Categoria: Coluna

  • Do microfone à militância: Hip Hop contra o PL dos estupradores

    Do microfone à militância: Hip Hop contra o PL dos estupradores

    Como a cultura Hip Hop se posiciona contra a criminalização do aborto e defende os direitos das mulheres em um contexto de crescente conservadorismo no legislativo.

    A aprovação relâmpago da urgência do Projeto de Lei 1904/2024, que equipara o aborto em certas circunstâncias ao homicídio, provocou um intenso debate no Brasil.

    Esse projeto, se aprovado, aumentará drasticamente as penas para médicos e mulheres envolvidas em abortos que não sejam em casos de anencefalia, tratando essas ações com a mesma severidade de homicídios. A votação foi marcada por controvérsias, com acusações de irregularidades no processo legislativo e protestos de parlamentares da oposição.

    O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), autor do projeto, contou com o apoio da bancada evangélica para impulsionar a proposta. Caso aprovado, ele vai alterar quatro artigos do Código Penal, transformando atos que atualmente não são crimes ou têm penas menores em crimes com punições severas, de seis a 20 anos de prisão.

    O presidente Lula criticou duramente o projeto, chamando-o de “insanidade”. Ele ressaltou a incoerência de punir uma mulher estuprada que realiza um aborto com uma pena maior do que a aplicada ao estuprador. “Eu sou contra o aborto. Entretanto, como o aborto é a realidade, a gente precisa tratar o aborto como questão de saúde pública. Eu acho que é insanidade alguém querer punir uma mulher numa pena maior do que o criminoso que fez o estupro. É no mínimo uma insanidade isso”, disse Lula.

    O deputado Max Maciel, do PSOL de Brasília, criticou duramente o “PL dos Estupradores”, destacando que a proposta não contribui para o combate à violência contra a mulher, mas sim para a sua criminalização. “O Brasil sempre inova e traz coisas que às vezes nem imaginaríamos”, disse.

    Maciel argumentou que o projeto de lei, ao invés de focar na identificação e punição dos agressores, acaba por punir as vítimas, destacando que muitas mulheres já enfrentam dificuldades em acessar o aborto legal e sofrem hostilidade. “Essa pauta moral conservadora não traz benefício nenhum para a sociedade. Esse não é um Brasil em que podemos acreditar“, concluiu.

    Este posicionamento reforça a necessidade de tratar o aborto como uma questão de saúde pública, refletindo a opinião de 87% dos brasileiros que acreditam que mulheres vítimas de estupro devem ter a opção de abortar, segundo pesquisa do Instituto Patrícia Galvão e Locomotiva.

    O papel do Hip Hop

    O Hip Hop brasileiro tem um histórico de se engajar em questões sociais e políticas, e a questão do aborto não é exceção. Em 2005, o projeto “Hip Hop Mandando Fechado em Saúde e Sexualidade” reuniu diversas lideranças do movimento para discutir os direitos reprodutivos das mulheres. Por meio do RAP, o projeto buscou introduzir reflexões sobre aborto, interferência religiosa, gravidez na adolescência e violência de gênero e sexual.

    Esse projeto, dirigido por mim, resultou em um álbum com 10 músicas, assinado por importantes produtores musicais da cena. Duas composições deste álbum merecem destaque pela forma como abordam o tema do aborto.

    Quem paga por isso?

    A canção “Quem Paga Por Isso?” de Cacau Amaral, Negra Rô, Mad e Paulinho Shock, critica as desigualdades sociais e raciais no acesso ao aborto seguro e legal.

    A letra destaca a realidade enfrentada por mulheres negras e pobres, enfatizando a necessidade urgente de mudanças nas políticas públicas.
    A narrativa contrasta as experiências de duas mulheres, Maria e Mariana, ilustrando a desigualdade social. Enquanto Mariana, de classe média, tem acesso a métodos seguros, Maria enfrenta condições precárias e perigosas. A música critica os governantes e o sistema de saúde pela falta de apoio institucional para essas mulheres.

    Relato

    A composição “Relato” de Rúbia Fraga (RPW) e Tyeli Santos narra o sofrimento de uma mulher que enfrenta as consequências de um aborto clandestino. A letra critica o sistema de saúde e a sociedade por sua falta de empatia e suporte às mulheres em situações vulneráveis, além de questionar o papel da igreja e do Estado na garantia dos direitos das mulheres.

    A música aborda a influência da religião e a culpa religiosa, destacando a pressão moral imposta pelas doutrinas religiosas. “Relato” levanta questões críticas sobre julgamento, culpa, direitos das mulheres e a responsabilidade do Estado e da religião em assegurar o bem-estar e a dignidade das pessoas.

    Desafio do Hip Hop em um cenário conservador

    Embora o Hip Hop historicamente tenha sido uma voz poderosa de resistência e conscientização, parte do movimento atual tem se mostrado conservadora e inerte diante dessas questões. No entanto, figuras influentes continuam a usar suas plataformas para se posicionar contra o PL dos Estupradores, defendendo a liberdade e os direitos das mulheres. Filipe Ret usou suas redes para se posicionar contra o PL dos Estupradores, defendendo a liberdade e os direitos das mulheres.

    Flávia Souza, atriz, diretora e rapper do Rio de Janeiro, critica duramente a hipocrisia em torno do debate sobre o aborto.

    “Esses caras aí que se dizem contra o aborto, quando é com as suas filhas, eles vão lá, fazem aborto num bom hospital, seguro e fica tudo bem. Quem mais sofre são as meninas e as mulheres negras, a população pobre, que é a maioria, a população negra, a gente não tem como negar isso. E mais, a gente sabe que é a mulher negra que é assediada até por ter um corpo mais volumoso. A gente já é assediada desde os cinco, sete anos, até por uma questão de uma estrutura de um país racista, que vê o corpo da mulher negra como um objeto de desejo. Então eu acho um absurdo essa PL. Quem acaba sendo criminalizada é a menina, que pode acabar sendo presa no lugar do estuprador e tendo que conviver com uma situação (de gravidez) que não cabe pela questão da idade. Então eu acho muito absurdo e bato na tecla que quem paga é a gente: a mulher.”

    Elza Cohen, fotógrafa, artista visual e ativista na cultura Hip Hop, também se posiciona contra o projeto de lei, destacando seu impacto desproporcional nas populações vulneráveis.

    “Nós mulheres não podemos aceitar esse passo atrás dessa PL do absurdo! Essa PL é criminosa e representa mais uma violência contra as mulheres e meninas. E o alvo maior já sabemos que são as meninas pobres, negras e indígenas. É um projeto que criminaliza meninas menores de idade, enquanto protege o estuprador, isso é repugnante! Quando nós mulheres, deveríamos estar lutando por mais direitos na sociedade, agora temos que lutar para parar esse retrocesso? Criança não é mãe, estuprador não é pai. Liberdade para as mulheres e meninas.”

    Claudia Maciel, da Construção Nacional do Hip-Hop, enfatiza a necessidade de acolhimento e não-criminalização das vítimas.

    ”Em um contexto em que se pretende equiparar o aborto a um crime de homicídio punindo meninas, adolescentes e mulheres que em sua maioria são negras, e que, a pena pela interrupção da gravidez é maior que a do estuprador, o Mulherismo AfriKana, as mulheres negras do Hip Hop compreendem que essas vítimas precisam ser acolhidas, escutadas e não-criminalizadas.”

    Gil Souza, editor do site Hip-Hop Bocada Forte, também expressa sua indignação.

    “Sou totalmente contra a PL, ela é um absurdo. É mais uma violência que se baseia no fundamentalismo religioso de pessoas que se dizem ‘cristãs’.”

    Enquanto a luta pela descriminalização do aborto e pela proteção dos direitos reprodutivos das mulheres continua, a cultura Hip Hop tem o potencial de ser uma poderosa ferramenta de resistência e conscientização, capaz de influenciar mudanças significativas na sociedade. Esta é uma causa que merece o apoio contínuo e a voz forte da cultura Hip Hop.

    Referências Bibliográficas:
    1. Projeto Hip Hop Mandando Fechado em Saúde e Sexualidade (CEMINA, REDEH e Secretária Especial de Políticas para as Mulheres – SPM).
    https://open.spotify.com/intl-pt/album/6grLeAELpt482Chl2Cizq9?si=k5x_z3gvSMCydEaOrE Geyg
    2. Percepções sobre direito ao aborto em caso de estupro (Locomotiva / Instituto Patrícia Galvão, março de 2022).
    https://assets-institucional-ipg.sfo2.digitaloceanspaces.com/2022/03/IPatriciGalvao_Locomot ivaPesquisaDireitoobortoemCasodeEstuproMarco2022.pdf
    3. PL 1904/2024 – Projeto que equipara aborto de gestação acima de 22 semanas a homicídio.
    https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=2425262&filenam e=PL%201904/2024

  • Legados do Hip-Hop: Public Enemy e Wu-Tang Clan

    Legados do Hip-Hop: Public Enemy e Wu-Tang Clan

    Ícones do rap que moldaram e influenciaram gerações na cultura hip-hop global.

    A relação entre Public Enemy e Wu-Tang Clan é uma parte importante da história do hip-hop, marcada pelo respeito mútuo entre os dois grupos mais icônicos do gênero.
    Public Enemy, formado em Long Island, Nova York, nos anos 80, é considerado um dos pioneiros do hip-hop político e consciente. Com sua abordagem única de letras carregadas de críticas sociais e políticas, eles se destacaram não apenas como músicos, mas como ativistas político-culturais. Public Enemy teve um impacto significativo na cena hip-hop, não apenas por sua música, mas também por sua mensagem e postura militante.

    Por outro lado, o Wu-Tang Clan, originário de Staten Island, Nova York, é conhecido por sua abordagem crua e autêntica no hip-hop. Com uma mistura distinta de letras afiadas, batidas cruas e uma mitologia única em torno de sua identidade de grupo, o Wu-Tang Clan rapidamente se estabeleceu como uma força inovadora no mundo do rap dos anos 90.

    A relação entre esses dois grupos é multifacetada. Primeiramente, há uma conexão geográfica, já que ambos são originários de Nova York, especificamente da região metropolitana. Isso os coloca dentro do mesmo cenário musical e cultural em evolução.

    Além disso, há um reconhecimento recíproco entre os dois grupos. Public Enemy, com sua abordagem politicamente consciente, ajudou a pavimentar o caminho para artistas como Wu-Tang Clan, que também incorporaram elementos de consciência social em suas músicas, embora de uma maneira diferente. Wu-Tang, por sua vez, foi uma força disruptiva no cenário do hip-hop, trazendo uma nova energia e estética que influenciou muitos artistas, incluindo membros do Public Enemy.

    Em suma, a relação entre Public Enemy e Wu-Tang Clan é marcada por uma mistura de respeito. Ambos os grupos desempenharam papeis significativos na evolução do hip-hop e continuam a ser reverenciados como pilares do gênero. Chuck D, como membro do Public Enemy, e RZA, como membro e produtor principal do Wu-Tang Clan, representam dois pilares distintos da cultura hip-hop. Embora não tenham necessariamente trabalhado juntos em um projeto específico, é claro que ambos têm respeito mútuo e admiração pelo trabalho um do outro.

    Este artigo baseia-se em conhecimento geral e, portanto, não inclui citações específicas. No entanto, a seguir, são apresentadas algumas referências bibliográficas relevantes que podem ser utilizadas para explorar a influência e a importância de Public Enemy e Wu-Tang Clan na cultura hip-hop. Estas obras oferecem um contexto aprofundado sobre a evolução do hip-hop, destacando a contribuição significativa dos dois grupos:

    1. Chang, Jeff. “Can’t Stop Won’t Stop: A History of the Hip-Hop Generation”. St. Martin’s Press, 2005.
    2. George, Nelson. “Hip Hop America”. Viking Penguin, 1998.
    3. Dyson, Michael Eric. “Know What I Mean? Reflections on Hip-Hop”. Basic Civitas Books, 2007.
    4. Light, Alan. “The Vibe History of Hip-Hop”. Three Rivers Press, 1999.

  • O papel da educação clandestina na formação Política

    O papel da educação clandestina na formação Política

    Ao refletir sobre a ideia “Educação Clandestina”, penso sobre uma abordagem contrária ao ensino formal e oficial. Quando penso no currículo escolar atual, por exemplo, percebo que meu filho tem acesso aos livros adotados pela escola, nos quais ele aprende técnicas para codificar e decodificar símbolos a fim de se comunicar.

    No entanto, transformar essa alfabetização em letramento é uma área na qual a educação brasileira tem falhado se olharmos para as escolas de periferia. Por outro lado, os movimentos sociais estão reunindo uma variedade de conhecimentos, de autores que não estão presentes nessas instituições formais. Esses conhecimentos não se limitam apenas a livros, mas também incluem filmes, podcasts e até encontros entre pessoas, promovendo uma troca que desafia os interesses das elites que controlam o sistema educacional.

    A transformação da alfabetização em letramento envolve não apenas aprender a ler e escrever, mas também compreender criticamente o mundo ao seu redor, questionar as estruturas de poder e desenvolver habilidades para participar ativamente na sociedade. Isso é algo que muitas vezes é negligenciado no ensino formal, pois pode ameaçar o status quo e os privilégios de determinados grupos.

    A “Educação Clandestina” tem o potencial de despertar o sujeito para a realidade concreta. Quando não encontramos autores como Abdias do Nascimento e Clóvis Moura nas escolas, é porque são escritores que abordam questões relacionadas à realidade de pessoas que estão na base da pirâmide social. Se todas essas pessoas se indignarem, o Brasil entra em colapso. Por isso essas pessoas precisam estar anestesiadas, para a roda continuar girando, para que a engrenagem da desigualdade continue funcionando.

    Nossa realidade é tão dura na luta pela sobrevivência, que muitas pessoas entram num processo automático. As pessoas estão vendendo a força de trabalho delas por tão pouco dinheiro, que muitas vezes elas sentem culpa por separar um tempo para pensar sobre a vida. Porque fomos ensinados que a ociosidade, que pensar, que refletir sobre a vida, é “estar à toa”, e ao invés de estarmos à toa, poderíamos estar trabalhando.

    A Educação Clandestina, de forma objetiva, representa o momento central da formação política, que é o da ação, onde as pessoas trocam e se libertam, conforme nos lembra Paulo Freire no livro “Pedagogia do Oprimido”. Algumas pessoas com as quais eu converso dizem que tenho manias de persegiução, que isso parece “teoria da conspiração”.

    Eu respondo que não, pois é a realidade que vivo e vejo. Percebo que algumas pessoas estão presas em um ciclo de repetição. Elas reproduzem o que ouvem sem refletir sobre isso para que possam criar uma nova narrativa, um novo discurso. Estão presas em um processo de espelhamento, o que é perigoso, pois às vezes propagam as ideias do opressor.

    Esses são aspectos que ressaltam a importância da educação clandestina, que vai além do ensino formal e busca capacitar as pessoas para que elas questionem, reflitam e ajam em prol de mudanças sociais. Essa forma de educação permite que as pessoas se identifiquem com as experiências compartilhadas, despertando uma consciência crítica sobre a realidade em que vivem.

    É um processo de formação política continuada, que envolve não apenas absorver conhecimento, mas também agir e influenciar outros ao seu redor. Essa educação clandestina é essencial para romper com a repetição de discursos e padrões estabelecidos, permitindo que as pessoas ocupem espaços de protagonismo e se tornem agentes de transformação na sociedade.

    Alguns conceitos, quando falamos de educação clandestina, ficam abarcados nela, pois a formação política ocorre em camadas. A primeira camada é a do despertar. Em algum momento, por algum motivo, algumas pessoas saem desse estado de anestesia, e o próximo passo, após o despertar, é o de se indignar.

    As pessoas começam a questionar, por exemplo, por que tudo é tão desigual? Por que as coisas estão do jeito que estão? Porque me tratam diferente de outras pessoas?

    Jacques Rancière, no livro “O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual”, acredita que todos têm a capacidade de se emancipar, porque todos têm igual inteligência, reconhecendo que todos têm a capacidade de pensar e contribuir para mudanças sociais. Contudo, algumas pessoas não conseguem acessar espaços para desenvolverem essa inteligência. Estão imersas numa rotina tão profunda e anestésica da realidade que não conseguem participar de movimentos que as levem a esse despertar.

    A próxima camada é o agir, é se misturar com outras pessoas, e ao se misturar com outras pessoas, é onde inicia-se o processo da “educação clandestina”.
    A obviedade da clandestinidade dessa formação reside no fato de que as pessoas percebem que tudo aquilo a que tiveram acesso por vias oficiais até o momento não as fez despertar para a realidade. O despertar, com certeza, foi provocado por alguma atividade que se enquadra no conceito que estamos abordando de educação clandestina, que é essencialmente a ação.

    Portanto, o agir individual e coletivo pode envolver, por exemplo, a produção de uma batalha de rimas na comunidade, a realização de encontros para práticas teatrais, rodas de conversa, pré-vestibulares comunitários, ingresso em universidades, disputa por cargos políticos, até mesmo o próprio RapLab, entre outros.
    Paulo Freire diferencia a tomada de consciência, que é o despertar para a realidade, da conscientização, que envolve a ação concreta para transformar essa realidade. A conscientização é o processo de agir de forma crítica e reflexiva, engajando-se em atividades que promovam mudanças sociais e políticas.

    Essas ações podem variar desde atividades culturais como batalhas de rimas e teatro até engajamento político e acadêmico. Esse processo de conscientização é fundamental para a formação política, pois permite que os indivíduos não apenas reconheçam as injustiças, mas também atuem para combatê-las.

    A formação política é um processo contínuo, por isso acredito que o Rap Lab seja um espaço importante para essa formação, pois reúne pessoas com diferentes experiências e níveis de consciência política. Ao mesmo tempo que há indivíduos que ainda não despertaram, existem outros que estão mais avançados nesse processo. Mas, como nos ensina Jacques Rancière, todos têm o poder da igual inteligência, e, portanto, todos podem se desenvolver coletivamente.

    Quando afirmamos que no RapLab não há certo e errado, queremos dizer que cada pessoa pode participar a partir de sua vivência, da forma como enxerga o mundo. Ela terá que disputar e defender esse ponto de vista dentro da atividade. É um espaço onde o debate é incentivado e a diversidade de perspectivas é valorizada, contribuindo para o crescimento e desenvolvimento de todos os participantes.

    Eu acreditava que durante a pandemia os encontros do RapLab poderiam não acontecer, devido à necessidade de serem realizados online e de forma contínua. Além de não conseguirmos realizar a fase de gravação da música, não tínhamos ideia de como incentivar os participantes a estarem conosco duas vezes por semana. Como coordenador, eu não conseguia antecipadamente pensar em 156 temas para discutir, já que não dominava tantos assuntos.

    No entanto, ao dividirmos as responsabilidades com os participantes, escolhendo os temas no momento da atividade, as coisas foram acontecendo de forma natural e os encontros ficando mais interessantes para a maioria dos participantes.

    Quando um participante propõe um tema, ele está nos propondo falar sobre aquilo que o afeta naquele momento, e entendendo a realidade dos jovens que estavam inscritos no projeto, acredito que por isso discutimos tantos temas relacionados à “luta de classes”.

    Quando um outro jovem propõe algo relacionado com a questão racial, certamente está enfrentando algum problema relacionado ao tema, e discutir sobre essa questão pode, além de ser importante pra quem propôs, afetar também outras pessoas de forma diferente, gerando grandes debates e produzindo conhecimentos.

    Mas também houve momentos em que não queríamos discutir nada disso, porque já estávamos cansados, e debater esses temas demandava muita energia. Então, optávamos por falar sobre coisas mais leves como “gírias” ou “desenhos animados”, por exemplo.

    Em suma, a reflexão sobre a “Educação Clandestina” revela a necessidade premente de repensar e ampliar os horizontes do sistema educacional tradicional. Ao destacar a importância da conscientização política, da ação crítica e do empoderamento social, esse conceito nos convida a questionar as estruturas de poder e a buscar alternativas que promovam uma educação mais inclusiva, diversa e transformadora. Através da educação clandestina, podemos despertar consciências, ampliar perspectivas e capacitar indivíduos a se tornarem agentes ativos na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. É imperativo reconhecer o potencial dessa abordagem não convencional e investir em iniciativas que fortaleçam sua prática, permitindo que todos tenham acesso a uma educação que vá além do ensino formal e estimule o pensamento crítico, a criatividade e o engajamento.

  • Nova Iguaçu submersa: o ciclo infinito das enchentes

    Nova Iguaçu submersa: o ciclo infinito das enchentes

    Por Dudu de Morro Agudo

    Na tarde de ontem a chuva começou cedo, mas a partir das 19 horas não deu mais trégua, gerando apreensão em diversos locais de Nova Iguaçu, onde a população temia que suas casas fossem invadidas pela água. No bairro Jardim Canaã, minha sogra, vítima de uma primeira enchente devastadora em 2014, vive sob constante ameaça. As recorrentes inundações, atribuídas pelos moradores a uma obra mal executada no Rio Botas, traumatizaram-na a ponto de ela não manter mais móveis em casa.

    Percebendo que a chuva não pararia, me ofereci para levar meu amigo Samuel Azevedo para casa, deparei-me com uma cidade caótica, entrelaçada por engarrafamentos e bolsões de água. Ruas alagadas, carros avariados e comércios submersos evidenciavam a gravidade da situação. A expressão “Racismo Ambiental” utilizada pela Ministra Anielle Franco ganha relevância ao observar a disparidade entre os pontos mais abastados da cidade, onde tais problemas não ocorrem.

    RACISMO ESTRUTURAL: O MAL INVISÍVEL NAS ÁGUAS

    Convido todos à reflexão profunda sobre os responsáveis por essa situação, pois não é algo natural, como alguns insistem em alegar. Não posso e não devo direcionar minhas críticas ao governo corrente, pois Nova Iguaçu é uma cidade com 190 anos, e muitos outros governos deixaram o problema para o governo seguinte, como uma herança maldita.

    A questão vai além das enchentes; trata-se do fenômeno conhecido como racismo estrutural, que se manifesta na distribuição desigual de recursos e serviços. Em Nova Iguaçu, a população mais vulnerável, majoritariamente composta por negros e afrodescendentes, enfrenta as piores consequências das inundações. As áreas mais pobres da cidade são as mais afetadas, evidenciando uma relação direta entre condições socioeconômicas precárias e o impacto ambiental.

    Essas reflexões trazem novas (ou nem tão novas) questões que tentam apontar os motivos que fazem esses problemas se arrastarem por tantos anos:

    Falta dinheiro ou será que os recursos públicos são direcionados para a manutenção do poder?

     

    A REVOLTA NAS REDES SOCIAIS: TWITTER COMO PALCO DE INDIGNAÇÃO

    Revoltando-me diante do descaso por este lugar e suas pessoas, sofro ao testemunhar tamanho descaso e clamor ignorado. Nas últimas horas, as redes sociais, principalmente o X (antigo Twitter), tornaram-se palco da indignação da população de Nova Iguaçu. Mensagens cobrando soluções imediatas das autoridades inundaram a plataforma, refletindo a frustração acumulada ao longo dos anos.

    Diante desse cenário, é fundamental que as autoridades municipais e estaduais se posicionem de maneira transparente, explicando as medidas adotadas para enfrentar as enchentes recorrentes. A comunidade merece respostas claras sobre os investimentos em infraestrutura e ações preventivas que visam mitigar esses impactos.

    A persistência desse problema em uma cidade com quase dois séculos de existência clama por uma análise mais profunda. É hora de unir esforços, superar barreiras e trabalhar coletivamente para garantir que Nova Iguaçu não seja mais refém das enchentes que assolam as partes mais vulneráveis da cidade. A população já demonstrou sua voz nas redes sociais; agora, é aguardar respostas concretas das autoridades e, juntos, construir um futuro mais seguro e justo para todos os iguaçuanos.

     

  • O conflito de gerações no rap brasileiro: Uma análise das críticas e desafios

    O conflito de gerações no rap brasileiro: Uma análise das críticas e desafios

    Para onde o rap brasileiro está caminhando? Essa é a pergunta que venho me fazendo nos últimos anos, pois acompanho de perto a transformação que a cena do rap nacional vem sofrendo, fundindo-se com outras culturas e ritmos, e, ao meu ver, enfraquecendo-se entre tantas possibilidades.

    O que quero dizer com isso? O rap que aprendi a gostar e a fazer faz parte de uma cultura chamada hip-hop, uma cultura com valores muito bem definidos. São exatamente esses valores que vejo esvaírem-se por conta de alguns cliques ou centenas de milhares de reais.

    Não sou preso ao passado; muito pelo contrário, aprecio muito o que as novas gerações vêm produzindo. Sou fã da juventude e dedico minha vida a estar perto deles. Contudo, não posso negar minha preocupação com o caminho que o rap vem tomando há alguns anos.

    Em conversas com alguns amigos próximos e até mesmo lendo nas redes sociais, percebo a insatisfação de alguns artistas e militantes das gerações passadas. Alguns perdem a mão ao criticar, gerando mais polêmicas do que reflexões, pois os jovens contra-atacam com mais ofensas.

    Muitos dos meus contemporâneos pararam de rimar. Alguns, pela exigência da vida e pela luta pela sobrevivência; outros, porque se achavam “velhos demais” para o ofício. Alguns, como eu, continuam na labuta, tentando manter os pés no chão, respeitando a cultura, mas dialogando fortemente com os novos estilos que surgem, conversando com a juventude.

    O difícil é competir com a indústria, que, a meu ver, é o que está realmente sabotando e desconstruindo o rap. Ela mostra para uma geração inteira que está chegando um rap deturpado como sendo o “rap real” e deixa de fora a história que trouxe o rap até aqui, assim como os personagens importantes para essa construção de meio século.

    Acredito que a minha geração, em vez de criticar os novos estilos e os mais jovens, deve disputar, lançar mais discos, produzir mais videoclipes com a música que acreditam ser o “rap real”.

    Escrevo este texto principalmente porque o Killer Mike ganhou três estatuetas Grammy este ano. Um rapper quase cinquentão está no jogo, cheio de gás, disputando da forma mais prazerosa que há: através da música. Afinal, contra uma boa música, não há argumentos.

  • A descaracterização do movimento Hip-Hop

    A descaracterização do movimento Hip-Hop

    Já ouviu falar do movimento hip hop? NÃO?

    Aqui vai uma breve introdução:

    O hip-hop é um movimento cultural que teve início no Bronx, Nova York, em meados da década de 1970 e é composto por quatro elementos: rap (ritmo e poesia), DJs, Break (ou Street Dance) e graffiti.

    O movimento surgiu como forma de expressão e resistência de jovens negros e latinos que viviam em áreas marginalizadas e vivenciavam diversas formas de opressão e exclusão social, tendo como um dos principais meios a cultura das festas de rua no Bronx. Os DJs abriram o caminho, dando vida às festas com discos de vinil. Os MCs, ou mestres de cerimônia, começaram a improvisar rimas e versos para esses sons, dando origem ao rap, que se tornou um dos elementos do hip-hop.

    Outro elemento chave é a dança que evoluiu das festas de rua. A dança no hip-hop tem muitos estilos diferentes, como break, popping e locking. A cultura do graffiti também cresceu dentro do movimento, com artistas de rua pintando murais e exibindo arte em espaços públicos, incluindo locais abandonados e não utilizados.

    O hip-hop também foi moldado por modas que refletiam as experiências e estilos de vida dos jovens do subúrbio de Nova York, com roupas largas, tênis de basquete e acessórios como correntes de ouro. Agora que você tem um pouco de compreensão de como a cultura hip-hop surgiu e o que ela representa, vamos ao tema central.

    O hip-hop se espalhou pelo mundo e se tornou um movimento cultural global que influenciou a música, a dança, a moda e a arte contemporânea em todo o mundo, permanecendo como uma forma de expressão, mantendo sua relevância e importância cultural.

    O movimento hip-hop se tornou uma forma de resistência cultural e uma forma de expressar as lutas e realidades de comunidades marginalizadas ao redor do mundo. No entanto, por causa de sua crescente popularidade e sucesso comercial, muitos artistas foram cooptados para a indústria da música, levando à descaracterização do movimento.

    A aquisição da indústria da música rap ocorreu quando grandes gravadoras começaram a investir no gênero musical e transformaram o rap em um produto comercial. Os artistas de rap, geralmente, precisam se adaptar às demandas da indústria para tornar sua música mais acessível e comercializável, muitas vezes às custas da autenticidade e originalidade.

    O rap é um gênero que expõe as desigualdades e injustiças enfrentadas por negros e outras minorias, permitindo que os artistas de hip-hop expressem suas próprias experiências e perspectivas de vida, levando a conexões mais profundas com fãs e ouvintes.

    As letras de rap costumam abordar questões como racismo, brutalidade policial, pobreza, opressão e desigualdade, criando discussões importantes que muitas vezes são negligenciadas pela mídia e pelos governos. Mas também pode-se falar sobre qualquer coisa, desde que entenda o básico da cultura e respeite a história do movimento.

    Ao longo dos anos, porém, o rap sofreu uma distorção, com a indústria deixando de lado sua essência como forma de expressão e resistência, forçando muitas vezes a ser algo que celebra um estilo de vida materialista.

    O sucesso comercial levou muitos artistas a deixar as raízes do movimento hip-hop e começar a produzir músicas destinadas exclusivamente ao consumo de massa. Essa descaracterização do rap como uma forma de arte e uma expressão autêntica do hip-hop é um reflexo do capitalismo e da indústria fonográfica, que prioriza o lucro em detrimento da qualidade e o respeito à cultura hip-hop.

    Além disso, a falta de representatividade e diversidade na indústria fonográfica também contribui para a descaracterização do rap. Artistas negros e latinos são muitas vezes marginalizados, estereotipados e forçados a aderir a certos padrões sonoros e estéticos para ganhar atenção. Isso faz com que a diversidade de vozes e perspectivas no rap diminua e ele se torne cada vez mais homogeneizado e comercial. A falta de representação e apoio à cultura hip-hop em muitas áreas da sociedade pode contribuir para o seu abandono.

    A indústria transformou o Rap em um produto de consumo, com artistas valorizados mais por sua capacidade de vender discos e mercadorias do que por sua arte e conteúdo lírico. No entanto, apesar desses desafios, o rap continua sendo uma poderosa forma de expressão e resistência dentro do hip-hop. Muitos artistas ainda lutam para manter as raízes desse movimento.

    A cultura hip-hop continua a evoluir e se atualizar, introduzindo novos elementos e perspectivas que ajudam o movimento a permanecer relevante e autêntico.

    Em resumo, a descaracterização do movimento hip-hop é um fenômeno complexo e multifacetado que reflete não apenas os desafios que os artistas enfrentam na indústria da música, mas também mudanças culturais e sociais mais amplas. Mas é importante reconhecer a autenticidade e o potencial do hip-hop como expressão artística e apoiar os artistas que continuam a lutar pela sua preservação e renovação.

    A essência do hip-hop deve ser preservada como um movimento de resistência e luta cultural, valorizando a cultura de rua, as posturas revolucionárias, a denúncia social e a busca por mudanças. Mais do que um produto de entretenimento, o rap é uma ferramenta de mudança social.

    É importante continuarmos a lutar para que o hip-hop continue a ser uma forma de expressão duradoura e autêntica, onde os artistas são valorizados não apenas pela sua capacidade de vender produtos, mas pelo seu ofício.

  • Rompendo com a Pseudo Superioridade: A decadência da antiga classe média de Morro Agudo

    Rompendo com a Pseudo Superioridade: A decadência da antiga classe média de Morro Agudo

    Antigamente, Morro Agudo via a classe média como rica, porque, por exemplo, eram duas ou três famílias na rua em que eu moro que tinham um carro decente, um emprego digno e um casa com pintura externa, enquanto a pobreza era evidente em diversos aspectos da comunidade. No entanto, ao longo dos anos, as oportunidades proporcionadas pelas políticas públicas começaram a transformar essa realidade de forma significativa.

    A minha vida foi impactada por essas oportunidades, decorrentes de experiências como o Fórum Social Mundial, que tive o privilégio de participar no ano de 2003, e a implementação de políticas públicas nos governos Lula. Essas oportunidades abriram meus olhos para uma realidade além das limitações impostas pela desigualdade social. Testemunhei o impacto positivo dessas políticas em minha comunidade, com amigos encontrando a chance de estudar, trabalhar e a pobreza dissipando-se gradualmente, diminuindo aquela diferença gritante que saltava aos olhos.

    No entanto, alguns membros da antiga classe média, mesmo percebendo que muitas pessoas do bairro também melhoraram seu poder aquisitivo, por exempo, ainda se consideram superiores. Embora a pobreza continue presente, especialmente agravada pela chegada da pandemia, essa antiga classe média, composta por poucas famílias, não detém mais a exclusividade, precisando compartilhar o título conosco, os ex-pobres, a nova classe média morragudense. No entanto, eles relutam em abandonar sua posição de privilégio, o que revela um apego feio ao passado.

    Gosto de ressaltar que continuo pobre, mas não miserável como antes, consigo viver dignamente, pois meu recurso financeiro, apesar de não ser abundante, me permite não gastar todo ele para suprir minhas necessiades básicas.

    Recentemente, tive uma discussão com um conhecido que ainda me enxergava como a criança extremamente pobre da infância. A criança que concordava com tudo o que ele dizia, pois não tinha acesso a informações, bens culturais ou dinheiro. No entanto, os tempos mudaram: viajei por alguns países pelo mundo, estou cursando um doutorado em uma universidade pública e construí uma carreira com muito esforço.

    Esse conhecido faz parte de uma classe média frustrada que insiste em não abrir mão de um privilégio que, ao longo da vida, consideraram um direito. Embora os tempos tenham mudado, ainda há muito trabalho a ser feito para combater as desigualdades persistentes. É necessário um compromisso contínuo para garantir que todas as comunidades tenham acesso a oportunidades e recursos adequados.

    A minha jornada em Morro Agudo é um exemplo vivo de como as oportunidades podem transformar vidas. Estou determinado a lutar por um futuro mais justo e inclusivo, onde cada indivíduo possa alcançar seu potencial e contribuir para o bem-estar coletivo. Unidos, podemos construir uma sociedade mais igualitária e próspera, aproveitando o poder das oportunidades para romper as barreiras que nos limitam. É assim que construiremos um Brasil melhor para as próximas gerações de Morro Agudo e além.

    Diante do exposto, fica evidente que as políticas públicas e as oportunidades proporcionadas ao longo dos anos foram capazes de transformar a realidade de Morro Agudo de forma significativa. A implementação dessas medidas possibilitou o surgimento de uma nova classe média, composta por ex-pobres que tiveram a chance de estudar, trabalhar e melhorar seu poder aquisitivo. No entanto, mesmo diante desse avanço, há ainda uma resistência por parte de alguns membros da antiga classe média em abandonar seu privilégio e reconhecer essa nova realidade.

  • O desafio dos trabalhadores da arte na Baixada Fluminense no pós pandemia

    O desafio dos trabalhadores da arte na Baixada Fluminense no pós pandemia

    Após um longo processo de descaso, a Baixada Fluminense toma fôlego e tenta se reestruturar apesar das sucessivas tentativas de desmonte do setor, capitaneado por várias frentes que enxergam a produção e disseminação cultural periférica como inimigas.

    Para complicar ainda mais a situação, a pandemia empoderou uma vertente anticultural inflamada, incendiando o discurso de ódio que só esperava a oportunidade de sair das sombras. Iniciou-se então uma caça às bruxas e assim se deu início a uma investida contra o setor, só vista anteriormente no regime ditatorial de 64.

    Sendo morador da região e ativista em contato direto com as bases, vi situações e ouvi relatos que realmente nos mostrou quão séria era a situação.

    Muitos artistas que estavam fora do eixo do mercado convencional, mesmo apesar de todos os contratempos conseguiam se manter, contudo a ideia e objetivo era: – “Extinguir os que eram considerados elementos de manipulação pela então esquerda comunista que só absorviam recursos da Lei Rouanet e nada produziam”.

    Constatamos de perto a dura batalha desses resilientes que sempre estiveram no front e de cabeça erguida, em muitos casos alguns tiveram que se desfazer de seus equipamentos ou até mesmo instrumentos musicais que eram utilizados como ferramenta de trabalho.

    Durante esse período conturbado nós, no Instituto Enraizados, conseguimos repassar uma grande quantidade de cestas básicas e vários tipos de doações como roupas, material didático, material de higiene, incluindo álcool gel e máscaras descartáveis.  Criamos um canal (Emergencial Bxd ) de interlocução com os artistas, produtores e trabalhadores da cultura que estavam em dificuldades e compartilhamos com eles não só as doações, mas também as informações a respeito de como acessar os recursos e os editais que estariam por acontecer.

    Distribuição de cestas básicas no Enraizados
    Distribuição de cestas básicas no Enraizados

     

    A situação realmente era séria, já que nem acesso aos transportes públicos as pessoas estavam tendo, então muitos optaram por realizar outras atividades remuneradas como: motorista de aplicativo, entregador de produtos vendidos pela internet, entregador de lanche ou venda de produtos alimentícios na própria residência. Outra problemática foi como fazer toda essa logística funcionar de uma maneira que não colocasse os voluntários em risco e que chegasse de maneira eficiente às pessoas que realmente necessitavam.

    Muitas artesãs tinham como fonte principal de subsistência a venda de seus produtos, e muitas eram senhoras com idade avançada e sem permissão para expor suas mercadorias. Pudemos fazer um paralelo entre os empresários/exploradores que conseguiam por meio de decisões judiciais, permissão para se manter obtendo lucros às custas da saúde e segurança de seus empregados, e essas senhoras que sequer puderam ocupar as calçadas e praças das cidades.

    Mas nesse furacão que parecia não apresentar melhoras, a Lei 14.017/2020, conhecida popularmente como Lei Aldir Blanc, foi sancionada à base de muito custo e disputas.

    Começou então outra via crucis, que foi a elaboração das propostas por parte dos artistas e o entendimento por parte dos gestores municipais estarem aptos a receberem e implementarem esses recursos, foi uma maratona dolorosa perceber que nem todos os artistas tinham sequer a compreensão de como colocar suas ideias no papel de forma clara, e que nem todos os legisladores públicos municipais tinham a expertise para fazer esse recurso tão urgente estar disponível. Tentamos dar suporte a grupos e artistas que nunca haviam sequer pensado em escrever um projeto. Essa deficiência ficou evidente durante esse período e ainda hoje precisamos pensar formas de sanar essa questão o quanto antes, mas esse será um assunto que pretendo abordar em outra coluna.

    Samuca Azevedo
    Samuca Azevedo

    Por fim, os valores foram disponibilizados e muitos artistas (e coletivos) conseguiram acessar, e então uma situação mais crítica pôde ser evitada.

    Cabe agora a nós que temos um pouco mais de lucidez (se é que temos), tentarmos equalizar essa situação e dar suporte a quem precisa para as próximas oportunidades que estão se alinhando no horizonte.

    Estamos em um momento pós pandemia, onde apesar das mais de 700 mil mortes (que poderiam ter sido evitadas), estamos ensaiando um momento de normalidade. Nossa classe (artística cultural periférica) está convalescente e emergindo das profundezas para retomar o fôlego e tentar retornar a realidade, apesar da tentativa de massacre que sofremos durante 04 anos, vamos tentar compreender o cenário que nos deixaram, e como fênix tentar ressurgir dessas cinzas que ficaram como legado, mas apesar de feridos, saímos mais sábios e mais calejados.

    Sarau Poetas Compulsivos no Buteco da Juliana, em Morro Agudo
    Sarau Poetas Compulsivos no Buteco da Juliana, em Morro Agudo

    Muitos elos se fortaleceram e vários sonhos foram criados, muitas pontes estão sendo construídas, morremos um pouco com nosso passado recente, mas a decisão de ficar no caixão é individual.

    A Baixada Fluminense sempre foi e sempre será resiliente em todas as áreas, novas oportunidades estão por chegar, ao menos agora temos um vislumbre de que algo muito bom nascerá depois de todo esse caos.

    Sigamos em frente.

  • Maui: A jóia rara da Baixada fala sobre sua caminhada até aqui e sobre o show de lançamento do EP Rubi, de graça, em Caxias.

    Maui: A jóia rara da Baixada fala sobre sua caminhada até aqui e sobre o show de lançamento do EP Rubi, de graça, em Caxias.

    Vamos passar um final de semana em Parada Angélica?

    Parada Angélica é um bairro localizado no 3º distrito do município de Duque de Caxias, região metropolitana do Rio de Janeiro. E se você ainda não conhece, irá conhecer através de Maui, a Jóia Rara da Baixada Fluminense.

    Maui é um jovem, morador da Baixada, cantor e MC muito conhecido por misturar o Soul Music e o R&B com diversos gêneros da música urbana, como o rap, a música eletrônica, o reggae e todos os seus desdobramentos. Começou a cantar bem novo, na igreja, e depois na escola, mas sua carreira artística começou de fato no Slam (batalha de poesia falada) onde, além de competir, Maui organizava o Slam BXD (principal Slam da Baixada Fluminense).

    Como organizador e poeta, logo percebeu que, apesar de amar a literatura, o seu sonho era ser músico, e foi aí que a partir de 2019 decidiu investir em sua carreira solo, com poucos, porém sempre certeiros lançamentos musicais, buscando ser objetivo e traduzir para as pessoas toda emoção de ser cria da Baixada, de ser favelado, de amar, curtir festas e de lidar com todas as questões emocionais do dia a dia.

    No dia 13 de Janeiro de 2023 Maui lançou o EP Rubi em todas as plataformas de streaming e também no Youtube, com videoclipe de uma faixa literalmente ABSURDA!

    Ao perguntar a Maui como surge a ideia do EP e como foi todo o processo, além de perceber a emoção em cada frase, é notável o quão focado ele está em seus objetivos:

    “Por conta do mercado, eu entendi que o próximo passo, depois de lançar alguns singles, era lançar um EP, que é um projeto mais completo. E aí, se a pessoa gosta de uma música, ela vai lá e escuta as outras, eu comecei esse processo em 2019, mas com um escopo totalmente diferente do que foi o EP Rubi. O nome do EP seria Aquarianos, e eu tava muito focado nessa ideia do comercial, de acertar, porque era uma preocupação, né mano?! A gente quer mudar de vida.

    Mas no meio do processo, eu não conseguia, estava tentando me prender nos ritmos tradicionais da época, o que bombava, só que eu estava conhecendo muita coisa nova, o R&Dril foi uma novidade, o Afrobeat era uma parada que eu estava mergulhando, e acabou que eu fui abrindo mão daquela estética que eu tinha construído inicialmente. Falei: eu vou falar de algo que realmente importa pra mim no meu primeiro projeto, eu quero falar das pessoas e do lugar de onde eu vim, eu quero falar de Parada Angélica, e aí assim nasceu Rubi.” 

    A ideia do EP é passar a sensação de um fim de semana em Parada Angélica, começando pelo valor das pessoas, que são a base, a curtição no baile, a sensação de conhecer uma gatinha, de dançar e depois de ir pra trocação sincera com ela. Por último a “Segunda-feira”, que acaba sempre trazendo a realidade de que apesar da gente se ver como jóia, a sociedade não nos trata dessa forma!

    No próximo domingo, 12 de fevereiro de 2023, Duque de Caxias irá parar para receber a festa Melodyne, que vai contar com o grande show de lançamento do EP Rubi, de Maui. O evento contará com a presença de Antconstantino, Afrodite, Joazz e Jaquelone, tudo isso 0800, na praça Humaitá, Jardim Vinte e Cinco de Agosto, à partir das 17h.

    A festa Melodyne é um evento que busca unir o melhor da bass music com o soul, uma rave com melodia e rappers, MCs e DJs que se preocupam com a melodia, o intuito é criar essa festa equilibrada, perfeita para todos os públicos, e atender a Baixada Fluminense. A produção do evento é feita por Maui, responsável pela produção artística, Diogo Queiroz e Mirella Souza, importantes produtores independentes de Caxias, responsáveis por festas como waves, Exportação e baile da valente.

    “Eu sempre gostei muito de barulho, sempre gostei muito de Rock, heavy metal, trash metal, mas eu também amo Soul, amo música instrumental, melodia, arranjos, amo a Black Music e todos os seus desdobramentos, e em todo evento que eu ia era sempre muito um, ou muito outro. Por exemplo uma parada de R&B, onde às vezes ficava até meio chato, por ficar repetitivo, ou uma parada muito underground de Grime, de pulação e muito barulho. Eu gosto dos dois eventos, mas queria ter um lugar onde eu pudesse uni los, um lugar  para juntar as pessoas que gostam dos gêneros musicais mais enérgicos, que são dançantes, que são pulantes, mas com um recorte de trabalhar com artistas que têm esse cuidado com a melodia, um cuidado com a construção harmônica. Isso não quer dizer que “só vai gente que canta”, mas rappers e DJs que tem essa preocupação na hora de construir as suas musicalidades, e é assim que nasceu a Melodyne. 

    Eu sou fruto de Duque de Caxias, tudo que eu sou, tudo que eu construo é da Baixada Fluminense e não só eu, meus amigos também, tudo que a gente sabe fazer, tanto tecnicamente quanto artisticamente é nesse contexto, eu acho que o Rio de Janeiro tem a sua cultura, é valorosa, é boemia, mas a cultura na baixada tem um outro valor para quem consome, ela é é valiosa, ela é preciosa, é o nosso momento, é o ápice, sabe? 

    Tu ir num baile charme, tu ir num baile funk, não é uma coisa constante aqui, no Rio tu tem evento direto, na baixada é sábado, é domingo, é aquele  momento, que acaba sendo escasso, já que o estado dificulta, então apesar do evento ser itinerante, a prioridade é fazer em Caxias, porque eu tenho que retribuir tudo que a cidade me dá e eu sei a importância de ter um evento desse tipo pra quem mora, pra quem vive ali, eu acho que não tem sentido ficar levando isso para outros lugares, principalmente lugares que tem tanto acesso. Não é sempre que o evento vai ser gratuito, mas a gente sempre que pode faz e esse foi o caso, a primeira edição tinha um ingresso super acessível, mas nessa edição a produtora Mirella Souza conseguiu a liberação da praça e não perdemos a oportunidade.

    -Maui sobre Melodyne- 

    Para finalizar, Maui deixou um recado para os fãs:

    “Cara, os fãs podem esperar muito, mas muito lançamento, tanto de projetos, porque eu gosto muito de fazer EP e fazer mixtape, mas também de singles. Muitas parcerias, gosto de agregar, sou muito família, gosto de colaborar com as pessoas que estão ao meu redor.

    Vai ter muita novidade, mas não fiquem esperando de mim R&Drill, não espere que eu seja a cara do R&Drill, eu não me proponho a ser a cara de nada. Posso ser a cara do Soul moderno, o Soul de hoje em dia, e vou usar todas as batidas rítmicas e gêneros que tiver na minha frente pra fazer isso, meus crias e meus fãs já me conhecem, eles sabem que podem esperar qualidade de mim,  independente do contexto e surpresa sempre, sou músico, sou artista e vou utilizar de todas as ferramentas pra entregar o que quero, além de entretenimento também, junto a minha equipe vamos gerar uns conteúdos pras redes sociais, para o Youtube também, devo lançar um programa esse ano convidando outros Artistas e tamo aí, ativão nas redes e também na pista, e tu (aqui ele fala para o público em geral) vai me ver toda hora.

  • Como criar uma nova cena para o rap a partir das periferias? Uma nova cena para o rap ainda é possível nos dias de hoje?

    Como criar uma nova cena para o rap a partir das periferias? Uma nova cena para o rap ainda é possível nos dias de hoje?

    Estas perguntas permeiam as novas e as antigas gerações do rap há anos. Desde quando eu comecei a fazer rap ouvia dizer que “esse ano é o ano do rap”. Normalmente algum grupo se destacava, com um estilo novo e diferenciado, e logo depois aparecia uma leva de MCs os imitando. Vi isso acontecer com SNJ, com o Sabotage e com o Pregador Luo, depois com Emicida e Criolo. Mais recentemente com Filipe Ret, Bk e Djonga.

    Para responder rapidamente a estas perguntas logo no início do texto, algumas pessoas certamente diriam que sim, é totalmente possível criar uma nova cena de rap nos dias de hoje.

    Pois o gênero evoluiu de uma cultura urbana mais frequentemente associada à criminalidade para um estilo musical mais acessível, com letras positivas e refletindo preocupações mais amplas sobre as comunidades de hoje.

    Os artistas de rap estão cada vez mais dedicados à produção de conteúdo novo original e à promoção dos seus pontos de vista. O crescimento da internet também tornou mais fácil a produção e distribuição da música dos artistas independentes, o que criou espaço para experimentação e expressão criativa.

    Mas, a partir deste texto, desejo aprofundar e complexificar mais esta discussão. Desejo refletir um pouco sobre isso e convido vocês para esse rolézinho. Vamos nessa?

    Há  tempos tenho percebido que muitos artistas, principalmente os que estão iniciando, mas não somente estes, não tem um planejamento de suas carreiras artísticas e musicais. Muitos não amadurecem seus estilos, copiam o artista que mais gostam, escrevem letras que beiram o plágio e ficam fissurados para entrar logo no estúdio e gravar. Alguns, após essa façanha, se esforçam para gravar um videoclipe, que, ou é cópia do clipe do seu artista favorito ou é ele próprio cantando em frente a câmera, sem ao menos ter se debruçado na elaboração de um roteiro medíocre. Depois disso jogam tudo no youtube e fé!!! Bóra fazer outra música.

    Quando eu comecei a rimar, lá pelos anos de 1994, a gente nem tinha acesso a um beat, somente os beats americanos chegavam pra nós. Ao conversar com o MC Marechal durante a bienal da UNE, que aconteceu na Fundição Progresso, no início de fevereiro de 2023, um pouco antes de dividirmos uma mesa sobre educação e cultura, ele me lembrou que era uma prática comum irmos para São Paulo atrás de CDs de beats.

    Já participei de eventos onde vários grupos de rap cantavam suas músicas no mesmo beat, que a gente chamava de “base”. Não tinha público também. A gente era limitado, mas bastante criativos. Aqui na Baixada Fluminense, por exemplo, era um celeiro de rappers e grupos de rap. Um diferente de outro. Lembro que tinha o Fator Baixada, o Ultimato a Salvação, o Kappela, o Pêvirguladez, o Slow da BF, o Bob X, o Vozes do Gueto e muitos outros. Cada um com sua singuralidade.

    Nosso sonho era gravar um CD. Poucos de nós conseguiu. Mas depois disso, também não tínhamos planos. Normalmente ficávamos com um milheiro de discos encalhados dentro de casa. Muitos de nós vendeu carro, terrenos e outros bens para realizar esse sonho, que logo se tornou um pesadelo de frustrações.

    Mas o tempo passou, houve o barateamento tecnológico e a gente teve acesso a vários equipamentos de áudio, muitos de nós montou seu próprio homestudio, aprendeu a usar uns softwares e começou a produzir suas próprias bases e gravar as próprias músicas no quarto de casa. Logo depois as câmeras de fotografia e vídeo ficaram mais acessíveis e os videoclipes explodiram.

    A forma de distribuição musical mudou, chegou o Spotify e o Youtube. Eles estão estão aí, são realidades, mas a gente continua com o mesmo modus operandi.

    Minha crítica não é musical, pois isso é muito subjetivo, a música que agrada um, desagrada outro. A minha crítica é sobre a forma como nós, artistas, administramos nossas carreiras.

    Quantos de nós tem um site, uma rede social bem administrada, um telefone de contato, um email, um release, um mapa de palco e um business rider?

    Quantos de nós entende minimamente sobre direitos autorais e direitos conexos, quantos sabem dizer o que é ISRC, quantos sabem dizer a diferença de uma agregadora para uma associação de gestão coletiva? Quantos de nós registra a própria música?

    Quantos de nós tem um show decente para apresentar para os fãs? Sim, nós temos fãs. Às vezes a nossa base de fã é pequena, mas merece tanto respeito quanto se fossem milhares de pessoas. Nossos poucos fãs merecem assistir a uma apresentação de qualidade, nossos fãs merecem receber o nosso melhor. Para isso a gente precisa se dedicar, a gente precisa ser profissional. A gente precisa cuidar e administrar essa base de fãs, entender que são eles.

    Lembro que no ano de 2010 tinha uma escolinha de hip hop no Enraizados. Muitas pessoas me criticavam dizendo que hip hop não se ensina (e não se aprende), que a gente nasce com o dom e etc. Nem discuto porque realmente tem gente que acredita nisso daí, da mesma forma que tem gente que acredita que futebol não se aprende em escolinha. Enquanto isso a classe média tá tomando o espaço da favela nos times de futebol do Brasil inteiro.

    Mas a minha questão é: Que tipo de artista você quer ser?

    Vi vários meninos e meninas chegarem no Enraizados sem saberem como se portar no palco. Vários que gaguejavam na frente de uma câmera durante uma entrevista. Mas que com o tempo, a partir de muita prática, muito treino, foram se desenvolvendo. Eu vi esse desenvolvimento em muitos deles. Sem contar que suas rimas e suas poesias ficavam cada vez melhores. Não era um “projeto social” para crianças carentes, era um espaço onde todos nós podíamos nos desenvolver artisticamente.

    Infelizmente tivemos que parar com a Escola de Hip Hop Enraizados na Arte, e alguns desses artistas, formados ali, tenho orgulho de dizer que sou fã da arte que produzem até hoje. Inclusive já contratei alguns para se apresentarem nos eventos que produzo. Contratei porque eram bons artistas e tinham o que entregar, não porque eram meus amigos e amigas.

    Mas esse barateamento tecnológico, ao mesmo tempo que foi muito bom para a nossa liberdade e desenvolvimento enquanto artistas, nos dando independência pra produzir e gravar a nossa própria música, também formou um monte de artistas que só funcionam dentro de estúdio, que estão produzindo em escala industrial, sem nenhum planejamento. E alguns deles não fazem ideia de como se portar em cima de um palco. Me parece que a única coisa que importa é colocar as os videoclipes no youtube e seguir gravando músicas e mais músicas.

    A pergunta é: Pra que? Pra quem?

    Durante a pandemia, fui contratado para fazer uma apresentação em uma cidade vizinha. Chamei alguns MCs para me acompanhar nesse show. Antes, propus um ensaio. Me espantou que parte dos artistas não sabia a própria música, cantavam olhando a letra no celular, outros chegaram com o beat no telefone, outros cantavam olhando pro chão. Uma decepção pra mim. Tenho certeza que se tivessem participado da escolinha de hip hop do Enraizados, não se portariam de tal forma.

    Outro jovem MC, num outro momento, havia gravado um CD, na época estava na moda gravar EPs. Lembro que três meses depois ele já estava preparando outro disco. Ninguém ainda tinha ouvido o disco de lançamento, a não ser o círculo de amigos, o que nós chamamos hoje de “nossa bolha”. Levei ele pra se apresentar em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e ele ficou maravilhado.

    Para não ficar apenas nas críticas e provocações, que nem é o meu objetivo com esse texto, trago também sugestões, pois minha ideia aqui é que possamos praticar reflexões a partir da nossa própria vivência enquanto artistas. Esse texto não é para todo mundo, mas para nós artistas que ainda não estão “hypados”, contudo seguem na luta por um lugar ao sol, desejando trabalhar de forma organizada, pensando suas carreiras e investindo nela.

    Importante dizer também que quando falo em investimento não estou falando somente de dinheiro, mas de tempo, de dedicação, de olhar com mais seriedade e respeito para o seu próprio “trabalho” artístico. Há cinco anos, o WSO, junto com vários amigos lançou o melhor videoclipe que já vi por esses lados de cá. O que faltou pra esse clipe explodir? São essas perguntas que devemos tentar responder.

    Mano Brown disse que todos os dias trabalha oito horas no seu projeto artístico, ou seja, na sua carreira. É disso que estou falando. Investimento.

    Minhas propostas são (e não serve somente para Baixada Fluminense, isso, no meu ponto de vista, serve para qualquer região do Brasil que esteja disposta a se organizar):

    • Fomentar uma rede dinâmica e de ajuda mútua: Definir um raio geográfico e estabeler parcerias com artistas dessa região, formando um coletivo horizontal, uma espécie de observatório para mapear produtores musicais, beatmakers, proprietários de estúdios, curadores, produtores culturais, fotógrafos, jornalistas, influenciadores, videomakers, cineastas, comunicadores, roteiristas, etc…
    • Criar um protocolo que sirva como farol para “todos” os artistas da rede:
      • Ter uma rede social organizada para interação com fãs;
      • Administração da base de fãs;
      • Um email profissional;
      • Um telefone de contato;
      • Um release produzido por um jornalista ou alguém que saiba o que está fazendo;
      • Fotografias profissionais para disponibilizar para os contratantes.
    • Desenvolver uma protótipo de uma “Produtora Cooperativa”: Centralizar todo o “comercial” (venda de shows, produtos, etc) num só lugar. Administrar um calendário com todos os eventos que acontecem na região (não somente de rap, mas saraus e outros), para que os artistas possam se revezar apresentando seus shows.

    Olha que interessante.

    Lembrando que, para o desenvolvimento do coletivo, também é importante desenvolver o individual, para a máquina funcionar, é necessário que cada engrenagem esteja funcionando bem, por isso digo que o desenvolvimento individual é tão importante quanto o coletivo.

    Cada artista precisa desenvolver sua identidade musical, buscar uma música única, a tal batida perfeita que o Marcelo D2 tanto disse. Isso requer um mergulho pra dentro de si. (Mas talvez isso seja um assunto para uma outra coluna).

    Quem sabe percorrendo este caminho, a gente não crie uma nova cena musical com uma linha que conecte todos os artistas envolvidos, seja no beat, no flow ou no tema a ser desenvolvido?

    Sei lá, é uma proposta.

    Aceito críticas e sugestões nos comentários.

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