Categoria: Coluna

  • Eddi MC lança três novos singles e reafirma a força do rap da Baixada Fluminense

    Eddi MC lança três novos singles e reafirma a força do rap da Baixada Fluminense

    Rapper de Belford Roxo retoma carreira solo com músicas inéditas disponíveis nas plataformas digitais

    Por DJ Fábio ACM

    Eddi MC, um dos pioneiros do hip hop na baixada fluminense do Rio de Janeiro, está de volta à cena musical com o lançamento de três faixas inéditas nas plataformas digitais. Conhecido por fundar a banda Nocaute ao lado de Nino Rap, indicada ao Grammy Latino em 2002, Eddi MC segue fiel à missão de valorizar a cultura periférica e denunciar as desigualdades sociais por meio da música.

    Natural de Belford Roxo, Eddi começou sua trajetória nos anos 1980, em meio ao boom do reggae na Baixada, mas foi fisgado pelo rap ainda jovem. Com uma carreira marcada por engajamento político, ações sociais e projetos literários, o rapper nunca se afastou da arte. Agora, ele se reinventa em carreira solo, com produção independente, e mostra que sua mensagem segue atual e raiz.

    “Éramos Reis”: diálogo Brasil-África sobre racismo e resistência

    Link: https://open.spotify.com/intl-pt/track/1vNfLocSuswr3MomNvwwWO?si=47ebe387b6764746

    A primeira faixa lançada, “Éramos Reis”, é uma parceria internacional com o rapper moçambicano BIG MASTER C. Produzida por Bira Andrade, a música carrega uma lírica combativa e poética, denunciando o racismo estrutural. O encontro entre os dois artistas – um brasileiro, outro africano – reafirma os laços históricos de um povo que resiste e reivindica seu legado:

    “Éramos reis, e hoje são poucos os presidentes.
    Éramos reis no nosso continente, Brasil do procedente
    (…)
    Ao redor do mundo, ao redor do planeta
    A cor do dinheiro quase nunca é nota preta”

    O encontro entre as vozes de Eddi e Big Master C, reconhecido como “o rapper mais ligeiro da África”, une dicção afiada com consciência crítica, num diálogo entre continentes unidos por história e luta.

    “A Baixada Nunca Se Rende”: poesia da favela vira canção

    Link: https://open.spotify.com/intl-pt/track/1h1jGEj1dFtHX59yZ6t9CU?si=0ddb4d5235144347

    A segunda música, “A Baixada Nunca Se Rende”, nasce de um poema da veterana Celeste Estrela, artista mineira radicada há mais de 40 anos na favela de Manguinhos. A faixa, com produção de Du-Brown, mistura ritmos da música nordestina — zabumba e triângulo — com batidas eletrônicas da Roland 808, criando um rap híbrido e poderoso.

    “A Baixada sonha com igualdade social
    A baixada não se rende, não
    A baixada quer carinho, quer amor e atenção”

    Celeste, autora do livro Coroação Preta, é símbolo da resistência cultural da favela, e sua colaboração com Eddi MC reforça a pluralidade de vozes que compõem o cenário artístico da Baixada. A canção é um hino à periferia, à luta por dignidade e ao afeto que nasce em territórios constantemente estigmatizados.

    “Beatbox – o sexto elemento”: rap e rock para celebrar o hip hop

    Link: https://open.spotify.com/intl-pt/track/55dQUuu27OE74yD0WyVt86?si=15a4c503eafe4c5f

    A terceira novidade é “Beatbox – o sexto elemento”, faixa que reúne o rap com o rock — marca da antiga banda Nocaute — e presta homenagem ao beatbox, elemento fundamental da cultura hip hop. Produzida por Du Brown, a música conta com a participação do guitarrista Jailson Lisboa, também da Baixada (São João de Meriti), e evoca a tradição de unir estilos como fizeram Run DMC e Aerosmith em 1986.

    “Rap, DJ, break, conhecimento, grafite, beatbox – sexto elemento
    O beatbox dá um clima na roda
    Bota as ruas no centro, por isso que incomoda”

    A faixa celebra a inventividade do beatbox como caixa de som humana e reforça o papel do hip hop como movimento educacional e ancestral.
    Ainda sobre o Beatbox, Eddi MC lançou em 2007 o curta-metragem Beat Box – O Sexto Elemento, produzido de forma independente no morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro. O filme registra uma versão do Hino Nacional em ritmo do rap, interpretada por crianças de um projeto social da comunidade. Com menos de 15 minutos, o curta foi exibido em festivais no Brasil e na Holanda, e reforça o poder transformador da cultura hip hop e das tecnologias acessíveis no audiovisual.

    Para assistir, acesse o link: https://www.youtube.com/watch?v=bF5TN-78YVI

    Resistência, arte e história viva

    Além das novas músicas, Eddi MC segue ativo como escritor e militante cultural. Ele é autor de um capítulo no livro A Força das Falas Negras e integra o coletivo Baixada Nunca Se Rende, voltado à valorização dos artistas e da produção cultural da região.

    O retorno de Eddi MC não é apenas musical: é um manifesto. Sua voz ecoa por escolas, favelas e centros culturais da Baixada, reafirmando que o hip hop continua sendo ferramenta de transformação e resistência.

    Os três singles já estão disponíveis nas principais plataformas de streaming. Para quem acompanha a história do rap nacional e valoriza a força da cultura periférica, esse é um retorno que merece ser celebrado — e ouvido no volume máximo.

    Sobre o Beatbox: a bateria humana da cultura Hip Hop

    O beatbox é uma forma singular de expressão musical, nascida dentro da cultura Hip Hop nos anos 1980, em Nova York. Trata-se da arte de criar batidas, ritmos e sons apenas com o uso da boca, lábios, língua, garganta e passagem nasal. Segundo Kuhns (2014), o beatbox simula os elementos da percussão, utilizando o corpo como instrumento — por isso, também é conhecido como instrumento humano. Geralmente, é praticado por MCs e outros integrantes do Hip Hop que exploram ao máximo as possibilidades sonoras da voz.

    Inspirado nas drum machines, caixas eletrônicas de ritmo que eram caras e inacessíveis à juventude negra e periférica, o beatbox surgiu como uma alternativa criativa e acessível. Daí vem o nome “Human Beatbox”: pessoas que imitavam os sons dessas máquinas com a própria voz.

    Artistas como Doug E. Fresh e Darren “Buffy” Robinson, do grupo Fat Boys, foram pioneiros no uso da técnica, ajudando a expandir sua popularidade e sofisticação. Outros nomes como Bobby McFerrin também contribuíram para o desenvolvimento da arte vocal em outros gêneros, como o jazz.

    No Brasil, o beatbox ganhou força a partir dos anos 1990 e 2000, com nomes como Fernandinho Beatbox, de São Paulo, e Fábio Carrão, do Rio de Janeiro, que se destacaram em batalhas, shows e oficinas educativas, formando gerações de novos beatboxers.

    Os elementos básicos do beatbox são o bumbo, a caixa e o chimbal. O bumbo é produzido com pressão labial e explosão de ar ao pronunciar letras como “p” ou “b”. A caixa vocal se aproxima do som agudo de uma tarola, usando variações como “pf”, “psh” ou “ps”. Já o chimbal simula pratos de bateria e pode ser criado com as consoantes “t”, “k” ou “ch”.

    Referências:
    BETHÔNICO, Jalver. Beatbox em Loop: Crescimento de ideias e seu desdobramento na arte digital e no design sonoro. Texto Digital: Florianópolis, v. 5, n 1, p.248-275, jul. 2013.
    DEHNHARD, Tilmann. Tilmann Dehnhard: Flutebeatboxing for flute. Universal Edition, 2015.
    KUHNS, Christopher. Beatboxing and flute: Its history, repertoire, and pedagogical importance. Tese de doutorado em música, Frorida State University College of Music, Florida, 2014.
    VÁZQUEZ, Óscar. Método de Flutebox: El método para aprender y enseñar flauta beatbox. Espanha, Guzmán el bueno, 2017.
    Revista África e Africanidades – Ano I – n. 2 – Agosto. 2008 – ISSN 1983-2354
    LUDDENS, Douglas. Celeste Estrela. Wiki Favelas – Dicionário de Favelas Marielle Franco.

    Disponível em: https://wikifavelas.com.br

  • Não é só tragédia que acontece aqui

    Não é só tragédia que acontece aqui

    Hoje, mais uma vez, recebo no meu WhatsApp um vídeo terrível de um assassinato ocorrido no meu bairro.

    Veio de todo lugar: da vizinhança, de conhecidos, de gente que mora no exterior. O que mais me incomoda não é só a violência, porque, infelizmente, ela é parte do cotidiano das periferias do Brasil — vinda tanto do Estado quanto de justiceiros autoproclamados. O que mais dói é ver como a mídia tradicional aproveita esses episódios para reforçar a mesma narrativa de sempre: a de que o nosso território é sinônimo de barbárie.

    Não é coincidência.

    Existe uma escolha editorial deliberada em mostrar apenas a dor, a morte, o medo. As câmeras apontam para os tiros, mas ignoram as sementes que florescem. Ignoram a potência que existe nos becos e vielas, na arte, no conhecimento, na construção coletiva.

    É preciso compreender que a construção da imagem pública de um território não é neutra: ela é um projeto. A cobertura midiática que insiste em retratar a Baixada Fluminense como um campo de guerra não apenas ignora as manifestações de vida, criatividade e resistência que florescem aqui, como também contribui para a manutenção de políticas públicas de abandono.

    Ao associar continuamente a periferia à violência, alimenta-se o medo, justifica-se a ausência do Estado na promoção de direitos e estimula-se a lógica do controle armado e da repressão como única resposta possível. Esse apagamento sistemático de iniciativas como o Instituto Enraizados — que promove educação, arte, cultura e autonomia — não é fruto do acaso, mas da escolha por manter invisível o que ameaça a lógica dominante: a potência organizada das periferias.

    Enquanto a imprensa noticia com gosto as mortes — muitas vezes com requintes de espetáculo —, a própria população local, consciente ou inconscientemente, reforça o estigma impresso pela narrativa midiática ao compartilhar incansavelmente a “notícia tenebrosa”. Enquanto isso, a menos de 1km do local onde o crime aconteceu, o Instituto Enraizados — uma associação cultural fundada no coração de Morro Agudo — realizava, silenciosamente, o que a imprensa não mostra, como consta abaixo.

    Somente em 2025, realizamos:

    1. Um seminário internacional em parceria com uma das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos, a Duke University, levando cinco jovens para se apresentarem artisticamente, compartilharem pesquisas feitas no bairro e promoverem intercâmbio cultural com jovens de outros países;
    2. Três edições do Sarau Poetas Compulsivos, que há mais de 10 anos cultiva a literatura na Baixada Fluminense;
    3. Uma edição do evento “Poesia, Rap & Samba”, celebrando a cultura preta em todas as suas linguagens;
    4. Uma edição do Acampamento Musical, reunindo 30 artistas do estado, incluindo moradores da Providência e dos Prazeres;
    5. Uma edição do Cine Tela Preta, um cineclube com curadoria de filmes dirigidos e protagonizados por pessoas negras;
    6. Aulas de teatro em parceria com o Projeto Teatro Nômade;
    7. Seis masterclasses com temas como Produção Cultural e Justiça Ambiental;
    8. Mais de 50 aulas no Curso Popular Enraizados, nosso pré-vestibular comunitário, que já ajudou mais de 20 jovens a entrarem na universidade;
    9. E, pra fechar, nos dias 3 e 4 de maio, realizamos o Festival Caleidoscópio, com 24 horas de programação e cerca de 100 artistas se apresentando, tudo produzido por 30 jovens formados no nosso curso de produção cultural.

    Duas curiosidades que a imprensa ignorou:

    • Entre 1º de fevereiro e 4 de maio de 2025, cerca de 2 mil pessoas passaram pelo Quilombo Enraizados — e nenhuma briga foi registrada.
    • Em 25 anos de história, jamais houve uma confusão sequer nas atividades promovidas pelo Instituto Enraizados.

    Ou seja, não é a violência que nos reje, nossa potência definitivamente não está na violência, mas na produção de arte e de experiências culturais ricas.

    Veja bem, mesmo com assessoria de imprensa contratada, quase não houve cobertura para o nosso festival — salvo pelas nossas próprias ações de comunicação, que, ainda assim, conseguiram alcançar quase 200 mil contas apenas no Instagram, ao longo de um mês de produção intensa.

    Nenhuma matéria destacou nossas conquistas. Nenhuma chamada de capa. Nenhuma nota de rodapé. Nenhuma mensagem de parabéns, nenhum aplauso. O silêncio é ensurdecedor.

    Mas basta uma voz alterada, um mal-entendido ou um suposto conflito para que os holofotes se acendam. Aí sim, viriam as manchetes, os compartilhamentos em massa, os julgamentos apressados, os dedos apontados.

    Porque para a lógica perversa da grande mídia — e muitas vezes, da própria opinião pública —, a periferia só interessa quando está sangrando. Quando está produzindo, educando, festejando, reinventando o mundo… isso não vira notícia.

    Por isso, repito sempre: a periferia precisa contar suas próprias histórias.

    Precisamos deixar de reproduzir o discurso do opressor e reconhecer nosso papel como produtores de cultura, afeto, resistência e vida. E quando digo que precisamos narrar a nós mesmos, não é por vaidade ou orgulho identitário — é por estratégia de sobrevivência.

    Porque enquanto a violência mobiliza manchetes e reforça políticas de medo e controle, é a nossa capacidade de organização, de coletividade e de criação que verdadeiramente transforma o território. Quando tomamos para nós o direito à palavra, ao microfone, à caneta e à câmera, não apenas mudamos o enredo — reescrevemos o final.

    A imprensa vende desgraça. Nós plantamos futuro.

  • Ritual Sonoro estreia com “Unidade” e celebra a força ancestral da música preta brasileira

    Ritual Sonoro estreia com “Unidade” e celebra a força ancestral da música preta brasileira

    Coletivo de Brasília lança seu primeiro single no Dia do Trabalhador, fundindo reggae, hip hop e espiritualidade com mensagem potente contra o racismo

    Uma estreia com propósito

    O coletivo Ritual Sonoro lançou, em 1º de maio, o single “Unidade”, que marca sua estreia oficial no cenário musical. Produzida por DJ Fábio ACM, é um manifesto que une beats digitais, tambores ancestrais e letras que evocam a força da cultura afro-brasileira.

    “A criação do coletivo Ritual Sonoro se dá na virada de 2023 para 2024, de um jeito informal. É fruto de dez anos de parceria minha com o Erik Schnabel. A gente foi forjando essa amizade, essa sociedade, até o momento de consolidar em um projeto maior”, conta Pleno, idealizador e MC do grupo.

    Reggae e Hip Hop como caminhos para a ancestralidade

    Erik Schnabel, também fundador do coletivo, reforça que o projeto é o resultado de uma longa trajetória:

    “O reggae foi minha primeira escola, abracei o estilo como forma de expressão. E quando me envolvi com o hip hop, ao ver a roda, o improviso, a ideologia, via paralelos com outras manifestações afro-diaspóricas”.

    Segundo ele, Unidade nasceu de uma imersão pessoal e criativa.

    “Quando a inspiração veio mesmo, foi em uma madrugada. Me imaginei num cenário metafórico e fui descrevendo o que via, tentando agregar significados. Unificar símbolos da resistência indígena, afro-brasileira, de reconexão e resistência”, relata Schnabel.

    Um projeto coletivo que nasce das vivências

    O Ritual Sonoro se consolidou como coletivo, selo, banda e movimento cultural. A proposta é promover uma cena musical ligada à ancestralidade, à espiritualidade e à luta contra o racismo, unindo artistas de diferentes origens em torno da música como ferramenta de transformação social.

    “A gente começou a atuar com produção de eventos, misturando nossos trabalhos e levando nossos códigos. E, ao conhecer o DJ Fábio ACM, conseguimos expandir para a música autoral e gravar nosso primeiro volume”, afirma Pleno.

    “Ritual Sonoro é fruto de várias vivências e de outras iniciativas que ensinaram muito. Um selo, uma marca, uma banda. Nosso lema é ser a ponte entre o roots e o digital”, completa Erik.

    Lançamento e próximos passos

    Unidade conta com vocais de Afroragga, além de Pleno e Schnabel. A faixa abre caminho para o primeiro álbum do coletivo, previsto para sair ao longo de 2025, com cinco faixas e participações de artistas do DF, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Jamaica.

    “A letra da Unidade é inspirada em um estudo sobre a história brasileira. Não tem como falar de cultura de resistência sem falar de racismo. Onde o Ritual Sonoro tiver, é fogo nos racistas”, enfatiza Pleno.

    Show gratuito em Brasília

    O primeiro evento de lançamento com o novo material acontece no dia 17 de maio, no espaço Baixo Norte – Livros & Discos, na 411 Norte de Brasília. O encontro terá entrada gratuita e contará com roda de conversa, discotecagem com DJ Fábio ACM, pocket show e audição exclusiva de outras faixas do álbum.

    SERVIÇO

    Baixo Norte Convida Ritual Sonoro
    📍 Local: Baixo Norte – SQN 411 Norte, Bloco E, Loja 29 – Brasília
    📅 Data: 17 de maio (sábado)
    🕓 Horário: 16h às 22h
    🎟 Entrada: Gratuita
    🔊 Atrações: Roda de conversa, DJ set, show e audição de músicas do álbum

    Acompanhe e apoie
    Ritual Sonoro: @ritualsonoro
    Pleno: @plenomc
    Erik Schnabel: @schnabel.music
    Afroragga: @afroraggafm

    https://open.spotify.com/track/7alkNOPm5X9zryUAJDKlOo?si=CNqCG07DRKSAHvyNglvx7Q

  • O Hip Hop brilhou e celebrou no Festival de Hip Hop do Cerrado

    O Hip Hop brilhou e celebrou no Festival de Hip Hop do Cerrado

     A 6ª edição aconteceu como parte das comemorações dos 54 anos da Ceilândia

    Por DJ Fábio ACM e Giovana Gomes

    Era um sábado de previsão de chuva, mas Ceilândia decidiu que o tempo seria outro. As nuvens se seguraram e deram espaço para o brilho do sol, da rima, da batida e do povo. Na Praça do Cidadão, coração pulsante da quebrada, o 6º Festival de Hip Hop do Cerrado tomou forma como um reencontro histórico — e eu, DJ Fábio ACM, tive a honra de estar lá, vivendo cada momento.

    Gente de todas as regiões do Distrito Federal se juntou naquele chão sagrado do Hip Hop. Não era só um festival. Era um chamado. Um ato de celebração, resistência e pertencimento. Ali, os quatro elementos estavam em comunhão: os b-boys e b-girls dançavam no chão, rolaram até os clássicos “passinhos”, MCs rimando, os DJs comandando a festa e o graffiti, nas paredes do Jovens de Expressão estampava a alma da Ceilândia.

    O camarim não era apenas um bastidor — era um terreiro de afeto, onde a energia entre os artistas era de verdadeira congregação. Ali, cada olhar, cada abraço e cada conversa trazia a certeza de que estávamos fazendo parte de algo maior. Estávamos continuando uma história, escrevendo mais uma página de luta, arte e identidade periférica.

    DJ Fábio ACM & DJ Raffa Santoro
    DJ Fábio ACM & DJ Raffa Santoro

    No centro de tudo isso, um nome: DJ Raffa Santoro. Um dos maiores nomes do Hip Hop nacional. Produtor premiado, DJ de respeito, mestre e inspiração. O culpado — sim, culpado com orgulho — por revelar tantos talentos e por, mais uma vez, reunir o Brasil do Hip Hop na Ceilândia. Ele, filho do maestro Claudio Santoro e da bailarina Gisele Santoro, é a soma perfeita de técnica e paixão. Viveu o exílio com a família na Alemanha, mas voltou pra Brasília e fez da cidade sua bandeira. B-boy, músico, radical, popular, periférico. Raffa é parte viva da nossa história. Seu livro “Trajetória de um Guerreiro” não é só um relato biográfico, é um documento do Brasil que rima, dança, canta e resiste.

    E resistimos. Após 11 anos de pausa, o Festival de Hip Hop do Cerrado voltou. E voltou gigante. A 6ª edição aconteceu como parte das comemorações dos 54 anos de Ceilândia — a capital do Hip Hop do DF, berço de grupos como Viela 17, Cirurgia Moral, Álibi, Câmbio Negro, Tropa de Elite e lendas como Japão e DJ Jamaika. Essa cidade, que transformou a dor em arte e a periferia em potência, merecia — e recebeu — um evento à altura.

    A Praça do Cidadão virou palco de um espetáculo que reuniu Viela 17, Atitude Feminina, MC Marechal (RJ), Cinthia Savoy (baiana radicada em Florianópolis), F-Dois (Porto Velho, RO), VK (MC de Florianópolis, filho do DJ Monkey), DJ Buiu, DJ Monkey e, claro, ele: G.O.G. — lenda viva do Hip Hop do DF, um dos momentos mais esperados da noite, e que levou o público ao delírio com sua presença.

    O festival contou com estrutura de alto nível: painéis de LED, experiências multimídia, lounge, food trucks e entrada gratuita. E mesmo com os ingressos esgotados, o público compareceu em peso. Foi emocionante.
    Do palco, vieram as rimas, as batidas e os scratchs. E também vieram as lembranças. Em um dos momentos mais marcantes da noite, o festival prestou homenagens póstumas a dois ícones que já partiram, mas seguem vivos na história do Hip Hop brasileiro: DJ Celsão, do grupo Cirurgia Moral, e DJ Jamaika. A reverência foi justa, merecida e comovente. A memória deles vive em cada batida, em cada verso, em cada jovem que hoje ocupa o microfone e o toca-discos.

    Eu estive lá com minha amiga Giovana Gomes, que além de parceira de trampo no jornalismo, é apaixonada por Hip Hop e ajudou a trazer um pouco do protagonismo das mulheres no Hip Hop do Distrito Federal.

    A mulher no Rap

    Por Giovana Gomes

    O rap do Distrito Federal tem sido palco para vozes femininas que transformam realidades e inspiram novas gerações. No Festival Hip Hop no Cerrado, mulheres que moldaram essa cena reafirmaram sua força e legado. O grupo Atitude Feminina, que há 26 anos ocupa espaços no Hip Hop com resistência e autenticidade, teve uma participação marcante. Aninha, uma das idealizadoras do festival, relembra os desafios do início: “Os caras naquela época não queriam a gente”. Mas elas seguiram firmes, construindo um caminho sólido para outras mulheres na música. Helen, também integrante do grupo, resume o impacto de sua trajetória: “Se eu tiver tocado uma mulher, para mim é suficiente”, diz, emocionada.

    Giovana Gomes, Hellen e Aninha (Atitude Feminina)
    Giovana Gomes, Hellen e Aninha (Atitude Feminina)

    Além delas, Cintia Savoy também brilhou no evento, trazendo sua mistura de reggae e rap e reafirmando a potência das mulheres na música urbana. Ex-residente de Ceilândia, Cintia sente a conexão do público com sua arte e valoriza cada troca com quem a escuta. “Sei que Brasília ama o rap, e a Ceilândia é um berço de grandes artistas”, comenta. Com anos de estrada, ela mostra que a música não é apenas entretenimento, mas um instrumento de transformação social. O Festival Hip Hop no Cerrado foi mais uma prova de que o rap do DF segue vivo, forte e, cada vez mais, feminino.

    Um pouco da história e da presença dos artistas de outros estados no palco do festival:

    F-Dois (Porto Velho, Rondônia)

    Diretamente de Porto Velho (RO), o rapper F-Dois celebrou sua participação no 6º Festival de Hip Hop do Cerrado, na Ceilândia, destacando a importância e abrangência do evento, que reúne artistas de todo o Brasil. Ele também esteve presente na 5ª edição e considerou mais uma vez uma experiência única, elogiando a energia do público e a organização do festival. F-Dois ressaltou sua parceria com DJ Raffa Santoro, produtor de todas as suas faixas, incluindo “Quem é Você”, do álbum Pronto para Guerra, disponível no Spotify.

    DJ Monkey

    Diretamente de Florianópolis, DJ Monkey celebrou sua participação no Festival de Hip Hop do Cerrado, na Ceilândia, ao lado do filho, o rapper e produtor VK. Para ele, foi emocionante unir gerações no palco e compartilhar a caminhada com artistas como Japão e DJ Raffa, que foi peça-chave para abrir portas para VK. Monkey destacou os desafios de se fazer Hip Hop em Santa Catarina, estado com cultura eurocentrada e baixa população negra, e exaltou a importância da Ceilândia como referência para o movimento.

    Iniciando sua carreira em 1992, Monkey contou que seu primeiro disco para scratch foi o DJ Scratch, produzido pelo DJ Raffa. Hoje, ele e VK gerenciam um estúdio musical em uma escola de São José (SC), atendendo 120 crianças em contraturno escolar. VK é também o primeiro rapper de sua geração no estado a cursar licenciatura em música pela UDESC. Para Monkey, o Hip Hop vai além da arte: “é ferramenta de transformação social e intergeracional.”

    MC VK (Florianópolis, SC)

    Com 19 anos, VK iniciou sua trajetória no rap aos 12, influenciado pelo pai, DJ Monkey, e pelo convívio desde a infância com estúdios e artistas em Florianópolis. Em sua fala no palco do 6º Festival de Hip Hop do Cerrado, na Ceilândia, destacou os desafios de fazer rap em Santa Catarina, um estado marcado pela cultura eurocentrada e com poucos espaços para a cena negra. Mesmo assim, ressaltou a qualidade e resistência dos artistas locais.

    VK celebrou a oportunidade de dividir palco com nomes como G.O.G., Japão e Atitude Feminina, agradecendo especialmente a DJ Raffa e Japão pelo apoio desde seus 14 anos. Contou também sobre os eventos que fortalece com o pai em Florianópolis, como o tradicional Baile Charme e batalhas de rima. O V de Victor, traz um K, em homenagem ao seu padrinho e pioneiro do Hip Hop em SC, o DJ Kchaça.

    Nova edição do festival confirmada

    A proposta do festival foi clara e poderosa: descentralizar o eixo Rio-SP e valorizar a cultura periférica, mostrando que a arte que nasce nas bordas transforma o centro. E conseguiu. Com maestria.
    A emoção ainda pulsa no meu peito. Vi sorrisos, lágrimas, danças, crianças no ombro dos pais, juventude vibrando, veteranos emocionados. Vi o Hip Hop que me formou e que continua formando tantos. Vi o futuro.

    E a melhor notícia: vem mais por aí. Uma nova edição do festival já está confirmada para o segundo semestre. Porque quando a quebrada se levanta, não tem tempo feio que segure.

  • A universidade rimou: uma tese, muitas histórias

    A universidade rimou: uma tese, muitas histórias

    Nem sei por onde começar. São tantas coisas a dizer, tantos sentimentos que permeiam meu coração, mas vou começar do jeito que dá—transbordando o que sinto, deixando que as palavras fluam.

    Este processo de pesquisa foi, sem dúvida, um grande aprendizado. Aprendi a olhar para lugares que antes não enxergava, a ouvir de forma atenta e afetuosa essa juventude potente que orbita o Quilombo Enraizados e participa das atividades do RapLab e tantas outras, e a refletir sobre nossas próprias práticas e vidas. Mas, acima de tudo, aprendi a inventar mais futuros possíveis para nós.

    Conectei minhas redes a outras redes educativas, e isso expandiu meus horizontes de uma forma que eu jamais imaginei. Lembro-me de uma conversa que tive com minha grande irmã, Lisa Castro, quando ainda estava no mestrado. Ela me perguntou se a universidade tinha me mudado. Na época, respondi que sim, mas que minha presença e de tantos outros iguais a nós, também tinha mudado a universidade de alguma forma.

    Hoje, minha resposta seria diferente. Diria:

    — Sim, minha amiga, entrar para a universidade mudou minha vida. Ou melhor, mudou as nossas vidas, a minha, a sua e de tantos outros que suas redes se cruzam com as nossas.

    Graças a essa jornada acadêmica, conheci pessoas incríveis e me conectei com o grupo de pesquisa Juventudes, Infâncias e Cotidianos (JICs), onde encontrei pessoas que hoje são parte importantíssima do Enraizados. São pessoas que nos ensinam tanto quanto aprendem conosco. Graças a essas conexões, chegamos ao terceiro ano do Curso Popular Enraizados, com contribuições fundamentais da Bia, da Júlia e da Maria, à terceira turma de teatro em parceria com o Projeto Teatro Nômade, graças a Luísa e a toda turma do Projeto Teatro Nômade, e esses projetos não só impactaram minha trajetória, mas também envolveram minha esposa, meu filho e a família da própria Lisa. Hoje, minha irmãzinha cursa pedagogia, minha esposa está prestes a entrar para cursar história na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, aqui em Nova Iguaçu, ambas estudaram no Curso Popular Enraizados. Meu filho, com apenas sete anos, já atuou em duas peças teatrais.

    As redes foram se cruzando, as possibilidades se ampliando, e hoje vejo dezenas de pessoas que tiveram suas vidas transformadas a partir dessas conexões.

    O dia da defesa de doutorado foi um dos mais intensos da minha vida. Organizar transporte, lanches, presentes, preparar slides, ensaiar… Um turbilhão de tarefas. Nada disso seria possível sem a força coletiva de tantos amigos que chegaram e nunca mais saíram.

    Um amigo conseguiu o ônibus, outro a van, e minha esposa preparou cuidadosamente os kits de lanche para todos. Samuca estava mais ansioso que eu, porque percebia que, no meio da produção desse dia, eu não encontrava tempo para ensaiar minha apresentação.

    Antônio Feitosa chegando no Quilombo Enraizados, às 5:30 da manhã

    Baltar, Higor, FML, DMA, Samuca e Kaya

    Enraizados rumo a UFF, de ônibus

    Marcamos a saída para as 5h30 da manhã, e todos chegaram pontualmente ao Quilombo Enraizados. Dorgo seguiu comigo de carro, que já estava carregado com um isopor cheio de bebidas e gelo, projetor, caixa de som, cabos e outros equipamentos. Seguimos viagem cantando para aliviar a tensão, embora eu estivesse em um estado quase mecânico, semelhante ao que senti no dia do nosso show no Rock in Rio. A meta era clara: viver o dia, fazer o que havia sido ensaiado e não improvisar. O famoso “sorria e acene”.

    Mas, como em toda grande história, imprevistos aconteceram.

    Ainda na Avenida Brasil, um carro bateu na traseira do meu. O barulho foi assustador, e saí do carro sem conseguir disfarçar minha insatisfação. O motorista do outro veículo estava visivelmente nervoso, mas, felizmente, não houve grandes danos e seguimos viagem.

    Ao chegar na UFF, outro desafio: o auditório reservado para a defesa estava ocupado por um evento de química. Tivemos que nos adaptar rapidamente e mudar para o auditório do Bloco F. Mesmo com os contratempos, tudo foi resolvido com o apoio das minhas amigas do JICs, que cuidaram da burocracia, do café da manhã, da comunicação da mudança de sala e de mais um monte de coisas. Luísa, Inês, Bia, Andreza, Pedro, Laís, Ravelly, Rebecca… Quase todas e todos  estavam lá. Senti falta da Patrícia, da Clarice, da Maria Fernanda que infelizmente não puderam estar presentes.

    Minha amiga Emília me recebeu com um presente logo na minha chegada —uma linda orquídea e um bolo de rolo, um gesto de carinho que guardarei para sempre. Ana Massa, amiga de quase duas décadas, também estava lá. Foi emocionante perceber que aquela conversa que tivemos anos atrás, em Paris, sobre fazer eu doutorado, quando eu ainda nem tinha começado a graduação, finalmente se concretizava.

    Lista de Presença?
    Valter Filé observando a apresentação de Dudu de Morro Agudo

    Ana Enne, minha querida amiga e professora da UFF, que conheci lá pelos anos de 2010, quando trouxe sua turma de graduandos para conhecer o nosso Pontão de Cultura e nossa rádio web, onde o âncora era uma criança de 11 anos. Ela também esteve presente.

    Cada detalhe foi pensado com amor e dedicação. Higor Cabral e Josy Antunes registraram tudo com filmagens e fotografias, Aclor fez belos registros em vídeo e Baltar criou um flyer incrível para divulgar o grande dia. A presença de tantos amigos, colegas e familiares tornou tudo ainda mais especial.

    A banca era o time dos sonhos. Sou fã de cada membro, tanto por suas trajetórias acadêmicas quanto por seus posicionamentos políticos e ideológicos. Adriana Facina, Adriana Lopes, Valter Filé, João Guerreiro e minha orientadora, Nivea Andrade. Infelizmente, Erica Frazão não pôde estar presente por motivos pessoais, mas sua contribuição na qualificação foi fundamental.

    Banca formada por Adriana Facina, Adriana Lopes, Nivea Andrade, João Guerreiro e Valter Filé, ao lado Dudu de Morro Agudo

    Como homenagem à cultura hip hop, fizemos um zine, inspirado nos coletivos dos anos 90, com o resumo da pesquisa e as letras das músicas “Reflexões que ainda me tiram o sono”—uma criação nascida dentro da universidade, na disciplina Psicologia da Arte, ministrada pela professora Zoia Prestes, a quem sou imensamente grato—e “Jovem Negro Vivo”, a música mais emblemática dos encontros do RapLab.

    Durante a defesa, a banca fez apontamentos valiosos, que renderam discussões até no ônibus de volta para casa.

    Quando chegou minha vez de falar novamente, a emoção tomou conta. As lágrimas vieram, e aquele nó na garganta que sempre aparecia até nos momentos de ensaio da apresentação ou quando simplesmente imaginava o dia da defesa, estava lá, presente. Refletir sobre a própria trajetória é uma viagem cheia de turbulências.

    Ao final, Nivea Andrade fez uma fala emocionante, tecendo palavras sobre minha mãe, meus filhos, minha companheira e os mais velhos do Enraizados. Foi uma homenagem afetuosa e respeitosa, que tocou fundo em todos nós.

    E então, o veredito foi lido: APROVADO.

    Adriana Facina, Adriana Lopes, Nivea Andrade, Dudu de Morro Agudo, João Guerreiro e Valter Filé

    JICs: Rebecca, Ravelly, João, Gabi (agachada), Bia, Nivea, Dudu, Duduzinho, Luísa, Inês (ao meio), Laís (agachada), Andreza e Pedro

    Imperatriz (filha), Lúcia (mãe), Alcione (tia e madrinha) e Milena (prima)

    Fernanda Rocha (esposa) e Dudu de Morro Agudo

    O bonde todo.

    A festa começou. A universidade rimou e rimou. Vieram os abraços, as mensagens inundaram o WhatsApp, as redes sociais explodiram. O Enraizados inteiro se tornava doutor.

     

    Depois, a celebração continuou no Quilombo: cantamos, rimos, choramos, bebemos, comemos, caímos, tomamos banho de chuveiro, dançamos. A felicidade era palpável.

    No dia seguinte, acordei cedo e fui para o Quilombo arrumar tudo, sozinho lavando o quintal e refletindo sobre as últimas 24 horas. Os vizinhos já me chamavam de “doutor”, perguntando quando poderiam ler minha tese. Eu respondia com sorrindo:

    — Logo! Semana que vem estará nas ruas!

    Como se fosse meu novo disco.

    A ficha ainda não caiu completamente, mas sei que este não é o fim —é o início de uma nova e longa jornada. Agora é hora de agradecer, viver o momento e seguir desenhando futuros possíveis.

    Amo cada uma e cada um de vocês!

  • A impunidade do assassino de Hailé Selassié I

    A impunidade do assassino de Hailé Selassié I

    Mengistu Haile Mariam, o assassino de Hailé Selassié I, vive em exílio no Zimbábue, desafiando a justiça e a memória histórica.

    Cerca de 50 anos após a revolução que derrubou o último imperador da dinastia salomônica, Hailé Selassié I, a justiça ainda parece um sonho distante para os milhares de etíopes que sofreram sob o regime do ditador Mengistu Haile Mariam. Apesar de condenado à morte em 2007 por genocídio e outros crimes contra a humanidade, Mengistu vive exilado no Zimbábue, protegido pelo governo local, deixando um rastro de impunidade que ecoa pelos corredores da história.

    Hailé Selassié I: O “Rei dos Reis” e o Pai do Pan-africanismo

    Hailé Selassié I, que nasceu como Tafari Makonnen em 1892, foi o líder da Etiópia entre 1930 e 1974, incluindo o período da ocupação italiana, de 1936 a 1941. Descendente direto da linhagem do rei Salomão e da rainha de Sabá, Selassié tornou-se uma figura política e espiritual influente tanto dentro quanto fora da África. Durante seu governo, promoveu a modernização do país, introduzindo a primeira universidade, companhias aéreas e hospitais na Etiópia, além de consolidar a posição do país como membro fundador da Organização da Unidade Africana (atual União Africana).
    Mesmo tendo contribuído para o desenvolvimento do país, Hailé Selassié I foi criticado por manter um sistema feudal que alimentava desigualdades. Nos anos 1970, seu governo também ficou marcado por uma fome devastadora, que acabou sendo um dos motivos para sua queda.

    No entanto, para os adeptos do Rastafarianismo — um movimento religioso que emergiu na Jamaica nos anos 1930 — Hailé Selassié I era muito mais que um imperador. Ele era visto como a reencarnação de Jah, uma figura messiânica que libertaria os descendentes africanos da opressão colonial e guiaria um êxodo espiritual e físico para a África. A visita de Selassié à Jamaica em 1966 consolidou seu status entre os rastafáris, sendo saudado por milhares, incluindo a família de Bob Marley, que mais tarde se tornaria um dos maiores divulgadores da causa.

    Estandarte Real Imperial para Haile Selassie I

    Marcus Garvey e o Rei Negro: a profecia que inspirou uma fé global

    O Salmo 87 exalta Sião como a cidade escolhida por Deus, um local de glória onde todas as nações se reúnem em harmonia. Para os rastafáris, esse salmo ecoa a visão profética de Marcus Garvey, que previu o surgimento de um rei negro na África como o salvador dos descendentes africanos no Ocidente. Essa profecia foi vista como cumprida com a coroação de Hailé Selassié I, o “Rei dos Reis” e “Leão Conquistador da Tribo de Judá”. Assim, Sião, simbolizada pela Etiópia, tornou-se um refúgio espiritual, enquanto Selassié foi identificado como a personificação de Jah na Terra, fortalecendo a identidade cultural e a fé dos rastafáris em sua busca por libertação e justiça.

    A ascensão e os crimes de Mengistu Haile Mariam

    Mengistu Haile Mariam, nascido em 1937, foi um dos principais arquitetos do golpe militar que derrubou Hailé Selassié I no ano de 1974. Mengistu, um severo coronel do exército que se tornou um marxista linha-dura, era pouco conhecido do mundo exterior quando liderou um grupo de oficiais do exército na derrubada do imperador.

    Como líder do Derg, a junta militar socialista que assumiu o poder, Mengistu consolidou sua posição por meio de expurgos sangrentos, conhecidos como o “Terror Vermelho”. Entre 1977 e 1978, milhares de oponentes políticos foram torturados e mortos. Estima-se que durante seu regime, dezenas de milhares de pessoas tenham sido assassinadas, além de milhares de desaparecidos cujos destinos permanecem um mistério.

    Entre os crimes mais infames atribuídos a Mengistu Haile Mariam está o assassinato de Hailé Selassié I. Registros históricos apontam que o imperador foi cruelmente estrangulado em seu leito em 1975 e enterrado em uma cova secreta. Anos mais tarde, após a queda do regime do Dergue, quando os restos mortais foram finalmente localizados, constatou-se que quase todos os ossos de seu corpo haviam sido brutalmente quebrados por seus algozes.

    Durante o julgamento de 67 ex-membros da junta militar liderada por Mengistu, os juízes revelaram documentos que descreviam uma reunião realizada em 23 de agosto de 1975, na qual os oficiais decidiram que “Sua Majestade Imperial Hailé Selassié I deveria ser estrangulado por ser o símbolo do sistema feudal”. Em 26 de agosto, o ato foi consumado de maneira cruel em sua própria cama. Este assassinato figura entre os mais de 2.000 homicídios e desaparecimentos supostamente ordenados sob o regime de Mengistu, deixando um legado de horror e impunidade.

    Mengistu manteve-se no poder até 1991, quando foi deposto por grupos rebeldes. Fugiu para o Zimbábue em maio daquele ano, onde recebeu asilo do então presidente Robert Mugabe. Apesar de seu julgamento e condenação à morte por genocídio em 2007, o Zimbábue recusou-se a extraditá-lo, permitindo que vivesse em luxo enquanto suas vítimas continuam a esperar por justiça.

    Mengistu continua impune no Zimbábue

    A memória de Hailé Selassié I e a persistente busca por justiça

    O legado de Hailé Selassié I permanece vivo, tanto na Etiópia quanto na diáspora africana. Em 2000, seu corpo foi reenterrado em uma cerimônia discreta na Catedral da Santíssima Trindade, em Addis Abeba. O evento atraiu lideranças religiosas, monarquistas e rastafáris de todo o mundo, reafirmando seu status como um ícone espiritual e histórico.
    Por outro lado, a sobrevivência de Mengistu Haile Mariam em exílio ilustra as complexidades da justiça internacional. O Zimbábue, sob a liderança de Mugabe, ofereceu-lhe proteção em troca de apoio político e diplomático. Essa situação, para muitos, é um lembrete de como interesses políticos podem obstruir a busca por responsabilização e reconciliação.

    A história de Hailé Selassié I e Mengistu Haile Mariam é um reflexo das contradições da luta por liberdade, poder e justiça na África. Enquanto um representava a continuidade e a resistência contra o colonialismo, o outro simboliza o custo humano de regimes totalitários. A impunidade de Mengistu continua a desafiar os avanços na governança e nos direitos humanos, provando que a justiça é, muitas vezes, uma vitória tardia e incompleta.

    O Imperador na capital brasileira: um encontro de nações

    Imagine a grandiosidade: em 1960, o Imperador Hailé Selassié I, a majestade que personificava a história e a espiritualidade da Etiópia, desembarcou em Brasília. Recebido com honras no aeroporto Juscelino Kubitscheck, acompanhado de todo o seu ministério, o imperador encantou a jovem capital brasileira. No Congresso Nacional e no Superior Tribunal Federal, Selassié foi homenageado como uma figura de grande prestígio internacional. Em uma cerimônia no Palácio do Planalto, condecorou o presidente Juscelino Kubitscheck com a Medalha de Sabá, a mais elevada honraria da Etiópia, simbolizando laços de respeito e cooperação. Durante sua estadia, o Imperador desfrutou da hospitalidade no icônico Palácio da Alvorada, deixando um marco histórico que uniu as duas nações em um momento de celebração e troca cultural.

    Hailé Selassié I e Juscelino Kubitscheck, presidente do Brasil (1960)

    Hailé Selassié I em Brasília (1960)

    Selo comemorativo da visita de Haile Selassie I ao Brasil

    Curiosidades sobre Selassié e Mengistu

    1. A coroação de Hailé Selassié I: Foi um evento grandioso, marcado pelo esplendor e pela presença de líderes e autoridades de diversas partes do mundo. À época, o jornal The New York Times estimou que as festividades custaram mais de US$ 3 milhões (equivalente a cerca de R$ 9,5 milhões em valores atuais). O impacto do evento foi tão significativo que a revista Time dedicou sua capa ao novo imperador, consolidando-o como uma figura de destaque e projeção global.

    2. Fidel Castro e Mengistu: Em 1977, Fidel Castro desembarcou na Etiópia para oferecer apoio ao regime de Mengistu Haile Mariam, marcando o início de uma aliança curiosa. No ano seguinte, Mengistu retribuiu a visita condecorando Castro com a Grande Ordem da Estrela de Honra da Etiópia Socialista. Quando Mengistu chegou a Havana, em 1979, foi recebido com a mais alta honraria de Cuba. A relação continuou em 1984, quando Mengistu voltou a Cuba como convidado especial de Fidel. Durante suas conversas, os líderes focaram nos esforços conjuntos para combater a seca devastadora que assolava vastas regiões da África. O encontro culminou na assinatura de um acordo de cooperação entre os dois países, selando uma aliança marcada por ideais socialistas e momentos de solidariedade internacional.

    3. Bob Marley e o Rastafarismo: Marley considerava Selassié um messias e espalhou sua mensagem em canções como “Jah Live” e “War”, a última baseada em um discurso do imperador na ONU.

    ”Até que os direitos humanos básicos sejam
    igualmente garantidos a todos, sem distinção de raça.
    Isso é uma guerra.”
    (War – Bob Marley)

    Referências:
    A Brief Biography of His Imperial Majesty Emperor Haile Selassie I 23 JULY 1892 – 27 AUGUST 1975
    https://ethiopiancrown.org/biography-emperor-haile-selassie-i/

    Revista Times – 3 de novembro de 1930
    https://time.com/archive/6819639/abyssinia-coronation-2/

    Mengistu Leaves Ethiopia In Shambles
    https://www.washingtonpost.com/archive/politics/1991/05/22/mengistu-leaves-ethiopi a-in-shambles/77631652-4cfb-469a-8af0-d292f1ecc5ec/

    Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos
    https://www.youtube.com/watch?v=xey37olc7ZI

    Jornalista especializado no Chifre da África e na África Austral
    https://martinplaut.com/2023/05/23/a-moment-in-history-fidel-castros-visit-to-ethiopia/

    Site do Ministério das Relações Exteriores – República Democrática Federal da Etiópia
    https://www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/relacoes-bilaterais/todos-os-paises/republica-democra tica-federal-da-etiopia

    Kapuściński, Ryszard. O Império Africano. Traduzido por Tomasz Barcinski. São Paulo: Companhia das Letras, 1978.

  • GT-RJ representa e fortalece a cultura em Brasília

    GT-RJ representa e fortalece a cultura em Brasília

    Com rimas afiadas e ideias firmes, representantes do Hip Hop carioca mostram que a cultura Hip Hop é a ponte para a transformação social e política

    Nos dias 29 e 30 de novembro de 2024, Brasília respirou rima, ritmo e resistência com o Seminário Internacional da Construção Nacional do Hip Hop. Representando o Rio de Janeiro, oito vozes marcantes do movimento cultural mais revolucionário do planeta levaram suas histórias, perspectivas e desejos para o futuro do Hip Hop. O evento não foi só um marco, mas um grito de união, organizado para construir políticas públicas e fortalecer uma cultura que há 50 anos transforma vidas.

    As vozes do GT-RJ

    De Cabo Frio à Lapa, da CDD à Baixada Fluminense, do basquete de rua às batalhas de rima, os representantes do GT-RJ têm trajetórias que misturam arte, educação e transformação social. Conheça quem são algumas dessas lideranças e o que pensam sobre o impacto do seminário.

    Taz Mureb – MC e porta-voz da resistência do interior

    Primeira colocada no edital do Ministério da Cultura na região Sudeste, Taz Mureb, de Cabo Frio, é MC, produtora cultural e uma das vozes mais marcantes do GT-RJ. Para ela, o seminário é um divisor de águas para a cultura Hip Hop no Brasil.

    “O seminário é um marco. Estamos institucionalizando o Hip Hop como política pública cultural. É mais que música ou dança, é um movimento sociocultural e político. Aqui, a gente abre diálogo com órgãos do governo, empresas e até frentes internacionais. Sonho com o Hip Hop sendo ferramenta de promoção cultural no Brasil e no exterior. É o começo de algo muito maior.”

    Taz destacou também a importância de criar um legado para as próximas gerações: “Precisamos transformar iniciativas locais em políticas nacionais e mostrar que o Hip Hop pode mudar o Brasil. É isso que estamos construindo aqui.”

    DJ Drika – O coração pulsante da Baixada Fluminense

    Adriane Fernandes Freire, ou DJ Drika, carrega a Baixada Fluminense no peito. Fundadora da Roda Cultural do Centenário, ela e sua equipe levam os quatro elementos do Hip Hop para as favelas de Duque de Caxias há seis anos.
    “Estar aqui no seminário é histórico. É uma vitória da cultura periférica, uma chance de dialogar com o governo e fortalecer o que já fazemos nas comunidades. A cultura Hip Hop precisa de apoio contínuo, e eventos como este abrem caminhos para que nossas vozes sejam ouvidas.”

    Drika enfatizou que o Hip Hop não é só arte, mas também resistência: “Nosso movimento nasceu para transformar. Com a parceria do governo federal, podemos ir mais longe e impactar mais vidas.”

    MC Rafinha – A força da união

    Parceiro de Drika na Roda Cultural do Centenário, Rafael Alves, o MC Rafinha, é um mestre de cerimônias que acredita na força coletiva. Ele vê o seminário como uma plataforma para expandir o trabalho que já realiza com batalhas de rima, grafite e poesia na Baixada Fluminense.

    “Esse evento é sobre união. É a chance de estarmos juntos, trocando ideias e mostrando que o Hip Hop vai além das nossas rodas culturais. Aqui, colocamos nossa luta no mapa e mostramos que estamos prontos para construir juntos.”

    Para Rafinha, o seminário marca o início de um novo capítulo para o movimento. “O Hip Hop é a voz da periferia. Estar aqui é garantir que essa voz ecoe mais alto.”

    Erick CK – Conectando a cena em Niterói

    Com sete anos de atuação nas rodas culturais de Niterói, Erick Silva, o CK, sabe o peso de levar o Hip Hop para os palcos e ruas. No seminário, ele viu uma oportunidade de conectar as demandas dos artistas locais com políticas públicas mais amplas.

    “É muito importante estarmos aqui. Precisamos discutir os problemas reais do Hip Hop, como falta de patrocínio para DJs e grafiteiros, e a valorização dos produtores que estão sempre nos bastidores. O seminário abre essas portas.”

    CK ressaltou a relevância de manter o diálogo aberto para futuras edições: “Que este seja o primeiro de muitos eventos que fortaleçam o movimento em todo o Brasil.”

    Anderson Reef – Transformação social em Madureira

    Palestrante no painel “Retratos do Brasil: Narrativas Regionais e Potência Construtiva”, Reef é produtor cultural, responsável pela Batalha Marginow, evento semanal, que acontece todas as segundas e tem uma década de trabalho embaixo do Viaduto Madureira, zona norte do Rio. Ele usa o Hip Hop para revitalizar espaços e gerar economia criativa.

    “O Hip Hop salva vidas. Aqui em Brasília, mostramos ao governo que nosso movimento vai além da música. Trabalhamos com saúde, educação, teatro e dança. Precisamos de mais estrutura para continuar impactando nossas comunidades.”

    Para Reef, o seminário também é um espaço para pensar grande: “Quero ver o próximo evento num lugar maior, com mais gente. O Hip Hop merece ser tratado como prioridade nacional.”

    Anderson Reef

    Rafa Guze – Uma cineasta na linha de frente

    Educadora social e diretora do Instituto BR-55, Rafa Guze acredita no poder do Hip Hop para transformar vulnerabilidades sociais. Para ela, o seminário é uma chance de estruturar
    políticas que atendam as bases do movimento.

    “O Hip Hop é uma potência global, mas nossas comunidades ainda enfrentam muitas dificuldades. Este evento é sobre construir soluções, criar políticas que combatam fome, genocídio, feminicídio e outras desigualdades. É sobre usar nossa cultura para transformar realidades.”

    Rafa destacou a importância de trabalhar em parceria com o governo: “Sabemos como resolver os problemas. Só precisamos de apoio para fazer isso acontecer.”

    Lebron – Formando novas gerações

    Victor, ou Lebron, é um veterano do basquete de rua e do Hip Hop em Campos dos Goytacazes. Fundador de uma ONG que atua há 18 anos, ele vê o seminário como uma oportunidade de renovar o movimento.

    “O Hip Hop me ensinou tudo que sei. Agora, quero retribuir, formando novas gerações de artistas, DJs e produtores culturais. Precisamos de mais eventos assim, que conectem pessoas e ideias para planejar o futuro.”

    Para Lebron, o maior desafio é garantir que o movimento continue crescendo de forma sustentável: “Estamos retomando espaços e precisamos de articulação para avançar.”

    Bruno Rafael

    Bruno Rafael – Liderança que inspira

    Com 27 anos de trajetória, Bruno Rafael é uma figura central do Hip Hop carioca. Palestrante no painel “Retratos do Brasil: Narrativas Regionais e Potência Construtiva”, ele destacou o amadurecimento do movimento.

    “Esse seminário é fruto de trabalho coletivo. Mostramos que o Hip Hop está politizado e organizado. Hoje, conseguimos dialogar diretamente com ministros e secretários, algo que
    nunca foi possível antes.”

    Para Bruno, o evento é um reflexo da força do movimento: “O Hip Hop tem o poder de transformar vidas. Estamos só começando a mostrar do que somos capazes.”

    O impacto do seminário

    Entre as falas, há um consenso: o Hip Hop precisa ser reconhecido como política pública prioritária. Os representantes do GT-RJ destacaram que o movimento não é apenas arte, mas uma ferramenta para combater desigualdades, gerar renda e formar futuros líderes culturais. Para os representantes do GT-RJ, dois nomes de peso tiveram grande importância para a realização deste seminário: Claudia Maciel e Rafa Rafuagi.

    “A Claudia é pura visão estratégica”, disse Taz Mureb.

    Já Rafa Rafuagi, é a ponte que liga cultura e política: “Ele é aquele cara que transforma discurso em ação. Além de ser referência no rap do Sul, ele trouxe a ideia de que o Hip Hop pode e deve dialogar diretamente com o governo, sem perder nossa essência de resistência.”

    Para o grupo, Cláudia e Rafa não foram apenas organizadores, mas exemplos vivos de que o Hip Hop é articulação, união e transformação.

    Caminhos para o futuro

    O Seminário Internacional da Construção Nacional do Hip Hop foi mais do que um evento. Foi um passo firme em direção a um Brasil mais justo e diverso, onde a cultura Hip Hop ocupa o lugar que merece: o de protagonista na transformação social.

    Com vozes como as do GT-RJ, o futuro do Hip Hop promete ser brilhante – e revolucionário.

    No corre da favela e do asfalto, na batida da vida, todo mundo mandou o papo reto: “O Hip Hop salva vidas!”

  • Hip-Hop em Movimento: Transformação social e sustentabilidade na periferia e além

    Hip-Hop em Movimento: Transformação social e sustentabilidade na periferia e além

    No 1º dia do Seminário Internacional do Hip-Hop, artistas e ativistas mostram como o movimento une cultura, economia criativa e impacto social.

    O auditório da Petrobras em Brasília foi palco de um dos momentos mais significativos para a cultura Hip-Hop no Brasil nesta sexta-feira (29/11). Dentro do 1º Seminário Internacional do Hip-Hop, que se estende até sábado (30), o painel “Inovação e Sustentabilidade na Cultura Hip-Hop como Economia Criativa” reuniu artistas, pesquisadores e gestores culturais de diferentes partes do Brasil e da América Latina. Com o objetivo de discutir caminhos para fortalecer o movimento enquanto ferramenta de transformação social e fonte de renda, a conversa trouxe reflexões sobre políticas públicas, iniciativas locais e o papel do
    Hip-Hop como patrimônio cultural.

    Sustentabilidade e inovação no Hip-Hop: depoimentos que inspiram

    O painel contou com a participação de nomes expressivos, como CDJ de Goiás, Giovanni Nieto, conhecido como YBNT da Colômbia, Douglas Nunes da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, a produtora cultural Andrea Felix de Uberlândia, Minas Gerais e Jailson Correia, o Preto Mil Grau de Guiné Bissau. Cada um deles trouxe experiências de como o Hip-Hop vem rompendo barreiras e construindo novas possibilidades.

    Para o hip hoper CDJ, o Hip-Hop não é apenas um movimento cultural, mas uma ferramenta econômica e social transformadora. “Participar dessa rodada de conversa foi algo muito importante para que a gente pudesse transmitir um pouco do que eu acredito ser sustentabilidade. É buscar meios de capacitar a galera, principalmente nas periferias, para que elas possam olhar para o Hip-Hop como fonte de renda através da música, dança, grafite e discotecagem”, destacou.

    Ele também apontou ações concretas em Goiás, como plantio de árvores e hortas comunitárias, que geram não apenas renda, mas também segurança alimentar nas periferias. “O Hip-Hop pode dialogar com a iniciativa privada e o poder público, porque ele traz retorno. Diversas empresas querem seu nome ligado a algo sustentável, e acredito que o Hip-Hop é essa fonte.”

    Da Colômbia, YBNT, idealizador do festival ambiental Cuida Natura, compartilhou como o movimento se consolidou em parceria com instituições públicas. “Na Colômbia, conseguimos aliar o Hip-Hop à universidade pública, formando artistas e docentes capazes de ensinar Hip-Hop em escolas, universidades, fundações, e até mesmo em presídios. Nosso trabalho inclui populações indígenas, afrodescendentes e moradores de rua, sempre com um enfoque pedagógico e de paz nos territórios.”

    Negro Lamar (Maranhão), DJ Fábio ACM e DJ Big

    O papel das políticas públicas e do Conselhão

    Representando a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, Douglas Nunes destacou a importância do diálogo com o movimento para a construção de políticas públicas mais eficazes. Ele ressaltou a atuação de Cláudia Maciel, conselheira do presidente Lula e uma das articuladoras do seminário, no debate sobre igualdade racial.

    “Ela levou ao Conselhão o compromisso de transformar as demandas e propostas geradas aqui em políticas públicas concretas, reforçando a escuta ativa das comunidades.”

    Hip-Hop em rede: conexões nacionais e internacionais

    Para Andrea Felix, organizadora do UDI Hip-Hop Festival, o impacto do Hip-Hop transcende fronteiras. Ela compartilhou a experiência de Uberlândia, onde o festival se consolidou como o maior do Triângulo Mineiro, fomentando economia criativa e inspirando eventos semelhantes em Salvador, Portugal e Emirados Árabes. “Essa troca fortalece nossa construção nacional e expande nosso alcance. A 14ª edição do festival já conta com apoio da prefeitura pelo terceiro ano consecutivo, mostrando como é possível fazer o Hip-Hop gerar economia e transformação.”

    Já Jailson Correia, o Preto Mil Grau de Guiné Bissau, reforçou a essência educativa do movimento. “Um evento como esse traz um dos pilares do Hip-Hop, que é o conhecimento. Esse espaço é fundamental para a troca de saberes e a mistura de culturas, que só fortalecem o movimento.”

    Contexto e avanços do Seminário Internacional

    O seminário, que ocorre dentro do calendário da Campanha Cultura Negra Vive, celebra o Dia Mundial do Hip-Hop (12/11) e o Mês da Consciência Negra (20/11). A programação diversificada inclui mesas-redondas como “Cultura Hip-Hop como Patrimônio Imaterial”, debates sobre igualdade racial e apresentações culturais de grupos como Atitude Feminina e Viela 17.

    Segundo Cláudia Maciel, o evento marca um momento histórico para o movimento. “O decreto nº 11.784, assinado pelo presidente Lula, consolida o Hip-Hop como uma legítima expressão da identidade brasileira. Além disso, o inventário participativo com o Iphan avança no reconhecimento do Hip-Hop como Patrimônio Cultural Imaterial.”

    A ministra da Cultura, Margareth Menezes, e a socióloga Vilma Reis também estão entre os grandes nomes que compõem as discussões. O evento reflete o fortalecimento do movimento como força cultural e política no Brasil e no mundo, apontando para um futuro onde o Hip-Hop se consolida como eixo transformador da sociedade.

    Protagonismo das comunidades periféricas

    Os debates também destacam o papel das comunidades periféricas como epicentro do Hip-Hop. A conexão entre tradição e inovação surge como um dos principais motores para transformar realidades e ampliar a luta por justiça social e racial.

    No segundo dia do seminário, o foco será a implementação de políticas públicas específicas para o movimento, com mesas como “Mulherismo Afrikana e Políticas Públicas para
    Homens Negros” e “Cultura de Base Comunitária como Ferramenta de Transformação Social”.

    O encerramento ficará por conta do grupo Viela 17, consolidando o Hip-Hop como uma força vibrante e necessária para a cultura brasileira.

  • Em memória e renovação, Vanessa Campos lança canção “Folha Seca” com voz de Felipe Silva Zion

    Em memória e renovação, Vanessa Campos lança canção “Folha Seca” com voz de Felipe Silva Zion

    Single póstumo de Felipe Silva Zion ganha vida com inteligência artificial e produção colaborativa, destacando a conexão profunda entre ciclos da natureza e o legado do reggae

    A cantora brasiliense Vanessa Campos, inspirada por influências do reggae e MPB, acaba de lançar seu segundo single, “Folha Seca”, uma canção inédita criada em parceria com Felipe Silva Zion, ícone do reggae brasileiro, falecido em 2019. Com produção musical de Miguel Bittencourt, e direção do DJ Fábio ACM, a música utilizou inteligência artificial para isolar e tratar a voz de Felipe, proporcionando uma conexão póstuma que amplia o legado do cantor.

    Assista ao videoclipe "Reflexões que ainda me tiram o sono".

    Para Vanessa, que tem uma forte ligação com a cena musical de Brasília e integrou o grupo cultural Batalá, “Folha Seca” se tornou uma experiência profunda desde o primeiro contato. Ela conta que recebeu uma versão inicial da música em voz e violão pelos DJs Fábio ACM e Lázaro Peloggio, grandes amigos de Felipe Silva. “Recebi uma versão de ‘Folha Seca’ em voz e violão através dos DJs Fábio ACM e Lázaro Peloggio, grandes amigos do Felipe Silva. Desde a primeira vez que ouvi, a música ficou comigo. Eu cantava ‘Folha Seca’ o tempo todo — em casa, dirigindo… Foi então que o Fábio sugeriu lançá-la oficialmente. Nunca tive a chance de conhecer o Felipe, mas toda a sua obra, desde os tempos do Monte Zion, me encanta e está sempre nas minhas playlists. ‘Folha Seca’ traz uma mensagem
    profunda sobre os ciclos da vida e o poder da renovação.”

    O papel da inteligência artificial

    Inspirados pelo recente lançamento dos Beatles, “Now and Then”, que utilizou inteligência artificial para resgatar a voz de John Lennon, a equipe de produção decidiu aplicar a mesma tecnologia para recuperar e tratar a voz de Felipe Silva Zion. O resultado traz uma autenticidade que emociona os fãs e permite que a essência de Felipe seja sentida em cada nota. DJ Fábio ACM compartilhou sobre o processo: “Assim como os Beatles fizeram, usamos técnicas de inteligência artificial para isolar e tratar a voz do Felipe. Decidi confiar a produção musical ao Miguel Bittencourt, que foi produtor do Felipe na época de sua morte, com a certeza de que ele entregaria um resultado fiel ao que Felipe desejaria. Miguel integrou a voz do Felipe de forma brilhante nos novos arranjos, e o resultado ficou incrível. Também convidamos Bruno Ras para gravar guitarras, teclados e back-vocais. Bruno foi membro da banda Monte Zion, fundada por Felipe e André Jamaica no final dos anos 90, no Rio de Janeiro.”

    Folha Seca: uma poesia sobre os ciclos da vida

    “Folha Seca” é uma canção introspectiva que aborda temas como renovação e transformação. A composição de Felipe utiliza a metáfora da natureza para simbolizar os ciclos de vida e mudança. No refrão, “Vento leva a folha seca / Ele sopra e ela vai”, a folha seca simboliza aquilo que é deixado para trás, enquanto o vento, com sua força transformadora, carrega consigo a promessa de novos começos. A letra ressalta que, embora a folha seca represente o final de um ciclo, o vento também leva a semente, que será plantada em outro lugar, simbolizando acontinuidade e o potencial de renascimento.

    A primeira estrofe, que fala sobre a folha verde ainda firme em seu galho, representa resistência e vitalidade. A folha verde oferece sombra e cura, uma figura de proteção e conexão entre humanos e natureza. Esse ciclo de renovação é intensificado pelo verso “Viva a fotossíntese, eu te dou ar”, reforçando a importância vital da natureza.

    Na segunda parte da letra, o vento ganha um papel ativo e dinâmico: ele move as árvores, traz a chuva e renova a paisagem, simbolizando a força de transformação e equilíbrio na natureza. O tom final da canção se ilumina com uma nota de celebração à vida, falando de um novo ciclo de felicidade com o nascimento de uma criança. Vanessa comenta que “Folha Seca” transmite uma mensagem positiva sobre o poder dos ciclos e da renovação, convidando o ouvinte a refletir sobre o equilíbrio da natureza e as lições que podemos tirar dela.

    Produção musical e sonoridade

    A produção de “Folha Seca” é marcada pela presença do reggae, estilo que sempre acompanhou tanto Felipe Silva quanto Vanessa Campos. O produtor Miguel Bittencourt, que colaborou com Felipe em vida, conseguiu dar à canção uma base harmônica rica e envolvente, preservando a essência do reggae raiz e explorando arranjos contemplativos. Além disso, Bruno Ras, antigo integrante da banda Monte Zion, adiciona camadas instrumentais com guitarras, teclados e back-vocais que enriquecem a atmosfera poética da música. A direção musical de DJ Fábio ACM, combinada com a experiência de Bittencourt, cria uma estética sonora única que complementa a letra profundamente simbólica de Felipe.

    DJ Fabio ACM, Felipe SIlva Zion e Lazaro Peloggio

    O legado de Felipe Silva Zion

    Nascido na Rocinha, no Rio de Janeiro, Felipe Silva Zion foi um dos grandes nomes do reggae brasileiro, admirado por sua conexão espiritual com a música e pelo impacto social de suas letras. Inspirado por Bob Marley e pela filosofia Rastafari, Felipe via o reggae como uma ferramenta de conscientização e transformação. Ele colaborou com artistas de renome internacional, como Pato Banton e Andrew Tosh, e foi o fundador da banda Monte Zion, junto a André Jamaica, nos anos 90.

    A morte de Felipe, em 2019, foi um choque para a cena reggae, mas seu legado continua vivo graças a suas gravações e ao trabalho dedicado de seus amigos e familiares. Bittencourt, que preserva o acervo musical do cantor, garante que as futuras gerações, incluindo o filho de Felipe, Inti, possam usufruir desse tesouro artístico.

    Disponível nas plataformas digitais

    O single “Folha Seca” já está disponível nas principais plataformas de streaming. Vanessa Campos e a equipe de produção esperam que a canção, com sua mensagem atemporal e profundamente humana, toque os corações dos ouvintes e leve adiante o legado de Felipe Silva Zion. Para aqueles que desejam explorar mais o trabalho de Vanessa e revisitar a obra de Felipe, “Folha Seca” é uma oportunidade única de ouvir uma colaboração inédita que conecta a sensibilidade dos dois artistas.

    Escute “Folha Seca” nas plataformas digitais:

    ● Spotify:
    https://open.spotify.com/intl-pt/album/5bzjnpwZgmtLclUjEannww
    ● You Tube:
    https://www.youtube.com/watch?v=UECNlJLXLWE
    ● Deezer:
    https://www.deezer.com/br/album/654889931
    ● Apple Music:
    https://music.apple.com/br/album/folha-seca-single/1773305138
    ● Amazon Music:
    https://music.amazon.com/tracks/B0DJTG22CR?marketplaceId=ART4WZ8MWBX2Y&musicTerritory=BR&ref=dm_sh_iiZwOPuIT5mmztT7U56k7ms3F

    “Folha Seca” é um presente ao reggae e uma homenagem a Felipe Silva Zion, trazendo à tona sua essência artística e sua visão sobre vida, natureza e renovação, em uma jornada musical que resgata o passado e celebra a continuidade.

  • Raízes e Folhas: Cultivando Saberes no Quilombo – Boyra Habanero

    Raízes e Folhas: Cultivando Saberes no Quilombo – Boyra Habanero

    Olá meus leitores e leitoras, recentemente, plantei uma série de pimenteiras da espécie Boyra Habanero no Quilombo Enraizados e decidi trazer mais informações para vocês sobre essa planta fascinante. Além de ser uma atividade que adoro, plantar no Enraizados é algo que faço com frequência – a maioria das plantas que vocês veem por lá foram plantadas por mim. Cultivar é um dos meus hobbies favoritos, mas também acredito profundamente que o contato com a natureza ajuda a manter as energias do nosso espaço equilibradas, algo que considero essencial para o ambiente do Quilombo.

    Vamos lá então!!!

    A pimenta Boyra Habanero é uma variedade especial da espécie Capsicum chinense, reconhecida por seu sabor intenso e seu alto nível de pungência. Originária do México, essa pimenta tem sido apreciada mundialmente por suas diversas aplicações na culinária, na medicina tradicional e até na agricultura. Este relatório oferece um panorama completo sobre as características, utilidades, e as melhores práticas de cultivo da Boyra Habanero, abordando desde suas origens até as condições ideais para plantio, época de colheita e armazenamento.

    Origem:

    A pimenta Boyra Habanero é uma variedade do gênero Capsicum chinense, conhecida por sua intensidade de sabor e aroma, bem como por seu alto grau de picância. A pimenta Habanero, em geral, tem sua origem no México, mais especificamente na Península de Yucatán, onde é cultivada há centenas de anos. No entanto, a variedade Boyra foi desenvolvida para atender a diferentes demandas de mercado, principalmente em relação ao sabor e à facilidade de cultivo. A pimenta Habanero ganhou fama internacional por ser uma das mais picantes do mundo, e a variedade Boyra mantém essa característica, embora possa ter algumas variações sutis em seu nível de pungência.

    Características:

    A pimenta Boyra Habanero tem frutos pequenos e enrugados, de forma oval ou cônica, variando de cor do verde (imatura) ao laranja e vermelho (madura). Seu sabor é frutado, com notas cítricas, e ela apresenta um nível de pungência que pode variar de 100.000 a 350.000 unidades na Escala Scoville, que mede o teor de capsaicina (composto responsável pela sensação de ardência).

    Utilidades:

    A Boyra Habanero é amplamente utilizada na culinária, especialmente em pratos picantes e molhos. Além disso, ela tem aplicações na medicina tradicional por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Seus principais usos incluem:

    • Culinária: é usada para fazer molhos quentes, conservas, temperos e marinadas. Também é usada crua, picada em saladas, ou cozida em sopas e ensopados.
    • Medicinal: acredita-se que a capsaicina ajude na melhora da digestão, alivie dores e promova a saúde cardiovascular, além de ser utilizada em cremes e pomadas para aliviar dores musculares.
    • Defensiva agrícola: em alguns casos, os extratos da pimenta são usados como repelentes naturais de insetos em plantações.
    • Conservação de alimentos: sua alta concentração de capsaicina pode ajudar na preservação de alimentos em condições tropicais e subtropicais.

    Condições Ideais para Plantio:

    A Boyra Habanero, assim como outras variedades de Capsicum chinense, é uma planta que requer cuidados específicos para um desenvolvimento saudável:

    • Clima: prefere climas quentes e úmidos, com temperaturas que variam entre 25°C e 32°C. Ela é sensível ao frio e não cresce bem em climas com geadas.
    • Solo: o solo ideal para o cultivo da pimenta Boyra Habanero é bem drenado, rico em matéria orgânica e com pH entre 6,0 e 6,8. Solos argilosos e mal drenados podem prejudicar o desenvolvimento das raízes e favorecer o aparecimento de doenças.
    • Irrigação: a irrigação deve ser regular, mas sem encharcamento. O ideal é que o solo se mantenha úmido, mas nunca encharcado, para evitar o apodrecimento das raízes.
    • Luminosidade: a pimenta Habanero precisa de, pelo menos, 6 horas de sol direto por dia para se desenvolver adequadamente.

    Épocas de Plantio:

    O plantio da Boyra Habanero pode variar conforme a região, mas em geral, as melhores épocas são:

    • Regiões tropicais e subtropicais: pode ser plantada durante o ano todo, desde que se evitem períodos de chuva excessiva.
    • Regiões temperadas: o plantio deve ser feito na primavera, quando as temperaturas começam a subir, e o risco de geadas já passou. A colheita ocorre geralmente no verão e início do outono.

    Ciclo de Cultivo:

    O ciclo da pimenteira Boyra Habanero, desde o plantio até a colheita, pode variar entre 90 a 120 dias. Após a germinação, a planta começa a florescer por volta de 60 a 70 dias e os frutos amadurecem após aproximadamente 20 a 30 dias. A colheita deve ser feita com os frutos totalmente maduros, quando estiverem em sua cor final (vermelha ou laranja).

    Cuidados Específicos:

    • Controle de pragas: a Boyra Habanero pode ser suscetível a algumas pragas, como pulgões e mosca-branca. O uso de controle biológico ou defensivos naturais é recomendado para evitar danos ao fruto.
    • Poda: podas leves podem ser feitas para estimular o crescimento lateral e aumentar a produção de frutos.
    • Rotação de culturas: evitar o plantio sucessivo da mesma cultura no mesmo local ajuda a prevenir doenças do solo, como fungos e bactérias.

    Colheita:

    A colheita deve ser feita manualmente para evitar danos à planta. O ponto ideal de colheita ocorre quando os frutos estão completamente maduros, de cor vibrante (geralmente laranja ou vermelha), e firmes. Após a colheita, os frutos podem ser usados frescos ou secos e moídos para a produção de temperos.

    Armazenamento:

    As pimentas podem ser armazenadas frescas por até duas semanas em local fresco e ventilado, ou por mais tempo se forem desidratadas. Para desidratação, recomenda-se cortar os frutos ao meio e secá-los ao sol ou em desidratadores elétricos. As pimentas desidratadas podem ser armazenadas por meses em frascos herméticos.

    Considerações Finais:

    A pimenta Boyra Habanero é uma excelente escolha para quem deseja uma pimenta de sabor intenso, com aplicações variadas na culinária e na saúde. Seu cultivo é viável em climas quentes e úmidos, desde que se respeitem suas necessidades de solo, temperatura e irrigação. A colheita é produtiva e, com os cuidados adequados, a planta pode produzir frutos por até dois anos.