Mais uma estória, a estória de um menino

Na exilada ilha não havia uma só pessoa que pudesse sonhar. Era proibido sair daquela lógica de dominação imposta pela alta cúpula de comando que tornava pessoas verdadeiros autômatos, seres cumpridores de ordens e carrascos de suas próprias vidas. Era impossível até mesmo enxergar que a vida poderia ser diferente para aqueles moradores, eles tinham vendas invisíveis em seus olhos. Até mesmo os mais letrados estavam vendados, não conseguiam se organizar e produzir alguma alegria ou vida para a região. No máximo se reuniam nos finais de semana e tomavam uma cerveja saboreando um churrasco.
Mas um menino diferente apareceu por lá. Nasceu com uma anomalia que deixou estudiosos preocupados e inquietos, parecia ser um ser de outro mundo, tão jovem, tão diferente e tão assustador. Tinha o ideal de ver aquele lugar diferente, colorido, cheio de boas energias e sorrisos. Isso não era possível ao seu nascimento, mas com sua visão apurada, ele notava que existiam pessoas que mesmo desprovidas de recursos e sem a mesma dotada visão, destoavam um pouco do padrão local. Era questão de tempo juntar um exército para combater aquele marasmo na qual a ilha se encontrava, uma mente pensante não resiste ao desafio.
Saiu de sua área insular, pegou um bote e foi ver o que acontecia além daquela praia. Viu cores e formas diferentes, sabores exóticos, se encheu de ideias e sonhos, viu afinal que uma nova forma de vida era possível, teve certeza disso. Precisava então traçar um plano para que tudo o que havia aprendido pudesse ser posto em prática. Sabia que a maior dificuldade seria convencer outros amigos, mas nunca duvidou que pudesse ser bem sucedido.
A ilha, sabendo de seus planos, tratou de se armar para resistir. Não é possível mudar do dia para a noite um padrão dominador que atravanca o progresso da maioria em detrimento do poder de meia dúzia. E essa meia dúzia é muito bem articulada, prepara todas as artimanhas possíveis para deter jovens anômalos, como o nosso amigo, quando eles aparecem. Esse pessoal tem registros históricos em suas estantes que não permitem que eles adoeçam duas vezes da mesma doença.
Construíram um muro ideológico para impedir a volta do menino. Ele foi bombardeado de todos os lados por dragões mitológicos que já dominavam aquela população. Blindaram todas as portas, todas as janelas receberam reforço. O menino insistente descobriu a internet, propôs diálogos, tentou uma forma diferente de juntar gente e falar sobre os problemas da ilha. Sabia que os dominadores tinham um aparelho formidável que entrava na casa de 99% dos habitantes e que contava para todos as histórias mais incríveis para lhes fazer dormir. Inclusive colocava medo nas pessoas para que elas comprassem coisas desnecessárias, pagassem escola, educação e saúde privadas. Isso enriquecia cada vez mais os dominadores. Mas o menino não desistiu, e é essa sua utopia que o mantém vivo até hoje. Os moradores da ilha ainda estão vendados, mas ele coloca muita pulga atrás da orelha de muita gente. Como esse menino é um incômodo, dizem até que ele é rico pra ver se tiram a sua moral. Rico ele é. Mas vocês sabem como.

Sobre Cleber Gonçalves

Cleber Gonçalves é geógrafo, professor no CIEP 172.

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