A estória das pessoas: Dudu de Morro Agudo

Olá!
Para contar quem é o personagem da estória de hoje, primeiro citarei Muhhamed Yanus, prêmio Nobel em 2006 e que é um cara ligado na utopia de construir um lugar melhor. As palavras de Yanus são as seguintes:

“Uma questão essencial está na ideia de emprego. Quem disse que nascemos para procurar emprego? A escola? Os professores? Os livros? Sua religião? Seus pais? Alguém colocou isso na cabeça das pessoas. O sistema educacional repete: ‘você tem que trabalhar duro’. Seres humanos não nasceram pra isso. O ser humano é cheio de poder criativo, mas o sistema o reduz a mero trabalhador, capaz de fazer trabalhos repetitivos. Isso é vergonhoso, está errado. As pessoas precisam crescer sabendo que é uma opção se tornar empregado, mas que existe a possibilidade de ser empreendedor, seguir o próprio caminho. É arriscado, incerto, há frustrações, mas é bem mais estimulante. Arrumar emprego é o que é seguro, garantido. Mas sua vida será limitada ao que decidirem por você.”

Aprender a questionar é sem dúvida a maior libertação que um homem pode ter em sua vida. A dúvida, a incerteza, expectativa, todas são combustíveis para a criatividade. Outro grande homem, agora da cultura, teve o seguinte questionamento: “Se tudo tem escola, por qual motivo o Samba não tem?”

Essa dúvida fez com que Ismael Silva, em 1928, fundasse a “Deixa falar” que desfilou pela primeira vez no carnaval de 1929, ao observar, segundo alguns contadores de estória, a escola normal no bairro onde morava.

Anos mais tarde surge a primeira escola de Rap. Ela aparece em Morro Agudo e o seu idealizador é a estória de hoje.

Dudu de Morro Agudo
Dudu de Morro Agudo

Flávio Eduardo, “Cabeça” ou simplesmente Dudu de Morro Agudo, é mais do que conhecido aqui no portal, afinal, sem sua lição magnífica de empreendedorismo eu nem estaria escrevendo essa coluna e a nossa vida seria bem menos interessante. Esse cara resolveu seguir os conselhos de um vendedor de picolé em Copacabana, que o esculachou em plena praia, por segundo ele ser um “preto amarelado de escritório”, um cara que não pegava sol, levava esporro do patrão, não via o pôr do sol e não era feliz, só para ter carteira assinada e horário fixo!!

É complicado escrever a estória de um amigo como ele, pois a mesma já foi contada em seu livro “Enraizados: os híbridos glocais”, da coleção Tramas Urbanas, no ano de 2010. Esse cara da periferia, líder desde criança, já teve, como todo jovem brasileiro, exilado, negro e de família com poucos recursos, a necessidade de ter que trabalhar pesado para conseguir dinheiro, já quase foi preso (ele mesmo conta isso hein!), já xingou o patrão, mas teve na arte a força e a qualidade de mobilizar, profissionalizar e entreter milhares de pessoas pelo mundo a fora.

Fora aqueles que suas ideias e projetos, principalmente na Baixada Fluminense, conseguiram salvar de caminhos tortuosos que normalmente são oferecidos a esses jovens.

Hoje, todas as classes sociais, muitos territórios inimagináveis e muitos prêmios foram conquistados. O Enraizados, organização não governamental criada em 1999 como “Movimento Enraizados” dialóga com pessoas de todo o mundo, trocando experiências, produzindo ideias e realizando diversas coisas bacanas.

O Take Back The Mic, uma espécie de “Copa” mundial, coroou seu grupo de rap #CombOIO com o primeiro lugar, conquistado ao custo da mobilização gigantesca na rede mundial de computadores e do talento de Léo da XIII e Marcão Baixada, dois outros caras fenomenais na arte dos “quatro elementos”, e deu uma enorme visibilidade não só a arte, mas também ao bairro que Dudu carrega no nome artistíco, que é Morro Agudo (por sí só resistência, já que Morro Agudo também tem o nome de Comendador Soares, em homenagem ao grande proprietário de terras que no século XIX doou parte de sua área ao Império para a passagem da estrada de ferro que liga Japeri à Central do Brasil, mas que contudo os moradores mais antigos não adotaram, sendo hoje, por isso, adotados os dois nomes pela prefeitura de Nova Iguaçu, município onde se baseia o movimento).

Atualmente Dudu trabalha o #RapLAB, que é “uma metodologia desenvolvida para auxiliar no desenvolvimento cognitivo dos jovens, utilizando o rap como uma ferramenta educacional que permite trabalhar com a inovação tecnológica, a criatividade e a dinamização simultâneamente”, uma forma muito bacana de fazer as pessoas, principalmente os jovens, se unirem em prol da construção de um produto artístico, ainda mais quando utilizado nas escolas, tradicionalmente apoiadas nos princípios tecnicistas onde a hierarquização do aprendizado mata boa parte da criatividade.

Hoje, casado com Fernanda Rocha, outra guerreira fantástica, mais tranquilo e experiente segundo ele, Dudu é um grande exemplo, e uma grande estória que deu certo.

É… aquele vendedor de picolé é um cara que merece muito o nosso respeito!
Sorte de Morro Agudo ter um cara como o Flávio!

E se você leu esse texto é porque gostou da parada!!!!

Sobre Cleber Gonçalves

Cleber Gonçalves é geógrafo, professor no CIEP 172.

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