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A estória de Adriana Rieger

Hoje, no Rio de Janeiro, 2,5 milhões de jovens estão fora da escola. Onde estão esses jovens? Fui conversar com Adriana Cavalcanti Rieger, formada em Serviço Social pela UFF e graduada em Letras (Português-Alemão) pela UFRJ, especializada em Gênero e Sexualidade pela UERJ e atuante na rede estadual de Educação do Rio de Janeiro desde abril de 2008, trabalhando atualmente no sistema prisional do Estado.

Adriana respondeu perguntas cruciais e difíceis no Sistema Prisional nesse tempo de encarceramento em massa e extermínio da população jovem, principalmente preta, no país. O resultado você confere agora.

Cleber: Conte sua estória no sistema.

Adriana: Entrar numa cadeia não é para qualquer um, ainda mais sendo mulher, mas uma coisa que nunca temi foi trabalhar numa instituição como esta. Primeiro pela minha formação em Assistente Social, segundo porque queria muito experimentar uma nova situação de trabalho tão desafiadora. No sistema prisional não trabalho como assistente social, mas sim como professora de português. Já trabalhei no Degase (instituição sócio educativa prisional para jovens de 15 até 17 anos), também já passei por duas cadeias masculinas, Bangu 4, Bangu 9 e atualmente trabalho no Complexo de Bangu.⁠⁠⁠⁠ Durante esse tempo vivi e vivo muitas situações, escuto e convivo diretamente com os presos em regime fechado. Muitas vezes a aula mesmo de língua portuguesa não acontece, mas sim a conversa e a escuta desses jovens e adultos. São muitas histórias e situações. Ver os jovens num sistema prisional é muito doloroso, principalmente os mais novos que estão cumprindo pena no Degase. As histórias de vida desses meninos são de muito abandono afetivo, sem referências de acreditar num futuro qualquer. O que eles vivem desde que nascem é a pobreza, o descaso do governo, a falta de referências e o pior: a desesperança.

Hoje no Rio de Janeiro 2,5 milhões de jovens fora da escola. Onde eles estão?

Boa parte passando pelas cadeias, cumprindo suas penas da pior forma possível e saindo dessas instituições piores do que entraram, isso muitas das vezes, também acontece a reincidência de alguns e outros que acabam voltando para o crime e morrendo nas comunidades ou no asfalto. No Degase esses jovens são jogados nas celas e misturados muitas vezes com facções rivais, o que ocasiona mais conflitos. Esses jovens não tem a chamada visita íntima, são muito jovens sim, mas a maioria já é pai e tem suas namoradas ou esposas. E sabe o que mais impressiona? É a inteligência desses meninos que não foi aproveitada para seguir outros caminhos. Muitos se arrependem de não ter frequentado ou dado a devida importância à escola, porque a necessidade os chamavam para o crime. Além disso há o deslumbramento pelo poder, o poder de segurar uma arma, o poder e o respeito que produzem nas comunidades, principalmente com as meninas, a adrenalina de estar em conflitos com a polícia, de roubar, usar drogas, etc. Isso tudo pelo simples fato desses meninos não serem reconhecidos pela própria sociedade e pelo Estado. Eles estão jogados na margem, não há de fato políticas públicas para manter esses jovens nas escolas, uma vez que muitas vezes a escola não é atrativa, além do preconceito que sofrem dentro das escolas por direções e professores. A violência simbólica que eles vivem nesses espaços faz com que eles desistam e pensem que a vida no crime é melhor, o reconhecimento é melhor. Esses meninos é que deveriam receber maior atenção nas escolas, claro que a mudança parte deles, mas tentar trabalhar de outras formas seria um pouco mais digno e humano para um novo resgate, uma nova esperança de vida e a volta de crer na esperança de um futuro, porque nem isso eles sabem pensar ao certo. Portanto, os meninos que passam pelo Degase, às vezes ficam um mês e são libertos, às vezes voltam, não voltam, ficam um, dois ou três anos que é o limite; enfim, nessa passagem pela escola eles aprendem e começam a entender suas realidades, alguns parecem já perdidos para o crime, poucos acreditam que podem mudar e viver outra vida mais digna. Outros acreditam apenas que a vida deles é curta e que mais cedo ou mais tarde vão morrer mesmo.⁠⁠⁠⁠

Como mudar essa realidade?

Minha luta e de outros profissionais que querem mudar a vida desses meninos ou fazê-los acreditar numa condição de vida melhor apesar de todas as suas dificuldades para viver nessa nossa sociedade. É um caminho difícil, mas não impossível. Dentro desse quadro já tivemos sucesso e isso é muito gratificante. É muito bom sabermos de que alguns voltaram para escola, estão trabalhando, mesmo vendendo balas nos sinais de trânsito, se dedicando mais a família, ouvindo mais seus pais, enfim, nem tudo está perdido quando se trabalha com fé, fé na mudança desses meninos, mesmo apenas dentro das escolas prisionais, único lugar de fato de ressocialização para eles.⁠⁠⁠⁠

É possível haver ressocialização?

O único lugar onde tanto os jovens e adultos podem buscar e entender sobre a ressocialização é dentro das escolas que funcionam dentro dos presídios. Em algumas cadeias não há oficinas de trabalho, não há lazer, não há mais nada além da escola. As parcerias com instituições profissionalizantes não existem em todos os complexos, ou seja, em todas as cadeias. Um dado alarmante e preocupante: muitos que passam pelo Degase, após completar 18 anos já vão direto para as cadeias adultas. No Complexo de Bangu convivo com muitos meninos jovens também, a maioria enquadrados no crime de tráfico de drogas. Em Complexo de Bangu as celas estão superlotadas, não há atividades extras, a assistência á saúde é muito deficiente, faltam remédios, faltam auxílios para os que mais precisam, além do ambiente insalubre que vivem. Nessas cadeias o índice de tuberculose é alarmante, além da contaminação pelo HIV. Dados do Infopen de 2014 indicam que a incidência de contaminação por HIV e tuberculose chega a ser 60 vezes superior á média nacional, e a incidência de mortes intencionais ( suicídios e homicídios), 6 vezes maior . Em consequência da precariedade que se vê é se vive nesses locais houve o fortalecimento de atuações de facções criminosas dentro do próprio presídio. Além disso a qualidade da água é insalubre, há ratos, celas lotadas, truculência dos agentes ( muitos acreditam que não há esperança para os internos e por eles quem está ali não deveria ter direito algum, muito menos a ida a escola). Nós professores também sofremos com piadinhas, preconceito, intimidações e não somos tão “queridos” assim (por alguns agentes) quando cruzamos o corredor da cadeia para irmos à escola. Somos vistos, muitas vezes, com olhares punitivos e desconfiados, mas mesmo assim seguimos na nossa luta e a equipe de professores do Complexo de Bangu é fantástica! Trabalhamos muito, fazemos da escola o melhor lugar para eles. Questionamos, escutamos, falamos na escola de esperança, de amor, de respeito e de mudança e que não desistam de sair dali diferentes. Nosso trabalho em Complexo de Bangu é de resgate. Sabemos que muitos não conseguem pensar em melhorias, mas isso soma-se a falta de outros meios de ressocialização. Fora a escola que resiste a tudo isso, o fato é que há inúmeras provas do fracasso do modelo punitivista adotado a partir do final do século passado, várias propostas vêm sendo feitas e adotadas nos últimos anos para restabelecer o lugar da prisão como último recurso ao combate à criminalidade. Além disso tal política punitiva de encarceramento não foi capaz de trazer mais segurança aos brasileiros, certo? Dados estatísticos demonstraram isso todos os dias. Outro dado importante: 71% dos internos sequer tem o ensino fundamental completo – INFOPEN 2014. E aí recaímos novamente na questão: onde estão os 2,5 milhões de jovens que estão fora das escolas no RJ?

Futuro?

Os problemas do sistema prisional são inúmeros, mas já obtivemos avanços, mesmo que modestos, as preocupações sobre a questão carcerária vêm se centrando justamente no resgate dos direitos e garantias constitucionais dessa população marginalizada, como acesso a oportunidades de educação e trabalho, o desenvolvimento de alternativas e mecanismos de proteção aos acusados contra restrições abusivas á sua liberdade. Será que um dia diante dessas iniciativas teremos um sistema prisional no Brasil digno e de ressocialização de fato? É o que esperamos, é o que espero e que dessa forma a criminalidade venha a se reduzir, mas sobretudo que pensemos no resgate, enquanto há tempo, dentro das escolas regulares, onde existem problemas a serem superados sim, onde a forças contrárias aos restabelecimento de melhores condições de aprendizado dos nossos jovens, mas é nadando contra toda essa maré que podemos reverter um pouco toda essa triste situação que se vive dentro das cadeias, não do do Rio de janeiro, mas do Brasil. Vamos pensar nas futuras gerações para que não tenhamos um país com tantas prisões e poucas escolas.

Sobre Cleber Gonçalves

Cleber Gonçalves é geógrafo, professor no CIEP 172.

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