Mestrado no Enraizados: Apresentando o Rizoma

Uma questão frequente nas universidades é como disponibilizar o conhecimento produzido na academia para a sociedade, em especial para os movimentos sociais frequentemente utilizados como objeto de pesquisa. O conhecimento acadêmico é recheado e embalado com uma linguagem específica que lhe garante o status de portador do Saber na sociedade.

Sempre acreditei que era justo dar o devido retorno àqueles que colaborassem com seus conhecimentos para a realização de minhas pesquisas – nesse caso uma dissertação de mestrado. Desse modo, após concluir o mestrado pela UERJ/FEBF (2011-2013), é mais do que justo disponibilizar o trabalho final neste Portal. No entanto, além da publicação do PDF, farei mais quatro postagens entre janeiro e fevereiro sobre os principais aspectos da pesquisa e os conceitos utilizados para produzir uma leitura – um olhar – sobre o Movimento Enraizados. Uma espécie de papo reto acadêmico em formato de blog. Se esse trabalho estimular novas percepções sobre a ação em rede dos movimentos culturais e sobre as estratégias de transformação social na Baixada Fluminense, terá alcançado seu principal objetivo.

Neste post apresentarei as questões de pesquisa, os conceitos e o caminho teórico e metodológico utilizado para a realização do trabalho acadêmico. Ao longo do texto indicarei as próximas linhas, ganchos e postagens que desdobrarão a dissertação no Portal Enraizados. Vamos lá?

————-

Além de desenvolver os quatro elementos básicos, o movimento hip hop está se apropriando intensamente das novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) e do ambiente interativo proporcionado pela internet. A facilidade de adquirir câmeras digitais, gravadores de voz, computadores, softwares de edição de áudio e de vídeo (entre outros equipamentos) proporcionou que uma parcela considerável do movimento hip hop desse um salto de qualidade na produção de sua arte, assim como maior capacidade de difundir seus conteúdos.

A criação de novas bases para suas músicas, a produção de videoclipes, o desenvolvimento da arte gráfica, a criação de canais no You Tube, no Soundcloud e a difusão de conteúdo pelas redes sociais são alguns resultados gerados pela apropriação das novas TICs pelo movimento hip hop. Também encontramos dezenas de Portais na internet que funcionam como grandes nós promovendo a circulação das informações, o compartilhamento de conhecimento, a promoção do movimento e a articulação entre os militantes. Outra ferramenta importante e utilizada pelo movimento hip hop é a Web Rádio, veículo de difusão do rap, um dos principais elementos da sua cultura.

É sobre os projetos de comunicação e colaboração do Movimento Enraizados, assim como sua capacidade de produzir territórios existenciais na Baixada Fluminense, que nossa pesquisa vai se debruçar com mais atenção. Os projetos selecionados para nossa investigação foram a Banca de Freestyle, o Mixtureba Enraizados, a Escola de Hip Hop Enraizados na Arte e a Rádio Enraizados Web.

A partir desse contexto, o objetivo do trabalho foi investigar a Rede Enraizados, uma organização hip hop da Baixada Fluminense, que articula e interage com parceiros em vários estados e alguns países. Para definir os objetivos da pesquisa e fazer o corte mais adequado sobre o objeto de análise, selecionamos três perguntas para guiar nossa investigação: como foi criada a Rede Enraizados e quais são suas principais características? como o Movimento Enraizados produz territórios existenciais na Baixada Fluminense? como o Movimento Enraizados utiliza a linguagem radiofônica para expressar suas ações em Rede?

Para a análise das questões levantadas, a pesquisa utilizou o referencial teórico de Antonio Negri e Deleuze & Guattari, costurando os conceitos de comum, multidão, rádios livres e ritornelos. Esses conceitos compõem a base teórica-conceitual do trabalho. Os conceitos foram organizados em três platôs que se articulam de forma rizomática com o objeto da pesquisa – O Movimento Enraizados. Os 1° e 2° princípios do rizoma são a conexão e a heterogeneidade: “qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo. É muito diferente da árvore ou da raiz que fixam um ponto, uma ordem” (DELEUZE; GUATTARI, 1995). Os três platôs conceituais são: (1) produção biopolítica Contemporânea; (2) ritornelos, (3) rádios livres, comunitárias e na internet.

Para a análise e compreensão do movimento hip hop e da Rede Enraizados utilizamos também o referencial teórico de Antoni Negri e Deleuze & Guattari, operando um léxico conceitual capaz de dar conta da produção biopolítica contemporânea, das estratégias de resistências emergentes, das suas linhas de fuga e da constituição do comum. Esses conceitos serão apresentados no segundo post.

Nesse contexto, a Multidão se apresenta como uma rede aberta que agrega e valoriza as singularidades através de um agenciamento capaz de produzir linguagens, conhecimentos e afetos que são partilhados em comum. O biopoder (Poder da Vida) é a força que os Enraizados utilizam nos seus projetos de comunicação e de colaboração, distribuindo músicas pela internet, realizando shows, coordenando oficinas e difundindo o conhecimento e a cultura do hip hop pelas favelas e periferias do Brasil.

No terceiro post teremos Deleuze & Guattari com o conceito de ritornelo, um agenciamento territorial composto por intra-agenciamento, componentes de passagem e de fuga. Nesse contexto, cabe compreender como os grupos e coletivos produzem suas marcas territoriais, a cadência do seu tempo, a desterritorialização e territorialização de suas práticas cotidianas. O trabalho inventariou as práticas, as ações e os discursos promovidas pelo Movimento Enraizados na construção do seu ritornelo na Baixada Fluminense.

No quarto post trarei a discussão sobre rádio através das reflexões de Felix Guattari sobre as rádios livres e o processo de ressignificação dos meios de produção de subjetividade pelos movimentos, coletivos e outras autonomias. Também haverá um pouco da história dos movimentos de rádio livres no Brasil na década de 1980, do processo de legalização das rádios comunitárias na década de 1990 e a chegada do rádio na internet, buscando entender as novas possibilidades de transmissão radiofônica na web.

No último post apresentarei as informações coletadas durante o trabalho e dialogaremos com o referencial teórico proposto. Cabe destacar que, durante a pesquisa, o olhar sobre o objeto se deslocou e procuramos ajustar o foco para capturar o fio condutor necessário ao entendimento de uma organização tão complexa quanto a Rede Enraizados. O conceito do ritornelo é a agulha que costura a trajetória do Movimento Enraizados, atravessando Morro Agudo, a internet, a Baixada Fluminense e o Brasil.

Buscamos expor como a produção de linguagens, de conhecimento e de afeto nos projetos do Movimento Enraizados estão diretamente articuladas com um processo de territorialização e desterritorialização da Baixada Fluminense. Ao se debruçar sobre a trajetória do Movimento Enraizados, essa pesquisa buscou encontrar as estratégias de militância cultural capazes de produzir linhas de fugas para os jovens da Baixada Fluminense e de promover um espaço generoso para outras territorializações.

Baixe aqui a dissertação

Sobre Henrique Silveira

em breve...

Além disso, veja

Enraizados inicia o mapeamento #BaixadaViva

Nova Iguaçu ocupa o 3° lugar estado no ranking dos municípios com maior número de …

01 comentário

  1. Isso é muito inspirador. Quero fazer isso com o meu projeto. Parabéns!

Deixe uma resposta para Lu Brasil Cancelar resposta

Paste your AdWords Remarketing code here