nós DJ ‘s aqui no Brasil, principalmente no DF, tínhamos de comprar os discos importados de efeitos. A gente via os campeonatos lá de fora, os caras com os discos tudo montadinhos de efeitos para os campeonatos. E aí então, foi onde ele teve essa ideia de fazer e de produzir aqui no Brasil. E aí ele fez uma parceria lá em São Paulo, depois ele fez com o DJ Marola aqui em Brasília, que eram os discos Arsenal Sônicos. Esses discos são raridade. Hoje esses discos custam caro na internet. Muito caro, mesmo! Se você for procurar aí. Foram várias edições. Até o volume seis. Ele também teve programa no rádio. Ele é oficialmente o DJ da DZ Zulu Breakers. O Tydoz então foi uma referência. Ele deixou seu legado pelo Hip Hop DF, pelo Hip Hop no Brasil e no mundo. E a gente devia ter mais ou menos a mesma idade. Então eu, com esses 30 anos de Hip Hop, o DJ Tydoz fez parte dessa história. Fez parte dessa história comigo também. Que ele esteja num bom lugar. Que Deus lhe conceda paz. E para os familiares e amigos que ficaram aqui, o conforto da saudade, né? Quando a gente perde uma pessoa que é importante pro ser humano, pra vida, né, pra esse mundo que veio pra cá e faz seu nome, seu legado. Deixa realmente saudades. É isso. DJ Tydoz, esteja em paz. Foram cinco anos. Vou falar, hein gente. Passou rápido, hein? Que isso? Paz a todos”.

    DJ Portela, autor do livro 11 343 Lei Para Prender Os 4Ps, relembra com emoção sua relação com Tydoz: “O cara fez disco de vinyl pra gente tocar e era um professor, né, pra gente. Então assim, ele, além dessa simplicidade e profissionalismo com que ele tratava o Hip Hop já ali em 95 e tudo, e depois quando eu fui conhecê-lo indo ali por 97, 98, ele sempre foi um cara muito, muito tranquilo”.

    Portela também destaca a paixão de Tydoz pela escrita: “Uma vez ele falou que queria escrever para um site de Hip Hop. Eu escrevia para o Real Hip Hop e aí arrumei uma coluna pra ele lá e ele ficou muito feliz. E a alegria dele era tanta, parecia uma criança ganhando uma festa. Ele queria escrever sobre o que o DJ pensava. Sobre como fazer discos de vinyl. Queria escrever sobre como a cultura poderia ser profissionalizada, melhorada, encarada como uma cultura de verdade, ser aceita pela mídia, aceita por todos, e eu lembro, que é uma das lembranças que eu tenho dele, dessa felicidade. E eu lembro que eu fiz assim numa simplicidade, e não achava que era tão importante para ele. E foi muito importante para ele escrever e poder falar”.

    Portela relembra a generosidade de Tydoz: “E sempre quando a gente se encontrava ele era sempre muito solícito aos meus pedidos. Eu tenho os Arsenais, todos os Arsenais Sônicos. Tenho os discos de batidas e efeitos. Eu não consegui comprar nenhum, né? Porque ele não deixava eu comprar. Ele falava: – Portela, você é moleque nosso. Eu vou te passar aqui. – Portela, chegou Arsenal. Chegou Batidas e Efeitos. Vem aqui pra gente trocar uma ideia sobre os discos. E umas coisas que eu achava massa nele é que ele fazia questão de colocar muitas frases do rap de Brasília dentro dos Arsenais Sônicos e chama assim a prioridade pro Câmbio Negro, que ele gostava. Pela proximidade que ele tinha com X”.

    DJ Chiba do grupo Opanijé expressa profunda emoção ao falar sobre DJ Tydoz, destacando sua importância colossal na cultura Hip Hop. Chiba relata ter conhecido Tydoz através do segundo disco de GOG, Vamos Apagá-los com Nosso Raciocínio (1993), onde Tydoz foi co-produtor de algumas faixas. Ele elogia a habilidade técnica excepcional de Tydoz no turntablism, scratch, back-to-back e mixagem, além de seu vasto conhecimento sobre a história e os grupos de Hip Hop.

    Chiba menciona: Tydoz “era uma referência muito grande pra todos nós, assim, pra minha geração, principalmente”. Ele acrescenta: “Era um dos DJs diferenciados em todos os sentidos. E assim, na questão de talento, o cara era um absurdo nas técnicas de turntablism, nas técnicas de performance de DJ, de scratch, de back-to-back, de mixagem. O cara era um monstro, o cara era um absurdo, o cara era uma referência muito grande pra todos nós, assim, pra minha geração, principalmente”.

    Chiba lembra com carinho da amizade que desenvolveu com Tydoz, destacando sua generosidade e a dedicação em fazer a cena dos DJs brasileiros evoluir. “Eu tive o privilégio de me tornar amigo dele… ele sempre foi uma figura muito generosa comigo,” diz Chiba. A perda de Tydoz foi um golpe profundo para a geração de DJs, mas seu legado perdura entre os verdadeiros amantes e ativistas da cultura Hip Hop. Chiba conclui: “O seu legado não vai ser esquecido jamais pelos verdadeiros amantes da cultura Hip Hop, pelos Hip Hoppers, que são ativistas também. Enfim, é uma figura que não merece ser esquecida e sempre ser lembrada e reverenciada.”

    O deputado distrital Max Maciel também prestou homenagem a Tydoz: “O TDZ fez parte de uma história do rap do Brasil e do Distrito Federal. Importante nome de muitos grupos como o próprio GOG e tantos outros grupos no DF que passaram pelas mãos do TDZ, que seguiu a sua caminhada, seu legado, da música. Numa época em que o Hip Hop era muito mais criminalizado. Então fica aqui a memória, o registro, da gente sempre saudar as pessoas e respeitar o legado de cada um em vida, mas sobretudo aqueles que já partiram, já fizeram a passagem. Tydoz na nossa memória sempre”.

    “Juntem-se breakers, rappers, grafiteiros do DF, de São Paulo, BH, Goiânia, Maranhão, Piauí, Ceará, unidos nós somos foda o bicho vai pegar.”

    (Boicote – Câmbio Negro, 1995)

    “Referência valiosa no meu trabalho”

    Eu também, DJ Fábio ACM, “durante a década de 2000, adquiri toda a coleção de discos Arsenal Sônico e também a coleção Porte Ilegal. Usei muitos cortes do volume 2 verde do Arsenal no repertório da minha banda de rap, Antizona. Em todos os volumes do Arsenal, o TDZ sempre destacava as vozes do X (Câmbio Negro). Foi de lá que tirei a frase para o scratch da música “Não Pixe! Grafite!”, utilizando a palavra “grafiteiros”, e para a música “Direitos”, usei a frase “o bicho vai pegar”, ambas com a voz do X. Eu já tinha o vinyl “Diário de Um Feto” do Câmbio Negro, mas encontrar frases do Thayde, GOG, Cambio, Racionais, Japão, Baseado nas Ruas, todas no mesmo disco, facilitava muito a vida do DJ. Eu já era fã do TDZ. Até que o Def Yuri, do Ryo Radical Repz nos apresentou. Em 2003, eu e o Def fizemos uma viagem do Rio para Brasília e assistimos a um show do Racionais junto com o TDZ. Ficamos na casa dele, acho que era no Guará. Foi minha primeira vez em Brasília, e nem imaginava que no futuro essa cidade seria meu lar. Na casa dele, o TDZ me mostrou como era o processo de edição que usava para editar as frases e efeitos e construir os álbuns, usando o Acid Pro para cortar os samples e ajustar todos ao mesmo BPM. A influência do TDZ no meu trabalho é clara”.

    O Arsenal Sônico não foi apenas uma série de discos, mas uma celebração da cultura Hip Hop brasileira. Tydoz deixou um legado que continuará a influenciar e inspirar DJs e amantes da música por gerações. Como DJ Portela resumiu: “É muita saudade dele porque os bons vão primeiro, e o Tydoz era um desses que deixou saudades”.

    Em cada batida e em cada frase, o espírito de Tydoz vive, ecoando a paixão e a resistência que definiram sua vida e obra. Sua dedicação, inovação e amor pela cultura Hip Hop permanecem como uma fonte de inspiração inestimável.

     Discografia:
    1. DJ Tydoz & DJ Marcelinho – Batidas & Efeitos Vol.1 (LP, Stereo)
    ○ Selo: Porte Ilegal
    ○ Ano: 1999
    2. Arsenal Sônico Vol.1 (LP, Stereo)
    ○ Selo: C.A. Produções
    ○ Ano: 1999
    3. Arsenal Sônico Vol.2 (LP, Stereo, Verde)
    ○ Selo: C.A. Produções
    ○ Ano: 2000
    4. Arsenal Sônico Vol.3 (2×LP, Stereo)
    ○ Selo: C.A. Produções
    ○ Ano: 2001
    5. Arsenal Sônico Vol.4 (LP, Stereo)
    ○ Selo: C.A. Produções
    ○ Ano: 2002
    6. Electro Overdose Parte 1
    ○ Selo: C.A. Produções
    ○ Ano: 2002
    7. Arsenal Sônico Vol.5 (LP, Stereo)
    ○ Selo: Marola Discos
    ○ Ano: 2004
    8. Arsenal Sônico Vol.6 (LP, Stereo)
    ○ Selo: Marola Discos
    ○ Ano: 2005

     Link para download da Coleção Arsenal Sônico (link para DJs)
    https://drive.google.com/drive/folders/18vAXYxWqtBM6Dm1mfAfxvkhbchNhujTJ

     

    “Peraí TD! Joga pra frente que pra trás é prejú moleque!”

    Algumas participações notáveis:
    Além de suas próprias produções, DJ Tydoz também deixou sua marca em algumas produções icônicas, onde demonstra suas habilidades nos scratches:
    1. “E Se Esse Som Estourar?”
    ○ Álbum: Prepare – GOG
    ○ Faixa: 06
    ○ Ano: 1996
    ○ Ouça Aqui:

    2. “DJ Que é DJ Parte 2”
    ○ Álbum: Riscando Um – DJ Marcelinho
    ○ Faixa: 09
    ○ Ano: 2002
    ○ Ouça Aqui:

    TDZ foi o precursor de livesets de Hip Hop no Brasil.

    Este programa “Aliados do Ritmo”, produzido e apresentado por TDZ, foi transmitido no dia 05 de julho de 2014 e apresenta um live-set ao vivo com mais de 2 horas de mixagens. Tydoz foi precursor das transmissões de Hip Hop pela internet, com ensaios e performances com djs de todo mundo. Esta sessão ao vivo foi inovadora para a época, pois a internet brasileira ainda não estava habituada a transmitir performances de DJs ao vivo. Esse tipo de conteúdo só ganhou popularidade após a pandemia da Covid-19, quando as festas presenciais foram suspensas devido ao distanciamento social.

    Sua música continua, mesmo após sua partida

    Na noite de 9 de julho de 2019, a comunidade Hip Hop ficou de luto com a perda de uma de suas figuras mais icônicas. Aos 46 anos, Tydoz faleceu tragicamente, em um acidente de trânsito no Park Way, Brasília. Ele pilotava sua motocicleta Kawasaki Vulcan quando colidiu de frente com uma caminhonete Mitsubishi L200.

    O acidente aconteceu às 22h no viaduto da estação Park Way do BRT, próximo à quadra 14. Segundo relatos, o impacto foi devastador, resultando na morte instantânea de Tydoz. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o Corpo de Bombeiros foram acionados, mas não puderam salvar o DJ, que já estava sem vida quando as equipes chegaram.

    A notícia de sua morte gerou uma onda de comoção e homenagens. O PCdoB, partido no qual Niquele Moura Siqueira (Tydoz) trabalhava como analista legislativo na Câmara dos Deputados desde 2002, expressou seu pesar e solidariedade à família. Colegas de trabalho lembraram dele como um profissional dedicado, sempre disposto a ajudar e com um espírito alegre.

    Na época, em um tributo emocionado, Gil Souza, Gilberto Yoshinaga e Noise D, do site Bocada Forte, destacaram a importância de Tydoz para o turntablism brasileiro. Eles ressaltaram sua influência, tanto através da internet quanto em eventos ao vivo, e sua contribuição imortal para a cultura Hip Hop.

    Despedida

    O velório de DJ Tydoz foi realizado na quinta-feira, 11 de julho de 2019, na capela 6 do cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, em Brasília, e a cerimônia de cremação ocorreu no dia seguinte na cidade de Valparaíso, em Goiás. Ele deixa sua esposa Bárbara e duas filhas, Alice e Sara, além de um legado que continuará a inspirar futuras gerações de DJs e amantes do Hip Hop.

    A perda de DJ Tydoz é sentida profundamente por todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo e trabalhar ao seu lado. Sua paixão pela música e dedicação ao Hip Hop asseguram que sua memória permanecerá viva nas batidas e scratches que ele tanto amava.

    DJ FABIO ACM E DJ TYDOZ
    DJ FÁBIO ACM E DJ TYDOZ

    Referências:

    – Depoimentos coletados diretamente de entrevistas, fornecendo uma visão abrangente e profunda sobre a vida e o legado de DJ Tydoz.
    – RAFFA, Dj. Trajetória de um guerreiro: história do DJ Raffa. Rio de Janeiro: Aeroplano Ed., 2007.
    – MIRANDA, E. (2013). A poética híbrida da pós-modernidade nos RAPs de GOG: Poeta periferia (Tese de Mestrado). Universidade de Brasília, Brasília.
    – Viva Favela: Quer Ser Meu Amigo? Artigo por Def Yuri. 03 de fevereiro de 2005.
    – Jornal do Rap. Sexta Nostálgica: 10 anos da morte do Mano Thutão. Artigo por Jefferson 25 de junho de 2016.
    – Bom Dia DF, Globo. “Acidente Fatal no Park Way.” Acesso em 10 de julho de 2019.
    – Correio Braziliense. “Motociclista Morre em Acidente de Trânsito no Park Way.” Publicado em 9 de julho de 2019.
    – Liderança do PCdoB na Câmara dos Deputados. “Homenagem a Niquele Moura Siqueira.” Publicado em 10 de julho de 2019.
    – Bocada Forte. “Turntablism Brasileiro Está de Luto por DJ Tydoz, um dos Mais Importantes DJs do Brasil.” Escrito por Gil Souza, Gilberto Yoshinaga e Noise D, em 10 de julho de 2019.
    – Correio Braziliense. “Morre DJ Tydoz, Pioneiro e Referência na Cena Hip Hop do DF, aos 46 anos.” Publicado em 11 de julho de 2019.

  • O papel da educação clandestina na formação Política

    O papel da educação clandestina na formação Política

    Ao refletir sobre a ideia “Educação Clandestina”, penso sobre uma abordagem contrária ao ensino formal e oficial. Quando penso no currículo escolar atual, por exemplo, percebo que meu filho tem acesso aos livros adotados pela escola, nos quais ele aprende técnicas para codificar e decodificar símbolos a fim de se comunicar.

    No entanto, transformar essa alfabetização em letramento é uma área na qual a educação brasileira tem falhado se olharmos para as escolas de periferia. Por outro lado, os movimentos sociais estão reunindo uma variedade de conhecimentos, de autores que não estão presentes nessas instituições formais. Esses conhecimentos não se limitam apenas a livros, mas também incluem filmes, podcasts e até encontros entre pessoas, promovendo uma troca que desafia os interesses das elites que controlam o sistema educacional.

    A transformação da alfabetização em letramento envolve não apenas aprender a ler e escrever, mas também compreender criticamente o mundo ao seu redor, questionar as estruturas de poder e desenvolver habilidades para participar ativamente na sociedade. Isso é algo que muitas vezes é negligenciado no ensino formal, pois pode ameaçar o status quo e os privilégios de determinados grupos.

    A “Educação Clandestina” tem o potencial de despertar o sujeito para a realidade concreta. Quando não encontramos autores como Abdias do Nascimento e Clóvis Moura nas escolas, é porque são escritores que abordam questões relacionadas à realidade de pessoas que estão na base da pirâmide social. Se todas essas pessoas se indignarem, o Brasil entra em colapso. Por isso essas pessoas precisam estar anestesiadas, para a roda continuar girando, para que a engrenagem da desigualdade continue funcionando.

    Nossa realidade é tão dura na luta pela sobrevivência, que muitas pessoas entram num processo automático. As pessoas estão vendendo a força de trabalho delas por tão pouco dinheiro, que muitas vezes elas sentem culpa por separar um tempo para pensar sobre a vida. Porque fomos ensinados que a ociosidade, que pensar, que refletir sobre a vida, é “estar à toa”, e ao invés de estarmos à toa, poderíamos estar trabalhando.

    A Educação Clandestina, de forma objetiva, representa o momento central da formação política, que é o da ação, onde as pessoas trocam e se libertam, conforme nos lembra Paulo Freire no livro “Pedagogia do Oprimido”. Algumas pessoas com as quais eu converso dizem que tenho manias de persegiução, que isso parece “teoria da conspiração”.

    Eu respondo que não, pois é a realidade que vivo e vejo. Percebo que algumas pessoas estão presas em um ciclo de repetição. Elas reproduzem o que ouvem sem refletir sobre isso para que possam criar uma nova narrativa, um novo discurso. Estão presas em um processo de espelhamento, o que é perigoso, pois às vezes propagam as ideias do opressor.

    Esses são aspectos que ressaltam a importância da educação clandestina, que vai além do ensino formal e busca capacitar as pessoas para que elas questionem, reflitam e ajam em prol de mudanças sociais. Essa forma de educação permite que as pessoas se identifiquem com as experiências compartilhadas, despertando uma consciência crítica sobre a realidade em que vivem.

    É um processo de formação política continuada, que envolve não apenas absorver conhecimento, mas também agir e influenciar outros ao seu redor. Essa educação clandestina é essencial para romper com a repetição de discursos e padrões estabelecidos, permitindo que as pessoas ocupem espaços de protagonismo e se tornem agentes de transformação na sociedade.

    Alguns conceitos, quando falamos de educação clandestina, ficam abarcados nela, pois a formação política ocorre em camadas. A primeira camada é a do despertar. Em algum momento, por algum motivo, algumas pessoas saem desse estado de anestesia, e o próximo passo, após o despertar, é o de se indignar.

    As pessoas começam a questionar, por exemplo, por que tudo é tão desigual? Por que as coisas estão do jeito que estão? Porque me tratam diferente de outras pessoas?

    Jacques Rancière, no livro “O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual”, acredita que todos têm a capacidade de se emancipar, porque todos têm igual inteligência, reconhecendo que todos têm a capacidade de pensar e contribuir para mudanças sociais. Contudo, algumas pessoas não conseguem acessar espaços para desenvolverem essa inteligência. Estão imersas numa rotina tão profunda e anestésica da realidade que não conseguem participar de movimentos que as levem a esse despertar.

    A próxima camada é o agir, é se misturar com outras pessoas, e ao se misturar com outras pessoas, é onde inicia-se o processo da “educação clandestina”.
    A obviedade da clandestinidade dessa formação reside no fato de que as pessoas percebem que tudo aquilo a que tiveram acesso por vias oficiais até o momento não as fez despertar para a realidade. O despertar, com certeza, foi provocado por alguma atividade que se enquadra no conceito que estamos abordando de educação clandestina, que é essencialmente a ação.

    Portanto, o agir individual e coletivo pode envolver, por exemplo, a produção de uma batalha de rimas na comunidade, a realização de encontros para práticas teatrais, rodas de conversa, pré-vestibulares comunitários, ingresso em universidades, disputa por cargos políticos, até mesmo o próprio RapLab, entre outros.
    Paulo Freire diferencia a tomada de consciência, que é o despertar para a realidade, da conscientização, que envolve a ação concreta para transformar essa realidade. A conscientização é o processo de agir de forma crítica e reflexiva, engajando-se em atividades que promovam mudanças sociais e políticas.

    Essas ações podem variar desde atividades culturais como batalhas de rimas e teatro até engajamento político e acadêmico. Esse processo de conscientização é fundamental para a formação política, pois permite que os indivíduos não apenas reconheçam as injustiças, mas também atuem para combatê-las.

    A formação política é um processo contínuo, por isso acredito que o Rap Lab seja um espaço importante para essa formação, pois reúne pessoas com diferentes experiências e níveis de consciência política. Ao mesmo tempo que há indivíduos que ainda não despertaram, existem outros que estão mais avançados nesse processo. Mas, como nos ensina Jacques Rancière, todos têm o poder da igual inteligência, e, portanto, todos podem se desenvolver coletivamente.

    Quando afirmamos que no RapLab não há certo e errado, queremos dizer que cada pessoa pode participar a partir de sua vivência, da forma como enxerga o mundo. Ela terá que disputar e defender esse ponto de vista dentro da atividade. É um espaço onde o debate é incentivado e a diversidade de perspectivas é valorizada, contribuindo para o crescimento e desenvolvimento de todos os participantes.

    Eu acreditava que durante a pandemia os encontros do RapLab poderiam não acontecer, devido à necessidade de serem realizados online e de forma contínua. Além de não conseguirmos realizar a fase de gravação da música, não tínhamos ideia de como incentivar os participantes a estarem conosco duas vezes por semana. Como coordenador, eu não conseguia antecipadamente pensar em 156 temas para discutir, já que não dominava tantos assuntos.

    No entanto, ao dividirmos as responsabilidades com os participantes, escolhendo os temas no momento da atividade, as coisas foram acontecendo de forma natural e os encontros ficando mais interessantes para a maioria dos participantes.

    Quando um participante propõe um tema, ele está nos propondo falar sobre aquilo que o afeta naquele momento, e entendendo a realidade dos jovens que estavam inscritos no projeto, acredito que por isso discutimos tantos temas relacionados à “luta de classes”.

    Quando um outro jovem propõe algo relacionado com a questão racial, certamente está enfrentando algum problema relacionado ao tema, e discutir sobre essa questão pode, além de ser importante pra quem propôs, afetar também outras pessoas de forma diferente, gerando grandes debates e produzindo conhecimentos.

    Mas também houve momentos em que não queríamos discutir nada disso, porque já estávamos cansados, e debater esses temas demandava muita energia. Então, optávamos por falar sobre coisas mais leves como “gírias” ou “desenhos animados”, por exemplo.

    Em suma, a reflexão sobre a “Educação Clandestina” revela a necessidade premente de repensar e ampliar os horizontes do sistema educacional tradicional. Ao destacar a importância da conscientização política, da ação crítica e do empoderamento social, esse conceito nos convida a questionar as estruturas de poder e a buscar alternativas que promovam uma educação mais inclusiva, diversa e transformadora. Através da educação clandestina, podemos despertar consciências, ampliar perspectivas e capacitar indivíduos a se tornarem agentes ativos na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. É imperativo reconhecer o potencial dessa abordagem não convencional e investir em iniciativas que fortaleçam sua prática, permitindo que todos tenham acesso a uma educação que vá além do ensino formal e estimule o pensamento crítico, a criatividade e o engajamento.

  • Explorando a formação política no RapLab: O caminho de Debrah

    Explorando a formação política no RapLab: O caminho de Debrah

    Débora de Souza Costa Seabra é natural da cidade de Nilópolis, na Baixada Fluminense. Tinha 19 anos quando ingressou no RapLab em 2020, enquanto cursava o Ensino Médio no IFRJ, em Nilópolis. Atualmente, identifica-se como Debrah.

    Tivemos uma conversa no dia 28 de março de 2024, que durou cerca de 40 minutos. Discutindo sua participação no RapLab durante o período da pandemia.
    Revisitamos o período visando ajudar-me a responder algumas questões para minha tese de doutorado, principalmente relacionadas ao conceito de formação política e ao papel do RapLab nesse processo.
    Contudo, assim como aconteceu na conversa que tive com Jatobá, novos caminhos foram abertos para diversas reflexões.

    A seguir, apresento uma transcrição de nossa conversa, destacando os pontos abordados por Debrah. Para iniciar a conversa, perguntei como ela tomou conhecimento dos encontros do RapLab durante a pandemia. E a partir daí a conversa se desenrolou.

    Como você tomou conhecimento do RapLab pela primeira vez durante a pandemia?
    Certa vez aconteceu um caso de racismo no IFRJ de Nilópolis, onde um estudante foi acusado de roubar o celular de outro estudante, na realidade ele não tinha feito isso, mas isso desencadeou uma revolta nas pessoas, e por isso aconteceram algumas atividade lá, e uma dessas atividades foi um SLAM de poesias.
    Certa vez, ocorreu um caso de racismo no IFRJ de Nilópolis, onde um estudante foi acusado de roubar o celular de outro estudante. Na realidade, ele não havia feito isso, porém, essa acusação desencadeou uma revolta entre as pessoas. Por isso ocorreram várias atividades na instituição, e uma delas foi um SLAM de poesias.
    Era muito interessante, porque não havia ninguém ali no IFRJ que fazia poesia. Era algo introspectivo. Eu, por exemplo, nunca havia recitado, mas havia dois rapazes lá que recitavam poesia, e mais ninguém participava. Eles continuavam a recitar, e um complementava o outro em suas poesias. Mais tarde, descobri que eles faziam parte do “Enraizados no Vagão”, um grupo que produzia poesias nos vagões dos trens, e ambos eram membros do Instituto Enraizados.
    Um daqueles caras, o Gabriel (GB Montsho), me perturbou muito para eu recitar poesia naquele espaço, eu não o conhecia, mas os meus amigos ficaram insistindo para que eu participasse. A gente recitava poesia em sala de aula, mas apenas ocasionalmente, e então escolhi uma poesia e recitei em público pela primeira vez na vida.
    Marquei aquela pessoa que me incentivou no Instagram, comecei a segui-la, e ela me seguiu de volta. Assim, acabamos nos tornando amigos, de certa forma.
    Algum tempo depois ele postou que teria um encontro do RapLab. Enviou um texto que explicava um pouco sobre a atividade, que era pra fazer rap e eu achei o nome legal, RapLab. Me inscrevi porque parecia uma oportunidade legal. Preenchi o formulário e depois recebi o link, gostei e fiquei indo.

    Você participava do movimento estudantil?
    Eu comecei nessa época. Na verdade, esse caso [de racismo] aconteceu mais ou menos no final de 2018. Em 2019, o Bolsonaro entra no governo e aí ele começa a cortar verba da educação, e a minha escola, assim como a escola do Jatobá (Pedro II), ficam ameaçadas.

    Você conhecia o Jatobá nessa época?
    Não. Comecei a me aproximar mais do GB (Montsho), inclusive, nessa época começamos a construir o movimento estudantil. Era algo pequeno, eu apenas participava dos protestos. Eu ia porque comecei a gostar disso. Foi ali que fui me aproximando mais do GB.

    O que te fez participar mais vezes pro RapLab?
    Pra ser sincera, o que me fez voltar de novo foi um sentimento de não querer perder aquele encontro. Eu gostei muito da troca de ideia, porque eu criei uma afeição pelas pessoas que participavam. Eu sentia que não podia negar o convite daquelas pessoas.
    Toda vez que as pessoas me convidavam, eu comparecia. Se não recebesse esse convite, se não tivesse alguém me mandando mensagem, às vezes até no privado do celular, me marcando na rede social e fazendo questão, eu não voltaria.
    Mas como era algo fácil, bastava clicar no link, e eu estaria ali encontrando pessoas com quem gostava de conversar, eu sempre comparecia, porque não queria abrir mão da minha conexão com elas.
    Durante a pandemia, o pessoal tentou realizar muitas atividades. Eu era, inclusive, membro do Grêmio Estudantil da minha escola, então o Grêmio começou a promover ações de forma virtual. Nas reuniões do Grêmio, as pessoas falavam, mas às vezes eu não conseguia entender completamente o que diziam, sabe? Eu prefiro muito mais conversar olhando nos olhos das pessoas. Por isso, eu não conseguia priorizar essas outras reuniões, mesmo que houvesse pessoas me chamando para participar, da mesma forma que acontecia com o RapLab. Acho que nenhuma daquelas coisas me atraia.
    Alguns dos meus amigos moravam perto e iam lá pra casa. Eu preferia ficar com eles do que participar das reuniões. O RapLab aconteceu num horário que eu ficava muito sozinha. Era de tarde, então como eu estava sozinha, eu tinha uma probabilidade maior de participar.
    E era uma troca de ideia que, por mais que eu entrasse na metade do encontro, eu ia conseguir entender o que estava sendo conversado e me envolver ali. E ia ter permissão de falar e de me colocar. Sem esperar muito pra isso, sabe? A gente trocava ideias sobre várias coisas legais. E trocava umas ideias muito boas. Eu tinha muito espaço pra poder falar e colocar minhas opiniões.
    Mesmo que, às vezes, as pessoas discordassem. Era um espaço seguro, de certa forma. Isso me manteve ali, a fim de continuar. Foi a única coisa que eu consegui fazer na pandemia.

    Você já tinha gravado rap antes do RapLab?
    Não, era uma realidade muito distante para mim. A partir do RapLab, minhas poesias ganharam mais consistência; foi quando mais compus. É algo curioso, pois trabalhei muito durante a pandemia, e o RapLab era um dos meus raros dias de folga. Então, participava do RapLab e compunha durante o trabalho. Durante meu expediente, pegava o caderno e escrevia poesia.
    Através do RapLab, conheci pessoas que me ajudaram a me tornar efetivamente um rapper. Atualmente, também faço rap. Lancei uma música no início de 2022 com uma pessoa que era um dos coordenadores do RapLab. Fizemos uma colaboração, e agora estou trabalhando com outra pessoa que conheci através do Enraizados, embora não participasse do RapLab, mas é um produtor musical, e estamos colaborando juntos.
    E estou para lançar também um EP de rap.

    Houve algum encontro específico no RapLab que você considerou particularmente significativo ou marcante? Se sim, qual foi e por que você o considerou assim?
    Tem um encontro em que discutimos a questão da terceirização e da ‘uberização’ do trabalho. Abordamos especificamente a situação dos entregadores de aplicativos, destacando o papel do Galo de Luta e como a economia avançava durante a pandemia. Falamos também sobre a estratégia global de precarização da vida dos trabalhadores e as dificuldades enfrentadas por esses entregadores. O fato de o Galo de Luta ter sido preso foi mencionado, e esses temas em discussão me marcaram profundamente.
    Foi, inclusive, um encontro que eu lembro que estava no quarto, mas o encontro foi durando, durando, durando e eu vi que estava no finzinho da tarde, ia anoitecer e o encontro ia continuar. Como eu não queria perder o fim de tarde, pois estava um dia bonito, eu saí e continuei conversando com o pessoal sobre esses temas, com fone de ouvido.

    Foi, inclusive, um encontro que lembro que começou de tarde, mas continuou se estendendo, e percebi que já estava chegando ao fim da tarde e prestes a anoitecer, e ainda assim a discussão seguia. Como não queria perder o entardecer, pois estava um dia bonito, saí e continuei conversando com o pessoal sobre esses temas, utilizando fones de ouvido.

    Um terço dos encontros teve como tema algo relacionado à luta de classes. Por que você acha que discutíamos tanto esse assunto?
    Eu acho que discutimos tanto isso porque esses encontros ocorreram durante a pandemia, um momento árduo de crise do capitalismo. O capitalismo está em crise; começou em 2008 e continua até hoje, se agravando cada vez mais.
    E ele precisa dessas crises porque é durante as crises do capitalismo que conseguem justificar as guerras. Conseguem ampliar os lucros por meio da crise, como está acontecendo hoje. Refiro-me a “guerras” entre aspas, pois o que está ocorrendo entre Israel e Palestina não é uma guerra, é um massacre.
    Mas conseguem justificar essas coisas durante o período de crise. E nesse mesmo período, a luta de classes fica mais aguda, onde as pessoas percebem mais claramente as disparidades, pois se tornam mais evidentes. Era óbvio quem era a população que estava morrendo de covid-19 naquele período. E diversas outras coisas.
    Quem estava passando fome? Quem estava realmente priorizando essas questões de ajuda mútua? No Enraizados, havia um grupo que organizava cestas básicas para doar, a fim de ajudar as pessoas próximas. Percebemos que, mesmo o governo tendo muitos recursos, não estava investindo em vacinas.
    Estava claro para nós que o governo atuava em benefício dos ricos e dos interesses pessoais dos próprios governantes. Por exemplo, o Bolsonaro comprava vacinas e recebia propina em troca. Ele comprava vacinas que não eram comprovadamente eficazes, mas menos eficazes, visando lucrar com isso. Todo esse esquema visava gerar ainda mais dinheiro para aqueles que já eram privilegiados financeiramente.
    As pessoas que conduzem o RapLab, que fizeram parte do RapLab, são pessoas que conseguiram perceber essas coisas, porque é muito óbvio para a gente. Porque a gente está de um lado. A gente pertence a uma classe. A gente é da classe trabalhadora. Não tinha ninguém ligado a outra classe. Então a gente conseguiu ter isso mais claro. Eu acho que foi por causa disso, não tinha como falar de outra coisa.
    Se a gente entrasse no tópico do racismo, a gente entrava no tópico da luta de classes também. Se a gente entrasse no tópico pra falar de sorvete, a gente entrava no tópico da luta de classes. Porque quem é que está comendo sorvete? A gente não está comendo sorvete. Acredito que a gente falou muito por conta disso.

    Qual é a sua definição de formação política?
    Acho que formação política é você ter a capacidade de compreender os movimentos da sociedade, como a sociedade funciona, por que as coisas acontecem da forma que acontecem. Acho que a formação política é um meio de se conseguir compreender o mundo, o mundo da forma que ele é, porque tudo no mundo é político.
    Inclusive, a educação é política, nada é neutro nesse mundo, então tudo é político. Creio que a formação política é você conseguir compreender o que está por trás, por exemplo, da reforma do novo ensino médio, dessas questões. Acho que isso é formação política.

    Todo mundo tem essa compreensão?
    Não, não acho. Eu acho que, inclusive, existe todo um movimento, de uma cultura de massas, que é o que aparece na televisão, nessas mídias de massa, no TikTok, que faz com que as pessoas fiquem constantemente sob uma névoa que camufla a realidade, deixa a realidade um pouco mais dura para a nossa compreensão.
    Algumas pessoas acham que o mundo é assim porque ele é assim e pronto. Ou porque na pandemia quem estava morrendo era porque em outras vidas tinham cometido erros e estavam pagando nessa vida. Que a pandemia era um momento de resgate dessas pessoas. Que as pessoas estavam morrendo na pandemia porque elas tinham sido predestinadas. Essa coisa do destino.
    Que tudo que aconteceu com a gente já estava escrito antes da gente nascer. Isso é o que as igrejas e o que frequentemente a gente vê na televisão também.
    Acredito que isso atrapalha um pouco as pessoas a adquirirem formação política, porque elas acreditam que o candidato ganhou a eleição presidencial por estar predestinado. Elas acham que não havia nada que pudéssemos fazer para mudar isso. Eu entendo que a formação política é justamente compreender a situação.
    Além de compreender, eu mencionei apenas a questão de entender o mundo. Mas também é perceber que sua ação, em conjunto com a ação de outras pessoas, por meio da ação coletiva, pode transformar o mundo. Eu acredito que isso é formação política.
    Só que eu acho que muitas pessoas, muitos intelectuais não têm. Ou têm uma perspectiva diferente, de se achar muito inteligente por achar que nada pode se transformar.
    Boa parte das pessoas não têm formação política por não conseguir ter essa compreensão dos movimentos políticos que acontecem no mundo.
    Mudou agora o Ensino Médio, agora os estudantes pobres não vão ter aula mais de História. Mas é isso. É isso que está dado. As pessoas não conseguem compreender o que está por trás disso e o que faz com que isso aconteça.
    Eu acho que o RapLab estimula isso. Porque se o tema do RapLab for, por exemplo, o novo Ensino Médio, a gente vai trocar de ideia sobre isso. Vai chegar uma hora que a gente vai ficar sem ideia para trocar sobre o que é, então a gente vai entrar na ideia do porquê que é.
    Então vamos começar a cavar as coisas para podermos ter mais ideias para trocar, para não fugir do assunto. Porque o assunto do RapLab é esse. Acho que isso faz com que a gente consiga ter esse espaço de desenvolvimento, de formação política.
    Porque o RapLab traz muito a perspectiva da coletividade. Não apenas realizávamos os encontros, mas também compúnhamos as músicas de forma coletiva. Eu já partia da ideia de que não se trata apenas da genialidade individual, em que apenas uma pessoa consegue compor.
    Nós compúnhamos de forma coletiva, nos encontrávamos e fazíamos. Além disso, nos reuníamos para construir o estúdio do Enraizados, participar de mutirões e distribuir cestas básicas. Então, contávamos com a coletividade não apenas para criar música, mas também para ajudar a transformar a vida das pessoas. Fazíamos isso porque entendíamos que tínhamos essa capacidade. No entanto, várias pessoas ao meu redor, incluindo minha família e amigos, não praticavam esse tipo de ação.

    Como você acredita que ocorre o despertar das pessoas para a realidade além da anestesia?
    Então, comigo aconteceu da seguinte forma, eu fui me desligando de algumas coisas. Eu me desliguei do pastor, porque a igreja faz com que você ache que está tudo predestinado, que você não tem controle sobre nada, que o controle é de Deus e que você não pode fazer nada para transformar as coisas.
    Eu saí disso no momento que eu percebi que eu era uma pessoa LGBT. E, segundo eles, eu ia necessariamente para o inferno. Eu falei, cara, eu sou uma pessoa boa, eu não vou para o inferno, isso aí é mentira. E eu saí disso.
    A gente viveu uma efervescência política muito grande no nosso país, mas eu sempre acreditei que eu podia ajudar a transformar o mundo de alguma forma. Certa vez eu soube que poderia ficar sem concluir o meu ensino médio por causa de um corte que um político tinha feito na educação. E falaram pra mim que, se eu fosse pra rua protestar, e fosse um protesto muito grande, eu conseguiria reverter aquilo. Eu pensei assim: – “Pô, vou fazer isso”. E fui pra rua e ele voltou atrás.

    Quem te chamou pro protesto?
    O pessoal do Grêmio. Jovens da minha idade que tiveram contato com o marxismo. Jovens marxistas, comunistas, me falaram isso. Falaram que era possível a gente pressionar coletivamente o governo para poder transformar uma coisa na sociedade.
    E a gente fez e o cara voltou atrás do corte e a minha escola não fechou. Aí eu falei: “Pô, então isso daí dá certo. Se eu me juntar com um monte de gente, eu posso perturbar a vida desse cara, e eu vou”.
    Eu comecei a ir para todos os cantos que eu podia, toda vez que tinha um monte de gente junta para poder encher o saco daquele fascista, eu estava lá. Comecei a perceber que em vários momentos ele voltava atrás. Então pensei: – “Cara, eu não sou tão pequena assim se eu estiver em conjunto com outras pessoas”.
    Comecei a perceber como as ações coletivas eram feitas. Eu tive esse despertar a partir disso. Comecei a procurar outras experiências de transformação da sociedade. Fui estudar sobre Cuba. Comecei a perceber que é possível transformar.
    Hoje eu sou comunista, mas para ter formação política você não precisa ser comunista, basta você conseguir ter uma compreensão mais material do mundo.
    Se um presidente, cercado por pessoas que defendem os direitos dos ricos, quer lutar pelos direitos dos pobres, os pobres precisam se unir e mostrar que a maioria da sociedade, composta principalmente por pessoas pobres, tem interesse nisso. Assim, os ricos serão pressionados, visto que constituem uma minoria na sociedade.
    Eu acho que o RapLab foi muito importante para mim nesse sentido também, porque foi um dos primeiros espaços de debate político que eu tive na minha vida, onde eu pude colocar minha opinião e entender que a minha opinião política, de certa forma, em alguns momentos, estava certa. E eu não tinha estudado em lugar nenhum, não tinha estudado Marx, não tinha estudado nada, mas eu sou uma pessoa pobre. Eu tinha algum nível de formação política que foi sendo aprofundado através de uma troca com outras pessoas pobres, algumas um pouco mais estudadas que eu.

    Quem é você hoje?
    Atualmente, estudo Produção Cultural na faculdade do IFRJ em Nilópolis. Anteriormente, enquanto cursava Química no IFRJ, eu planejava trabalhar em uma fábrica, mas nunca consegui emprego devido à alta taxa de desemprego.
    E aí eu fui estudar outra coisa, fui fazer curso técnico em iluminação cênica. Por isso eu estudo produção cultural no IFRJ. Lá eu desenvolvo o movimento estudantil, ainda nessa perspectiva de transformar as coisas, eu busco trazer essa perspectiva para outras pessoas.
    Eu sou presidente do Centro Acadêmico, que é uma representação dos estudantes do meu curso. Isso tem me dado um trabalho também, mas é um trabalho voluntário que realizo.
    Trabalho com iluminação cênica para peças de teatro, mais na cidade do Rio de Janeiro, que é onde existem mais investimentos em cultura e é onde eu consigo ter um salário.
    Na Baixada eu não consigo ter um salário, mas aprovei que um projeto pela Lei Paulo Gustavo, na cidade de Nilópolis, e estou produzindo esse projeto onde atuo como produtora musical e roteirista. O projeto tem como perspectiva apresentar a realidade de uma pessoa trans, não-binária, trabalhando com arte na cidade de Nilópolis.
    Eu sou uma pessoa trans, não-binária, que trabalha com arte, nem sempre na cidade de Nilópolis, mas esse projeto visa trazer essa perspectiva. Então estou fazendo essas coisas hoje em dia.

    Como você explicaria para um amigo da sua idade o que é o RapLab e por que ele deveria participar?
    O RapLab é um encontro onde nos reunimos com pessoas interessadas em rap, de vários lugares, com várias vivências. Trocamos ideias sobre um tema específico, que reflete as experiências de todos os participantes. Durante o debate, entramos em contato com diversas perspectivas, experiências e ideias. Após isso, escrevemos uma música coletivamente inspirada nessas discussões.
    Então, se você nunca fez música, se você nunca fez rap, é uma chance de você ter essa experiência pela primeira vez. E, ao mesmo tempo, mesmo que você não tenha interesse nenhum por rap, você vai ter a oportunidade de conhecer várias pessoas legais.
    Hoje em dia é muito difícil você conseguir conversar com as pessoas, pessoalmente, ouvir a voz das pessoas falando sobre as coisas, falando sobre temáticas profundas. E o RapLab é uma conversa coletiva com um monte de gente legal.
    Acredito que mesmo que você não tenha interesse no rap, você vai conhecer alguém que, de repente, vai ser alguém muito importante pra sua vida. Então, acho que vale a pena você ir.

    Você apresentaria para uma diretora de escola da mesma forma como apresentou para um amigo?
    Não, eu abordaria a diretora e explicaria que faço parte do projeto RapLab, o qual visa promover o desenvolvimento da escrita e da palavra entre jovens.
    É um projeto que desenvolve a formação de jovens para poderem apresentar suas ideias, porque os jovens pensam muito, mas raramente conseguem colocar suas ideias de uma maneira contundente na sociedade. O adolescente brinca muito e dificilmente consegue colocar suas opiniões de uma maneira efetiva. O RapLab existe para desenvolver isso nas pessoas.
    É um espaço onde esses jovens vão poder falar sobre temáticas que, inclusive, você, diretora, pode me ajudar a escolher, que seja interessante de trabalhar com esses jovens. A gente pode trabalhar sobre a temática do machismo, sobre a temática dos assédios, ou sobre a temática do Enem.
    A gente pode trabalhar sobre a importância de se fazer faculdade. A gente vai conseguir descobrir entre esses jovens o que eles pensam sobre essa temática, e isso pode ser interessante para a sua escola, para poder construir novas iniciativas a respeito desses jovens.
    E no final, a gente vai fazer um rap. E vai ser uma produção coletiva entre os jovens, e pode ser que isso desperte em alguns deles a vontade da escrita de poesia. A gente sabe que a escrita de poesia instiga outras coisas. Eles vão escrever um rap, depois pensar em escrever a própria poesia, depois pensar em escrever um texto maior. E vai acabar tendo mais facilidade para poder fazer uma redação.
    Os jovens ouvem muitas músicas, mas dificilmente enxergam nessas músicas a poesia que tem, e conseguem entender as mensagens que estão por trás, e o RapLab faz o movimento contrário, ele constrói uma poesia com uma mensagem que foi discutida antes. Isso ensina aos jovens a consumirem essas artes que eles já consomem constantemente de uma maneira mais crítica, e desenvolverem a capacidade de fazer essas artes de uma maneira mais crítica também.
    Os jovens frequentemente ouvem muitas músicas, mas raramente reconhecem a poesia nelas e compreendem as mensagens que estão por trás. O RapLab faz o movimento contrário, construindo poesias com mensagens discutidas anteriormente. Isso pode ensinar aos jovens a consumirem as artes que já consomem de maneira crítica e desenvolverem a capacidade de produzi-las de forma crítica também.
    Creio que seria uma coisa muito positiva para a juventude dessa escola, porque o nosso maior interesse é o desenvolvimento desses jovens que estão aí.