Até quando vamos levar tanta porrada?

Pelo que depender do meu – prefiro que seja o nosso – empenho, isso acabará logo.

Hoje a minha coluna será um pouco extensa, porém, objetiva e necessária. Há dois dias saiu o resultado do edital “Rumos Itáu Cultural”, levantando em minha mente contestadora, uma reflexão além desse e de outras centenas de editais de incentivo e fomento à cultura, espalhados por aí.

Confesso que fiquei chocado ao perceber que, no Estado do Rio de Janeiro o Rumos selecionou dezenove (19) projetos, sendo: 18 na capital e um em Teresópolis. No entanto, a região metropolitana não foi contemplada em nenhum dos seus tantos projetos – phodas – inscritos.

Quero conversar especialmente sobre a Baixada Fluminense, por viver e conhecer de perto o “fazer cultural” dessa imensa e importante região. Somos cerca de quatro (4) milhões de habitantes e muitos produtores e produtos culturais.

Abaixo, uma conversa que venho desenvolvendo junto ao Itaú Cultural no site do resultado do edital. Depois que você ler as respostas do Itaú Cultural e as minhas ponderações, vou te chocar com uma realidade sinistra.

Petter: Gostaria de entender porque tantas potências culturais da Baixada Fluminense ficaram de fora. 18 projetos da capital e nenhum da região metropolitana do Rio de Janeiro? Há um recorte territorial? (26 de maio de 2014 às 20:38)

Itaú Cultural: Oi, Petter, não havia recorte territorial. Analisamos o conteúdo das propostas a partir de critérios como singularidade, originalidade, relevância, contemporaneidade, qualidade,inovação, além das viabilidades técnicas, jurídicas e financeiras. Acompanhamos e valorizamos o pulsante cenário cultural da Baixada Fluminense e esperamos desenvolver ações e parcerias em sua região, independentemente do resultado desta edição do programa. (há 17 horas)

Petter:Ok, Itaú Cultural. Então, que tal marcarmos uma conversa entre o Itaú Cultural e representações culturais da Baixada Fluminense que participaram da seleção do Rumos? Se os fazedores de cultura da região não são “singulares”, “orginais”, “relevantes”, “contemporâneos”, “inovadores”, e nem possuem viabilidade técnica – importante ressaltar que muitos já executam os projetos, então… -, nem viabilidade financeira, queremos conversar e entender exatamente onde erramos. Pois, não haver projeto capaz de ser selecionado para o Rumos numa região tão grande e tão populosa (cerca de 4 milhões de habitantes), é demasiado preocupante para a minha pessoa, enquanto fazedor de cultura, artista e jornalista da região. (há 15 horas)

Dudu de Morro Agudo entra na conversa e completa:Petter de Oliveira questionar agora parece recalque de quem não foi selecionado, porém apesar de parecer recalcado, é importante pontuar que a Baixada Fluminense e seus fazedores culturais, suas formas de expressão e sua diversidade continuam fora de um contexto e de um entendimento de arte que só existe na região central do Rio de Janeiro.
Também fiquei surpreso em saber que dos 19 projetos selecionados para todo o Estado do Rio de Janeiro, os 18 mais “singulares”, “orginais”, “relevantes”, “contemporâneos” e “inovadores” são da cidade do Rio de Janeiro?
E “nunca” vamos saber onde erramos ou “se” erramos.
A história se repete, não porque é o Itaú Cultural, mas porque os olhares vem sempre da mesma direção. (há 15 horas)

Itaú Cultural:Petter de Oliveira e Dudu Morro Agudo, acreditamos sim em formatos de conversa. E a baixada Fluminense é de fato uma região da qual queremos nos aproximar. Podemos sim pensar em algo juntos. O que podemos adiantar é que temos certeza de que seus projetos não tiveram “erros”. Não havia certo e errado. E o Itaú Cultural sabe que excelentes projetos foram inscritos mas que por pouco não chegaram aos nomes contemplados. Já estamos enviando seus comentários para á área de parcerias para que pensemos juntos em encontros na Baixada Fluminense e quem sabe mesmo desenvolver ações independentes do Rumos ou a partir dele. Mais uma vez, agradecemos as críticas e ponderações. (há 13 horas)

Minha reposta ao último comentário é esta coluna.

Queridx amigx que me acompanha semanalmente por aqui, não estou apontando o Itaú Cultural como um vilão segregador da produção cultural. Pêlámor! Quero, sim, juntar uma galera e trazer o Itaú Cultural aqui para discutir e formar parcerias, como eles mesmos dizem.

Por outro lado, quero levar essa discussão além. Sabe essa coisa de “fazer barulho” que tenho dito aos quatro cantos sobre a minha música? É bem por aí. Temos as ferramentas e o poder de formar opinião. Este artigo será lido por dezenas de milhares de pessoas, inclusive por outros formadores de opinião.

O que está em jogo é olhar que têm sobre nós. Dos projetos inscritos, conheço a maioria. E dessa maioria que conheço, outra maioria já acontece sem nenhum tostão, mas acontece. Então, há um equívoco grosseiro ao afirmar que nenhum dos projetos possui “viabilidade técnica”.

Quais os critérios que definem a relevância de um projeto em sua região? Quem da banca avaliadora conhece a Baixada Fluminense e os projetos que aqui formam público e opinião? O que sabem sobre inovação e originalidade, se mantém o mesmo olhar hegemônico sobre quem merece receber ou não patrocínios culturais?

Olha só, gostaria de endossar que minha fala se direciona para todos os outros editais, citando  o Rumos apenas por ser um caso recente.

Eu quero fazer barulho porque:

  • Favelas com UPP concentram a maior parte dos fomentos culturais em territórios populares do Rio de Janeiro.
  • Favelas com UPP possuem Bibliotecas Parque, mas a região metropolitana não possui nenhuma.
  • Já aprovamos tantos projetos na Lei Estadual de Incentivo à Cultura, mas a empresa beneficiada pelo abatimento do ICMS não se interessou por nossos projetos.
  • Não há NENHUM equipamento cultural bancado pelo Estado na Baixada Fluminense.
  • Todos os equipamentos culturais que temos na Baixada são mantidos pelo próprios grupos fazedores de cultura.
  • Os espaços que esses mesmos grupos mantém estão prestes a deixar de existir, por falta de incentivos financeiros.
  • Os fundos culturais e sociais europeus acham que só favelas da zona sul merecem $$$ para realizar projetos.
  • O maior complexo de favelas do Rio de Janeiro chama-se Baixada Fluminense, mas aqui não há política de pacificação, mesmo sendo demasiado equivocada na capital.

Enfim. Existem “n” outros motivos para fazer barulho. Agradeço sua visita e espero que voltemos a nos encontrar na próxima quarta-feira.

#FazBarulho

Para acompanhar a minha conversa pública com o Itaú Cultural, clique no link: http://novo.itaucultural.org.br/explore/blogs/rumos-2/lista-dos-selecionados-rumos-2013-2014/

E fique com uma música do Gabriel o Pensador que reflete um pouco desse momento:
https://www.youtube.com/watch?v=lp39KZUxifA

Sobre @PetterMC

Rapper, jornalista, pesquisador e videomaker. Head na Agência #TudoNosso e tutor de projetos de comunicação na Agência de Redes para Juventude. Escreve sua coluna no #PortalEnraizados todas as quartas.

Além disso, veja

Um mês sem curtir, e aí?

Não mais gente mutilada. Não mais gatinhos sendo maltratados. Não mais acidentes fatais envolvendo motociclistas - o que me perturba muito!

2 comentários

  1. A fala e a postura que nos passaram durante a apresentação do edital foi muito convincente e motivadora para eu me inscrever, confesso que me senti ileso com o resultado, como diz em um trecho do DMA “nunca” vamos saber onde erramos ou “se” erramos.

  2. Eu rí muito quando ví o resultado, mas não de achar graça, pois não acho graça nenhuma nesse tipo de recorte regional dos editais e tais e tantos que participamos. Acho que foi de raiva, por ter acreditado neles. Temos um vilão que nos corrói e nos atinge poderosamente simplesmente por vivermos e OUSARMOS fazer arte no chamado “LUGAR”onde moramos. Muito obrigado Itaú Cultural, no ano que vem vocês terão menos um projeto para analizar, ou melhor, deixar de analizar.

    QUANDO EU DISSE QUE NÃO CONHECIA NINGUÉM QUE TINHA SIDO CONTEMPLADO PELO RUMOS, EU NÃO ESTAVA MENTINDO. E AÍ VEIO O BABILAC BAR AQUI. ME SENTÍ ENGANADO, NÃO PORQUE NÃO FUI, OU DEIXEI DE SER, CONTEMPLADO, MAS PORQUE DE FATO NÃO CONHEÇO O BABILAC, PELO MENOS, NÃO O SUFICIENTE, E AINDA NÃO CONHEÇO N-I-N-G-U-É-M QUE FOI CONTEMPLADO COM O RUMOS, PRINCIPALMENTE NA BAIXADA FLUMINENSE OU EM NOVA IGUAÇU.

    Deixo um trecho do U-Sal na música Sou de Morro Agudo pra reflexão de geral: “…Aqui nesta parte da BF não incentivam a arte, esporte e nem suporte da Unicef, tem moleque no ócio ou de artefato hightech indócil…”

    Me lembra quando eu fazia teatro na capital do Rio e tinha que mentir o endereço pra arrumar emprego de ator… Isso é tão baixo que o inferno fica vários andares acima!

    Tchau e benção!

Deixe uma resposta para leodaxiii Cancelar resposta