Autor: Dudu de Morro Agudo

  • Entre Cordéis e Saberes: CIEP 172 inaugura a Sala de Leitura Poeta Popular J. Rodrigues

    Entre Cordéis e Saberes: CIEP 172 inaugura a Sala de Leitura Poeta Popular J. Rodrigues

    Hoje fui convidado pelo meu amigo Antônio Feitosa — o Totó — poeta, animador cultural, homem da política cultural iguaçuana, de esquerda e com posições muito bem definidas. O convite era especial: a inauguração de uma sala de leitura no CIEP 172, onde ele atua como educador. Um espaço novo, criado com afeto e dedicado à memória do poeta popular J. Rodrigues.

    Fui como quem vai prestigiar um amigo querido, mas saí profundamente impactado. A riqueza do ambiente, a beleza do espaço e o cuidado com cada detalhe me tocaram de verdade. Era impossível sair de lá e não escrever sobre isso.

    Por isso, a minha coluna de hoje é dedicada a esse lugar que nasce como farol de cultura, memória e afeto. Com vocês: a Sala de Leitura Poeta Popular J. Rodrigues.

    Um Espaço Inédito na Escola: A Sala de Leitura

    Em uma iniciativa emocionante e transformadora, a equipe do CIEP deu um passo importante na valorização da leitura, da cultura e da memória local. Foi inaugurada hoje, dia 26 de junho de 2025, uma quinta-feira, às 13 horas, uma sala de leitura inédita na escola, criada especialmente para oferecer um ambiente acolhedor e interativo voltado ao incentivo à leitura, à pesquisa e ao acesso a materiais diversificados — não necessariamente pertencentes ao acervo tradicional da biblioteca escolar.

    Diferente da biblioteca já existente, esta nova sala de leitura nasce com o propósito de abrigar livros e materiais que serão utilizados de forma mais flexível e dinâmica por professores, principalmente das áreas de Língua Portuguesa e História. A ideia é que este seja um espaço aberto, de interação com alunos, professores e membros da comunidade escolar.

    Dudu de Morro Agudo, Aparecida Rodrigues (Filha do J. Rodrigues) e Antônio Feitosa.
    Dudu de Morro Agudo, Aparecida Rodrigues (Filha do J. Rodrigues) e Antônio Feitosa.

    Uma Homenagem ao Poeta da Baixada: Sr. J. Rodrigues

    O nome do novo espaço não foi escolhido por acaso. A sala de leitura presta homenagem ao poeta de cordel Sr. J. Rodrigues, figura querida e marcante da cultura popular na Baixada Fluminense. A escolha veio da vontade pessoal do educador Antônio Feitosa, que idealizou e liderou a criação da sala.

    Feitosa já havia homenageado o poeta em outras ocasiões, como na reinauguração de uma biblioteca no CIEP 022 e na criação de um espaço literário no Casco de Morro Agudo. Como os demais espaços da escola já levavam nomes de outras figuras homenageadas, ele solicitou à direção que a nova sala fosse batizada em memória de J. Rodrigues. O pedido foi prontamente aceito.

    Uma linda homenagem que conta a história do poeta.
    Uma linda homenagem que conta a história do poeta.

    Um Espaço Vivo e Acolhedor

    A nova sala não será apenas um local para leitura silenciosa. A proposta é transformá-la em um polo cultural ativo, com exposições permanentes e itinerantes, lançamentos de livros, encontros com autores — especialmente da Baixada Fluminense — e ações que estimulem o protagonismo estudantil e comunitário.

    O acervo contará com obras do próprio Sr. J. Rodrigues, mas será amplamente diversificado. Autores e editoras da região estão convidados a enviar exemplares de suas obras para enriquecer o espaço. A ideia é que os estudantes não apenas leiam os livros, mas conheçam pessoalmente os autores, estabelecendo pontes entre a literatura e a vida real.

    Um espaço vivo, que eterniza o poeta Jota Rodrigues o apresentando para as novas gerações.
    Um espaço vivo, que eterniza o poeta Jota Rodrigues o apresentando para as novas gerações.

    Quem Foi J. Rodrigues?

    Nascido em 1934, o poeta J. Rodrigues faleceu em 2018, deixando um legado profundamente enraizado na cultura popular fluminense. Morador de longa data de Morro Agudo, ele foi um importante divulgador da literatura de cordel no estado do Rio de Janeiro, com forte atuação nas escolas públicas, universidades e demais espaços educativos e culturais. Sua obra tinha como marca o compromisso com a oralidade, a memória e a valorização das raízes nordestinas.

    Além de poeta, era também raizeiro, músico e líder de um grupo de forró, o que o tornava um artista plural e profundamente conectado com sua comunidade.

    Aparecida Rodrigues, filha de J. Rodrigues, conhecendo a sala que homenageia seu pai.
    Aparecida Rodrigues, filha de J. Rodrigues, conhecendo a sala que homenageia seu pai.

    A Inauguração: Entre Poesia e Música

    A inauguração da sala contou com a presença de Aparecida Rodrigues, filha do poeta homenageado, e com um show musical do artista Edu Miranda, que ofereceu um momento de celebração e afeto ao evento. A cerimônia reforçou o caráter simbólico e afetivo do espaço, que nasce já carregado de memória, arte e identidade.

    A cultura pulsante do nordeste permanedeu forte na produção artística e na vida de J. Rodrigues.
    A cultura pulsante do nordeste permanedeu forte na produção artística e na vida de J. Rodrigues.

    Um Legado que Inspira

    A Sala de Leitura Poeta Popular. J. Rodrigues representa mais do que um espaço físico: é um gesto de resistência, valorização da cultura local e promoção do acesso democrático ao conhecimento. A iniciativa, conduzida por Antônio Feitosa com apoio da direção da escola e da equipe de Animação Cultural, é um exemplo de como pequenas ações podem gerar grandes transformações na vida escolar e comunitária.

    A leitura, a cultura e a memória agradecem.

    📍 SAIBA MAIS
    Local: CIEP 172 – Nelson Rodrigues
    Endereço: Rod. Pres. Dutra, Km 182, Comendador Soares – Nova Iguaçu, RJ, CEP 26280‑000
    Sala de Leitura J. Rodrigues

    📅 Visitação:
    De segunda a sexta-feira, das 9h às 17h
    Aberta a estudantes, professores, comunidade e visitantes interessados

    📞 Telefone: (21)9.8171-5134

    Para doações de livros, agendamentos de visitas em grupo ou realização de eventos, entre em contato pelo telefone ou e-mail acima.

     

  • Quando o Quilombo vira universidade: Enraizados sedia Conferência Internacional sobre Hip Hop, Fé e Cidadania.

    Quando o Quilombo vira universidade: Enraizados sedia Conferência Internacional sobre Hip Hop, Fé e Cidadania.

    Nos dias 3 e 4 de junho de 2025, Nova Iguaçu será palco de uma conferência internacional imperdível para estudantes de pré-vestibular, universitários, educadores populares, lideranças comunitárias e integrantes de movimentos sociais: a Conferência “Hip Hop, Fé e Cidadania na Baixada Fluminense”.

    Organizada por uma poderosa rede de instituições brasileiras e norte-americanas, entre elas a Duke University, a NCCU (North Carolina Central University), o Instituto Enraizados e o Instituto Multidisciplinar da UFRRJ, o evento promete dois dias de debates potentes, trocas de saberes e celebrações culturais.

    A programação se inicia na terça-feira (3), no Quilombo Enraizados, em Morro Agudo. A partir das 9h da manhã, a comunidade é acolhida com café da manhã antes da mesa de abertura, que discutirá Educação Libertadora na Periferia Urbana, com nomes como Álvaro Nascimento (IM-UFRRJ), Patricia Cerqueira (USP) e a exibição do vídeo RapLab, de Akshay Gokul (Duke University), que mostra como o RapLab foi usado em escolas públicas de Durham, EUA.

    Na sequência, às 11h30, a mesa “Hip Hop e o Instituto Enraizados” aprofunda o legado da cultura hip hop como ferramenta de formação política e sobrevivência nas periferias e sobre as pontes entre Atlanta (Georgia) e Morro Agudo (Nova Iguaçu), com Adriano Cezario Assis (UFRRJ), Lucas Lopes e Travis Williams (Duke University).

    À tarde, a partir das 14h30, acontece a roda de conversa com os seis integrantes que participaram do intercâmbio entre Brasil e Estados Unidos. A mediação será de Dudu de Morro Agudo, e o grupo apresentará quatro produtos gerados a partir da experiência: uma exposição fotográfica, uma música inédita, um videoclipe gravado entre Brasil e EUA, e um documentário que revela os bastidores do intercâmbio.

     

    Caroline, Higordão, Dorgo, DMA e Baltar

    Às 18h30, encerrando o dia, os estudantes do Curso Popular Enraizados e integrantes da comunidade participarão de uma roda de conversa com John D. French e Travis Williams, que refletirão sobre religião, educação e política nos Estados Unidos, em tempos de Trump.

    Já na quarta-feira (4), a conferência se desloca para o Instituto Multidisciplinar da UFRRJ, também em Nova Iguaçu. Pela manhã, às 9h30, a mesa “Religião, Raça e Política” reúne nomes como Gladys Mitchell-Walthour (NCCU), Travis Knoll e John D. French, que debatem temas como a teologia da libertação e os impactos eleitorais da religiosidade na Baixada.

    Em seguida, às 11h30, será lançada a exposição “Vidas em Suspenso”, apresentada por Gabrielle Almeida, Medusza e KR7, desdobramento da pesquisa “Zona 159”, que denuncia os efeitos da crise climática nos bairros periféricos de Nova Iguaçu. Mais do que dados, são vidas atravessadas pela lama e pela torneira vazia.

    A tarde segue com a mesa “Morro Agudo e Constã: Redes comunitárias de resistência”, que traz os trabalhos de Jefferson Dantas (UFRRJ) e Linderval Monteiro (UFGD) sobre as relações entre tráfico, igrejas e política nas periferias da Baixada.

    Às 15h45, será exibido o documentário “Mães do Hip Hop: 15 anos depois”, seguido de debate com os diretores Átomo Pseudopoeta, e participantes Dudu de Morro Agudo, Lisa Castro, Kall Gomes e Léo da XIII. Às 17h, outro vídeo, “A Revolução do Livro”, sobre a luta pelas cotas nas universidades. Teremos também uma apresentação virtual com Thais Zapellini (University of Illinois) e Waleska Batista (FADISP e PUCC) falando sobre “Como o Movimento Negro ganhou no STF em 2012 com as cotas”?

    O evento se encerra com uma mesa de reflexões sobre a colaboração entre as universidades e o Instituto Enraizados desde 2009, reunindo Dr John D. French, Dr Alexandre Fortes, Dr Álvaro Nascimento, Dr Dudu de Morro Agudo e Dra Gladys Mitchell-Walthour.

    A conferência é gratuita e aberta ao público.

    Estudantes de pré-vestibulares e universidades, especialmente da Baixada Fluminense, estão convidados a ocupar os espaços, fazer perguntas, se inspirar e conectar-se com outras experiências de luta, cultura e conhecimento.

    É tempo de construir pontes e fortalecer as margens.

    📅 Data: 3 e 4 de junho de 2025
    📍 Locais: Instituto Enraizados (Morro Agudo) e IM-UFRRJ (Nova Iguaçu)
    💬 Público-alvo: Estudantes, professores, educadores populares, militantes de movimentos sociais e comunidade em geral
    🎟️ Entrada franca

    Venha refletir, aprender, rimar e transformar. A Baixada está em movimento — e você também faz parte disso.

  • Não é só tragédia que acontece aqui

    Não é só tragédia que acontece aqui

    Hoje, mais uma vez, recebo no meu WhatsApp um vídeo terrível de um assassinato ocorrido no meu bairro.

    Veio de todo lugar: da vizinhança, de conhecidos, de gente que mora no exterior. O que mais me incomoda não é só a violência, porque, infelizmente, ela é parte do cotidiano das periferias do Brasil — vinda tanto do Estado quanto de justiceiros autoproclamados. O que mais dói é ver como a mídia tradicional aproveita esses episódios para reforçar a mesma narrativa de sempre: a de que o nosso território é sinônimo de barbárie.

    Não é coincidência.

    Existe uma escolha editorial deliberada em mostrar apenas a dor, a morte, o medo. As câmeras apontam para os tiros, mas ignoram as sementes que florescem. Ignoram a potência que existe nos becos e vielas, na arte, no conhecimento, na construção coletiva.

    É preciso compreender que a construção da imagem pública de um território não é neutra: ela é um projeto. A cobertura midiática que insiste em retratar a Baixada Fluminense como um campo de guerra não apenas ignora as manifestações de vida, criatividade e resistência que florescem aqui, como também contribui para a manutenção de políticas públicas de abandono.

    Ao associar continuamente a periferia à violência, alimenta-se o medo, justifica-se a ausência do Estado na promoção de direitos e estimula-se a lógica do controle armado e da repressão como única resposta possível. Esse apagamento sistemático de iniciativas como o Instituto Enraizados — que promove educação, arte, cultura e autonomia — não é fruto do acaso, mas da escolha por manter invisível o que ameaça a lógica dominante: a potência organizada das periferias.

    Enquanto a imprensa noticia com gosto as mortes — muitas vezes com requintes de espetáculo —, a própria população local, consciente ou inconscientemente, reforça o estigma impresso pela narrativa midiática ao compartilhar incansavelmente a “notícia tenebrosa”. Enquanto isso, a menos de 1km do local onde o crime aconteceu, o Instituto Enraizados — uma associação cultural fundada no coração de Morro Agudo — realizava, silenciosamente, o que a imprensa não mostra, como consta abaixo.

    Somente em 2025, realizamos:

    1. Um seminário internacional em parceria com uma das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos, a Duke University, levando cinco jovens para se apresentarem artisticamente, compartilharem pesquisas feitas no bairro e promoverem intercâmbio cultural com jovens de outros países;
    2. Três edições do Sarau Poetas Compulsivos, que há mais de 10 anos cultiva a literatura na Baixada Fluminense;
    3. Uma edição do evento “Poesia, Rap & Samba”, celebrando a cultura preta em todas as suas linguagens;
    4. Uma edição do Acampamento Musical, reunindo 30 artistas do estado, incluindo moradores da Providência e dos Prazeres;
    5. Uma edição do Cine Tela Preta, um cineclube com curadoria de filmes dirigidos e protagonizados por pessoas negras;
    6. Aulas de teatro em parceria com o Projeto Teatro Nômade;
    7. Seis masterclasses com temas como Produção Cultural e Justiça Ambiental;
    8. Mais de 50 aulas no Curso Popular Enraizados, nosso pré-vestibular comunitário, que já ajudou mais de 20 jovens a entrarem na universidade;
    9. E, pra fechar, nos dias 3 e 4 de maio, realizamos o Festival Caleidoscópio, com 24 horas de programação e cerca de 100 artistas se apresentando, tudo produzido por 30 jovens formados no nosso curso de produção cultural.

    Duas curiosidades que a imprensa ignorou:

    • Entre 1º de fevereiro e 4 de maio de 2025, cerca de 2 mil pessoas passaram pelo Quilombo Enraizados — e nenhuma briga foi registrada.
    • Em 25 anos de história, jamais houve uma confusão sequer nas atividades promovidas pelo Instituto Enraizados.

    Ou seja, não é a violência que nos reje, nossa potência definitivamente não está na violência, mas na produção de arte e de experiências culturais ricas.

    Veja bem, mesmo com assessoria de imprensa contratada, quase não houve cobertura para o nosso festival — salvo pelas nossas próprias ações de comunicação, que, ainda assim, conseguiram alcançar quase 200 mil contas apenas no Instagram, ao longo de um mês de produção intensa.

    Nenhuma matéria destacou nossas conquistas. Nenhuma chamada de capa. Nenhuma nota de rodapé. Nenhuma mensagem de parabéns, nenhum aplauso. O silêncio é ensurdecedor.

    Mas basta uma voz alterada, um mal-entendido ou um suposto conflito para que os holofotes se acendam. Aí sim, viriam as manchetes, os compartilhamentos em massa, os julgamentos apressados, os dedos apontados.

    Porque para a lógica perversa da grande mídia — e muitas vezes, da própria opinião pública —, a periferia só interessa quando está sangrando. Quando está produzindo, educando, festejando, reinventando o mundo… isso não vira notícia.

    Por isso, repito sempre: a periferia precisa contar suas próprias histórias.

    Precisamos deixar de reproduzir o discurso do opressor e reconhecer nosso papel como produtores de cultura, afeto, resistência e vida. E quando digo que precisamos narrar a nós mesmos, não é por vaidade ou orgulho identitário — é por estratégia de sobrevivência.

    Porque enquanto a violência mobiliza manchetes e reforça políticas de medo e controle, é a nossa capacidade de organização, de coletividade e de criação que verdadeiramente transforma o território. Quando tomamos para nós o direito à palavra, ao microfone, à caneta e à câmera, não apenas mudamos o enredo — reescrevemos o final.

    A imprensa vende desgraça. Nós plantamos futuro.

  • A universidade rimou: uma tese, muitas histórias

    A universidade rimou: uma tese, muitas histórias

    Nem sei por onde começar. São tantas coisas a dizer, tantos sentimentos que permeiam meu coração, mas vou começar do jeito que dá—transbordando o que sinto, deixando que as palavras fluam.

    Este processo de pesquisa foi, sem dúvida, um grande aprendizado. Aprendi a olhar para lugares que antes não enxergava, a ouvir de forma atenta e afetuosa essa juventude potente que orbita o Quilombo Enraizados e participa das atividades do RapLab e tantas outras, e a refletir sobre nossas próprias práticas e vidas. Mas, acima de tudo, aprendi a inventar mais futuros possíveis para nós.

    Conectei minhas redes a outras redes educativas, e isso expandiu meus horizontes de uma forma que eu jamais imaginei. Lembro-me de uma conversa que tive com minha grande irmã, Lisa Castro, quando ainda estava no mestrado. Ela me perguntou se a universidade tinha me mudado. Na época, respondi que sim, mas que minha presença e de tantos outros iguais a nós, também tinha mudado a universidade de alguma forma.

    Hoje, minha resposta seria diferente. Diria:

    — Sim, minha amiga, entrar para a universidade mudou minha vida. Ou melhor, mudou as nossas vidas, a minha, a sua e de tantos outros que suas redes se cruzam com as nossas.

    Graças a essa jornada acadêmica, conheci pessoas incríveis e me conectei com o grupo de pesquisa Juventudes, Infâncias e Cotidianos (JICs), onde encontrei pessoas que hoje são parte importantíssima do Enraizados. São pessoas que nos ensinam tanto quanto aprendem conosco. Graças a essas conexões, chegamos ao terceiro ano do Curso Popular Enraizados, com contribuições fundamentais da Bia, da Júlia e da Maria, à terceira turma de teatro em parceria com o Projeto Teatro Nômade, graças a Luísa e a toda turma do Projeto Teatro Nômade, e esses projetos não só impactaram minha trajetória, mas também envolveram minha esposa, meu filho e a família da própria Lisa. Hoje, minha irmãzinha cursa pedagogia, minha esposa está prestes a entrar para cursar história na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, aqui em Nova Iguaçu, ambas estudaram no Curso Popular Enraizados. Meu filho, com apenas sete anos, já atuou em duas peças teatrais.

    As redes foram se cruzando, as possibilidades se ampliando, e hoje vejo dezenas de pessoas que tiveram suas vidas transformadas a partir dessas conexões.

    O dia da defesa de doutorado foi um dos mais intensos da minha vida. Organizar transporte, lanches, presentes, preparar slides, ensaiar… Um turbilhão de tarefas. Nada disso seria possível sem a força coletiva de tantos amigos que chegaram e nunca mais saíram.

    Um amigo conseguiu o ônibus, outro a van, e minha esposa preparou cuidadosamente os kits de lanche para todos. Samuca estava mais ansioso que eu, porque percebia que, no meio da produção desse dia, eu não encontrava tempo para ensaiar minha apresentação.

    Antônio Feitosa chegando no Quilombo Enraizados, às 5:30 da manhã

    Baltar, Higor, FML, DMA, Samuca e Kaya

    Enraizados rumo a UFF, de ônibus

    Marcamos a saída para as 5h30 da manhã, e todos chegaram pontualmente ao Quilombo Enraizados. Dorgo seguiu comigo de carro, que já estava carregado com um isopor cheio de bebidas e gelo, projetor, caixa de som, cabos e outros equipamentos. Seguimos viagem cantando para aliviar a tensão, embora eu estivesse em um estado quase mecânico, semelhante ao que senti no dia do nosso show no Rock in Rio. A meta era clara: viver o dia, fazer o que havia sido ensaiado e não improvisar. O famoso “sorria e acene”.

    Mas, como em toda grande história, imprevistos aconteceram.

    Ainda na Avenida Brasil, um carro bateu na traseira do meu. O barulho foi assustador, e saí do carro sem conseguir disfarçar minha insatisfação. O motorista do outro veículo estava visivelmente nervoso, mas, felizmente, não houve grandes danos e seguimos viagem.

    Ao chegar na UFF, outro desafio: o auditório reservado para a defesa estava ocupado por um evento de química. Tivemos que nos adaptar rapidamente e mudar para o auditório do Bloco F. Mesmo com os contratempos, tudo foi resolvido com o apoio das minhas amigas do JICs, que cuidaram da burocracia, do café da manhã, da comunicação da mudança de sala e de mais um monte de coisas. Luísa, Inês, Bia, Andreza, Pedro, Laís, Ravelly, Rebecca… Quase todas e todos  estavam lá. Senti falta da Patrícia, da Clarice, da Maria Fernanda que infelizmente não puderam estar presentes.

    Minha amiga Emília me recebeu com um presente logo na minha chegada —uma linda orquídea e um bolo de rolo, um gesto de carinho que guardarei para sempre. Ana Massa, amiga de quase duas décadas, também estava lá. Foi emocionante perceber que aquela conversa que tivemos anos atrás, em Paris, sobre fazer eu doutorado, quando eu ainda nem tinha começado a graduação, finalmente se concretizava.

    Lista de Presença?
    Valter Filé observando a apresentação de Dudu de Morro Agudo

    Ana Enne, minha querida amiga e professora da UFF, que conheci lá pelos anos de 2010, quando trouxe sua turma de graduandos para conhecer o nosso Pontão de Cultura e nossa rádio web, onde o âncora era uma criança de 11 anos. Ela também esteve presente.

    Cada detalhe foi pensado com amor e dedicação. Higor Cabral e Josy Antunes registraram tudo com filmagens e fotografias, Aclor fez belos registros em vídeo e Baltar criou um flyer incrível para divulgar o grande dia. A presença de tantos amigos, colegas e familiares tornou tudo ainda mais especial.

    A banca era o time dos sonhos. Sou fã de cada membro, tanto por suas trajetórias acadêmicas quanto por seus posicionamentos políticos e ideológicos. Adriana Facina, Adriana Lopes, Valter Filé, João Guerreiro e minha orientadora, Nivea Andrade. Infelizmente, Erica Frazão não pôde estar presente por motivos pessoais, mas sua contribuição na qualificação foi fundamental.

    Banca formada por Adriana Facina, Adriana Lopes, Nivea Andrade, João Guerreiro e Valter Filé, ao lado Dudu de Morro Agudo

    Como homenagem à cultura hip hop, fizemos um zine, inspirado nos coletivos dos anos 90, com o resumo da pesquisa e as letras das músicas “Reflexões que ainda me tiram o sono”—uma criação nascida dentro da universidade, na disciplina Psicologia da Arte, ministrada pela professora Zoia Prestes, a quem sou imensamente grato—e “Jovem Negro Vivo”, a música mais emblemática dos encontros do RapLab.

    Durante a defesa, a banca fez apontamentos valiosos, que renderam discussões até no ônibus de volta para casa.

    Quando chegou minha vez de falar novamente, a emoção tomou conta. As lágrimas vieram, e aquele nó na garganta que sempre aparecia até nos momentos de ensaio da apresentação ou quando simplesmente imaginava o dia da defesa, estava lá, presente. Refletir sobre a própria trajetória é uma viagem cheia de turbulências.

    Ao final, Nivea Andrade fez uma fala emocionante, tecendo palavras sobre minha mãe, meus filhos, minha companheira e os mais velhos do Enraizados. Foi uma homenagem afetuosa e respeitosa, que tocou fundo em todos nós.

    E então, o veredito foi lido: APROVADO.

    Adriana Facina, Adriana Lopes, Nivea Andrade, Dudu de Morro Agudo, João Guerreiro e Valter Filé

    JICs: Rebecca, Ravelly, João, Gabi (agachada), Bia, Nivea, Dudu, Duduzinho, Luísa, Inês (ao meio), Laís (agachada), Andreza e Pedro

    Imperatriz (filha), Lúcia (mãe), Alcione (tia e madrinha) e Milena (prima)

    Fernanda Rocha (esposa) e Dudu de Morro Agudo

    O bonde todo.

    A festa começou. A universidade rimou e rimou. Vieram os abraços, as mensagens inundaram o WhatsApp, as redes sociais explodiram. O Enraizados inteiro se tornava doutor.

     

    Depois, a celebração continuou no Quilombo: cantamos, rimos, choramos, bebemos, comemos, caímos, tomamos banho de chuveiro, dançamos. A felicidade era palpável.

    No dia seguinte, acordei cedo e fui para o Quilombo arrumar tudo, sozinho lavando o quintal e refletindo sobre as últimas 24 horas. Os vizinhos já me chamavam de “doutor”, perguntando quando poderiam ler minha tese. Eu respondia com sorrindo:

    — Logo! Semana que vem estará nas ruas!

    Como se fosse meu novo disco.

    A ficha ainda não caiu completamente, mas sei que este não é o fim —é o início de uma nova e longa jornada. Agora é hora de agradecer, viver o momento e seguir desenhando futuros possíveis.

    Amo cada uma e cada um de vocês!

  • Raízes e Folhas: Cultivando Saberes no Quilombo – Boyra Habanero

    Raízes e Folhas: Cultivando Saberes no Quilombo – Boyra Habanero

    Olá meus leitores e leitoras, recentemente, plantei uma série de pimenteiras da espécie Boyra Habanero no Quilombo Enraizados e decidi trazer mais informações para vocês sobre essa planta fascinante. Além de ser uma atividade que adoro, plantar no Enraizados é algo que faço com frequência – a maioria das plantas que vocês veem por lá foram plantadas por mim. Cultivar é um dos meus hobbies favoritos, mas também acredito profundamente que o contato com a natureza ajuda a manter as energias do nosso espaço equilibradas, algo que considero essencial para o ambiente do Quilombo.

    Vamos lá então!!!

    A pimenta Boyra Habanero é uma variedade especial da espécie Capsicum chinense, reconhecida por seu sabor intenso e seu alto nível de pungência. Originária do México, essa pimenta tem sido apreciada mundialmente por suas diversas aplicações na culinária, na medicina tradicional e até na agricultura. Este relatório oferece um panorama completo sobre as características, utilidades, e as melhores práticas de cultivo da Boyra Habanero, abordando desde suas origens até as condições ideais para plantio, época de colheita e armazenamento.

    Origem:

    A pimenta Boyra Habanero é uma variedade do gênero Capsicum chinense, conhecida por sua intensidade de sabor e aroma, bem como por seu alto grau de picância. A pimenta Habanero, em geral, tem sua origem no México, mais especificamente na Península de Yucatán, onde é cultivada há centenas de anos. No entanto, a variedade Boyra foi desenvolvida para atender a diferentes demandas de mercado, principalmente em relação ao sabor e à facilidade de cultivo. A pimenta Habanero ganhou fama internacional por ser uma das mais picantes do mundo, e a variedade Boyra mantém essa característica, embora possa ter algumas variações sutis em seu nível de pungência.

    Características:

    A pimenta Boyra Habanero tem frutos pequenos e enrugados, de forma oval ou cônica, variando de cor do verde (imatura) ao laranja e vermelho (madura). Seu sabor é frutado, com notas cítricas, e ela apresenta um nível de pungência que pode variar de 100.000 a 350.000 unidades na Escala Scoville, que mede o teor de capsaicina (composto responsável pela sensação de ardência).

    Utilidades:

    A Boyra Habanero é amplamente utilizada na culinária, especialmente em pratos picantes e molhos. Além disso, ela tem aplicações na medicina tradicional por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Seus principais usos incluem:

    • Culinária: é usada para fazer molhos quentes, conservas, temperos e marinadas. Também é usada crua, picada em saladas, ou cozida em sopas e ensopados.
    • Medicinal: acredita-se que a capsaicina ajude na melhora da digestão, alivie dores e promova a saúde cardiovascular, além de ser utilizada em cremes e pomadas para aliviar dores musculares.
    • Defensiva agrícola: em alguns casos, os extratos da pimenta são usados como repelentes naturais de insetos em plantações.
    • Conservação de alimentos: sua alta concentração de capsaicina pode ajudar na preservação de alimentos em condições tropicais e subtropicais.

    Condições Ideais para Plantio:

    A Boyra Habanero, assim como outras variedades de Capsicum chinense, é uma planta que requer cuidados específicos para um desenvolvimento saudável:

    • Clima: prefere climas quentes e úmidos, com temperaturas que variam entre 25°C e 32°C. Ela é sensível ao frio e não cresce bem em climas com geadas.
    • Solo: o solo ideal para o cultivo da pimenta Boyra Habanero é bem drenado, rico em matéria orgânica e com pH entre 6,0 e 6,8. Solos argilosos e mal drenados podem prejudicar o desenvolvimento das raízes e favorecer o aparecimento de doenças.
    • Irrigação: a irrigação deve ser regular, mas sem encharcamento. O ideal é que o solo se mantenha úmido, mas nunca encharcado, para evitar o apodrecimento das raízes.
    • Luminosidade: a pimenta Habanero precisa de, pelo menos, 6 horas de sol direto por dia para se desenvolver adequadamente.

    Épocas de Plantio:

    O plantio da Boyra Habanero pode variar conforme a região, mas em geral, as melhores épocas são:

    • Regiões tropicais e subtropicais: pode ser plantada durante o ano todo, desde que se evitem períodos de chuva excessiva.
    • Regiões temperadas: o plantio deve ser feito na primavera, quando as temperaturas começam a subir, e o risco de geadas já passou. A colheita ocorre geralmente no verão e início do outono.

    Ciclo de Cultivo:

    O ciclo da pimenteira Boyra Habanero, desde o plantio até a colheita, pode variar entre 90 a 120 dias. Após a germinação, a planta começa a florescer por volta de 60 a 70 dias e os frutos amadurecem após aproximadamente 20 a 30 dias. A colheita deve ser feita com os frutos totalmente maduros, quando estiverem em sua cor final (vermelha ou laranja).

    Cuidados Específicos:

    • Controle de pragas: a Boyra Habanero pode ser suscetível a algumas pragas, como pulgões e mosca-branca. O uso de controle biológico ou defensivos naturais é recomendado para evitar danos ao fruto.
    • Poda: podas leves podem ser feitas para estimular o crescimento lateral e aumentar a produção de frutos.
    • Rotação de culturas: evitar o plantio sucessivo da mesma cultura no mesmo local ajuda a prevenir doenças do solo, como fungos e bactérias.

    Colheita:

    A colheita deve ser feita manualmente para evitar danos à planta. O ponto ideal de colheita ocorre quando os frutos estão completamente maduros, de cor vibrante (geralmente laranja ou vermelha), e firmes. Após a colheita, os frutos podem ser usados frescos ou secos e moídos para a produção de temperos.

    Armazenamento:

    As pimentas podem ser armazenadas frescas por até duas semanas em local fresco e ventilado, ou por mais tempo se forem desidratadas. Para desidratação, recomenda-se cortar os frutos ao meio e secá-los ao sol ou em desidratadores elétricos. As pimentas desidratadas podem ser armazenadas por meses em frascos herméticos.

    Considerações Finais:

    A pimenta Boyra Habanero é uma excelente escolha para quem deseja uma pimenta de sabor intenso, com aplicações variadas na culinária e na saúde. Seu cultivo é viável em climas quentes e úmidos, desde que se respeitem suas necessidades de solo, temperatura e irrigação. A colheita é produtiva e, com os cuidados adequados, a planta pode produzir frutos por até dois anos.

  • De Durham a Nova Iguaçu: A visita da Duke University ao CIEP 216

    De Durham a Nova Iguaçu: A visita da Duke University ao CIEP 216

    No último dia 12 de agosto, uma comitiva de estudantes da Duke University, liderada pelo professor Dr. John French e composta por Julian Alvarez (doutorando em História), Travis Williams (mestrando em Teologia), Rafael Moura, Akshay Gokul e Yuri de Melo Costa (estudantes de graduação na Duke University) e Rhayssa dos Santos Braz (estudante de graduação na Duke Kunshan University, na China), integrantes do projeto “Activism, Culture and Education for Citizenship in Brazil and the U.S.”, visitou o CIEP 216, em Corumbá, Nova Iguaçu, para conhecer o diretor Welton Cordeiro, além de professores e alunos.

    Julian Alvarez, Yuri de Melo, Travis Williams, Akshay Gokul, John French, Rafael Moura e Rhayssa Braz no CIEP 216

    O projeto visa reunir acadêmicos, artistas e estudantes da Duke University, da North Carolina Central University (NCCU), do Instituto Enraizados e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro para investigar formas-chave de ativismo e organização cultural. Estas formas incluem movimentos negros, feministas e LGBTQ+, a memorialização da escravidão, expressões religiosas e musicais locais, além de examinar eleições e lutas urbanas e trabalhistas, especialmente entre professores de escolas públicas.

    Visitantes da Duke e Dudu de Morro Agudo com o diretor Welton Cordeiro em uma pintura da logo do Enraizados feita por estudantes da escola

    A visita ao CIEP 216 tinha como objetivo inicial conhecer a estrutura da escola e entender, junto ao diretor, o funcionamento diário da instituição. O diretor Welton Cordeiro guiou os visitantes pela escola, apresentando a quadra esportiva e compartilhando sua trajetória pessoal, desde sua formação até se tornar professor e diretor. Em seguida, levou-os ao refeitório, onde mencionou um projeto futuro de construção de uma horta para que os cozinheiros possam utilizar os alimentos cultivados nas refeições dos alunos.

    O CIEP 216 é a maior escola pública do Rio de Janeiro em termos de área externa, o que torna a manutenção um desafio significativo. O diretor confirmou que essa é uma das principais dificuldades enfrentadas por ele e sua equipe na gestão da escola.

    O ponto alto da visita foi um encontro organizado pelo diretor Welton e alguns professores no auditório, onde os estudantes da escola puderam interagir com os visitantes. Após as apresentações individuais dos convidados, que incluíram brasileiros ou falantes fluentes de português, o entusiasmo dos estudantes aumentou com a fala de Travis Williams e Akshay Gokul, que falaram em inglês e foram traduzidos pelo professor John French. Rhayssa Braz também despertou curiosidade ao compartilhar sua experiência de estudo na China. A última a se apresentar foi a artista Aclor, integrante do Instituto Enraizados e do projeto, que, mesmo um pouco envergonhada, recitou uma poesia intercalada com trechos de músicas populares, conquistando o público.

    Rhayssa Braz, estudante de graduação na Duke Kunshan University, na China, se apresentando

    Ao final, muitos estudantes pediram autógrafos aos visitantes, surpreendendo a comitiva com essa atitude inesperada. Após a atividade, os visitantes foram para a sala dos professores, onde interagiram com professores que participaram e auxiliaram na organização do evento.

    A visita ao CIEP 216 proporcionou um enriquecedor intercâmbio cultural e educativo entre a comitiva da Duke University e a comunidade escolar de Nova Iguaçu. O encontro permitiu que os estudantes da Duke conhecessem de perto a realidade e os desafios enfrentados por uma das maiores escolas públicas do Rio de Janeiro. A troca de experiências e a calorosa recepção dos alunos ressaltaram a importância da colaboração e do entendimento mútuo na promoção de ativismo e cultura.

    Fotografia com os alunos do CIEP 216

    Este tipo de intercâmbio não apenas enriquece o aprendizado acadêmico, mas também fortalece laços entre diferentes culturas e contribui para a construção de uma cidadania global mais inclusiva e consciente.

  • Cultura Hip Hop: Parceria internacional entre Brasil e Chile no Quilombo Enraizados

    Cultura Hip Hop: Parceria internacional entre Brasil e Chile no Quilombo Enraizados

    No último dia 10 de agosto, o Quilombo Enraizados recebeu os artistas chilenos Egrosone (rapper) e Mauro QuJota (produtor musical) para participar do Acampamento Musical, um intercâmbio musical promovido pelo Instituto Enraizados. Esse evento reúne rappers e beatmakers para colaborar na criação de uma música inédita.

    Além de Egrosone e Mauro QuJota, o encontro contou com a presença de artistas renomados como DJ Dorgo, Kr7, Baltar, Jovem RD, Kall Gomes, Lisa Castro, Átomo, Ninja, Rico Mesquita, Aclor e o beatboxer chileno WallBeats. Juntos, eles produziram uma faixa que será lançada nos canais da Hulle Brasil e do Instituto Enraizados.

    Esse intercâmbio é fruto de uma parceria de duas décadas entre os Pontos de Cultura Trocando Ideia e Enraizados, representados por Fabiana Menini e Dudu de Morro Agudo. O objetivo é fortalecer os laços culturais entre as instituições FlowRida e Instituto Enraizados. Como parte desse esforço, artistas brasileiros estão se preparando para viajar ao Chile e participar do “Festival Estilo & Mensaje”, que será realizado em Santiago no final de outubro. Em contrapartida, os artistas chilenos foram convidados para a próxima edição do “Festival Caleidoscópio”, prevista para acontecer em Morro Agudo em 2025.

    Festival Estilo & Mensaje

    O Festival Estilo & Mensaje é um evento cultural de destaque em Santiago, Chile, que celebra a cultura hip hop e suas diversas expressões, incluindo rap, breakdance, graffiti e DJing. O festival oferece uma plataforma para artistas, especialmente jovens, mostrarem seu talento e se conectarem com o público e outros criadores. Além das apresentações artísticas, o festival inclui workshops, palestras e debates focados no desenvolvimento da cultura hip hop e na reflexão sobre questões sociais e políticas relevantes para as comunidades urbanas. O Estilo & Mensaje desempenha um papel crucial na cena cultural de Santiago, sendo um ponto de encontro para artistas, ativistas e entusiastas do hip hop de toda a América Latina.

    Festival Caleidoscópio

    O Festival Caleidoscópio é um evento multicultural anual realizado desde 2015 em Morro Agudo, Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. O festival promove a formação profissional e de público, fomenta a cultura local e incentiva a produção artística na região. Com uma abordagem colaborativa que funde arte e ativismo, o evento incita reflexões sobre desigualdade social e outras questões cruciais no Brasil. O festival apresenta uma ampla variedade de manifestações culturais, incluindo música, dança, teatro, artes visuais, cinema e literatura.

    Um dos pilares do Festival Caleidoscópio é o CPPEC (Curso Prático de Produção de Eventos Culturais), que oferece formação técnica, profissional e artística para jovens periféricos. Os participantes desenvolvem habilidades práticas em produção cultural, culminando na realização de três microprojetos e do festival, que tem duração de 12 horas. O evento alinha-se com sete dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, promovendo segurança pública, economia, qualidade de vida e valorização da cultura local. Como motor de desenvolvimento social, econômico e cultural para a Baixada Fluminense, o festival conta com o apoio de diversas instituições e empresas.

    Para saber mais sobre as instituições envolvidas, acesse os links abaixo:

    – FlowRida: https://www.instagram.com/flowrida.cl
    – Instituto Enraizados: https://www.instagram.com/institutoenraizados

  • Imersão Enraizados: Um encontro cultural entre Chile, Estados Unidos e Brasil no Quilombo Enraizados, em Nova Iguaçu, na próxima terça (13).

    Imersão Enraizados: Um encontro cultural entre Chile, Estados Unidos e Brasil no Quilombo Enraizados, em Nova Iguaçu, na próxima terça (13).

    Na próxima terça-feira, 13 de agosto, o Quilombo Enraizados sediará uma atividade cultural especial intitulada “Imersão Enraizados”.

    Esta imersão é composta por uma série de atividades realizadas por artistas e ativistas do Instituto Enraizados com o objetivo de apresentar a instituição para parceiros e visitantes.

    A programação inclui um café da manhã, que oferece uma oportunidade para interação com os anfitriões, seguido por um tour pelas instalações do Quilombo. Em seguida, haverá uma apresentação formal dos projetos desenvolvidos pelo instituto, culminando em um mix de atividades culturais, como exposições, sarau de poesias e uma batalha de rimas.

    Tour pelas instalações do Quilombo Enraizados.

    A Imersão Enraizados é aberta ao público, permitindo que qualquer pessoa interessada participe, desde que se inscreva previamente com a equipe do Instituto através do whatsapp (21)9.6566-8219.

    Nesta edição, estarão presentes a produtora cultural Fabiana Menini, de Porto Alegre, o rapper chileno MC Egrosone e o produtor musical chileno Mauro QuJota, além de uma comitiva de seis estudantes da Duke University, liderada pelo historiador e professor Dr. John French.

    Este evento marcará o início de uma série de atividades culturais e educacionais que acontecerão ao longo dos dez dias em que a comitiva americana estará em Nova Iguaçu. Enquanto os artistas chilenos permanecerão na cidade até o dia 14 de agosto, a comitiva americana ficará até o dia 21. Embora tenham vindo para diferentes atividades no Instituto Enraizados, todos estarão reunidos nesta imersão.

    Os estudantes da Duke University que chegam em Nova Iguaçu nesta segunda-feira (12) fazem parte do projeto “Activism, Culture and Education for Citizenship in Brazil and the U.S.”, projeto este que reúne acadêmicos, artistas e estudantes da Duke University, North Carolina Central University (NCCU), Instituto Enraizados e Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, com o objetivo de investigar as principais formas de ativismo e organização cultural em Morro Agudo, abrangendo movimentos negros, de mulheres e LGBTQ+, além da memorialização da escravidão e das expressões religiosas e musicais locais.

    Dorgo durante apresentação artística.
    Dorgo durante apresentação artística.

    A equipe do projeto também examinará questões como eleições, lutas urbanas e trabalhistas, especialmente entre professores de escolas públicas. O resultado desta pesquisa será apresentado em uma conferência internacional de pesquisa que será realizada em março de 2025, na Duke University e na NCCU, na Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

    Os estudantes da Duke University que estarão nesta viagem incluem Julian Alvarez, candidato a PhD no Departamento de História; Rhayssa Braz, estudante do terceiro ano na Duke Kunshan University; Yuri De Melo Costa, de Juiz de Fora, Minas Gerais, especializado em Economia e Estudos de Políticas Públicas; Akshay Gokul, estudante do terceiro ano, especializado em Política Pública e Economia; e Travis Willian, que possui formação em Direito e Serviço Social, atualmente estudando Teologia na Duke University. Para todos eles, exceto os brasileiros, esta será a primeira visita ao Brasil.

    Durante a “Imersão Enraizados”, eu, Dudu de Morro Agudo, apresentarei formalmente o Instituto Enraizados, compartilhando um pouco da nossa história e destacando os principais projetos e programas que desenvolvemos. A programação contará com a exposição “Nós Todes”, de Aline Ignácio, e a exposição fotográfica “Meu Bairro, Meu Ambiente”.

    Além disso, teremos intervenções poéticas de Lisa Castro, Baltar, Aclor, e outros talentosos poetas, uma emocionante batalha show com Jovem RD e Kr7, e para completar, DJ Dorgo comandará a discotecagem, garantindo a trilha sonora do evento.

    Lisa Castro durante apresentação artística.

    Este evento promete ser um marco na troca cultural e na construção de laços entre o Instituto Enraizados e seus parceiros internacionais, destacando a importância da cultura, do ativismo e da educação como ferramentas de transformação social.

    Todos e todas estão convidados a participar desta imersão e a vivenciar de perto o que faz do Quilombo Enraizados um espaço de resistência, criatividade e conhecimento compartilhado.

    Não perca a oportunidade de fazer parte deste encontro que unirá talentos, histórias e perspectivas diversas em um ambiente de aprendizado e celebração.

    SAIBA MAIS:
    Imersão Enraizados
    Data: 13 de agosto de 2023
    Horário: 10h às 13h
    Local: Quilombo Enraizados, Rua Presidente Kennedy, 41, Morro Agudo, Nova Iguaçu, RJ

  • Dia do Folclore: Troca de saberes e culturas entre a Duke University e o CIEP 172

    Dia do Folclore: Troca de saberes e culturas entre a Duke University e o CIEP 172

    No dia 15 de agosto, quinta-feira, o CIEP 172 – Nelson Rodrigues sediará um intercâmbio entre professores e estudantes da escola, alunos da Duke University, e artistas do Instituto Enraizados, como parte do projeto “Activism, Culture and Education for Citizenship in Brazil and the U.S.”.

    Este projeto busca unir acadêmicos, artistas e estudantes da Duke University, da North Carolina Central University (NCCU), do Instituto Enraizados, e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. O objetivo é explorar as principais formas de ativismo e organização cultural, abrangendo movimentos negros, feministas e LGBTQ+, a memorialização da escravidão, e as expressões religiosas e musicais locais. Além disso, a equipe do projeto examinará eleições e lutas urbanas e trabalhistas, especialmente entre professores de escolas públicas.

    Para este evento, eu, Dudu de Morro Agudo, juntamente com o educador e animador cultural Antônio Feitosa, e o grafiteiro e arte-educador FML, estamos organizando uma celebração em homenagem ao Folclore Brasileiro, que é dia 22 de agosto. Entre as atividades planejadas, teremos uma exposição fotográfica do projeto “Meu Bairro, Meu Ambiente” e um sarau de poesias com artistas do Instituto Enraizados.

    No dia 9 de agosto, o grafiteiro FML conduzirá uma oficina de pintura, onde os estudantes da escola criarão um painel em homenagem aos artistas locais Jota Rodrigues e João do Vale, que alcançaram expressão nacional, e que será exposto no dia 15. A proposta é que, durante as atividades culturais, tanto os estudantes do CIEP quanto os alunos da Duke University possam interagir, aprendendo e compartilhando sobre suas respectivas culturas.

    Jota Rodrigues e João do Vale

     

    Tanto Jota Rodrigues quanto João do Vale traziam fortemente o folclore brasileiro em suas criações. Suas obras foram profundamente enraizadas nas tradições populares do Nordeste do Brasil. Eles utilizava elementos do folclore em suas músicas, retratando a vida e os costumes do povo nordestino com grande autenticidade e sensibilidade.

    Lembrando que o Folclore Brasileiro é um conjunto de manifestações culturais populares que englobam tradições, lendas, danças, festas, músicas, crenças, e costumes transmitidos oralmente de geração em geração. Essas manifestações refletem a diversidade cultural do Brasil, resultante da mistura de influências indígenas, africanas, europeias, e outras culturas que compõem a sociedade brasileira.

    Por isso, este intercâmbio é uma oportunidade única para promover a troca cultural e educacional entre estudantes e artistas de diferentes contextos. Ao celebrar o mês do Folclore Brasileiro e honrar artistas locais, o evento não apenas enriquece o conhecimento dos participantes, mas também fortalece os laços comunitários e internacionais.

    A atividade será exclusiva para os estudantes da escola, com acesso restrito ao público externo, exceto para alguns artistas convidados da cidade de Nova Iguaçu.

    Jota Rodrigues

    Jota Rodrigues, nascido em Pernambuco, era caboclo, filho de um sertanejo e de uma mãe da etnia Fulni-ô. Ainda na década de 1970, migrou para o Rio de Janeiro com sua esposa e filhos, estabelecendo-se na Baixada Fluminense, no município de Nova Iguaçu. Reconhecido como poeta, Rodrigues publicou mais de 400 títulos de literatura de cordel e também produziu trabalhos em xilografia. Além disso, era um estudioso da flora medicinal, cultivando plantas em seu jardim para distribuir entre amigos e vizinhos.

    A influência de seu pai violeiro e de seu primeiro ofício – guiando um cego que memorizava versos e cantava de porta em porta – foi decisiva para a arte de Jota Rodrigues. Como ele próprio disse: “Aquilo foi me envenenando de uma tal maneira que o meu caminho era só aquele mesmo, não tinha outra coisa que me dominava”.

    Alfabetizado apenas aos 8 anos, Rodrigues se transformou em um multiartista, destacando-se no cordel, na música e nas artes plásticas. Ao longo de sua vida, publicou mais de 400 folhetos de cordel, xilogravuras, fotografias, entrevistas gravadas em vídeo e áudio, discos, novelas e roteiros de filmes.

    Depois de passar por vários lugares, fixou-se no Rio de Janeiro. Tentou se estabelecer na Feira de São Cristóvão, um reduto de cordelistas, mas foi o encontro com especialistas em cultura popular que lhe abriu portas para outros universos, como escolas e universidades, onde passou a dar palestras.

    Ainda em vida, foi reconhecido pela importância cultural de sua obra, sendo homenageado pela Câmara Municipal de Nova Iguaçu e tornando-se patrono de diversas bibliotecas escolares e comunitárias na Baixada Fluminense, onde residia.

    Jota Rodrigues faleceu em 2018, aos 84 anos. Ele é lembrado como o primeiro artista a expor na SAP, quando esta foi inaugurada em 1983, e continua sendo homenageado por suas contribuições à cultura popular e à arte brasileira.

    João do Vale

    João Batista do Vale, mais conhecido como João do Vale, foi um cantor e compositor brasileiro que deixou uma marca indelével na música popular do país. Nascido em 11 de outubro de 1934, em Pedreiras, no Maranhão, João sempre teve uma forte conexão com a música, apesar de sua origem humilde.

    Ainda jovem, em 1947, mudou-se para São Luís, onde começou a compor músicas com um grupo de Bumba meu boi chamado Linda Noite. Aos 16 anos, em 1950, chegou ao Rio de Janeiro, onde trabalhou como ajudante de pedreiro e se apresentou na Rádio Nacional, ganhando reconhecimento como o “Poeta do Povo”.

    João do Vale é autor de clássicos como “Carcará”, interpretado por Maria Bethânia, “Pisa na Fulô” com Ernesto Pires e Silveira Júnior, e “Peba na Pimenta” com Adelino Rivera. Sua carreira inclui colaborações com grandes nomes da música brasileira, como Luiz Gonzaga, Marlene, Dolores Duran e Luís Vieira.

    Um fato pouco conhecido é que João do Vale morou por 27 anos em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. De 1969 a 1996, ele residiu no conjunto habitacional Rosa dos Ventos, que mais tarde deu origem ao bairro homônimo. Durante a ditadura militar, após o sucesso de “Carcará”, João foi preso em uma manifestação camponesa e, após ser solto com a ajuda de José Sarney, retornou ao Rio de Janeiro e se estabeleceu em Nova Iguaçu com sua família. Ele permaneceu lá até sofrer um segundo derrame, após o qual voltou para sua cidade natal, Pedreiras, onde faleceu em 6 de dezembro de 1996, aos 62 anos.

    O legado de João do Vale é amplamente celebrado, incluindo homenagens em peças teatrais e a trilha sonora da novela “Cordel Encantado” da TV Globo, que contou com suas músicas “Carcará” e “Estrela Miúda”. Em 1995, o teatro no centro de São Luís foi batizado em sua homenagem.

    Toda a história de sua vida em Nova Iguaçu está documentada no livro “Rosa dos Ventos, a estrela miúda de João do Vale”, fruto da pesquisa acadêmica de Marize Conceição na Universidade Federal Fluminense (UFF). O livro, lançado no Centro de Convivência Nordestina no bairro da Luz, detalha como João do Vale foi morar no conjunto habitacional Rosa dos Ventos durante a ditadura militar e permaneceu ali até pouco antes de sua morte.

    SAIBA MAIS:

    Dia do Folclore – Intercâmbio Internacional
    15 de agosto de 2024 – Das 10:30 às 13:00
    No CIEP 172 – Nelson Rodrigues, em Morro Agudo

    Activism, Culture and Education for Citizenship in Brazil an the U.S. : https://sites.duke.edu/project_duke_baixada_project

     

  • A revolução silenciosa: hip hop e inclusão educacional

    A revolução silenciosa: hip hop e inclusão educacional

    Olá artistas, educadores, amigos e leitores dessa coluna (quase) semanal. rsrsrsr

    No meu texto de hoje quero compartilhar com vocês uma reflexão que venho fazendo sobre hip hop e educação. É um texto que está em aberto, por isso sintam-se a vontade para criticar, pois seus comentários e críticas são extremamente valiosos e contribuirão significativamente para o avanço desta reflexão.

    Vamos nessa???

    Desde os primeiros passos na cultura hip hop, minha jornada tem sido uma imersão profunda em uma escola de vida única. Posso afirmar que a cultura hip hop foi a universidade mais extensa que participei (participo) ao longo da minha vida, afinal são 30 anos dedicados a essa cultura.

    Mais do que uma expressão artística, o hip hop tornou-se um veículo de conhecimento e resistência, moldando não apenas minha visão de mundo, mas também a de muitos outros jovens que, como eu, à época, encontraram nesse movimento uma forma de compreender e questionar a realidade ao seu redor.

    O hip hop, com suas quatro manifestações principais —rap, break, graffiti e DJ— sempre foi mais do que apenas entretenimento. Ele é uma resposta cultural às condições sociais e econômicas das periferias, um espaço de contestação e construção de identidade. Para mim, essa cultura foi uma porta de entrada para um universo de ideias e experiências que a educação formal muitas vezes ignorou ou marginalizou.
    Através do rap, fui apresentado a livros e autores, discos e compositores, que jamais teria conhecido de outra forma.

     

    Alguns autores e seus textos, cantores e suas letras, passaram a fazer parte do meu repertório intelectual, muitas vezes traduzidos e adaptados pelas letras de artistas que admiro, como Mano Brown. Essas influências ajudaram a formar uma consciência crítica sobre as estruturas de poder e desigualdade, tanto locais quanto globais. Essa formação autodidata, impulsionada pela curiosidade e pelo desejo de compreender o mundo, complementou e, em muitos aspectos, superou a educação formal que recebi.

    Não quero com isso afirmar que o hip hop substitui de alguma forma a educação formal, não é isso, minha própria história poderia contradizer tal afirmativa, pois estou prestes a concluir meu doutorado em educação na Universidade Federal Fluminense (UFF), e trabalho de forma muito próxima a universidades e institutos federais, como a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e o Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), e até mesmo universidades internacionais como a Duke University e a North Carolina Central University (NCCU).

    O hip hop me fez valorizar a educação formal e compreender a importância de participar e colaborar com essas instituições. No entanto, essa riqueza cultural e educativa proporcionada pelo hip hop raramente é reconhecida ou valorizada nas instituições de ensino tradicionais. A inclusão de elementos dessa cultura em currículos escolares e em projetos culturais talvez seja uma forma poderosa para engajar estudantes e promover uma educação mais inclusiva e contextualizada. O RapLab, por exemplo, é uma iniciativa que busca explorar o rap como uma forma de produção de conhecimento em rede. Ao debater questões sociais, políticas e culturais de maneira sensível, acessível e relevante para as realidades desses jovens.

    O hip-hop me trouxe de volta à escola, desta vez como um rappereducador. Como alguém que valoriza a diversidade de conhecimentos, meu objetivo é disseminá-los em lares, escolas, ruas, praças, centros culturais, universidades, etc., por meio de escritos, músicas e das vozes poderosas de quem frequentemente não é tido como produtor de conhecimento. O hip-hop tem descolonizado minha mente há 30 anos.

    A integração do hip hop na educação não é apenas uma questão de representar culturas marginalizadas; é uma questão de justiça educacional. Os educadores e as escolas têm a responsabilidade de reconhecer e valorizar as diversas formas de conhecimento e expressão que seus alunos trazem para a sala de aula. Incorporar o hip hop e outras culturas urbanas nos currículos é uma forma de legitimar essas experiências e oferecer uma educação mais significativa e transformadora.

    No final de 2023, tive a oportunidade de liderar duas sessões do RapLab em uma escola em Ramos, no Rio de Janeiro. Foram três dias de interação com pré-adolescentes dessa escola, refletindo sobre questões raciais, com a presença de professores e diretores. No primeiro dia, tivemos um momento para nos conhecermos e ganharmos confiança uns nos outros; no segundo dia, focamos na produção intelectual; e no terceiro dia, infelizmente, foi o dia da despedida.

    Produzimos duas músicas incríveis que se tornaram uma só, pois se completavam devido ao tema. Os estudantes chamaram o diretor da escola e exigiram que aulas de rap fossem incluídas no currículo escolar. Lembro que o diretor comentou que uma pequena revolução havia começado na escola.

    DJ Dorgo ministrando o encontro do RapLab em uma escola de Ramos.
    DJ Dorgo ministrando o encontro do RapLab em uma escola de Ramos.

    Senti uma saudade de algo que ainda não tinha visto nem vivido. Percebi que, se trabalhasse durante um ano com aquelas crianças, poderíamos alcançar resultados incríveis ao final do ano. Imaginei uma sala de aula repleta de referências negras, do hip-hop e das periferias do Rio de Janeiro, com estúdio musical, câmeras de vídeo, jogos e tudo mais que pudesse permitir o máximo desenvolvimento desses jovens.
    Logo, entretanto, tirei essa ideia da mente, pois parecia distante da nossa realidade. No entanto, em março de 2024, tive a oportunidade de viajar para Athens, na Geórgia, Estados Unidos, e conheci uma escola onde o professor era rapper. A sala de aula superava tudo o que eu havia imaginado.

    William Montu I Miller, mais conhecido como Montu, é escritor, poeta, mentor e organizador comunitário, além de professor na Cedar Shoals High School. Ele também é o Embaixador da Comunidade Hip-Hop de Athens.

    Montu é escritor professor na Cedar Shoals High School
    Montu é escritor professor na Cedar Shoals High School
    Travis Willians, Dudu de Morro Agudo e John French na Cedar Shoals High School, em Athens, na Georgia.
    Travis Willians, Dudu de Morro Agudo e John French na Cedar Shoals High School, em Athens, na Georgia.
    Sala de aula da Cedar Shoals High School, em Athens, na Georgia.
    Sala de aula da Cedar Shoals High School, em Athens, na Georgia.

    Os projetos culturais que envolvem o hip hop podem atuar como espaços de resistência e empoderamento. Eles não apenas oferecem aos jovens uma plataforma para expressar suas vozes, mas também os conectam com uma comunidade maior de pensadores e artistas que compartilham suas lutas e aspirações. Esses espaços permitem que os jovens se vejam como agentes de mudança, capazes de transformar suas realidades e contribuir para uma sociedade mais justa.

    Em resumo, o hip hop desempenhou um papel crucial na minha formação e continua a ser uma força vital na educação de muitos jovens. Sua inclusão em currículos escolares e projetos culturais é essencial para construir uma educação que valorize a diversidade, promova a equidade e capacite os estudantes a se tornarem cidadãos críticos e conscientes. É através dessas vivências que podemos vislumbrar um futuro onde todas as formas de conhecimento sejam reconhecidas e celebradas.

    É isso, chegamos ao fim!!!

    Se você discorda, concorda ou tem outras ideias, não deixe de escrever nos comentários e que certamente eu responderei.

    Até mais!!!