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Um dia na vida de Mica

Todo dia na vida de Mica é assim. Ele acorda cedo e ainda escuro pega a marmita e segue para o trem rumo a cidade. Ele não pode ir no ônibus de ar condicionado porque o preço da passagem não é acessível ao seu bolso, e o trem lotado acaba sendo a sua solução.

Não sei como é possível para esse homem conviver com essa realidade. São trinta anos de uma migração pendular dura, cansativa e desgastante. Tratado como gado nos vagões abarrotados de pessoas como ele que buscam o sustento diário, Mica sonha com o dia em que a realidade atual seja mudada, mas de onde virá a salvação?

No trem se discute política como algo distante, presente apenas nas campanhas eleitorais onde os candidatos mais famosos ou donos de alguma patente próxima (posto de saúde, de gasolina, professores, médicos, sargentos etc.) cheguem ao seu humilde bairro para prometer e não cumprir suas famigeradas ações sociais. Já prometeram até emprego! Mica sonha com esse dia, um dia em que a vida de gado seja transferida para a vida de sonho, a fábula que ele vê na TV na hora da novela das 8, ou das 9, sei lá.

O que Mica nunca entendia era porque aquele povo não mudava, não causava uma revolução. Contando a quantidade de vagões, normalmente sete por composição, cada uma com umas 150 pessoas dentro, e com intervalos de 15 minutos cada trem, a capacidade revolucionária daquele povo era gigantesca, ele notava que era a maioria dos trabalhadores quem reclamava daquelas viagens diárias regadas a suor, lamurias, contos, baralho, pastores, pregadores e vendedores de um shopping sobre trilhos que se deslocava desde a Central até Japeri. Contou que haviam outros ramais, igualmente cheios, e tentou compreender cada vida dentro daquele espaço, como cada um tinha um pensamento, mas que nunca se concatenavam.

Mica notou a evolução da técnica, há algum tempo o trem não tinha ar condicionado, as pessoas hoje tem uma certa regalia ali. Notou que os jornais foram substituídos pelos celulares, mas ele ainda não possui um, o que o faz diferente de boa parte dos passageiros. Isso foi bom porque ele nunca perdeu o foco na observação. Viu aquela linda menina de trinta anos atrás que viajava com ele. Hoje ela aparenta ter uns 50, ele tem 55, mas ela é bem mais acabada. Talvez a jornada tripla, já que ela sai cedo, prepara a comida do marido e da filha, que aos trinta já é avó, pega o trem, trabalha, e durante a noite ainda arruma tempo para pegar os livros e ir para a humilde escola do bairro, que não tem merenda, tem carteiras depredadas e banheiros pichados, pois a arte do grafite ainda não faz sentido para aqueles alunos.

Eles estão exilados mesmo numa periferia como outra qualquer do país. Aliás eles não tem aula de artes, pois a escola é de difícil acesso, e os professores nela não conseguem chegar. Mica nunca gostou da aula de artes, achava coisa de “viado” num preconceito absurdo que se instalou por lá. Aliás, Mica teve de parar de estudar na quarta série para trabalhar bem cedo, pois a comida era a principal necessidade de sua família e os sete irmãos não podiam esperar, ainda não era época de programas sociais de distribuição de alimentos e renda, como bem sabemos, mas isso era o que fazia mais falta àquele guerreiro, ele sentia falta da escola, sentia que aquilo poderia ter mudado sua vida. Em trinta anos de viagem no trem aquele pensamento jamais se afastara. Poderia ter ganho dinheiro, vida mais folgada, conhecido a Europa, África ou Japão, como via nas aulas de estudos sociais, poderia ter sido médico, pois adorava a aula de ciências, mas o destino o aproximou do trem.

A estória de Mica se confunde com muitas outras, começou quando ele não pôde estudar e num efeito dominó chegou aos dias atuais. Dia desses peguei o trem com ele para ir ao Sarau Catando Contos, confesso que peguei o trem para ver a atualidade pois sou um cientista social, e ele narrou que há trinta anos que passa por esse perrengue. Me pergunto porque aquele trem não muda isso, porque aquele povo sofrido não reage? Será culpa do pastor? Será culpa do padre? Da polícia? Mas isso é algo que ainda tenho muito a aprender. Acho que é falta da escola, mas não vou legislar em causa própria.

Mica me falava muito de Tia Lucília, aquela professora fizera diferença na sua vida o ensinando a ler e a escrever, pena que ela não teve muito tempo para estar com ele, mas mesmo assim, esse homem consegue fazer reflexões no trem, algo fantástico numa sociedade oprimida que só obedece à televisão, num lugar onde pensar é luxo.

Sobre Cleber Gonçalves

Cleber Gonçalves é geógrafo, professor no CIEP 172.

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