Nem sei por onde começar. São tantas coisas a dizer, tantos sentimentos que permeiam meu coração, mas vou começar do jeito que dá—transbordando o que sinto, deixando que as palavras fluam.
Este processo de pesquisa foi, sem dúvida, um grande aprendizado. Aprendi a olhar para lugares que antes não enxergava, a ouvir de forma atenta e afetuosa essa juventude potente que orbita o Quilombo Enraizados e participa das atividades do RapLab e tantas outras, e a refletir sobre nossas próprias práticas e vidas. Mas, acima de tudo, aprendi a inventar mais futuros possíveis para nós.
Conectei minhas redes a outras redes educativas, e isso expandiu meus horizontes de uma forma que eu jamais imaginei. Lembro-me de uma conversa que tive com minha grande irmã, Lisa Castro, quando ainda estava no mestrado. Ela me perguntou se a universidade tinha me mudado. Na época, respondi que sim, mas que minha presença e de tantos outros iguais a nós, também tinha mudado a universidade de alguma forma.
Hoje, minha resposta seria diferente. Diria:
— Sim, minha amiga, entrar para a universidade mudou minha vida. Ou melhor, mudou as nossas vidas, a minha, a sua e de tantos outros que suas redes se cruzam com as nossas.
Graças a essa jornada acadêmica, conheci pessoas incríveis e me conectei com o grupo de pesquisa Juventudes, Infâncias e Cotidianos (JICs), onde encontrei pessoas que hoje são parte importantíssima do Enraizados. São pessoas que nos ensinam tanto quanto aprendem conosco. Graças a essas conexões, chegamos ao terceiro ano do Curso Popular Enraizados, com contribuições fundamentais da Bia, da Júlia e da Maria, à terceira turma de teatro em parceria com o Projeto Teatro Nômade, graças a Luísa e a toda turma do Projeto Teatro Nômade, e esses projetos não só impactaram minha trajetória, mas também envolveram minha esposa, meu filho e a família da própria Lisa. Hoje, minha irmãzinha cursa pedagogia, minha esposa está prestes a entrar para cursar história na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, aqui em Nova Iguaçu, ambas estudaram no Curso Popular Enraizados. Meu filho, com apenas sete anos, já atuou em duas peças teatrais.
As redes foram se cruzando, as possibilidades se ampliando, e hoje vejo dezenas de pessoas que tiveram suas vidas transformadas a partir dessas conexões.
O dia da defesa de doutorado foi um dos mais intensos da minha vida. Organizar transporte, lanches, presentes, preparar slides, ensaiar… Um turbilhão de tarefas. Nada disso seria possível sem a força coletiva de tantos amigos que chegaram e nunca mais saíram.
Um amigo conseguiu o ônibus, outro a van, e minha esposa preparou cuidadosamente os kits de lanche para todos. Samuca estava mais ansioso que eu, porque percebia que, no meio da produção desse dia, eu não encontrava tempo para ensaiar minha apresentação.
Antônio Feitosa chegando no Quilombo Enraizados, às 5:30 da manhã
Baltar, Higor, FML, DMA, Samuca e Kaya
Enraizados rumo a UFF, de ônibus
Marcamos a saída para as 5h30 da manhã, e todos chegaram pontualmente ao Quilombo Enraizados. Dorgo seguiu comigo de carro, que já estava carregado com um isopor cheio de bebidas e gelo, projetor, caixa de som, cabos e outros equipamentos. Seguimos viagem cantando para aliviar a tensão, embora eu estivesse em um estado quase mecânico, semelhante ao que senti no dia do nosso show no Rock in Rio. A meta era clara: viver o dia, fazer o que havia sido ensaiado e não improvisar. O famoso “sorria e acene”.
Mas, como em toda grande história, imprevistos aconteceram.
Ainda na Avenida Brasil, um carro bateu na traseira do meu. O barulho foi assustador, e saí do carro sem conseguir disfarçar minha insatisfação. O motorista do outro veículo estava visivelmente nervoso, mas, felizmente, não houve grandes danos e seguimos viagem.
Ao chegar na UFF, outro desafio: o auditório reservado para a defesa estava ocupado por um evento de química. Tivemos que nos adaptar rapidamente e mudar para o auditório do Bloco F. Mesmo com os contratempos, tudo foi resolvido com o apoio das minhas amigas do JICs, que cuidaram da burocracia, do café da manhã, da comunicação da mudança de sala e de mais um monte de coisas. Luísa, Inês, Bia, Andreza, Pedro, Laís, Ravelly, Rebecca… Quase todas e todos estavam lá. Senti falta da Patrícia, da Clarice, da Maria Fernanda que infelizmente não puderam estar presentes.
Minha amiga Emília me recebeu com um presente logo na minha chegada —uma linda orquídea e um bolo de rolo, um gesto de carinho que guardarei para sempre. Ana Massa, amiga de quase duas décadas, também estava lá. Foi emocionante perceber que aquela conversa que tivemos anos atrás, em Paris, sobre fazer eu doutorado, quando eu ainda nem tinha começado a graduação, finalmente se concretizava.
Lista de Presença?
Valter Filé observando a apresentação de Dudu de Morro Agudo
Ana Enne, minha querida amiga e professora da UFF, que conheci lá pelos anos de 2010, quando trouxe sua turma de graduandos para conhecer o nosso Pontão de Cultura e nossa rádio web, onde o âncora era uma criança de 11 anos. Ela também esteve presente.
Cada detalhe foi pensado com amor e dedicação. Higor Cabral e Josy Antunes registraram tudo com filmagens e fotografias, Aclor fez belos registros em vídeo e Baltar criou um flyer incrível para divulgar o grande dia. A presença de tantos amigos, colegas e familiares tornou tudo ainda mais especial.
A banca era o time dos sonhos. Sou fã de cada membro, tanto por suas trajetórias acadêmicas quanto por seus posicionamentos políticos e ideológicos. Adriana Facina, Adriana Lopes, Valter Filé, João Guerreiro e minha orientadora, Nivea Andrade. Infelizmente, Erica Frazão não pôde estar presente por motivos pessoais, mas sua contribuição na qualificação foi fundamental.
Banca formada por Adriana Facina, Adriana Lopes, Nivea Andrade, João Guerreiro e Valter Filé, ao lado Dudu de Morro Agudo
Como homenagem à cultura hip hop, fizemos um zine, inspirado nos coletivos dos anos 90, com o resumo da pesquisa e as letras das músicas “Reflexões que ainda me tiram o sono”—uma criação nascida dentro da universidade, na disciplina Psicologia da Arte, ministrada pela professora Zoia Prestes, a quem sou imensamente grato—e “Jovem Negro Vivo”, a música mais emblemática dos encontros do RapLab.
Durante a defesa, a banca fez apontamentos valiosos, que renderam discussões até no ônibus de volta para casa.
Quando chegou minha vez de falar novamente, a emoção tomou conta. As lágrimas vieram, e aquele nó na garganta que sempre aparecia até nos momentos de ensaio da apresentação ou quando simplesmente imaginava o dia da defesa, estava lá, presente. Refletir sobre a própria trajetória é uma viagem cheia de turbulências.
Ao final, Nivea Andrade fez uma fala emocionante, tecendo palavras sobre minha mãe, meus filhos, minha companheira e os mais velhos do Enraizados. Foi uma homenagem afetuosa e respeitosa, que tocou fundo em todos nós.
E então, o veredito foi lido: APROVADO.
Adriana Facina, Adriana Lopes, Nivea Andrade, Dudu de Morro Agudo, João Guerreiro e Valter Filé
JICs: Rebecca, Ravelly, João, Gabi (agachada), Bia, Nivea, Dudu, Duduzinho, Luísa, Inês (ao meio), Laís (agachada), Andreza e Pedro
Imperatriz (filha), Lúcia (mãe), Alcione (tia e madrinha) e Milena (prima)
Fernanda Rocha (esposa) e Dudu de Morro Agudo
O bonde todo.
A festa começou. A universidade rimou e rimou. Vieram os abraços, as mensagens inundaram o WhatsApp, as redes sociais explodiram. O Enraizados inteiro se tornava doutor.
Depois, a celebração continuou no Quilombo: cantamos, rimos, choramos, bebemos, comemos, caímos, tomamos banho de chuveiro, dançamos. A felicidade era palpável.
No dia seguinte, acordei cedo e fui para o Quilombo arrumar tudo, sozinho lavando o quintal e refletindo sobre as últimas 24 horas. Os vizinhos já me chamavam de “doutor”, perguntando quando poderiam ler minha tese. Eu respondia com sorrindo:
— Logo! Semana que vem estará nas ruas!
Como se fosse meu novo disco.
A ficha ainda não caiu completamente, mas sei que este não é o fim —é o início de uma nova e longa jornada. Agora é hora de agradecer, viver o momento e seguir desenhando futuros possíveis.
Com rimas afiadas e ideias firmes, representantes do Hip Hop carioca mostram que a cultura Hip Hop é a ponte para a transformação social e política
Nos dias 29 e 30 de novembro de 2024, Brasília respirou rima, ritmo e resistência com o Seminário Internacional da Construção Nacional do Hip Hop. Representando o Rio de Janeiro, oito vozes marcantes do movimento cultural mais revolucionário do planeta levaram suas histórias, perspectivas e desejos para o futuro do Hip Hop. O evento não foi só um marco, mas um grito de união, organizado para construir políticas públicas e fortalecer uma cultura que há 50 anos transforma vidas.
As vozes do GT-RJ
De Cabo Frio à Lapa, da CDD à Baixada Fluminense, do basquete de rua às batalhas de rima, os representantes do GT-RJ têm trajetórias que misturam arte, educação e transformação social. Conheça quem são algumas dessas lideranças e o que pensam sobre o impacto do seminário.
Taz Mureb – MC e porta-voz da resistência do interior
Primeira colocada no edital do Ministério da Cultura na região Sudeste, Taz Mureb, de Cabo Frio, é MC, produtora cultural e uma das vozes mais marcantes do GT-RJ. Para ela, o seminário é um divisor de águas para a cultura Hip Hop no Brasil.
“O seminário é um marco. Estamos institucionalizando o Hip Hop como política pública cultural. É mais que música ou dança, é um movimento sociocultural e político. Aqui, a gente abre diálogo com órgãos do governo, empresas e até frentes internacionais. Sonho com o Hip Hop sendo ferramenta de promoção cultural no Brasil e no exterior. É o começo de algo muito maior.”
Taz destacou também a importância de criar um legado para as próximas gerações: “Precisamos transformar iniciativas locais em políticas nacionais e mostrar que o Hip Hop pode mudar o Brasil. É isso que estamos construindo aqui.”
DJ Drika – O coração pulsante da Baixada Fluminense
Adriane Fernandes Freire, ou DJ Drika, carrega a Baixada Fluminense no peito. Fundadora da Roda Cultural do Centenário, ela e sua equipe levam os quatro elementos do Hip Hop para as favelas de Duque de Caxias há seis anos. “Estar aqui no seminário é histórico. É uma vitória da cultura periférica, uma chance de dialogar com o governo e fortalecer o que já fazemos nas comunidades. A cultura Hip Hop precisa de apoio contínuo, e eventos como este abrem caminhos para que nossas vozes sejam ouvidas.”
Drika enfatizou que o Hip Hop não é só arte, mas também resistência: “Nosso movimento nasceu para transformar. Com a parceria do governo federal, podemos ir mais longe e impactar mais vidas.”
MC Rafinha – A força da união
Parceiro de Drika na Roda Cultural do Centenário, Rafael Alves, o MC Rafinha, é um mestre de cerimônias que acredita na força coletiva. Ele vê o seminário como uma plataforma para expandir o trabalho que já realiza com batalhas de rima, grafite e poesia na Baixada Fluminense.
“Esse evento é sobre união. É a chance de estarmos juntos, trocando ideias e mostrando que o Hip Hop vai além das nossas rodas culturais. Aqui, colocamos nossa luta no mapa e mostramos que estamos prontos para construir juntos.”
Para Rafinha, o seminário marca o início de um novo capítulo para o movimento. “O Hip Hop é a voz da periferia. Estar aqui é garantir que essa voz ecoe mais alto.”
Erick CK – Conectando a cena em Niterói
Com sete anos de atuação nas rodas culturais de Niterói, Erick Silva, o CK, sabe o peso de levar o Hip Hop para os palcos e ruas. No seminário, ele viu uma oportunidade de conectar as demandas dos artistas locais com políticas públicas mais amplas.
“É muito importante estarmos aqui. Precisamos discutir os problemas reais do Hip Hop, como falta de patrocínio para DJs e grafiteiros, e a valorização dos produtores que estão sempre nos bastidores. O seminário abre essas portas.”
CK ressaltou a relevância de manter o diálogo aberto para futuras edições: “Que este seja o primeiro de muitos eventos que fortaleçam o movimento em todo o Brasil.”
Anderson Reef – Transformação social em Madureira
Palestrante no painel “Retratos do Brasil: Narrativas Regionais e Potência Construtiva”, Reef é produtor cultural, responsável pela Batalha Marginow, evento semanal, que acontece todas as segundas e tem uma década de trabalho embaixo do Viaduto Madureira, zona norte do Rio. Ele usa o Hip Hop para revitalizar espaços e gerar economia criativa.
“O Hip Hop salva vidas. Aqui em Brasília, mostramos ao governo que nosso movimento vai além da música. Trabalhamos com saúde, educação, teatro e dança. Precisamos de mais estrutura para continuar impactando nossas comunidades.”
Para Reef, o seminário também é um espaço para pensar grande: “Quero ver o próximo evento num lugar maior, com mais gente. O Hip Hop merece ser tratado como prioridade nacional.”
Anderson Reef
Rafa Guze – Uma cineasta na linha de frente
Educadora social e diretora do Instituto BR-55, Rafa Guze acredita no poder do Hip Hop para transformar vulnerabilidades sociais. Para ela, o seminário é uma chance de estruturar
políticas que atendam as bases do movimento.
“O Hip Hop é uma potência global, mas nossas comunidades ainda enfrentam muitas dificuldades. Este evento é sobre construir soluções, criar políticas que combatam fome, genocídio, feminicídio e outras desigualdades. É sobre usar nossa cultura para transformar realidades.”
Rafa destacou a importância de trabalhar em parceria com o governo: “Sabemos como resolver os problemas. Só precisamos de apoio para fazer isso acontecer.”
Lebron – Formando novas gerações
Victor, ou Lebron, é um veterano do basquete de rua e do Hip Hop em Campos dos Goytacazes. Fundador de uma ONG que atua há 18 anos, ele vê o seminário como uma oportunidade de renovar o movimento.
“O Hip Hop me ensinou tudo que sei. Agora, quero retribuir, formando novas gerações de artistas, DJs e produtores culturais. Precisamos de mais eventos assim, que conectem pessoas e ideias para planejar o futuro.”
Para Lebron, o maior desafio é garantir que o movimento continue crescendo de forma sustentável: “Estamos retomando espaços e precisamos de articulação para avançar.”
Bruno Rafael
Bruno Rafael – Liderança que inspira
Com 27 anos de trajetória, Bruno Rafael é uma figura central do Hip Hop carioca. Palestrante no painel “Retratos do Brasil: Narrativas Regionais e Potência Construtiva”, ele destacou o amadurecimento do movimento.
“Esse seminário é fruto de trabalho coletivo. Mostramos que o Hip Hop está politizado e organizado. Hoje, conseguimos dialogar diretamente com ministros e secretários, algo que nunca foi possível antes.”
Para Bruno, o evento é um reflexo da força do movimento: “O Hip Hop tem o poder de transformar vidas. Estamos só começando a mostrar do que somos capazes.”
O impacto do seminário
Entre as falas, há um consenso: o Hip Hop precisa ser reconhecido como política pública prioritária. Os representantes do GT-RJ destacaram que o movimento não é apenas arte, mas uma ferramenta para combater desigualdades, gerar renda e formar futuros líderes culturais. Para os representantes do GT-RJ, dois nomes de peso tiveram grande importância para a realização deste seminário: Claudia Maciel e Rafa Rafuagi.
“A Claudia é pura visão estratégica”, disse Taz Mureb.
Já Rafa Rafuagi, é a ponte que liga cultura e política: “Ele é aquele cara que transforma discurso em ação. Além de ser referência no rap do Sul, ele trouxe a ideia de que o Hip Hop pode e deve dialogar diretamente com o governo, sem perder nossa essência de resistência.”
Para o grupo, Cláudia e Rafa não foram apenas organizadores, mas exemplos vivos de que o Hip Hop é articulação, união e transformação.
Caminhos para o futuro
O Seminário Internacional da Construção Nacional do Hip Hop foi mais do que um evento. Foi um passo firme em direção a um Brasil mais justo e diverso, onde a cultura Hip Hop ocupa o lugar que merece: o de protagonista na transformação social.
Com vozes como as do GT-RJ, o futuro do Hip Hop promete ser brilhante – e revolucionário.
No corre da favela e do asfalto, na batida da vida, todo mundo mandou o papo reto: “O Hip Hop salva vidas!”
No próximo dia 15 de junho, a partir das 19 horas, o Quilombo Enraizados em Morro Agudo será o palco de um evento ímpar: o show “O Dever Me Chama” do rapper Dudu de Morro Agudo, acompanhado pela banda Marginal Groove.
Este evento, apresentado pelo Governo Federal, pelo Ministério da Cultura, pelo Estado do Rio de Janeiro e pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, através da Lei Paulo Gustavo promete uma noite de rap reflexivo, que une música e consciência política. O espetáculo visa proporcionar uma experiência única, onde o entretenimento se mescla com uma forte mensagem de mudança social e união comunitária.
O repertório do show será baseado no álbum “O Dever Me Chama” e incluirá novas faixas como “Reflexões que ainda me tiram o sono” e “Quanto vale?”. A cenografia, cuidadosamente elaborada para representar a Baixada Fluminense, e a iluminação envolvente garantem uma experiência visual única, intensificando a mensagem das músicas.
A banda Marginal Groove é composta por DJ Dorgo, Rogério Sylp, Dom Ramon, Fábio Spycker, Gustavo Baltar, Rob, Ghille, além do próprio Dudu de Morro Agudo. Os músicos se reuniram em 2019 para acompanhar Dudu de Morro Agudo no Rock In Rio, numa fusão entre a equipe do rapper e a banda T-Remotto, também de Nova Iguaçu.
No seu último disco, intitulado “O Dever Me Chama”, Dudu de Morro Agudo mesclou o boombap com o funk carioca e o trap, sempre com letras ácidas e o sarcasmo que é sua marca registrada. Agora, com o Marginal Groove, ele traz uma sonoridade ainda mais diversificada, misturando o rap com estilos como rock, reggae, samba rock e samba.
O show é gratuito e acessível a todos, com o objetivo de democratizar o acesso à cultura e fortalecer os laços comunitários. É uma oportunidade imperdível para fãs de rap, ativistas sociais e a comunidade local se reunirem e refletirem sobre questões relevantes da nossa sociedade.
Os ingressos são gratuitos, mas limitados, para garantir uma experiência de qualidade ao público. Interessados devem retirar seus ingressos na plataforma Sympla através do link: Sympla – Show “O Dever Me Chama”. Os cinquenta primeiros inscritos receberão um presente especial da produção do evento.
Serviço:
Data: 15 de junho de 2024
Horário: A partir das 19h
Local: Quilombo Enraizados, Rua Presidente Kennedy, 41, Morro Agudo, Nova Iguaçu, RJ
Entrada: Gratuita
Para mais informações e agendamento de entrevistas, entre em contato com Fernanda Rocha, produtora responsável pela logística e organização do evento no número (211)9.6566-8219.
Paulo Gabriel Queiroz Pereira, conhecido como GB Montsho, tem 23 anos de idade, iniciou no RapLab em 2016, com 15 anos de idade. Morou em Nova Iguaçu, Pavuna, e atualmente reside em Anchieta. É estudante de Letras na UFRRJ, em Nova Iguaçu, onde faz parte do diretório estudantil. Além disso, é rapper e poeta.
GB tornou-se uma figura central em minha pesquisa porque, além de ser um jovem que está há quase uma década participando do RapLab, esteve presente em 130 dos 150 encontros que realizamos, sendo responsável por trazer muitos dos jovens participantes, incluindo os outros dois personagens com quem conversei: Debrah e Jatobá. Minha conversa com GB ocorreu em 31 de março de 2024 e está transcrito abaixo.
GB Montsho duranta apresentação no evento Baixada Rap Festival, onde foi o campeão.
Fale um pouco sobre você? Bom, sou GB Montsho, tenho 23 anos e nasci em Nova Iguaçu, mas atualmente moro em Anchieta.
Acredito que hoje sou alguém que busca apenas viver tranquilo, tá ligado? Sou um cara que faz seus corres na política, faço parte do movimento negro e também do movimento estudantil. Além disso, sou estudante de Letras na UFRRJ, trabalho na área de revisão de texto e faço parte do diretório estudantil da minha universidade.
Além disso, dedico parte do meu tempo à escrita de poesias.
Mas na prática, eu quero estar movimentando pessoas, para que possamos alcançar uma vida tranquila para todos. Porque acredito que não podemos simplesmente ignorar. A gente não consegue mais passar batido hoje. São vários atravessamentos.
E a escolha que fiz de ser um cara do hip-hop, que busca conscientização, faz com que esses atravessamentos doam mais. Eles se tornam mais evidentes, pois não há como ser do hip-hop e não mudar sua maneira de agir perante o mundo. Não apenas em pensamento, mas também em seu comportamento nas ruas. É uma parada que te persegue. Acho que eu sou um cara normal, um estudante, um trabalhador.
Um estudante que se esforça para conseguir se manter na universidade, enfrentando muitas dificuldades. Que está indignado e deseja ter uma vida normal. Que não é essa vida que está colocada aí pras pessoas.
Você se lembra da primeira vez que participou do RapLab?
A primeira vez foi em 2016, na Arena Jovelina Pérola Negra, na Pavuna, eu tinha 15 anos.
E como é que você ficou sabendo da atividade?
Foi através do Inbute. Eu lembro que comecei a querer fazer rap aos 14 anos, então me juntei com a galera que tinha um grupo de rap de São João de Meriti. Fui a um evento na Pavuna, que ocorreu no Museu do Graffiti lá.
Se não me engano, o RapLab era às quartas-feiras, e o evento era às terças. O Inbute disse que haveria algo na Arena na quarta-feira, e eu comecei a participar.
Por acaso foi quando a gente estava para fazer o rap “Rio 2017”, um rap que fizemos em 2016, falando sobre 2017. Se eu não me engano era um rap de um projeto específico.
Naquele dia, conheci muita gente, o Marcão (Baixada) estava indo para o RapLab, o Léo da XIII, a rapaziada toda. E esse RapLab foi mais cheio, porque era uma parada da Casa Fluminense, era um projeto específico.
A partir daí eu estava sempre presente. Toda quarta-feira que tinha RapLab na Arena, eu estava lá.
O que te motivou a frequentar o RapLab com tanta assiduidade naquela época e a continuar indo?
Pra mim, especificamente, foi primeiro o lance da experiência, porque eu já tinha interesse em fazer rap. Não entendia exatamente para que o RapLab era voltado, por exemplo.
O RapLab, na maioria das vezes, é feito com a galera mais crua do rap do que com quem de fato faz a parada. Eu não sabia exatamente o que era, mas sabia que era uma parada de desenvolvimento do rap, que era de graça, e que tinha a possibilidade de eu me desenvolver em alguma coisa, de gravar música e tal.
Só que quando eu chego lá e vejo uma rapaziada que entendia da parada, aí eu falo: – ‘Mano, vou continuar vindo nessa parada aqui’.
Primeiro, porque era legal, isso era um elemento. Nessa época, eu estava morando na Pavuna com a minha mãe, e aí, na quarta-feira à noite, eu não tinha nada para fazer, então era algo para eu fazer ali. Era uma galera legal, e fazendo rap.
Como eu queria viver disso, na época queria ser rapper, queria ser famoso, toda essa história. Porque a gente achava que ia começar a fazer rap e deslanchar. Eu achava que a galera tinha muito para ensinar, e tinha mesmo. Lembro que quando o Marcão (Baixada) ministrava as oficinas, ele dava várias dicas de como encaixar o flow na música, aquelas coisas que eu não sabia. Acho que essas coisas, principalmente, fizeram com que eu continuasse.
Como foi que você começou a participar desse projeto durante a pandemia? Primeiro foi essa parada do Jatobá, porque mandei mensagem no grupo em que ele estava. Lembro que o Dorgo me enviou uma mensagem falando sobre um projeto. O Dorgo me disse assim: – ‘Pô, mano, a gente queria fazer com adolescentes, de 15 a 20 anos.’ Então, mandei nos grupos, e foi nessa que veio o Jatobá.
Só que lembro que eu fazia os corres das cestas básicas e vivia no Quilombo Enraizados durante o dia. Como era pandemia e eu não tinha internet em casa, usava a internet do Enraizados. E assim fui ficando.
Lembro que eu era o único que fazia o RapLab de dentro da sala com vocês. Eu ia para o Enraizados para participar do RapLab. Não participava de casa.
E aí foi indo, tá ligado?
GB Montsho, Baltar e Dorgo, durante os encontros do RapLab.
E aí você foi ficando?
É… Eu fui ficando. Primeiro, porque acho que durante a pandemia houve o ponto alto do lockdown. Conforme ele foi se afrouxando, porque as pessoas precisavam trabalhar e várias outras coisas nesse sentido.
A cabeça das pessoas foi ficando muito loucas também, né? E tem isso, eu não ia simplesmente, mas eu participava presencialmente também.
Isso se devia à nossa troca de ideias antes do RapLab. Às vezes começávamos trocando ideias antes do RapLab, depois íamos para o RapLab, e depois a troca de ideias continuava.
Às vezes, essa troca de ideias se estendia até tarde. Lembro que era uma correria para pegar o último ônibus, porque os horários dos ônibus estavam limitados até as 21h30, devido à pandemia.
Acho que esse espaço para trocar ideias era muito interessante, porque a gente ficava filosofando. Era mais do que apenas discutir sobre rap. Houve dias em que, conforme o lockdown foi afrouxando e as mentes das pessoas ficavam agitadas, as coisas voltavam ao normal. Tive a sensação de que a participação no RapLab diminuiu. Então, íamos atrás das pessoas, e elas voltavam a frequentar novamente.
Mas esvaziava de novo. Nos dias em que estava mais vazio, às vezes a gente nem conseguia fazer rap. Mas tínhamos a troca de ideias, que era como filosofia, mas a gente podia falar sobre… sei lá, por que Malcolm X não escreveu um livro?
Falar de coisas profundas e até de uma coisa completamente “não profunda”, e falando de forma profunda de uma coisa “não profunda”. Então, eu acho que era uma coisa que deixava sempre as ideias fluindo ali.
Acho que também era uma espécie de ócio criativo, porque normalmente não temos tempo para pensar. Parece que quando estamos pensando, refletindo, maquinando algo, não estamos fazendo nada de concreto, estamos desperdiçando tempo que poderia ser utilizado para produzir algo material.
Para algumas pessoas, produzir pensamentos não é o mesmo que produzir algo material, sabe? E acredito que o RapLab era uma forma de conseguirmos produzir pensamentos sem nos sentirmos culpados.
Porque todos nós tínhamos várias coisas para fazer, mas no RapLab, acreditávamos que estávamos produzindo algo, que estávamos fazendo rap e, ao mesmo tempo, essa produção era a troca de ideias.
E não necessariamente algo muito bom surgiria dessa troca de ideias. Isso também era algo incrível. Porque não precisávamos necessariamente fazer um rap excelente em cada RapLab. Só precisávamos fazer as palavras rimarem uma com a outra, e isso já era suficiente. Mas a partir daí, várias outras ideias muito boas surgiam.”
GB Montsho se apresentando no Festival Caleidoscópio.
Dentre os 156 encontros, três temas foram os mais discutidos. O terceiro lugar ficou com a ‘questão racial’, algo relacionado à questão racial. Foram cerca de 20 encontros em que falamos sobre esse assunto. O segundo lugar foi ‘resistência’. E o primeiro lugar, correspondendo a dois terços dos encontros, foi sobre ‘luta de classes’. Por que você acha que discutimos tanto sobre luta de classes durante esse período?”
Eu até pensei que o primeiro lugar seria a questão racial, mas faz sentido ela estar em terceiro, especialmente devido à composição da galera que frequentava o RapLab. Havia muitas pessoas negras, mas era um grupo bastante diverso.
Uma coisa se destacava em relação à outra, mas as questões estavam interligadas.
E eu acho que o motivo de termos falado tanto de “luta de classes” foi justamente porque era uma coisa que unificava geral.
Como as histórias com o Jatobá. A gente vinha com um papo e o Jatobá vinha com uma reflexão totalmente diferente, da vivência dele em Rocha Miranda. E aí tinha isso, a galera da Baixada tinha outra ideia.
Por exemplo, o Dorgo e o Baltar eram de Morro Agudo; eu era do Carmari, e estava frequentemente em Morro Agudo; tinha a RVN, que era de Xerém; o Jatobá, de Rocha Miranda; o PS, de Saquarema.
Só que essa questão de ser pobre era o que impactava a todos, inclusive para manter a estrutura do RapLab funcionando. Quantas vezes foi difícil realizar o encontro porque a internet do Jatobá estava ruim?
Então, acho que isso também mostra que era uma galera muito consciente de todo o contexto em que vivíamos. Conseguíamos entender que havia um motivo para as coisas acontecerem daquela forma. Não éramos uma galera acomodada com a ideia de ser pobre. Compreender que éramos pobres porque, por exemplo, a qualidade dos alimentos que consumíamos era muito ruim, era apenas reconhecer o óbvio.
Eu acho que também éramos uma galera sedenta por conhecimento, que pensava: – ‘Ah, sou pobre, mas por que sou pobre? O que eu posso fazer a partir do momento em que entendo como pobre?’
E é por isso que acho que faz sentido esse top 3 dos temas: luta de classes, resistência e a questão racial.”
O que é formação política, no seu entendimento?
Então, no meu entendimento, acredito que a formação política segue o mesmo caminho do letramento racial. Não apenas no que diz respeito à questão racial, é claro, mas considero que alguém que possui letramento racial também possui uma formação política em relação a essa questão.
Uma pessoa com letramento racial sabe que é negro, reconhece as injustiças raciais que enfrenta e entende que o sistema pode não ser favorável a ela. Isso é parte do letramento racial.
Por outro lado, alguém com formação política não só vai entender essas coisas, como vai ser um sujeito ativo. Não vai somente entender que é negro e que enfrenta injustiças, mas vai procurar se mobilizar com outras pessoas ao seu redor, trocar ideias e trabalhar em conjunto para encontrar maneiras de combater o racismo.
Se tornará um sujeito ativo, buscando articular formas de mudar essa situação. E eu acredito que isso está totalmente relacionado ao estudo da questão racial, por exemplo, ter conhecimento de causa. Não basta apenas confiar na própria experiência; para ter formação política, é essencial compreender também as vivências das pessoas ao redor.
Para isso, é preciso minimamente ouvir, ler, conviver com pessoas diferentes que possam contribuir com essa formação ao longo da vida.
Além disso, esse processo não acontece de uma hora para outra. Não basta frequentar um curso de formação política e se considerar formado. É um processo contínuo de aprendizado, de entender outras perspectivas, de conhecer mais.
Dudu de Morro Agudo e GB Montsho durante esta conversa.
Você mencionou algo aqui certa vez que realmente me deixou intrigado, e desde então tenho refletido sobre isso com frequência: o que é exatamente a Educação Clandestina?
A Educação Clandestina é uma forma de educação não formal. Fico pensando que é chamada de clandestina porque, de certa forma, é oculta ou restrita. Não é oficialmente proibida ou institucionalmente reprimida nos dias de hoje. Não há proibição oficial de adquirir livros de autores como Clóvis Moura ou Abdias do Nascimento.
Mas, ao mesmo tempo, em algum momento, já foi assim. Certos tipos de estudos que realizamos já foram considerados subversivos. Acredito que é nesse sentido que se encaixa o conceito de Clandestino.
Apesar de precisarmos de um ensino formal devido à estrutura do sistema em que vivemos, onde é necessário ter uma formação formal para conseguir um bom emprego e desenvolver uma carreira, o conceito de Clandestino permanece relevante.
Pois, para conseguirmos nos desenvolver enquanto seres humanos, precisamos da educação clandestina, pois o ensino formal tem suas limitações e ele é historicamente negado para nós. Na escola, aprendemos a ler, porém não desenvolvemos plenamente habilidades como raciocínio crítico e interpretação dos significados implícitos. Acredito que isso é função da educação clandestina, e eu acredito que essa educação clandestina precisa ser desenvolvida entre nós.
Eu penso muito sobre a educação popular, especialmente sobre aqueles que utilizam métodos freirianos para alfabetização. Acho isso uma coisa incrível. Embora eu já tenha lido sobre Paulo Freire, nunca havia presenciado na prática o processo de alfabetização, a galera alfabetizar um pedreiro falando sobre ele ser pedreiro, os caras falam de reforma agrária.
O que você diria para um jovem para participar de uma atividade do RapLab?
É desafiador, porque acredito que depende do contexto em que eu estaria com esse jovem.
Penso que o RapLab cumpre diferentes funções sociais. Ele proporciona um espaço de socialização, onde as pessoas podem trocar ideias e fazer amizades.
Além disso, serve como um espaço de educação, ensinando fundamentos básicos para aqueles que desejam se tornar MCs. É impressionante como o RapLab consegue ensinar fundamentos básicos de como ser um MC que faz total diferença.
Se observarmos as pessoas que passaram pelo RapLab, como o Inbute, por exemplo, podemos perceber que a maneira como elas trabalham na música hoje é completamente diferente daquelas que não passaram pelo projeto.
Porque essas pessoas tiveram uma rede de outras pessoas que ensinaram como fazer rap, como mardar um flow, e isso não era a função do RapLab, não está no programa do RapLab fazer isso. Mas as pessoas fazem. Você consegue aprender outras coisas, porque você não vai se prender só naquilo que é o objetivo central, tem outras coisas que atravessam.
Acho que depende muito de onde esse jovem vem. Mas, de modo geral, eu diria que o RapLab é um lugar onde ele pode aprender de uma maneira muito diferente da escola. No RapLab, o aprendizado não é abordado da mesma forma que na escola. Ele vai ter gosto por aprender, tá ligado? E ele vai trocar ideia com gente que é igual a ele, o que torna a experiência divertida.
Não é um aprendizado chato. Muitos jovens associam educação à chatice. Eles pensam: – “Vou para a escola, que chato”. No entanto, no RapLab, a mentalidade é diferente: “Cara, vou lá aprender e isso vai ser muito legal, além de estar com uma galera bacana”.
GB nos encontros para a gravação das músicas do RapLab
Como você convenceria a diretora de uma escola? Você usaria os mesmos argumentos que usou com o estudante?
Então, para a diretora, acho que já vai ser diferente.
Para a direção de uma escola, o RapLab representa uma oportunidade valiosa para enriquecer a experiência educacional dos alunos. Primeiramente, muitas escolas enfrentam limitações no acesso a atividades culturais, e isso faz falta no currículo de formação de um estudante.
E eu acho que só esse elemento já é o suficiente para uma pessoa querer ir RapLab na sua escola. O RapLab é uma iniciativa que aglutina todos os estudantes. Onde todos os estudantes tem oportunidades de aprender conforme o seu tempo. Desde os mais reservados e tímidos até os mais extrovertidos e barulhentos, o RapLab consegue alcançar todos os alunos.
Quando estamos envolvidos no RapLab e percebemos que há um aluno mais retraído, conseguimos incentivá-lo a participar através da atmosfera criada no ambiente, estimulando-o a se expressar.
Eu não me lembro de um RapLab em que alguém não tenha falado; pode ter ocorrido, mas não me recordo. E o que aquela pessoa diz, as outras não encaram como algo determinante, entende? Porque o RapLab não busca ser certo ou errado, ele simplesmente existe. Portanto, as pessoas se sentem mais à vontade para expressar suas opiniões, pois há espaço para o contraditório.
Existe espaço para você dizer que essa parede é azul, outro afirmar que é amarela, e ainda outro argumentar que é vermelha, e então discutir sobre isso. Por essa razão, acredito que o RapLab é capaz de reunir todos os tipos de estudantes, desde os mais agitados até os mais reservados, desde aqueles com dificuldades de alfabetização até os que têm mais facilidade nessa área. o RapLab consegue aglutinar todos eles.
Isso já é argumento suficiente para um diretor querer o RapLab em sua escola.
Débora de Souza Costa Seabra é natural da cidade de Nilópolis, na Baixada Fluminense. Tinha 19 anos quando ingressou no RapLab em 2020, enquanto cursava o Ensino Médio no IFRJ, em Nilópolis. Atualmente, identifica-se como Debrah.
Tivemos uma conversa no dia 28 de março de 2024, que durou cerca de 40 minutos. Discutindo sua participação no RapLab durante o período da pandemia.
Revisitamos o período visando ajudar-me a responder algumas questões para minha tese de doutorado, principalmente relacionadas ao conceito de formação política e ao papel do RapLab nesse processo.
Contudo, assim como aconteceu na conversa que tive com Jatobá, novos caminhos foram abertos para diversas reflexões.
A seguir, apresento uma transcrição de nossa conversa, destacando os pontos abordados por Debrah. Para iniciar a conversa, perguntei como ela tomou conhecimento dos encontros do RapLab durante a pandemia. E a partir daí a conversa se desenrolou.
Como você tomou conhecimento do RapLab pela primeira vez durante a pandemia?
Certa vez aconteceu um caso de racismo no IFRJ de Nilópolis, onde um estudante foi acusado de roubar o celular de outro estudante, na realidade ele não tinha feito isso, mas isso desencadeou uma revolta nas pessoas, e por isso aconteceram algumas atividade lá, e uma dessas atividades foi um SLAM de poesias.
Certa vez, ocorreu um caso de racismo no IFRJ de Nilópolis, onde um estudante foi acusado de roubar o celular de outro estudante. Na realidade, ele não havia feito isso, porém, essa acusação desencadeou uma revolta entre as pessoas. Por isso ocorreram várias atividades na instituição, e uma delas foi um SLAM de poesias.
Era muito interessante, porque não havia ninguém ali no IFRJ que fazia poesia. Era algo introspectivo. Eu, por exemplo, nunca havia recitado, mas havia dois rapazes lá que recitavam poesia, e mais ninguém participava. Eles continuavam a recitar, e um complementava o outro em suas poesias. Mais tarde, descobri que eles faziam parte do “Enraizados no Vagão”, um grupo que produzia poesias nos vagões dos trens, e ambos eram membros do Instituto Enraizados.
Um daqueles caras, o Gabriel (GB Montsho), me perturbou muito para eu recitar poesia naquele espaço, eu não o conhecia, mas os meus amigos ficaram insistindo para que eu participasse. A gente recitava poesia em sala de aula, mas apenas ocasionalmente, e então escolhi uma poesia e recitei em público pela primeira vez na vida.
Marquei aquela pessoa que me incentivou no Instagram, comecei a segui-la, e ela me seguiu de volta. Assim, acabamos nos tornando amigos, de certa forma.
Algum tempo depois ele postou que teria um encontro do RapLab. Enviou um texto que explicava um pouco sobre a atividade, que era pra fazer rap e eu achei o nome legal, RapLab. Me inscrevi porque parecia uma oportunidade legal. Preenchi o formulário e depois recebi o link, gostei e fiquei indo.
Você participava do movimento estudantil?
Eu comecei nessa época. Na verdade, esse caso [de racismo] aconteceu mais ou menos no final de 2018. Em 2019, o Bolsonaro entra no governo e aí ele começa a cortar verba da educação, e a minha escola, assim como a escola do Jatobá (Pedro II), ficam ameaçadas.
Você conhecia o Jatobá nessa época?
Não. Comecei a me aproximar mais do GB (Montsho), inclusive, nessa época começamos a construir o movimento estudantil. Era algo pequeno, eu apenas participava dos protestos. Eu ia porque comecei a gostar disso. Foi ali que fui me aproximando mais do GB.
O que te fez participar mais vezes pro RapLab?
Pra ser sincera, o que me fez voltar de novo foi um sentimento de não querer perder aquele encontro. Eu gostei muito da troca de ideia, porque eu criei uma afeição pelas pessoas que participavam. Eu sentia que não podia negar o convite daquelas pessoas.
Toda vez que as pessoas me convidavam, eu comparecia. Se não recebesse esse convite, se não tivesse alguém me mandando mensagem, às vezes até no privado do celular, me marcando na rede social e fazendo questão, eu não voltaria.
Mas como era algo fácil, bastava clicar no link, e eu estaria ali encontrando pessoas com quem gostava de conversar, eu sempre comparecia, porque não queria abrir mão da minha conexão com elas.
Durante a pandemia, o pessoal tentou realizar muitas atividades. Eu era, inclusive, membro do Grêmio Estudantil da minha escola, então o Grêmio começou a promover ações de forma virtual. Nas reuniões do Grêmio, as pessoas falavam, mas às vezes eu não conseguia entender completamente o que diziam, sabe? Eu prefiro muito mais conversar olhando nos olhos das pessoas. Por isso, eu não conseguia priorizar essas outras reuniões, mesmo que houvesse pessoas me chamando para participar, da mesma forma que acontecia com o RapLab. Acho que nenhuma daquelas coisas me atraia.
Alguns dos meus amigos moravam perto e iam lá pra casa. Eu preferia ficar com eles do que participar das reuniões. O RapLab aconteceu num horário que eu ficava muito sozinha. Era de tarde, então como eu estava sozinha, eu tinha uma probabilidade maior de participar.
E era uma troca de ideia que, por mais que eu entrasse na metade do encontro, eu ia conseguir entender o que estava sendo conversado e me envolver ali. E ia ter permissão de falar e de me colocar. Sem esperar muito pra isso, sabe? A gente trocava ideias sobre várias coisas legais. E trocava umas ideias muito boas. Eu tinha muito espaço pra poder falar e colocar minhas opiniões.
Mesmo que, às vezes, as pessoas discordassem. Era um espaço seguro, de certa forma. Isso me manteve ali, a fim de continuar. Foi a única coisa que eu consegui fazer na pandemia.
Você já tinha gravado rap antes do RapLab?
Não, era uma realidade muito distante para mim. A partir do RapLab, minhas poesias ganharam mais consistência; foi quando mais compus. É algo curioso, pois trabalhei muito durante a pandemia, e o RapLab era um dos meus raros dias de folga. Então, participava do RapLab e compunha durante o trabalho. Durante meu expediente, pegava o caderno e escrevia poesia.
Através do RapLab, conheci pessoas que me ajudaram a me tornar efetivamente um rapper. Atualmente, também faço rap. Lancei uma música no início de 2022 com uma pessoa que era um dos coordenadores do RapLab. Fizemos uma colaboração, e agora estou trabalhando com outra pessoa que conheci através do Enraizados, embora não participasse do RapLab, mas é um produtor musical, e estamos colaborando juntos.
E estou para lançar também um EP de rap.
Houve algum encontro específico no RapLab que você considerou particularmente significativo ou marcante? Se sim, qual foi e por que você o considerou assim?
Tem um encontro em que discutimos a questão da terceirização e da ‘uberização’ do trabalho. Abordamos especificamente a situação dos entregadores de aplicativos, destacando o papel do Galo de Luta e como a economia avançava durante a pandemia. Falamos também sobre a estratégia global de precarização da vida dos trabalhadores e as dificuldades enfrentadas por esses entregadores. O fato de o Galo de Luta ter sido preso foi mencionado, e esses temas em discussão me marcaram profundamente.
Foi, inclusive, um encontro que eu lembro que estava no quarto, mas o encontro foi durando, durando, durando e eu vi que estava no finzinho da tarde, ia anoitecer e o encontro ia continuar. Como eu não queria perder o fim de tarde, pois estava um dia bonito, eu saí e continuei conversando com o pessoal sobre esses temas, com fone de ouvido.
Foi, inclusive, um encontro que lembro que começou de tarde, mas continuou se estendendo, e percebi que já estava chegando ao fim da tarde e prestes a anoitecer, e ainda assim a discussão seguia. Como não queria perder o entardecer, pois estava um dia bonito, saí e continuei conversando com o pessoal sobre esses temas, utilizando fones de ouvido.
Um terço dos encontros teve como tema algo relacionado à luta de classes. Por que você acha que discutíamos tanto esse assunto?
Eu acho que discutimos tanto isso porque esses encontros ocorreram durante a pandemia, um momento árduo de crise do capitalismo. O capitalismo está em crise; começou em 2008 e continua até hoje, se agravando cada vez mais.
E ele precisa dessas crises porque é durante as crises do capitalismo que conseguem justificar as guerras. Conseguem ampliar os lucros por meio da crise, como está acontecendo hoje. Refiro-me a “guerras” entre aspas, pois o que está ocorrendo entre Israel e Palestina não é uma guerra, é um massacre.
Mas conseguem justificar essas coisas durante o período de crise. E nesse mesmo período, a luta de classes fica mais aguda, onde as pessoas percebem mais claramente as disparidades, pois se tornam mais evidentes. Era óbvio quem era a população que estava morrendo de covid-19 naquele período. E diversas outras coisas.
Quem estava passando fome? Quem estava realmente priorizando essas questões de ajuda mútua? No Enraizados, havia um grupo que organizava cestas básicas para doar, a fim de ajudar as pessoas próximas. Percebemos que, mesmo o governo tendo muitos recursos, não estava investindo em vacinas.
Estava claro para nós que o governo atuava em benefício dos ricos e dos interesses pessoais dos próprios governantes. Por exemplo, o Bolsonaro comprava vacinas e recebia propina em troca. Ele comprava vacinas que não eram comprovadamente eficazes, mas menos eficazes, visando lucrar com isso. Todo esse esquema visava gerar ainda mais dinheiro para aqueles que já eram privilegiados financeiramente.
As pessoas que conduzem o RapLab, que fizeram parte do RapLab, são pessoas que conseguiram perceber essas coisas, porque é muito óbvio para a gente. Porque a gente está de um lado. A gente pertence a uma classe. A gente é da classe trabalhadora. Não tinha ninguém ligado a outra classe. Então a gente conseguiu ter isso mais claro. Eu acho que foi por causa disso, não tinha como falar de outra coisa.
Se a gente entrasse no tópico do racismo, a gente entrava no tópico da luta de classes também. Se a gente entrasse no tópico pra falar de sorvete, a gente entrava no tópico da luta de classes. Porque quem é que está comendo sorvete? A gente não está comendo sorvete. Acredito que a gente falou muito por conta disso.
Qual é a sua definição de formação política?
Acho que formação política é você ter a capacidade de compreender os movimentos da sociedade, como a sociedade funciona, por que as coisas acontecem da forma que acontecem. Acho que a formação política é um meio de se conseguir compreender o mundo, o mundo da forma que ele é, porque tudo no mundo é político.
Inclusive, a educação é política, nada é neutro nesse mundo, então tudo é político. Creio que a formação política é você conseguir compreender o que está por trás, por exemplo, da reforma do novo ensino médio, dessas questões. Acho que isso é formação política.
Todo mundo tem essa compreensão?
Não, não acho. Eu acho que, inclusive, existe todo um movimento, de uma cultura de massas, que é o que aparece na televisão, nessas mídias de massa, no TikTok, que faz com que as pessoas fiquem constantemente sob uma névoa que camufla a realidade, deixa a realidade um pouco mais dura para a nossa compreensão.
Algumas pessoas acham que o mundo é assim porque ele é assim e pronto. Ou porque na pandemia quem estava morrendo era porque em outras vidas tinham cometido erros e estavam pagando nessa vida. Que a pandemia era um momento de resgate dessas pessoas. Que as pessoas estavam morrendo na pandemia porque elas tinham sido predestinadas. Essa coisa do destino.
Que tudo que aconteceu com a gente já estava escrito antes da gente nascer. Isso é o que as igrejas e o que frequentemente a gente vê na televisão também.
Acredito que isso atrapalha um pouco as pessoas a adquirirem formação política, porque elas acreditam que o candidato ganhou a eleição presidencial por estar predestinado. Elas acham que não havia nada que pudéssemos fazer para mudar isso. Eu entendo que a formação política é justamente compreender a situação.
Além de compreender, eu mencionei apenas a questão de entender o mundo. Mas também é perceber que sua ação, em conjunto com a ação de outras pessoas, por meio da ação coletiva, pode transformar o mundo. Eu acredito que isso é formação política.
Só que eu acho que muitas pessoas, muitos intelectuais não têm. Ou têm uma perspectiva diferente, de se achar muito inteligente por achar que nada pode se transformar.
Boa parte das pessoas não têm formação política por não conseguir ter essa compreensão dos movimentos políticos que acontecem no mundo.
Mudou agora o Ensino Médio, agora os estudantes pobres não vão ter aula mais de História. Mas é isso. É isso que está dado. As pessoas não conseguem compreender o que está por trás disso e o que faz com que isso aconteça.
Eu acho que o RapLab estimula isso. Porque se o tema do RapLab for, por exemplo, o novo Ensino Médio, a gente vai trocar de ideia sobre isso. Vai chegar uma hora que a gente vai ficar sem ideia para trocar sobre o que é, então a gente vai entrar na ideia do porquê que é.
Então vamos começar a cavar as coisas para podermos ter mais ideias para trocar, para não fugir do assunto. Porque o assunto do RapLab é esse. Acho que isso faz com que a gente consiga ter esse espaço de desenvolvimento, de formação política.
Porque o RapLab traz muito a perspectiva da coletividade. Não apenas realizávamos os encontros, mas também compúnhamos as músicas de forma coletiva. Eu já partia da ideia de que não se trata apenas da genialidade individual, em que apenas uma pessoa consegue compor.
Nós compúnhamos de forma coletiva, nos encontrávamos e fazíamos. Além disso, nos reuníamos para construir o estúdio do Enraizados, participar de mutirões e distribuir cestas básicas. Então, contávamos com a coletividade não apenas para criar música, mas também para ajudar a transformar a vida das pessoas. Fazíamos isso porque entendíamos que tínhamos essa capacidade. No entanto, várias pessoas ao meu redor, incluindo minha família e amigos, não praticavam esse tipo de ação.
Como você acredita que ocorre o despertar das pessoas para a realidade além da anestesia?
Então, comigo aconteceu da seguinte forma, eu fui me desligando de algumas coisas. Eu me desliguei do pastor, porque a igreja faz com que você ache que está tudo predestinado, que você não tem controle sobre nada, que o controle é de Deus e que você não pode fazer nada para transformar as coisas.
Eu saí disso no momento que eu percebi que eu era uma pessoa LGBT. E, segundo eles, eu ia necessariamente para o inferno. Eu falei, cara, eu sou uma pessoa boa, eu não vou para o inferno, isso aí é mentira. E eu saí disso.
A gente viveu uma efervescência política muito grande no nosso país, mas eu sempre acreditei que eu podia ajudar a transformar o mundo de alguma forma. Certa vez eu soube que poderia ficar sem concluir o meu ensino médio por causa de um corte que um político tinha feito na educação. E falaram pra mim que, se eu fosse pra rua protestar, e fosse um protesto muito grande, eu conseguiria reverter aquilo. Eu pensei assim: – “Pô, vou fazer isso”. E fui pra rua e ele voltou atrás.
Quem te chamou pro protesto?
O pessoal do Grêmio. Jovens da minha idade que tiveram contato com o marxismo. Jovens marxistas, comunistas, me falaram isso. Falaram que era possível a gente pressionar coletivamente o governo para poder transformar uma coisa na sociedade.
E a gente fez e o cara voltou atrás do corte e a minha escola não fechou. Aí eu falei: “Pô, então isso daí dá certo. Se eu me juntar com um monte de gente, eu posso perturbar a vida desse cara, e eu vou”.
Eu comecei a ir para todos os cantos que eu podia, toda vez que tinha um monte de gente junta para poder encher o saco daquele fascista, eu estava lá. Comecei a perceber que em vários momentos ele voltava atrás. Então pensei: – “Cara, eu não sou tão pequena assim se eu estiver em conjunto com outras pessoas”.
Comecei a perceber como as ações coletivas eram feitas. Eu tive esse despertar a partir disso. Comecei a procurar outras experiências de transformação da sociedade. Fui estudar sobre Cuba. Comecei a perceber que é possível transformar.
Hoje eu sou comunista, mas para ter formação política você não precisa ser comunista, basta você conseguir ter uma compreensão mais material do mundo.
Se um presidente, cercado por pessoas que defendem os direitos dos ricos, quer lutar pelos direitos dos pobres, os pobres precisam se unir e mostrar que a maioria da sociedade, composta principalmente por pessoas pobres, tem interesse nisso. Assim, os ricos serão pressionados, visto que constituem uma minoria na sociedade.
Eu acho que o RapLab foi muito importante para mim nesse sentido também, porque foi um dos primeiros espaços de debate político que eu tive na minha vida, onde eu pude colocar minha opinião e entender que a minha opinião política, de certa forma, em alguns momentos, estava certa. E eu não tinha estudado em lugar nenhum, não tinha estudado Marx, não tinha estudado nada, mas eu sou uma pessoa pobre. Eu tinha algum nível de formação política que foi sendo aprofundado através de uma troca com outras pessoas pobres, algumas um pouco mais estudadas que eu.
Quem é você hoje?
Atualmente, estudo Produção Cultural na faculdade do IFRJ em Nilópolis. Anteriormente, enquanto cursava Química no IFRJ, eu planejava trabalhar em uma fábrica, mas nunca consegui emprego devido à alta taxa de desemprego.
E aí eu fui estudar outra coisa, fui fazer curso técnico em iluminação cênica. Por isso eu estudo produção cultural no IFRJ. Lá eu desenvolvo o movimento estudantil, ainda nessa perspectiva de transformar as coisas, eu busco trazer essa perspectiva para outras pessoas.
Eu sou presidente do Centro Acadêmico, que é uma representação dos estudantes do meu curso. Isso tem me dado um trabalho também, mas é um trabalho voluntário que realizo.
Trabalho com iluminação cênica para peças de teatro, mais na cidade do Rio de Janeiro, que é onde existem mais investimentos em cultura e é onde eu consigo ter um salário.
Na Baixada eu não consigo ter um salário, mas aprovei que um projeto pela Lei Paulo Gustavo, na cidade de Nilópolis, e estou produzindo esse projeto onde atuo como produtora musical e roteirista. O projeto tem como perspectiva apresentar a realidade de uma pessoa trans, não-binária, trabalhando com arte na cidade de Nilópolis.
Eu sou uma pessoa trans, não-binária, que trabalha com arte, nem sempre na cidade de Nilópolis, mas esse projeto visa trazer essa perspectiva. Então estou fazendo essas coisas hoje em dia.
Como você explicaria para um amigo da sua idade o que é o RapLab e por que ele deveria participar?
O RapLab é um encontro onde nos reunimos com pessoas interessadas em rap, de vários lugares, com várias vivências. Trocamos ideias sobre um tema específico, que reflete as experiências de todos os participantes. Durante o debate, entramos em contato com diversas perspectivas, experiências e ideias. Após isso, escrevemos uma música coletivamente inspirada nessas discussões.
Então, se você nunca fez música, se você nunca fez rap, é uma chance de você ter essa experiência pela primeira vez. E, ao mesmo tempo, mesmo que você não tenha interesse nenhum por rap, você vai ter a oportunidade de conhecer várias pessoas legais.
Hoje em dia é muito difícil você conseguir conversar com as pessoas, pessoalmente, ouvir a voz das pessoas falando sobre as coisas, falando sobre temáticas profundas. E o RapLab é uma conversa coletiva com um monte de gente legal.
Acredito que mesmo que você não tenha interesse no rap, você vai conhecer alguém que, de repente, vai ser alguém muito importante pra sua vida. Então, acho que vale a pena você ir.
Você apresentaria para uma diretora de escola da mesma forma como apresentou para um amigo?
Não, eu abordaria a diretora e explicaria que faço parte do projeto RapLab, o qual visa promover o desenvolvimento da escrita e da palavra entre jovens.
É um projeto que desenvolve a formação de jovens para poderem apresentar suas ideias, porque os jovens pensam muito, mas raramente conseguem colocar suas ideias de uma maneira contundente na sociedade. O adolescente brinca muito e dificilmente consegue colocar suas opiniões de uma maneira efetiva. O RapLab existe para desenvolver isso nas pessoas.
É um espaço onde esses jovens vão poder falar sobre temáticas que, inclusive, você, diretora, pode me ajudar a escolher, que seja interessante de trabalhar com esses jovens. A gente pode trabalhar sobre a temática do machismo, sobre a temática dos assédios, ou sobre a temática do Enem.
A gente pode trabalhar sobre a importância de se fazer faculdade. A gente vai conseguir descobrir entre esses jovens o que eles pensam sobre essa temática, e isso pode ser interessante para a sua escola, para poder construir novas iniciativas a respeito desses jovens.
E no final, a gente vai fazer um rap. E vai ser uma produção coletiva entre os jovens, e pode ser que isso desperte em alguns deles a vontade da escrita de poesia. A gente sabe que a escrita de poesia instiga outras coisas. Eles vão escrever um rap, depois pensar em escrever a própria poesia, depois pensar em escrever um texto maior. E vai acabar tendo mais facilidade para poder fazer uma redação.
Os jovens ouvem muitas músicas, mas dificilmente enxergam nessas músicas a poesia que tem, e conseguem entender as mensagens que estão por trás, e o RapLab faz o movimento contrário, ele constrói uma poesia com uma mensagem que foi discutida antes. Isso ensina aos jovens a consumirem essas artes que eles já consomem constantemente de uma maneira mais crítica, e desenvolverem a capacidade de fazer essas artes de uma maneira mais crítica também.
Os jovens frequentemente ouvem muitas músicas, mas raramente reconhecem a poesia nelas e compreendem as mensagens que estão por trás. O RapLab faz o movimento contrário, construindo poesias com mensagens discutidas anteriormente. Isso pode ensinar aos jovens a consumirem as artes que já consomem de maneira crítica e desenvolverem a capacidade de produzi-las de forma crítica também.
Creio que seria uma coisa muito positiva para a juventude dessa escola, porque o nosso maior interesse é o desenvolvimento desses jovens que estão aí.
Em uma vibrante iniciativa que promete deixar uma marca duradoura na cena cultural de Salvador, o Colégio Estadual Ypiranga, situado no bairro Dois de Julho, será o epicentro de um projeto notável que busca transformar vidas através do Hip Hop. No dia 16 de março de 2024, das 14h30 às 16h, trinta crianças e adolescentes terão a oportunidade de mergulhar nas múltiplas facetas da Cultura Hip Hop, graças a um evento financiado pela Bolsa Estímulo Escola Criativa Boca de Brasa.
Workshops Pioneiros
Este projeto, que busca romper barreiras e inspirar a juventude local, contará com workshops simultâneos liderados por renomados artistas e educadores da cena Hip Hop. França Mahin, poeta, dançarino, MC e arte educador, conduzirá o workshop “O que é Hip Hop”, explorando as ferramentas de transformação e os elementos fundamentais de ritmo e poesia. O tema central, “Protagonismo e Resistência”, destaca a importância do indivíduo na moldagem da transformação social.
Ao mesmo tempo, Barbara Mello, também conhecida como Felina, integrante do Coletivo Pixa e graduanda em Artes Visuais na UFBA, guiará o workshop de Grafite, explorando a liberdade e a expressão informativa através dessa forma única de arte urbana.
Os entusiastas do Breakdance terão a chance de aprender com Marcola, estudioso desde 2009, que compartilhará sua experiência autodidata em diversas técnicas, como hip hop, house e danças afro urbanas, durante o workshop de BreakDance. Sua trajetória reflete um compromisso constante com a diversidade e excelência na formação artística.
Evento Final Imperdível
No dia seguinte, 17 de março, das 15h às 17h, o Coreto Largo Dois de Julho será o palco para apresentações fascinantes. Os participantes dos workshops exibirão o resultado de seus esforços, incluindo uma Batalha de Rima, recital poético, breakdance e a criação de um mural de grafite no espaço público. O evento é aberto ao público, oferecendo à comunidade a oportunidade de vivenciar a expressão artística desses jovens talentosos e celebrar a Cultura Hip Hop.
Oportunidade de Engajamento Comunitário
A comunidade local é convidada a se envolver nas atividades do projeto, proporcionando uma alternativa construtiva para lidar com questões sociais. Além disso, a iniciativa prevê a produção de um mini documentário, registrando todo o processo criativo, garantindo que as contribuições individuais e coletivas sejam eternizadas.
Expansão do Impacto
O projeto inovador, viabilizado pela Bolsa Estímulo Escola Criativa Boca de Brasa, não se limita ao Colégio Ypiranga. A equipe organizadora já planeja estender essa experiência enriquecedora para outros alunos da instituição e para diferentes instituições educacionais, buscando ampliar o alcance e promover a Cultura Hip Hop em diversas comunidades.
Na efervescência da arte periférica, surge “Romance de Primavera”, a mais recente obra musical do talentoso DJ Dorgo, aos 29 anos, acompanhado pela promissora cantora Aclor, de 19 anos. Esta composição não apenas marca a estreia artística de Aclor, mas também representa uma verdadeira declaração de amor à poesia.
O refrão envolvente, entoando: “De janeiro a janeiro em roda cultural, de março a março deságua o SLAM, toda primavera brota o sarau e cada abraço garante o amanhã”, oferece uma reflexão sobre a rotina dos artistas periféricos, que diariamente perseguem seus sonhos, investindo no apoio mútuo para assegurar mais um dia de sonhos.
O videoclipe, produzido durante o Sarau Poetas Compulsivos e a Batalha de Morreba, captura magistralmente a energia desses eventos impulsionados pela paixão dos participantes. Os sorrisos, os abraços e o clima de esperança presentes, prometem um amanhã promissor para esses jovens poetas sonhadores.
Aclor inicia a melodia com versos que exprimem a responsabilidade e os anseios: “Cheio de responsa pra fazer e eu aqui pensando em você, tendo que acordar cedo, eu mal consigo dormir. Tento botar pra fora tudo o que eu sinto, sendo que o que eu sinto te faz existir”.
Dorgo, inegavelmente, é um poeta sensível moldado pela necessidade de sobrevivência, corajoso por se permitir viver o sonho, tornando-se uma fonte de inspiração para outros jovens que seguem seus passos. Aclor, seguindo suas pegadas, está se consolidando como referência entre os poetas sonhadores, desafiando o sistema em busca da plena vivência da vida.
Para os crias de Morro Agudo, “Romance de Primavera” representa um acerto, reverberando no âmago de cada alma onde a poesia pulsa. Para os jovens espalhados por todo o Brasil, esta música é uma dose de coragem que desperta o poeta que reside em cada um de nós, convidando a abraçar os sonhos e a viver intensamente a paixão pela poesia.
FICHA TÉCNICA
Composição: Dorgo
Intérprete: Dorgo e @aclorbxd
Prod.: @igo.goi
Mix/Master: @ninjadanuvem
Vídeoclipe: @higordaotopshow e @contadajosy
Stylist: @maribaptist
Teaser: @contadajosy
Em março de 2022, o número de adolescentes com título de eleitor era o menor da história, apenas 13% dos adolescentes havia tirado o título. Alguns especialistas, como por exemplo o cientista político Diogo Cruvinel, analista do Tribunal Superior Eleitoral, acreditam ser esse um movimento natural, visto que nos últimos dez anos o número de jovens tirando títulos vem decrescendo por causa da inversão da pirâmide demográfica, ou seja, o número de jovens vem diminuindo em toda a sociedade brasileira.
A Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), fez uma enquete que mostrou que 09 em cada 10 jovens afirmaram que o voto tem poder para transformar a realidade, o que mostra que o jovem brasileiro não é despolitizado. Por que então um número tão pequeno de jovens com título de eleitor?
Tentando sanar essa defasagem, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) iniciou uma ação para incentivar que jovens de 16 e 17 anos – faixa etária que não tem obrigação de votar, tirassem o título eleitoral para votarem pela primeira vez nas eleições deste ano, a açãofoi adotada por artistas como a Anitta, que postou em suas redes sociais que só daria autógrafo mediante a apresentação do título de eleitor.
A repercussão foi grande, e logo muitos artistas e influenciadores abraçaram a ideia e começaram a incentivar os jovens a tirarem seus títulos e participarem da vida democrática do país, dentre eles a ex-BBB Juliette, Luísa Sonza, Whindersson Nunes, Larissa Manoela, Pablo Vittar e até nosso queridão Zeca Pagodinho.
Logo depois a rede Burger King Brasil lançou uma promoção chamada “Fome de Democracia” para quem apresentar seu documento ou comprovante do requerimento de regularização.
A bagulho ficou sério quando a campanha ultrapassou as fronteiras brasileiras e os atores Mark Ruffalo, que interpreta o Hulk nos filmes dos estúdios Marvel, e Leonardo DiCaprio, também abraçaram a ideia e fizeram um apelo aos jovens brasileiros.
A partir daí os próprios adolescentes começaram um movimento para ajudar outros adolescentes a tirarem o título pelo Brasil a fora, como foi o caso da estudante Dayane Coelho, 16 anos, de Teresina (PI): – “Percebi então que alguns jovens daqui não tinham acesso à internet ou tinham dificuldades no processo. Foi aí que senti que eu poderia ajudar essas pessoas”, disse aos jornalistas do Tribunal Superior Eleitoral.
Essa mobilização do TSE, de artistas nacionais e internacionais, influenciadores digitais e empresas deu super certo, os números comprovam isso.
Em uma matéria publicada pela Folha de São Paulo em 05 de maio, o Supremo Tribunal Eleitoral comemorou a superação de todos os recordes já registrados pela justiça eleitoral, principalmente o fato de que, entre janeiro e abril, o país havia ganho 2.042.817 novos eleitores com idades entre 16 e 18 anos, um aumento de quase 50% comparado com 2018.
Eleitores da esquerda acreditam que esses jovens ajudarão a tirar o Bolsonaro da presidência da república, como relato de um jovem a uma repórter da Rede Globo, quando foi perguntado o motivo de ele tirar o título. Entretanto parece que os bolsonaristas também estão confiantes e apostando nos votos da juventude de extrema direita.
Fato é que, apesar de estar tudo muito nebuloso e incerto, existem mais de 5 milhões de novos títulos na rua, sendo 2 milhões apensas de adolescentes.
O quanto esses eleitores podem impactar nas eleições presidenciais?
O rapper e pesquisador Dudu de Morro Agudo, que realiza encontros com jovens utilizando a metodologia RapLab, que permite a um grupo de pessoas, compor um rap de forma colaborativa a partir de uma roda de conversas, fará um encontro virtual na próxima quarta-feira (25), às 19 horas, para discutir e pensar sobre esse fenômeno, e tentar entender os impactos nas eleições de 2022.
Quando o João Guerreiro, professor da IFRJ, em Nilópolis, propôs a Dudu de Morro Agudo, coordenador executivo do Instituto Enraizados, uma parceria para realizarem juntos o projeto “Deixa a Periferia Falar”, Dudu já estava prestes a começar um outro projeto chamado “Meu Bairro, Meu Ambiente”, onde realizaria uma série de rodas de conversa, palestras e oficinas com jovens de Morro Agudo.
Dudu percebeu que os projetos se complementavam, pois o proposto por João Guerreiro objetivava promover uma prática dialógica e de produção de imagens sobre as relações cotidianas de poder de Morro Agudo, em Nova Iguaçu, e o Dudu desejava envolver os jovens no cotidiano do bairro, produzindo uma nova narrativa, contra-hegemônica, sobre o local.
João informou que o mesmo projeto também acontecerá no bairro Piam, em Belford Roxo, em parceria com o Centro Cultural Donana.
Primeiro encontro do projeto “Deixa a Periferia Falar”, no Espaço Enraizados.
No dia 14 de junho, aconteceu o primeiro encontro entre jovens do Enraizados e os docentes e discentes do IFRJ e UFF, afim de apresentar o projeto de extensão, que consiste na organização de duas experiências de produção de imagens, onde os jovens produzirão imagens fotográficas ou audiovisuais sobre as relações e práticas cotidianas sobre democracia e liberdade em área reconhecida socialmente como de violência, buscando compreender as diferentes significações da democracia, especialmente nas suas intercessões com expressões frequentemente citadas em narrativas da indústria cultural como violência, exclusão e carência.
A conversa se configura neste projeto como uma metodologia de troca, possibilitando uma rede de produção de conhecimento sobre o cotidiano nas periferias, partindo da produção de imagens com os jovens, seguindo a proposta de um devir imagético, pelo qual a produção de imagens e especialmente de imagens de autorrepresentação possibilitam formas de experimentações do mundo.
Inicialmente, a produção de imagens se dividirá em cinco etapas com temáticas diferentes: democracia, poder, liberdade, espaços coletivos e disciplina, contudo poderão ser ampliadas de acordo com as demandas e questionamentos dos jovens.
Em cada rodada de imagens produzidas, os jovens serão convidados a organizarem uma roda de conversas para analisarem as imagens, como aconteceu no encontro no Buteco da Juliana, no dia 01 de setembro.
Ao final do projeto de extensão será produzido uma exposição do processo de produção das imagens e das rodas de conversa que, poderá vir a ser itinerante, sendo exposto nas universidades e centros culturais.
Os interessados e interessadas em participar do projeto, podem comparecer ao Espaço Enraizados, todo primeiro sábado de cada mês, às 15 horas.
No dia 09 de outubro de 2017, uma segunda-feira, eu (Marlon Gonçalves) e a Beatriz Dias, afim de respondermos algumas questões relacionadas com a juventude e a mobilidade urbana, decidimos acompanhar três outros jovens que cortaram cinco cidades, em uma trajetória de mais de 40 quilômetros, em busca de uma nova experiência cultural.
A missão era curtir o“Slam Grito Filmes”, um evento itinerante de poesia falada, criado por um coletivo formado por cineastas, fotógrafos, cinegrafistas e midiativistas, que funciona como uma batalha de poesias desde 2016 e tem o objetivo de criar conexões e subjetividades vitais para a passagem de cultura oral no país.
A final desta batalha aconteceria na Praça Mauá, no Centro de Rio de Janeiro, às 19 horas. Então partimos pra lá.
Nossos personagens neste artigo são:
Caroline Tavares (MoonJay), 20 anos, DJ, fotógrafa, brecholeira, produtora cultural e idealizadora do projeto Literatura das Ruas;
Luiz Gustavo Oliveira (Guga), 22 anos, integrante do coletivo Ohana, produtor e empreendedor;
Jovens saindo do bairro de Morro Agudo para curtir um saral na Praça Mauá.
A ideia desse artigo é responder algumas questões relacionadas com a mobilidade urbana sob a ótica da juventude periférica, como opções de transporte, valor das passagens, estado de conservação do coletivo, segurança e todas as dificuldades que os jovens da Baixada Fluminense encontram para se circular pela cidade metropolitana.
Para situar nossos leitores, é importante informar que a Praça Mauáfica situada no bairro do Centro, e foi revitalizada há dois anos, no projeto do Porto Maravilha, que visava revitalizar toda a Zona Portuária do Rio de Janeiro. Todos os jovens que participam desta matéria residem em Morro Agudo, o bairro mais populoso da cidade de Nova Iguaçu, a cidade mãe da Baixada Fluminense, bairro este que fica a exatos 41,3 quilômetros de distância do nosso destino final.
As nossas opções de transporte eram:
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o ônibus direto, da linha 1491B, da empresa Tinguá, que faz a ligação entre o bairro de Austin, em Nova Iguaçu, e a Praça Mauá, no Rio de Janeiro. A passagem custa R$23,65 (vinte reais e sessenta e cinco centavos) e para de circular às 21 horas em dias úteis. É uma viagem de cerca de duas horas;
tínhamos também a opção de pegar outro ônibus da empresa Tinguá, da linha 491B, que faz a ligação do bairro de Austin, em Nova Iguaçu com a Central do Brasil, e depois pegar outra condução ou continuar o trajeto a pé até o nosso destino. O valor da passagem é R$8,20 (oito reais e vinte centavos), uma viagem de que dura cerca de duas horas e o ônibus para de circular à meia-noite.
outra opção seria a integração entre o ônibus da empresa Vila Rica, que faz a ligação do bairro de Morro Agudo, em Nova Iguaçu, com o bairro da Pavuna, no Rio de Janeiro, e o Metrô. A passagem custa R$8,00 (oito reais) se pago com o RioCard e a viagem dura em média duas horas no total;
a última opção é o trem, que custa R$4,20 (quatro reais e vinte centavos) e a viagem dura em média uma hora. No site da Supervia– empresa que tem a concessão para a operação comercial e manutenção da malha ferroviária urbana de passageiros da região metropolitana do Rio de Janeiro – informam que a estação fecha antes da passagem do último trem, que em dias úteis é até às 23 horas, e nos fins de semana até às 22 horas no sábado e às 21:30 aos domingos. Segundo a Supervia o intervalo entre um trem e outro é de oito minutos.
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A primeira meta do rolé era economizar no transporte para poder curtir no evento, então a galera decidiu ir de trem, porque em Morro Agudo, segundo nossos personagens, a maior parte da população ainda dá o famoso calote, utilizando um buraco, feito pelos próprios moradores, há décadas, pra entrar na estação de trem sem ter que pagar a passagem.
Buraco no muro da estação por onde os moradores costumam passar para evitar pagar a passagem de trem.
Saímos de Morro Agudo às 18 horas e esperamos por cerca de 15 minutos até a chegada do trem, contrariando a versão do site da Supervia que diz que o intervalo entre um trem e outro é de oito minutos. Partimos em direção à estação Central do Brasil, chegamos 19:40, ultrapassando o tempo médio de aproximadamente uma hora de viagem.
Moonjay explica que apesar de o valor da passagem de trem ser o mais barato, a galera ainda assim dá o calote porque “o preço das passagens é um absurdo e a qualidade não condiz com o valor que a gente paga, além do péssimo serviço oferecido” e que apesar disso, ainda assim é vantagem ir de trem porque “tem engarrafamento pra caralho, em todo lugar”.
Shu concorda com a amiga e ainda complementa dizendo que “o valor da passagem também complica muito, a passagem do trem, por exemplo, custa R$4,20 pra andar apertado, fodido, pegamos o trem 18:00 e não tinha mais lugar, nunca vai ter, se for de ônibus é um engarrafamento doido, perde maior tempão e é muito caro também”.
Como economizar dinheiro era o fator determinante nesse passeio, andamos cerca de 20 minutos até chegarmos à Praça Mauá, o trajeto era extremamente perigoso, mal iluminado, e só encontramos policiamento quando chegamos no local do evento. Estávamos com alguns equipamentos, e se não estivéssemos em grupo, teríamos que ir de ônibus ou VLT.
“É uma experiência maneira, mas é bem complicado, a gente mora bem distante e pra chegar aqui é ‘parcelado’, tem que pegar várias conduções, parece até que é de propósito, demos uma caminhada da Central até aqui, mas o certo seria pegar ônibus. Quem tem uma condição, faz isso”, completa Shu.
A segurança é uma grande preocupação da juventude que se arrisca em sair para se divertir em outras cidades e uma estratégia comum entre eles é andar sempre em grandes grupos, se possível com cinco ou mais pessoas.
Para Guga, transitar pelo Rio é perigoso, independente da hora, pois “hoje em dia a violência faz parte da nossa realidade diária, tanto no Centro do Rio de Janeiro quanto na Baixada. Você sai de casa sem saber se volta”.
Moonjay diz que a violência está em todos os lugares, inclusive dentro dos transportes públicos, e afirma que corre risco maior por ser mulher, pois é comum encontrar homens dentro da condução que acham que podem fazer o que querem com as mulheres. “É difícil”, lamenta.
A preocupação de Moonjay pode ser explicada facilmente em uma pesquisa sobre a segurança das mulheres no espaço público feita pela organização humanitária internacional ActionAid, realizada em 2013 em seis cidades de quatro estados brasileiros:
“77% das mulheres têm medo ao esperar o transporte público. Em Heliópolis, São Paulo, e no Complexo da Maré, Rio de Janeiro, os números são acima da média geral: 92% (SP) e 91,1% (RJ) respectivamente têm medo de esperar sozinhas pelo transporte. No total, 43% de todas as mulheres perguntadas já sofreram algum tipo de assédio sexual dentro do transporte público. O número no Rio de Janeiro é superior ao da metade nacional: 66,1%” (apud PAULA & BARTELT, 2016, p.99).
Para Shu, a falta de segurança está também nas estações de trem, pois “só vemos os guardas nas estações de tarde, pra aloprar com os camelôs, depois eles somem, na rua o policiamento é escasso, mesmo quando tem, não dá pra confiar 100%”. E Guga complementa dizendo que “sua segurança pode depender do simples fato de o assaltante ir com a sua cara ou não, tanto os que estão lá pra te assaltar, quanto os que estão pra te ‘proteger’. Somos abordados por policiais como se fossemos marginais e até que se consiga provar o contrário, já levamos aquela revistada bruta, muito tapa, bico na canela… e a gente vai fazer o que em relação a isso?”
Chegamos e o evento já estava rolando, o Slam foi lindo, uma poesia mais bonita que a outra, visivelmente haviam muitos moradores de periferia que estavam ocupando um espaço geralmente frequentado pela classe média carioca.
Alguns poetas abordaram temas relacionados com a dificuldade de se deslocar pra outros lugares e a maior parte do público se identificou com os versos recitados, deixando bem nítido o descaso do governo com muitas regiões do Rio de Janeiro.
O evento terminou às 23h, então a galera se reuniu ao lado do Museu do Amanhã para bater papo. A conversa foi bem descontraída e após o Slam as mentes estavam fervendo, conversamos muito sobre os temas que foram abordados pelos poetas.
Quando o relógio marcou meia-noite todos ficaram apreensivos com o tal“Efeito Cinderela”.
Efeito Cinderela é quando os relógios marcam zero horas e os ônibus desaparecem como em um passe de mágica.
Moonjay afirma que “se der 23 horas e você estiver longe de casa, já sabe que não volta mais. Melhor arrumar um canto pra ficar porque sabe que não vai ter como voltar”.
Para Guga “é complicado sair da Baixada e ir pra qualquer lugar, porque não tem volta, o trem acaba às 22h. Por exemplo, já perdemos o trem hoje. Tem o ônibus que acaba às 23h e se a gente não correr, vamos perder até o ônibus da Tinguá que é R$8,20″.
Jovens de Morro Agudo trocando ideia sobre as várias dificuldades de se locomover no Rio de Janeiro.
E ele continua, “aí ficamos dependendo de van, que chega a cobrar R$10,00 por ser o único transporte, ou quando os amigos tão com uma condição maneira, geral junto, rola a ‘intera’ do Uber, que é o que tem salvado ultimamente, pois muitas vezes fica mais barato que a passagem, e o Uber ainda te deixa no seu destino exato”.
Partimos caminhando em direção à Central do Brasil, dessa vez fomos pela Pedra do Sal, pelo lado do Morro da Providência, pois o caminho da vinda era muito deserto e estávamos com receio de passar por lá, passamos por cinco viaturas da polícia militar até chegarmos ao nosso destino e uma cena intrigante se repetiu nas cinco vezes que passamos pelos policiais. Um policial estava fora do carro, com o fuzil de lado e o celular na mão, enquanto o outro dormia na viatura. Nós nos entreolhamos e continuamos andando, torcendo para que nada de ruim acontecesse.
Chegamos na Central do Brasil às 00:10, e, como imaginado, não havia mais ônibus, nem o ‘tarifão’, pois o próximo seria às três horas da madrugada, então fomos tentar a sorte na van, e depois de uma hora esperando chegou uma, e após dez minutos ela partiu sentido Queimados.
A passagem custou R$9,00 (nove reais), pois como era o único transporte disponível por ali naquele horário, eles costumam aumentar o preço a reveria.
Chegamos em Morro Agudo às 01:50 e pudemos concluir que o saldo do rolé de quase 08 horas, para curtir 04 horas e passar as outras 03 horas e 50 minutos em trânsito, foi até positivo, se levarmos em consideração que era uma segunda-feira, e que fomos de trem no contra-fluxo e na volta não havia transito.
Certamente essa experiência poderia ter sido ainda mais demorada e dolorosa num final de semana.
Quando os questionei sobre que solução poderia ser tomada para melhorar a qualidade do transporte público, Guga disse que as empresas de ônibus deveriam “primeiramente melhorar as condições de trabalho dos funcionários, pois eu já trabalhei em uma e era tratado como um escravo“.
Para Moonjay “os serviços são de péssima qualidade, a maioria não recebe uma limpeza apropriada, alguns motoristas não tem o menor cuidado pelas pessoas que transportam, outros sequer chegam a ter o preparo adequado antes de começarem a trabalhar”.
Já Shu, acha que “colocar mais trens, mais ônibus e organizar os horários” melhoraria bastante.
E quando o assunto foi o preço das passagens, Guga disse que “fazer as empresas pararem de sonegar impostos e baixar o valor da passagem pra no máximo R$2,50” já seria justo. E para Shu, justo mesmo seria “pensar em um jeito de aumentar os impostos das empresas e colocar algumas passagens de graça”.