Parabéns, você foi promovido a favela!

“Eu queria morar numa favela, o meu sonho é morar numa favela…” Há duas décadas, Gabriel o Pensador, rapper brasileiro, deu voz a um personagem morador de rua que sonhava em morar numa favela. Na música, o jovem Gabriel, ainda aspirante ao sucesso chamava a atenção da sociedade para os moradores de rua, o tratando como um problema de todos.

Hoje – vinte anos depois – eu sonho em morar numa favela! Não entendeu? Não, eu não sou moradora de rua, e não estou aqui me igualando ao personagem sabiamente roteirizado por Gabriel. Hoje, em meio a alguns dos mesmos problemas, surgem novas inquietações. Hoje, tem mais gente querendo, sonhando e desejando morar numa favela! Ou você já viu a Baixada Fluminense ilustrando cartão postal?

Na capital do nosso Rio de Janeiro os investimentos públicos e privados tornam as favelas um celeiro de jovens talentos promissores em variadas áreas de representatividade mundial. Querendo ou não, demonstrando interesse ou não, na favela se dança, se canta, se atua, se joga e se cria. E no final, é claro, se viaja: Nova Iorque, Bélgica, Austrália, França, Berlim… São muitas as possibilidade e muitos os interessados em ver e ouvir o que os “ favelados”  têm a dizer. Aí eu pergunto: o que seria a Baixada Fluminense se não uma grande – enooorme – favela?!

Aqui tem tráfico nas esquinas, tem fuzil na mão.
Tem criança com fome de pé no chão.
Falta saneamento básico em bairros inteiros.
Falta acesso a cultura até pro funkeiro.

O esporte e o lazer estão na TV, no bar da esquina.
Também tem gente grande aliciando menina.
Tem vida e tem morte de braços dados.
Tem desejos e sonhos amargurados.

E tem muita inveja da capital.
Dos seus gringos e de seu safari social.

Nossa, como eu queria ver um jeep cheio de gringos circulando na minha quebrada!

Até quando estaremos à margem desse contexto?! Até quando seremos vistos como marginais acéfalos desprovidos de talentos para o bem?! Será que em meio a tantos milhões de habitantes nenhuma criança se destaca no futebol?! Nenhum prodigioso ator mirim?! Nenhuma formosa bailarina?!

Confesso que esse confronto com a nossa realidade me entristece… Quase desisto de continuar escrevendo sobre este assunto… Quase desisto.

É frustrante saber que ONGs da Baixada – com trabalhos seríssimos e importantíssimos para inúmeras crianças e jovens – vivem à míngua, enquanto na capital, até mesmo os jovens que claramente e declaradamente não “querem nada” são “obrigados” a permanecerem em projetos inflados de apoio e visibilidade. Enfim.

Uma promessa de que uma Unidade de Policia Pacificadora (UPP) será erguida no meu bairro – Comendador Soares, vulgo Morro Agudo, em Nova iguaçu – nos traz esperança… Quem sabe o comandante não traz consigo um certificado com os dizeres: Parabéns, você acaba de ser promovido a Favela!

Sobre Cristiane de Oliveira

Produtora Cultural, Head na Agência #TudoNosso, CupCake Designer na CupCake da Cris, mãe, mulher, escorpiana e absolutamente mutante nesse mundo de imperfeições.

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Quanto vale o show?

Sexta feira (03/10), eu e marido embarcamos a trabalho rumo a "Terra da Garoa". Isso mesmo, a terra que, segundo as músicas, não tem amor. Embarcamos felizes e entusiasmados no Rio de Janeiro, com reservas para retorno no domingo, a tempo de irmos as Urnas cumprir nosso papel cidadão. Até aí tudo bem...

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