Tag: paulo gustavo

  • O desafio dos trabalhadores da arte na Baixada Fluminense no pós pandemia

    O desafio dos trabalhadores da arte na Baixada Fluminense no pós pandemia

    Após um longo processo de descaso, a Baixada Fluminense toma fôlego e tenta se reestruturar apesar das sucessivas tentativas de desmonte do setor, capitaneado por várias frentes que enxergam a produção e disseminação cultural periférica como inimigas.

    Para complicar ainda mais a situação, a pandemia empoderou uma vertente anticultural inflamada, incendiando o discurso de ódio que só esperava a oportunidade de sair das sombras. Iniciou-se então uma caça às bruxas e assim se deu início a uma investida contra o setor, só vista anteriormente no regime ditatorial de 64.

    Sendo morador da região e ativista em contato direto com as bases, vi situações e ouvi relatos que realmente nos mostrou quão séria era a situação.

    Muitos artistas que estavam fora do eixo do mercado convencional, mesmo apesar de todos os contratempos conseguiam se manter, contudo a ideia e objetivo era: – “Extinguir os que eram considerados elementos de manipulação pela então esquerda comunista que só absorviam recursos da Lei Rouanet e nada produziam”.

    Constatamos de perto a dura batalha desses resilientes que sempre estiveram no front e de cabeça erguida, em muitos casos alguns tiveram que se desfazer de seus equipamentos ou até mesmo instrumentos musicais que eram utilizados como ferramenta de trabalho.

    Durante esse período conturbado nós, no Instituto Enraizados, conseguimos repassar uma grande quantidade de cestas básicas e vários tipos de doações como roupas, material didático, material de higiene, incluindo álcool gel e máscaras descartáveis.  Criamos um canal (Emergencial Bxd ) de interlocução com os artistas, produtores e trabalhadores da cultura que estavam em dificuldades e compartilhamos com eles não só as doações, mas também as informações a respeito de como acessar os recursos e os editais que estariam por acontecer.

    Distribuição de cestas básicas no Enraizados
    Distribuição de cestas básicas no Enraizados

     

    A situação realmente era séria, já que nem acesso aos transportes públicos as pessoas estavam tendo, então muitos optaram por realizar outras atividades remuneradas como: motorista de aplicativo, entregador de produtos vendidos pela internet, entregador de lanche ou venda de produtos alimentícios na própria residência. Outra problemática foi como fazer toda essa logística funcionar de uma maneira que não colocasse os voluntários em risco e que chegasse de maneira eficiente às pessoas que realmente necessitavam.

    Muitas artesãs tinham como fonte principal de subsistência a venda de seus produtos, e muitas eram senhoras com idade avançada e sem permissão para expor suas mercadorias. Pudemos fazer um paralelo entre os empresários/exploradores que conseguiam por meio de decisões judiciais, permissão para se manter obtendo lucros às custas da saúde e segurança de seus empregados, e essas senhoras que sequer puderam ocupar as calçadas e praças das cidades.

    Mas nesse furacão que parecia não apresentar melhoras, a Lei 14.017/2020, conhecida popularmente como Lei Aldir Blanc, foi sancionada à base de muito custo e disputas.

    Começou então outra via crucis, que foi a elaboração das propostas por parte dos artistas e o entendimento por parte dos gestores municipais estarem aptos a receberem e implementarem esses recursos, foi uma maratona dolorosa perceber que nem todos os artistas tinham sequer a compreensão de como colocar suas ideias no papel de forma clara, e que nem todos os legisladores públicos municipais tinham a expertise para fazer esse recurso tão urgente estar disponível. Tentamos dar suporte a grupos e artistas que nunca haviam sequer pensado em escrever um projeto. Essa deficiência ficou evidente durante esse período e ainda hoje precisamos pensar formas de sanar essa questão o quanto antes, mas esse será um assunto que pretendo abordar em outra coluna.

    Samuca Azevedo
    Samuca Azevedo

    Por fim, os valores foram disponibilizados e muitos artistas (e coletivos) conseguiram acessar, e então uma situação mais crítica pôde ser evitada.

    Cabe agora a nós que temos um pouco mais de lucidez (se é que temos), tentarmos equalizar essa situação e dar suporte a quem precisa para as próximas oportunidades que estão se alinhando no horizonte.

    Estamos em um momento pós pandemia, onde apesar das mais de 700 mil mortes (que poderiam ter sido evitadas), estamos ensaiando um momento de normalidade. Nossa classe (artística cultural periférica) está convalescente e emergindo das profundezas para retomar o fôlego e tentar retornar a realidade, apesar da tentativa de massacre que sofremos durante 04 anos, vamos tentar compreender o cenário que nos deixaram, e como fênix tentar ressurgir dessas cinzas que ficaram como legado, mas apesar de feridos, saímos mais sábios e mais calejados.

    Sarau Poetas Compulsivos no Buteco da Juliana, em Morro Agudo
    Sarau Poetas Compulsivos no Buteco da Juliana, em Morro Agudo

    Muitos elos se fortaleceram e vários sonhos foram criados, muitas pontes estão sendo construídas, morremos um pouco com nosso passado recente, mas a decisão de ficar no caixão é individual.

    A Baixada Fluminense sempre foi e sempre será resiliente em todas as áreas, novas oportunidades estão por chegar, ao menos agora temos um vislumbre de que algo muito bom nascerá depois de todo esse caos.

    Sigamos em frente.

  • E aí? Sou ‘vipinho’ ou ‘vipão’?

    E aí? Sou ‘vipinho’ ou ‘vipão’?

    Olá, meu povo e minha pova!

    Keep Calm, eu não vou escrever sobre eleições 2014. Acho que seria feio, de minha parte, usar esse espaço para colocar minhas intenções políticas. Considerando que eu já faço isso abertamente em todas as minhas redes sociais, prefiro fazer um melhor aproveitamento deste espaço, generosamente, a mim concedido.

    Hoje, caro leitor dessa que vos escreve, eu quero mesmo é cutucar você, morador de periferia que acha que ter acesso a cultura é ir ao “Pagode do Seu Zé”, ou ao “Baile do Seu João”, ou, no caso dos mais “intelectuais”, ao cinema na segunda-feira.

    Hoje meu papo é com você que acredita que pagar cinco “conto” pro seu filho assistir “Patati Patatá Cover” na escola é o auge da acessibilidade cultural na sua classe social. Não estou dizendo que não são válidas as diversas formas de manifestações culturais. Não quer dizer que não seja bacana o pai deixar de beber um suco na hora do almoço no trabalho pra deixar os “cinco conto” pro filho assistir uma peça teatral na escola. O problema, “cumpadi”, é que eu te pergunto: é só isso?!

    Há duas semanas eu estou tentando comprar um ingresso pra uma peça no HSBC Arena, no Rio de Janeiro. Sem sucesso! “De cara”,  as vendas são abertas — primeiramente — a um público seleto de clientes do banco. Depois, o que sobra, meu bem, é só sobra mesmo. Enfim.

    Não consegui comprar os ingressos e ainda tomei uma certa repulsa pelo artista e sua produção. Ok! Sei que “o cara” não tem lá muita culpa. Ou será que tem?! A questão é que o fato arrastou pelos cabelos a minha atenção para essa realidade: a cultura de que a cultura não é para pobre continua!

    Salvem os nosso produtores locais, criadores de um imaginário cultural na periferia, porque graças a eles, nem só de  pão e água, viverá o homem. Mas, se além da água, pão com manteiga, geléia, iogurte, cereal e  café com leite, você também quiser o caviar cultural da sua cidade, meu bem… Tá difícil.

    Nesse desjejum cultural, me pergunto: a quem se destina a cultura, considerando que cultura são os hábitos e costumes de um povo?  Se considerarmos a cultura como algo implícito a nós, a quem se destina a cultura? Será que essa cultura da “culturinha” e do “culturão” nos basta?! Eu, particularmente, gosto de roda de samba, roda de rima, baile de passinho, baile charme, Encontrão, EncontrArte, showzinho e showzão… E aí? Eu sou “vipinho” ou “vipão”?!

    Na boa… É por essas e por outras que eu não “pago pau” pra ninguém.

    E se você, assim como eu entende que a cultura é algo que nos pertence, e o acesso à ela deve ser feito com equidade, vote em mim… kkkkkkkk! Mentira!  Não é nada disso. O que eu quero, “parceragem”, é te convocar a refletir sobre esses absurdos, que continuam acontecendo por aí. O que eu quero, é que a gente pare de se contentar com sobras. Que a gente deixe de ver e de promover a nossa cultura de modo segmentado, por nichos sociais.

    E aí, como é que vai ser?!

    Grandes produtoras do “culturão” continuam pegando a grana dos editais e promovendo pros “vipão” mais do mesmo para os mesmos. E aí, produção? Oode isso?! Tu vai ficar aí com essa cara de conformado?! Nossos filhos estão assistindo cover na escola, enquanto o Cirque du Soleil faz um banquete de caviar cultural com dinheiro público. Pra quem?! Pra mim?! Pra você?! Por enquanto, a cultura que melhor nos cabe é aquela de ser feitos de palhaços…

    E pra fechar, deixo aqui meus agradecimentos, aos loucos, que assim como eu, se percebem na citação do parceiro Alessandro Buzo: “Salve, todos os loucos, revolucionários que levam a cultura pras periferias, e transformam vidas”.